Na
década de 1980, quando o médico Hal Dietz chegou à Universidade Johns
Hopkins, em Baltimore, Maryland, nos Estados Unidos, ele ficou obcecado
por ajudar as crianças com síndrome de Marfan, uma doença rara e, muitas
vezes, fatal, que pode fazer com que a aorta o grande vaso sanguíneo
que conduz o sangue a partir do coração, se dilate até se romper.
– Nada do que estávamos desenvolvendo parecia fazer diferença na vida delas – disse.
Essas
crianças tão sofridas tinham uma aparência distinta que claramente era
de uma base genética. Elas eram geralmente muito altas e magras, com
longos braços, pernas e dedos. Muitas vezes apresentavam articulações
excepcionalmente flexíveis, pés chatos e dentes que pareciam lotar a
boca.
– Decidi estudar genética com o único objetivo de
identificar o gene que causava a síndrome de Marfan e compreender o
mecanismo relacionado a ela – contou Dietz, que agora é diretor do
Centro William S. Smilow de Pesquisa sobre a Síndrome de Marfan na
Universidade Johns Hopkins.
A jornada levou a descobertas
surpreendentes sobre as causas do problema e a um ensaio clínico prestes
a ser publicado, sobre uma droga que pode ajudar os portadores da
doença.
O trabalho de Dietz também inspirou uma pesquisa que pode
proporcionar a criação de um exame de sangue para detectar a dilatação
da aorta, possivelmente salvando milhares de vidas, mesmo de pessoas que
não têm a síndrome de Marfan.
u Médicos esperam que teste acelere diagnóstico
Todo
ano, 10 mil americanos morrem de ruptura de aorta. O ator John Ritter e
o diplomata Richard C. Holbrooke foram duas das vítimas do problema. A
esperança é de que o teste possibilite que os médicos operem os
pacientes antes de a aorta se romper, ou de que possam rapidamente
identificar uma aorta que se rompeu, de modo que a cirurgia seja
realizada prontamente.
O tempo é fundamental. Todos os pacientes
cuja aorta está prestes a se romper “precisam de tratamento imediato”,
disse Scott A. Lemaire, professor de cirurgia e de fisiologia molecular e
biofísica na Escola Baylor de Medicina, em Houston:
– Quanto
mais tempo demorar o diagnóstico, maior a chance de a aorta se romper
enquanto se tenta descobrir o que está acontecendo.
Losartan
é a droga que foi testada primeiro em ratos e se mostrou também
eficiente em estudo feito com algumas crianças que têm o problema
LENTO E FRUSTRANTE
As
descobertas de Dietz e o ensaio clínico que ele elaborou dividiram em
antes e depois – terror e esperança – o mundo dos pais que souberam
recentemente que seu filho tem a síndrome de Marfan. Daniel Speck, de
Knoxville, Maryland, recebeu o diagnóstico de Marfan há seis anos,
quando tinha oito anos, após seu médico notar uma curvatura na coluna
vertebral e sugerir um teste de escoliose. O exame revelou que a
curvatura era causada pela síndrome.
Naquele momento, Dietz e sua
equipe já tinham finalmente encontrado a mutação genética que causa o
problema. O processo foi lento e frustrante: as máquinas de
sequenciamento hoje usadas para mapear rapidamente o DNA não tinham sido
inventadas. Os pesquisadores tiveram de verificar gene por gene de
grandes regiões do DNA compartilhado por famílias em que um dos membros
era vítima da síndrome.
Mas quando a mutação foi encontrada, em
1990, os pesquisadores se viram em um beco sem saída. Era na
fibrilina-1, uma proteína do tecido conjuntivo, o que sugere que o
tecido não se desenvolvia plenamente porque a replicação molecular não
funcionava. E se isso era verdade, disse Dietz, “nada poderia ser feito
para alterar o curso da doença”.
Foram “dias tristes na pesquisa
sobre a síndrome de Marfan”, afirmou Dietz. Todavia, ele logo começou a
questionar a hipótese da replicação molecular. Ela não explicava algumas
das características mais notáveis da síndrome de Marfan: os ossos
notavelmente longos dos braços das crianças, as pernas e dedos, os olhos
profundamente fixos, voltados para baixo, as maçãs do rosto planas, os
queixos pequenos, a massa muscular muito baixa e a pequena quantidade de
gordura corporal.
