A capacidade cognitiva começa a declinar a partir dos 45 anos. Conheça formas de preservá-la.
Já imaginou passar a vida inteira lembrando daquela fatídica briga com o melhor amigo de infância? Ou da morte daquele adorado bichinho de estimação? E se, de uma hora para a outra, você perdesse a capacidade de armazenar os incontáveis nomes, datas e senhas que devem estar sempre na ponta da língua? A memória é uma autoridade do nosso corpo, e, como todos os outros órgãos, precisa estar saudável. E os especialistas recomendam que se proteja os neurônios da degeneração cada vez mais cedo.
De acordo com a neurocientista do Instituto do Cérebro e professora da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Mirna Portuguez, era comum pensar que o indivíduo deveria se preocupar com o funcionamento do cérebro a partir dos 60 anos, faixa etária em que as pessoas começam a se queixar de esquecimentos e costumam procuram profissionais da saúde da área neurológica.
Entretanto, uma pesquisa publicada em 2011 no British Medical Journal mostra que as capacidades cognitivas do homem começariam a declinar a partir dos 45 anos, muito antes das seis décadas de vida. Os resultados mostraram que o rendimento cognitivo, com exceção do vocabulário, diminui com a idade. Isto ocorre cada vez mais rapidamente na medida que as pessoas envelhecem. Segundo essa pesquisa, em 10 anos, o rendimento de raciocínio caiu 3,6% para os homens de 45 a 49 anos e 9,6% para os de 65 a 70 anos.
– É importante começar cedo a procurar meios de evitar a queda normal do envelhecimento. É bem mais eficaz atuar desde o começo, em particular com medicamentos, atividades que estimulem, que deem prazer e tragam felicidade. Isso pode mudar a trajetória – alerta a neuropsicóloga.
Se quando envelhecemos o declínio das funções cerebrais é natural e inevitável, é importante não confundir envelhecimento normal com doença demencial. Conforme Mirna, os idosos “normais” frequentemente estão mais lentos, distraem-se com mais facilidade, repetem as mesmas coisas, vivem apegados ao passado, são teimosos, inflexíveis, esquecem palavras no meio da conversa e do nome de pessoas, têm mais dificuldades em lembrar o que fizeram recentemente e também ficam mais deprimidos.
– Uma explicação para esse declínio é o desgaste fisiológico natural do cérebro, assim como de todo corpo. É possível minimizar esse declínio cognitivo. Para isso, temos que ter uma reserva cerebral, que pode ser armazenada com atividades intelectuais, interação social, atividades de lazer e resiliência, que é a capacidade do indivíduo de enfrentar as adversidades e conseguir superá-las – explica a especialista.
Essa reserva cerebral mencionada possibilita estimular o funcionamento cerebral, atenuando e retardando os prejuízos cognitivos e tornando, ainda, o cérebro mais resistente aos efeitos de doenças.
Uma das boas notícias é que em todas as etapas da vida, seja na fase adulta ou durante o envelhecimento, a plasticidade cerebral pode ocorrer. Ou seja: o nosso cérebro tem a capacidade de se remodelar.
–A melhor coisa para se ter na cabeça é essa máquina chamada cérebro. Ela é construída para mudar e nos confere a habilidade de fazer coisas amanhã que não podemos fazer hoje e hoje o que não podíamos fazer ontem – afirma o neurocientista Michael Merzenich.
Expandindo o potencial.
O poder de modificar nosso cérebro parece ilimitado. Esta nova convicção surgiu a partir da descoberta das conexões sinápticas (áreas de contato funcional entre os neurônios), que, ao contrário do que se pensava, não são fixas, porém plásticas e modificáveis. Quem não tem indicação para ingerir psicofármacos, ou fazer psicoterapia, pode dar um bom upgrade na sua atividade neural lendo bastante, praticando exercícios físicos, alimentando-se adequadamente, mantendo o bom humor e a motivação em dia.
O neurologista Marino Bianchin lembra que quando há uma patologia em jogo, geralmente esta pode ser tratada com o uso de medicações, tal como o metilfenidato, a tão falada Ritalina. Este fármaco surgiu no fim da década de 1940, e, desde então, consagrou-se como um poderoso estimulante do sistema nervoso central, sendo um dos principais recursos no tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Como aumenta a capacidade de concentração, tira o sono e dá a sensação de ter mais energia, a Ritalina acaba atraindo quem quer aumentar a capacidade mental. Mas é importante que se diga que medicações do gênero não devem ser usadas para esse fim.
