"Greetings from Himeros, God of Sexual Desire, son of Aphrodite. Lay back, and feast as this audio guides you through new and exciting positions"
Fugindo da minha própria casa, involuntariamente, mas definitivamente algo necessário pra manter minha sanidade, fui pro bar.
Corri assim que cheguei direto pra pista lotada do bar. Atendendo aos greetings da Lady Gaga.
Dancei uma música atrás da outra. Cantei uma música atrás da outra. O DJ estava no curto período em que ele acerta, acerta, acerta de toda noite. A minha involuntariedade de ir ali para manter minha sanidade funcionou.
A máxima de "se você não está bem, não vá pra boite." continua valendo, porém. Não é ali que você vai fazer tudo mudar.
E esquecer não é mudar.
Os abutres vão bicar a sua carcaça, arrancar pedaços desfiados da sua carne viva. Ou podre.
Eles se identificam ao ver seu estado, pois exalam o mesmo cheiro que você nestas noites. Até mesmo naquele exato momento, exalam. Dependendo da perspicácia que você tiver, trazida pelas experiências passadas com os abutres que já o conhecem.
Como toda noite, o DJ voltou para as músicas que combinam muito mais com ali e aquela parte obscura do Centro da cidade. Hora do álcool no balcão do bar, seguido do do álcool no balcão do bar, e seguido mais uma vez. Eu não tinha tido tempo, afinal, a música até ali estava ótima, ora. "Pra matar a sede". Muita dança, sabe. Fui pro fumódromo.
Eu não fumo. Peguei mais uma bebida, e fui pro fumódromo, paradoxalmente, pra respirar. Fico numa "dança" eterna lá, mudando constantemente de lugar tentando achar os espaços com menos fumaça. Na verdade é também uma oportunidade de pular de grupo em grupo, que são bem heterogêneos, e conversar. Fugir da música na verdade é uma parte boa da noite. Metade do prazer está nessas conversas.
Uma dupla de amigos se aproximou.
Era pra eu ter seguido ficando com um deles, acho, o que eu já conhecia. Como em outras noites, como em outros lugares.
Ele me olha como quem enxerga algo a mais em mim que ele não sabe bem ainda definir. E sempre solta um "Bjorn, Bjorn. Você". Ficamos nisso, não me abro, gosto e aproveito da situação de mistério que acabamos vindo a ter.
Ele saiu pra pegar mais da sua bebida amarga. Seu amigo ficou. Mal o conheço(cia) até então, na verdade. Se não me engano, foi nesta ida ao fumódromo que havíamos sido apresentados. Assim que o primeiro entrou de volta ao bar, o amigo dele investiu de vez. Achei estranho, mas não fiz nada, só deixei.
Estranhamente me sentia sendo observado enquanto tudo isso acontecia, cada movimento, de longe.
Algumas semanas depois, aquele que foi buscar sua bebida amarga entrou em contanto comigo pelo celular. Bateu um longo papo, repetiu o "Bjorn, Bjorn. Você.", e no final disse que queria que eu fizesse com ele o mesmo que eu tinha feito com o amigo dele.
Acho que ficou tudo bem, então.
A música boa voltou. Eu, que já não estava no fumódromo há muito tempo, que estava... hmmmm, em outras partes do bar, corri pra pista lotada do bar. Lotada. A música estava ótima, mas o mar de corpos me extorquia de dançar. Fiquei olhando o telão e tentando mover ao menos os ombros. Nah, desisti. Olhei em volta.
Não havia opção de não de vê-lo.
O cabelo transformado em loiro, de um brilho platinado, que roubava as luzes da pista, as sugava. Um contraste quase que "errado" com a barba extremamente preta. Um colete de couro, preto, que fazia com que o peito dele nada refletisse. Por baixo, uma camisa que não tinha nada a ver com couro, ou colete, se é que algo tem a ver com colete nesse mundo. Uma moda tropical White-Trash de Palm Springs, mas de quem parou no caminho pelo deserto num bar de riders e resolveu que faltava couro.
Mais alto que todos ali, mais alto que eu, parecia que tinha acabado de chegar. Ao menos pra mim, que estava centrado em tentar dançar a música que era acompanhada pelo videoclipe que passava no telão. Corpo na música, olhos no telão. Se o cabelo já o deixava em evidência, somando isso à altura, ele ficava privilegiado. Bom, e a roupa, não ignoremos a roupa - normalmente sou cego pra isso. Nesse ponto da vida já vi de tudo. Inclusive uma festa de Halloween que havia acontecido ali uma semana antes. Acho melhor eu nem começar a descrever. Virei uma espécie de fotógrafo oficial naquela ocasião. Definitivamente vi de tudo. Eu e meu sorriso bobo com músicas. Ele tinha espaço pra mover mais que os ombros. Poderia mover os braços. Mas se mantinha parado. Na pista. Como não notar?
