Uma tecnologia que permite a aplicação de medicamentos diretamente na
retina para tratar doenças que podem levar à cegueira, já utilizada com
sucesso nos Estados Unidos, acaba de ganhar uma versão brasileira.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) conseguiram criar esse
tipo de implante, que, por ser biodegradável, é absorvido pelo organismo
após seis meses, tempo suficiente para que o remédio termine de ser
administrado. Com isso, o produto não precisa ser retirado, evitando que
o paciente passe por um segundo processo cirúrgico.
Segundo
Rubens Siqueira, oftalmologista do Serviço de Retina e Vítreo do
Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCFMRP) e um dos envolvidos no
projeto, a característica biodegradável do implante é uma melhora feita
pela equipe brasileira em relação ao método que serviu de inspiração.
–
Quando começamos a pesquisa, existia um sistema não biodegradável
disponível no mercado dos Estados Unidos para tratamento de inflamação
da retina por citomegalovírus em pacientes com Aids. Tivemos, então, a
ideia de usar esse sistema na oftalmologia, com a vantagem de ser
biodegradável – destaca.
Outros benefícios, segundo o médico, são
o tamanho (a prótese brasileira é menor) e a possibilidade de aplicar
diferentes tipos de drogas, o que amplia o número de males a serem
combatidos.
– O implante pode ser usado com diferentes
medicamentos, como antibióticos, corticoides e imunossupressores, que
serão escolhidos de acordo com o tipo de doença da retina – explica
Siqueira. – Atualmente, estamos usando mais o corticóide, adequado para
várias doenças da retina, como uveíte (inflamação no olho), retinopatia
diabética (doença da retina causada pelo diabetes) e oclusões vasculares
da retina. Implante será opção econômica para quem tem doença ocular
Nos
primeiros testes, 10 pacientes receberam, com sucesso, um tratamento
com dexametasona, anti-inflamatório oftálmico muito utilizado. O método
ainda não tem custo definido, mas o pesquisador adianta que um dos
objetivos principais do novo implante é fazer com que o tratamento seja
uma opção econômica para as pessoas que sofrem com as doenças oculares.
–
Um implante similar nos Estados Unidos custa por volta de R$ 2,5 mil.
Obviamente, o nosso, por ser com tecnologia nacional, será mais barato,
com potencial de uso no sistema público – diz.
Está nos planos da
equipe da USP o uso de implantes semelhantes em outros órgãos do corpo e
também para tratamentos veterinários.
MAIS CONFORTO
Para
Andrea Barbosa, oftalmologista e professora assistente do Hospital
Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(Uerj), a nova tecnologia na área chega em uma boa hora.
– Esse
implante é conhecido nos Estados Unidos e tem sido utilizado com
sucesso. Acredito que uma iniciativa como essa poderá nos ajudar a
incorporar essa nova técnica, principalmente com custos mais baratos, já
que esses implantes importados custam muito caro – avalia.
A
médica também acredita que o método vai facilitar a aplicação do
medicamento tanto para os oftalmologistas quanto para os pacientes.
–
Por ser menos trabalhoso, o paciente não vai precisar ir várias vezes
ao consultório, já que o remédio dura seis meses e, depois, não precisa
ser retirado cirurgicamente. Isso diminui os inconvenientes e traz mais
conforto a quem sofre com essas doenças – destaca.
– Outro ponto
interessante é o uso de muitos medicamentos, pois, desse modo, podemos
abranger um número maior de doenças e diversificar os tratamentos de
problemas de visão com uma solução atual e eficaz – conta a
oftalmologista.
Para o médico Rubens Siqueira, depois do término da primeira etapa de testes, existe mais confiança quanto ao implante. PESQUISA
A
novidade foi apresentada durante o Congresso Internacional da Sociedade
Americana de Especialistas em Retina, em Toronto, no Canadá, este ano. A
segunda etapa da pesquisa, prevista para este mês, pretende contar com a
participação de 50 pacientes.
– Nessa primeira etapa, observamos
que o implante é seguro e tem potencial de produzir efeito benéfico. Na
fase seguinte, avaliaremos se é realmente eficaz – detalha Rubens
Siqueira. – Também vamos compará-lo com outras modalidades de tratamento
e determinar sua real vantagem.
POR SER MENOS TRABALHOSO, O PACIENTE NÃO VAI PRECISAR IR VÁRIAS VEZES AO CONSULTÓRIO, JÁ QUE
"REMÉDIO APLICADO DENTRO DO OLHO"
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