Medicamento promete aumentar em 11% a chance de sobrevida.
O resultado de uma pesquisa comandada por especialistas de diferentes países, entre eles brasileiros, aponta para o que pode vir a ser um grande avanço no combate a um dos tipos mais agressivos de câncer de mama.
Uma droga ainda experimental, batizada de pertuzumabe, aumentou o controle da doença já em fase disseminada, diminuindo em 11% as recidivas e elevando o tempo de sobrevida das mulheres avaliadas. Trata-se de um novo anticorpo que, combinado a outro já utilizado e à quimioterapia, ataca diretamente a proteína responsável pelo crescimento do tumor tipo HER2 positivo.
À medida que a evolução do tumor é bloqueada, as células cancerosas entram em uma espécie de morte programada – ou seja, deixam de se renovar e acabam morrendo (processo conhecido como apoptose). O HER2 representa até 25% dos casos de câncer de mama. O pertuzumabe está no grupo dos chamados remédios inteligentes, desenvolvidos por meio de técnicas modernas de bioinformática, que já existem para o tratamento de certos tipos de câncer ou de infecções, como pelo vírus Influenza.
O estudo, intitulado Cleopatra e apresentado na semana passada, durante um congresso na cidade de San Antonio, no Texas (Estados Unidos), contou com a participação de 808 pacientes em países da América, da Ásia e da Europa. No Brasil, foram 99 mulheres – 22 delas analisadas no Hospital Conceição, em Porto Alegre. Um outro grupo também foi avaliado no Hospital de Clínicas e no Grupo Hospitalar Santa Casa.
Chefe do Serviço de Mama do Conceição e vice-presidente nacional da Sociedade Brasileira de Mastologia, o médico gaúcho José Luiz Pedrini, é um dos coautores da pesquisa. Ele explica que as mulheres participantes foram divididas em dois grupos. O primeiro recebeu tratamento combinado entre quimioterapia (Docetaxel), trastuzumabe (anticorpo já utilizado) e pertuzumabe. O segundo grupo usou quimioterapia e trastuzumabe – que é o tratamento padrão atualmente – e placebo.
As mulheres que receberam as doses de pertuzumabe levaram uma média de 18 meses e meio até que seus tumores piorassem ou que elas morressem. Já as que não receberam a nova droga, tiveram uma média de pouco mais de 12 meses até o agravamento da doença ou a morte.
– Pela primeira vez, em vários anos, se tem uma droga que é muito ativa nesse tipo de tumor de mama. Em termos de doença grave, é a maior notícia nos últimos cinco anos – comemora Pedrini.
O custo do novo medicamento, entretanto, não deve ser baixo. A estimativa é de que o tratamento custe US$ 10 mil por mês. Tampouco há a comprovação de que ele leve à cura da doença. Conforme Pedrini, uma nova pesquisa está sendo feita sobre o uso do novo anticorpo ainda na fase inicial do câncer – os primeiros resultados apontam para desaparecimento do tumor na mama em 45% dos casos, também quando combinados quimioterapia e os dois anticorpos. Ao serem usados somente os dois anticorpos, a doença sofreu remissão completa em 16,8% dos casos, sinalizando no futuro o possível tratamento somente com vacina.
– Esse é o futuro do tratamento do câncer em geral. Estamos chegando ao ponto de tornar uma doença que era mortal em controlável, como aconteceu com a aids – prevê Pedrini.
Segundo o diretor do Instituto do Câncer do Hospital Mãe de Deus e diretor do Centro de Pesquisa em Oncologia do Hospital São Lucas da PUCRS, Carlos Barrios – que também participou do estudo –, a projeção é que até janeiro de 2012 a droga será submetida para aprovação da Anvisa. Pelos cálculos dos especialistas, até 2013, o medicamento já estará disponível nas farmácias brasileiras.
Voluntária de pesquisa festeja o sucesso do tratamento. Viúva e mãe de três filhos, Maria Celina Oliveira Machado, 59 anos, foi diagnosticada com câncer de mama em 2004. A dona de casa, moradora de Sapucaia do Sul, na Região Metropolitana, passou por todo o tratamento convencional oferecido pelo SUS no Hospital Conceição, com radioterapia e quimioterapia.
A doença, entretanto, retornou com força em 2009. A metástase já havia se espalhado pelo braço esquerdo e começavam a surgir gânglios no pescoço quando ela foi convidada a participar da pesquisa. Com dificuldades até para se vestir, Maria Celina aceitou participar do estudo com o novo anticorpo. A data do início do tratamento com a nova droga ela lembra com exatidão: 19 de janeiro de 2010.
– Não tenho mais tumor. Não tenho bem certeza, mas acredito que na quarta tomografia que fiz, em agosto, já tinha sumido – lembra.
No início do mês, quase dois anos após começar a participar do estudo, ela passou pela última sessão de quimioterapia. O tratamento segue, por tempo indeterminado, mas agora apenas com a combinação das vacinas dos dois tipos de anticorpos.
"NOVA PROMESSA CONTRA O CÂNCER DE MAMA"
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