Um duelo começou.
Acho que me demorei olhando pra ele. Ele logo que notou fixou o olhar no meu de forma... desafiadora. Não me intimidei e baixei os olhos, como teria feito há 10 anos. Fixei o olhar nos olhos dele também. O Duelista pareceu gostar daquilo.
Dei um gole na minha bebida, olhar nos olhos dele. Ele deu um gole na bebida dele, olhar nos meus olhos.
Dada a aparente completa incompatibilidade entre aquela pessoa que se apresentava ali e eu, tive um momento de excitação - meu olhar fixo no olhar dele - mas ao mesmo tempo um foi se desvincilhando do mar Dantesco de corpos entre nós dois até ficarmos cara a cara. Respiração quente com respiração quente. Os olhos nunca se desviaram. Eu não queria papo com aquele desafiador. Ergui um pouco meus pés, ele baixou um pouco a cabeça, nos beijamos.
Senti falta do olho no olho que sustentamos até ali e abri os meus. Notei que ele não havia fechado os olhos dele momento algum. Quis manter os meus abertos pra provar alguma coisa, mas pra que provar algo pra ele? Fechei meus olhos novamente. Segui com o beijo.
Quase que imediatamente senti um tapa na minha cara. Um verdadeiro tapa. Meus olhos se abriram em fúria, não parei o beijo, e imediatamente devolvi o tapa. Mesma intensidade.
Virei as costas e voltei pra onde eu estava. A música tinha mudado e agora havia lugar na pista.
No fim da música olhei de novo pra onde ele estava parado. Ele não estava mais lá.
Já amanhecendo, passei pelo jato de ar frio que recebemos ao sair do bar, entreguei minha comanda paga pra recepcionista - "Ah, hoje você manteve a comanda no bolso da frente, muito bem! Mas vou continuar te lembrando toda noite..."
Horas haviam se passado, o Duelista estava do lado de fora do bar sentado numa escadaria que dá de frente pra saída, e também pro fumódromo. Meio Concretista, a escadaria se impõe. Meio Escadaria de Odessa. [Não que ela seja gigantesca como a escadaria da Ucrânia.
Na verdade, pode-se dizer que é pequena, até, pra ganhar mesmo o status de "escadaria".
Só isso já tiraria dela qualquer pretensão de se comparar com a tal Escadaria Richelieu. Pequena definitivamente na comparação. Mas é nela que os abutres se empoleiram no começo de toda noite, observando a fila de pessoas entrar no bar, uma a uma, parando e se identificando com suas carteiras de identidades na porta. Eles, do alto, têm tempo o suficiente para observar - e analisar - longamente cada um. Dá tempo de individualizar cada pessoa que entra, os cheiros de cada um ficar singulares, e podem sentir se vem dali algum cheiro de desespero. Talvez daí, acho, que vem à mim naqueles degraus a sensação opressora da escadaria ucraniana...]
Assim que apareci na porta, enquanto a conversa com a recepcionista acontecia, e ela passava a comanda paga pro segurança, este conferia os carimbos de pagamento, e tirava seus metros de perna que impedem que qualquer um passe sem pagar, o Duelista, sentando nos degraus da escadaria, de pernas abertas e braços apoiados em casa joelho, meio cigarro aceso em uma das mãos, e vários já fumados, pelo chão, no espaço que suas pernas abertas tomavam, olhou diretamente pra mim, expressão séria, eu rindo do cuidado quase maternal da recepcionista. E assim ele ficou. Ficou assim, parado, olhando, olhando, parado, e depois voltou a olhar pro chão, sem dizer nada. Quando o vi, ensaiei um sorriso, mas não coube, se eu tivesse jogado o sorriso pra ele, ele teria caído no meio do caminho, antes de chegar nele.
Voltei ao bar no mesmo dia da semana seguinte. O Duelista estava lá. O mesmo colete de couro preto. Outra camisa à la Palm Spring. Dessa vez não tinha um mar de pessoas na pista. Já cheguei indo na direção dele e beijando. Meus olhos fechados, e não me preocupei de conferir como estavam os dele.
Passamos a noite inteira juntos e nos beijando. Meus olhos sempre fechados. Naquela noite, o duelo estava no beijo. Quanto mais ele me desafiava no beijo, mais eu o desafiava de volta. Eu sei beijar, seu platinado.