– Expandir o potencial humano é um sonho antigo. Já a ideia de aumentar a capacidade do cérebro é um conceito mais recente, pois é igualmente recente o entendimento de que o cérebro é o substrato das nossas faculdades mentais. Considerando as demandas crescentes da nossa vida moderna, é bem fácil entender por que as pessoas desejam uma memória melhor, mais inteligência ou criatividade. E é extremamente conveniente se isso estiver disponível em uma pílula – argumenta o neurologista Marino Bianchin.
– Pessoas saudáveis podem expandir o próprio cérebro sem medicação alguma – conclui o neurologista.
“O cérebro é como um músculo”.[Image]
O argentino Iván Izquierdo é um dos maiores pesquisadores mundiais na área de fisiologia da memória e seus artigos e livros já são parte imprescindível das bibliografias básicas dos trabalhos dedicados ao tema. Nesta entrevista, ele revela que apesar dos avanços na área, não há nada melhor para o cérebro do que devorar livros.
Zero Hora – Qual a grande descoberta sobre a memória nos últimos anos?
Iván Izquierdo – São muitas, principalmente nos últimos 20 anos. Temos conhecido cada vez mais detalhes sobre o mecanismo molecular que leva à formação da memória. Isso também se chama consolidação, porque consolida a informação de diversas procedências da linguagem cerebral na memória, por meio de sinais elétricos e neuroquímicos. Se descobriu, portanto, que comunicação se utiliza, e o que ocorre depois, para a formação da memória e o curso de tempo que leva. Além disso, se estuda hoje que regiões do cérebro participam da extinção, ou seja, a inibição da resposta para que ela não seja usada a qualquer momento. Um exemplo é a memória de medo, que não precisa ser usada toda hora e que serve para ajudar pacientes vítimas de estresse pós-traumático.
ZH – Já é possível, então, apagarmos lembranças desagradáveis? Como é feita essa inibição hoje?Izquierdo – Não seria bom perdê-las, pois é preciso lembrar de um ocorrido para que o sujeito não repita a situação que a levou ao trauma. Mas os psicoterapeutas já utilizam esse recurso há 30 anos para tratar pacientes vítimas de estresse pós-traumático. Em síntese, é empregada uma técnica que faz com que a pessoa não “acione” a memória em determinados momentos. Ela age assim após ser exposta a estímulos e cenas e a situações que lhe produz medo (uma delas é a cognitivo-comportamental).
ZH – Muitas vezes ficamos nervosos quando queremos lembrar de algo e a coisa está na ponta da língua mas não sai. Quando o “branco” é um problema real?
Izquierdo – O branco é devido à ansiedade, que causa liberação de hormônios suprarrenais chamados corticoides. Eles vão circular no sangue e acabam eventualmente no cérebro, inibindo a memória. Pode acontecer com qualquer um, não é patológico. Ou seja, tem que tratar a ansiedade. Entretanto, o “branco” pode representar um problema real, como a doença de Alzheimer, quando o sujeito passa a esquecer o nome do pai, o ofício que atua.
ZH – Mas se eu estou notando que a minha memória pode ser aperfeiçoada, o que é possível fazer?
Izquierdo – Se é patologia, falta memória, existem drogas ótimas, como a Ritalina. Mas quem não tem a doença e quer ter um cérebro saudável, eu recomendo ler. Esse é o melhor exercício que alguém pode fazer com o cérebro. O uso constante da memória a estimula. É como um músculo: quanto mais se usa, melhor funciona. Mas não se deve fazer um uso abusivo da memória. Na hora de dormir, devemos descansar. Cada coisa tem seu momento.
Cultura com lucidez.[Image]
Aos 69 anos, a ginecologista Loreta de Moraes Napp devora livros por prazer – e também por afinidade, já que é casada com o escritor gaúcho Sérgio Napp.
Porém, há outro importante motivo por trás do hábito: ela sabe que o bom desempenho da sua memória depende disto.
– A minha preocupação começou cedo, ao observar que as mulheres que eu atendia se queixavam muito de lapsos de memória após a chegada da menopausa.
Hoje, Loreta recomenda leitura às pacientes como uma poderosa aliada para enfrentar as mudanças que a vida traz.
O que ajuda
> Concentre-se: livre-se das preocupações e preste atenção naquilo que você lê, vê ou ouve.
> Seja curioso: esteja sempre aberto a receber novas informações e saber o porquê das coisas.
> Planeje-se: além de dar sentido à vida, ter objetivos nos motiva a ficar atentos.
> Tenha vida social: ampliar a rede de relacionamentos é um ótimo exercício para o cérebro.
> Compartilhe: falar sobre o que se viveu treina a memória sobre esses fatos.
"CUIDE BEM DA MEMÓRIA"
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