Cerca de 10 anos atrás, Dietz e seus colegas
descobriram a explicação em outra proteína, a TGF-beta, ou fator
transformador de crescimento beta, que diz às células como devem se
comportar quanto ao desenvolvimento e é utilizada na reparação de
ferimentos.
A função da proteína depende da fibrilina-1, a
própria proteína que é alterada na síndrome de Marfan. Normalmente, ela
liga a TGF-beta ao tecido conjuntivo. Em um paciente com o problema,
conforme os pesquisadores vieram a descobrir, a fibrilina-1 é
defeituosa, e o processo não se dá adequadamente. Em vez de se anexar ao
tecido conjuntivo, a TGF-beta se afasta dele. Vagando livremente na
corrente sanguínea, ela faz as células se comportarem de forma anormal,
levando a muitos dos problemas causados pela síndrome de Marfan,
incluindo a dilatação excessiva da aorta. Em suma, o modelo baseado na
replicação estava totalmente errado.
– Perceber aquilo foi um dos poucos momentos de revelação que tive na vida – lembrou Dietz.
Ele
testou a teoria em ratos, dando a eles o gene de fibrilina-1
modificado. Os níveis da proteína TGF eram definitivamente muito
elevados. Os ratos apresentaram sintomas da síndrome, incluindo
enfisema, músculos esqueléticos fracos e espessamento da válvula mitral
no coração.
Ao procurar uma forma de bloquear a função da
proteína TGF-beta, ele encontrou uma droga utilizada contra a
hipertensão arterial, o losartan, que faz exatamente isso.
Nos
ratos, a droga inibiu características da síndrome, incluindo a dilatação
da aorta. Em vez de morrerem de aneurisma na aorta aos três meses de
idade, os ratos viveram uma vida normal, de dois anos de duração.
Em
2006, o Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue iniciou um
estudo randomizado baseado no trabalho de Dietz, em que algumas crianças
com a síndrome receberam o medicamento e, outras, o tratamento padrão,
com um bloqueador beta que diminui a frequência cardíaca.
"QUANTO MAIS TEMPO DEMORAR O DIAGNÓSTICO, MAIOR A CHANCE DA AORTA SE ROMPER ENQUANTO SE TENTA DESCOBRIR O QUE ESTÁ ACONTECENDO"
UMA SOLUÇÃO?
Em
uma manhã de 2006, Kari Dostalik de Urbandale, Iowa, cuja filha, Haley,
tem a síndrome, foi a uma palestra de Dietz na conferência anual sobre a
síndrome de Marfan. Ele mostrou um slide de um menino que tinha uma
forma grave da doença e que havia tomado losartan fora do ensaio
clínico. Dostalik havia encontrado a criança com a sua família em uma
conferência anterior.
Antes do tratamento, o menino parecia fraco
e cansado. Depois de ter tomado a droga, contou ela, “ele sorria de
orelha a orelha”.
As boas notícias não paravam por aí: Dietz
disse ao grupo que assim que o menino e outras crianças tomaram a droga,
a dilatação excessiva da aorta cessou. E o losartan mostrou reverter
alguns dos efeitos da doença.
– Quando ouvimos a palavra
“reverter”, nossa reação imediata foi pensar em quando poderíamos
inscrever Haley no ensaio clínico – contou Dostalik.
O estudo
estava apenas começando, e as crianças ficariam nele por três anos. Nem
as famílias nem os médicos saberiam qual droga elas estavam tomando – o
losartan ou o beta-bloqueador.
Os pais de Daniel Speck o levaram
para participar da pesquisa. Eles suspeitam de que ele recebeu o
losartan. A mãe do menino disse que o tratamento trouxe “mudanças
maravilhosas ”. A aorta de Daniel estava “se dilatando
astronomicamente”, disse ela, e essa dilatação desacelerou tanto que
hoje ele não conseguiria se qualificar para participar do estudo se
tentasse.
Quando a participação do menino no ensaio terminou, a
família Speck foi informada de que ele poderia tomar losartan ou o
medicamento mais antigo. Eles não queriam se arriscar, então escolheram
ambas. Daniel, agora com 15 anos, continua bem.
"ESPERANÇA PARA QUEM TEM SÍNDROME DE MARFAN"
Não foi feito nenhum comentário até agora. -