Muitos especialistas têm
considerado o açúcar um dos principais culpados por problemas de saúde
globais como obesidade e diabetes. Saiba a função desse alimento no seu
organismo e por que ele pode fazer mal
Parece
novela, mas não é. Com vários mocinhos e vilões, o mundo da alimentação
se assemelha à dramaturgia quando, volta e meia, aponta um responsável
maior pelos problemas de saúde. Na atual temporada, um dos protagonistas
é o açúcar, produto comum na mesa dos brasileiros – segundo dados da
Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008/2009, do IBGE, 61% da população
consome mais do que deveria.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
é enfática em documento divulgado no início de março: chegar a menos de
5% de açúcares livres na ingestão calórica diária seria o ideal, o que
inclui a adição de açúcar refinado, refrigerantes, sucos de caixinha,
doces e outros produtos industrializados, seja pelo fabricante,
cozinheiro ou você mesmo (o consumo seria de cerca de 25g em uma dieta
de 2 mil calorias, ou seja, o equivalente a uma colher e meia de sopa
nivelada de açúcar). A principal preocupação do órgão é a contribuição
do açúcar para o excesso de peso, a obesidade e a mortalidade por
doenças não transmissíveis (como cardiovasculares e diabetes). Somente
em 2012, 38 milhões de pessoas morreram por complicações desse tipo no
mundo.
Na segunda edição do Guia Alimentar para a População
Brasileira, assinado pelo Ministério da Saúde e publicado no fim de
2014, a dica é simples: ao temperar e cozinhar alimentos, o ideal é usar
o açúcar em pequenas quantidades.
– Antigas diretrizes indicavam
reduzir o consumo de gordura. Isso de fato ocorreu nos últimos 30 anos,
mas o risco de obesidade, diabetes e doenças crônicas só aumentou. Por
isso, as atenções se voltaram para o açúcar e os carboidratos – afirma o
endocrinologista e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da
Obesidade e da Síndrome Metabólica, Bruno Halpern.
Não tem pior ou melhor
Movidos
pelo desafio de apontar um culpado entre os alimentos, os irmãos gêmeos
e médicos Alexander e Chris Van Tulleken se submeteram a duas dietas
restritivas. Um cortou totalmente as fontes de açúcar, enquanto o outro
ingeriu uma quantidade mínima de gordura durante um mês. A experiência
foi tema do documentário Sugar v Fat (Açúcar vs Gordura, em tradução
livre), produzido pela BBC e disponível na plataforma sob demanda
Netflix. Ambas as dietas trouxeram prejuízos, apontando para a máxima do
equilíbrio nutricional e a fuga dos alimentos processados.
– Não
tem pior ou melhor entre o açúcar e a gordura. Os dois podem ser
danosos em falta ou excesso – afirma a nutróloga e diretora da
Associação Brasileira de Nutrologia, Elza Daniel de Mello.
Mas a especialista também ressalta a necessidade de redução do açúcar adicionado na alimentação.
– Dá para viver sem o açúcar que adicionamos nos alimentos. Ele não tem benefício para a saúde – diz.
Já o nutricionista funcional e bioquímico Gabriel de Carvalho é mais radical:
–
Elimine tudo que for adicionado. Bebidas doces, sucos adoçados e
sobremesas é melhor deixar de fora da dieta completamente. O açúcar
sempre foi o vilão, muito mais do que a gordura. Ela ainda contém tipos
benéficos para o organismo.
Terrorismo nutricional Sem
demonizar nenhum alimento açucarado, a nutricionista francesa Sophie
Deram, que mora no Brasil e pesquisa temas como transtornos alimentares e
neurociência do comportamento, não aponta culpados. Para ela, cortar
totalmente o açúcar vai além da simples busca pela alimentação saudável a
todo o custo, e pode mexer com fatores psicológicos.
– Não sou a
favor de cortar nada. As dietas da moda e o terrorismo alimentar estão
acabando com o bem-estar das pessoas. Há estudos que mostram que tirar
todo o açúcar aumenta o risco de depressão – alerta Sophie.
Além
do conhecido pó branco para adoçar, o açúcar também pode ser absorvido
pelo corpo por meio de diferentes alimentos. A frutose (frutas, mel,
sucos de fruta), a sacarose (açúcar refinado, mascavo, cristal,
orgânico, cana de açúcar, mel), o amido (requeijão, arroz, farinha de
trigo, batata, mandioca) e a lactose (leite, queijo, manteiga, iogurte,
creme de leite) entram no organismo e são “quebrados” com a ajuda de
enzimas, do fígado e do pâncreas, que produzem insulina. Assim, a
principal substância gerada, a glicose, fornece energia para o corpo – o
combustível do corpo.
Além disso, outro fator importante é a
velocidade com que o organismo incorpora o açúcar. Os carboidratos
simples (açúcares de adição, doces, entre outros) são absorvidos pelo
corpo de forma mais imediata, exigindo altos picos de produção de
insulina, enquanto os carboidratos complexos (pão, massa, cereais, entre
outros) têm um ritmo de processamento dentro do organismo mais lento,
mostrando-se menos nocivos. A descarga de insulina exagerada pode
desencadear diferentes problemas para a saúde, como desenvolvimento de
diabetes.
– Não dá para cortar carboidratos para sempre da dieta,
principalmente os complexos. Eles são necessários para o funcionamento
do organismo – diz a nutróloga Elza Daniel de Mello.
Para Daniel
Magnoni, nutrólogo e cardiologista do Hospital do Coração, em São Paulo,
as pessoas devem ficar atentas na hora de escolher os alimentos que
trazem o açúcar para o corpo.
"OLHO NO AÇUCAR..."
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