Finalmente nos olhamos olhos nos olhos. Senti uma cuspida na cara, vi quase que a tempo que ela viria. Vi o movimento característico da boca dele enquanto nos olhávamos, só poderia ser isso. Tentando desviar esbarrei em quem estava atrás de mim na pista, me desequilibrei e caí de joelhos.
Ajoelhado, olhando pra cima, pra ele, senti o cuspe escorrer vindo de entre meus olhos, o cuspe se deslocou pela cavidade a esquerda do meu nariz, lentamente, até parar no canto da minha boca. Talvez perdendo momentum por causa do meu bigode. Não chegou à minha barba.
Constrangidas, as pessoas próximas na pista, que tinham se assustado com a minha queda, paravam de me olhar. Não conseguiam me olhar nos olhos. O brilho das luzes evidenciavam o cuspe. Eu sentia que outros olhavam pra mim, mas ninguém que eu olhava na cara olhava meu rosto de volta.
Talvez o grito que crescia, dentro de mim, do lado de fora, estava nos meus olhos. Neles certamente ninguém olhava.
Não havia como as pessoas ali não estarem cientes do que estava acontecendo. Mas a música não parou. As conversas não pararam. As danças não pararam.
O grito dentro de mim, maior, e maior, e maior, estava me deixando quase surdo.
O Duelista, do alto, não parava de me olhar fixo nos meus olhos. Seus olhos quase tremiam. E tinham um brilho inquieto como o tilintar que a luz faz ao bater na água.
Na semana seguinte não voltei no bar. Mas na segunda semana voltei.
Já entrei no bar procurando por ele. Mais uma vez o colete preto. Desta vez, nenhuma camisa por baixo, só o colete. Na mão, uma lata de bebida amassada, espremida.
Fui pro bar, não pra pista. Fiquei conversando com conhecidos das várias noites, dos vários anos que já frequentava ali.
Depois de algumas horas, avistei na pista que alguns amigos meus haviam chegado. Estavam bem no fundo dela, dançavam em grupo, formavam uma roda. Fui até eles, foi ótimo vê-los, já fazia algum tempo. A música estava péssima, mas eu estava com eles. Deu tempo da música melhorar, melhorar e piorar de novo. Não fui ao fumódromo, queria ficar ali, junto deles.
Senti uma mão pegar no meu braço por trás e me puxar um pouco pra fora da roda. Era o Duelista. Me olhou nos olhos, meio sem olhar, meio sem ser de forma profunda. Me pediu pra dançar com ele.
Não me lembro de a gente já ter dançado antes. Aceitei, e ele, sem soltar meu braço, foi me puxando pra frente da pista, pro lugar onde a gente costumava passar a noite.
Ele começou a emular alguma espécie de dança, de passos, braços, pernas, desajeitado. Eu tentei acompanhar o movimento sem ter muito como. Ele foi ganhando confiança no que tava fazendo. Demorou algumas músicas para isso acontecer.
Num movimento brusco com os braços, ele me acertou um soco no rosto. Forte. Pela primeira vez algo não calculado da parte dele, não intencional. Foi tudo muito rápido. Senti meu nariz latejando, depois como se estivesse molhado, e finalmente sangrando, viscosamente escorrendo. Olhei ao meu redor e vi meu rosto num espelho perto da pista.
Uma sensação começou a crescer dentro de mim. Algo silencioso. Só dentro. Provavelmente nem minha expressão demostrava aquilo que ainda, ainda, não sei definir o que era. Nem os olhos dessa vez mostravam algo. Mesmo por trás do sangue que aumentava.
Meus amigos viram aquilo. E pessoas que nem sabiam meu nome provavelmente, mas que ainda assim, passaram anos me vendo nas pistas que foram pulando de endereço em endereço na cidade viram aquilo.
No Duelista, parado me olhando, boca entreaberta, era claro um suspense.
Um "E agora?"
Dei meio gole na cerveja ainda na minha mão, a lata encostou no meu bigode pegajoso, na minha barba. O gosto do álcool misturado já, desceu mais espesso na minha garganta. Meus olhos nos olhos dele. Me virei.
Caminhei até a saída. Nem me cobraram, só aceitaram minha comanda, o segurança tirou a perna da frente do caminho, e fui embora andando.
Devo ter demorado mais de uma hora pra chegar em casa, a pé.
Nunca mais voltei lá.
Escrito por Bjorn Nattevagten
postado por Bjorn Nattevagten às 10:20 em 13 de jan. de 2019
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