A tal da gula 08/03/2014
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Se você acha tão difícil emagrecer, entenda os mecanismos da fome e da saciedade para se dar bem com a balança.
Chega o final de semana e, com ele, a velha desculpa de iniciar a
dieta na segunda-feira. No sábado e no domingo, excessos estão
liberados. Mas eis que começa a semana e, junto à motivação para
emagrecer, a angústia: será que vou conseguir manter a dieta até perder
os quilos indesejados?
A contar pela animação do primeiro dia, sim.
Conforme o tempo passa, vai ficando cada vez mais difícil. Aquele cheiro
de pão recém saído do forno começa a parecer tão irresistível, que logo
a força de vontade cede à tentação.
A eterna luta contra os quilinhos a mais não é nova, e as dietas
rápidas há muito se mostraram ineficazes para ajudar a manter o peso
ideal. Somente no Brasil, mais de 27 milhões de pessoas estão acima do
peso. No esforço para reduzir a epidemia de obesidade no mundo, a
ciência tem se dedicado a descobrir por que é tão difícil emagrecer.
Alguns culpam a preguiça, outros, a gula.
Mas os estudos indicam que os
mecanismos da fome são tão complexos que nenhuma dieta mágica é capaz de
controlá-los. Entender os hormônios que atuam na regulação do apetite e
conhecer melhor o seu corpo ainda é, conforme especialistas, a melhor
forma de fazer as pazes com a balança.
Assim como um carro precisa de combustível para andar, o corpo humano
necessita de energia para funcionar. A analogia pode parecer simples,
mas se pensarmos na complexidade do motor de um veículo, podemos ter uma
ideia da complicada rede de sinalizadores, canais e receptores que
envolvem o mecanismo da fome.
Vários ógãos do corpo avisam o hipotálamo,
região do cérebro onde é regulada a fome e o apetite, se precisamos ou
não de comida.
A identificação da leptina, hormônio secretado pelas
células de gordura, foi um marco na pesquisa da obesidade. Conforme a
endocrinologista Helena Schmid, professora da Faculdade de Medicina da
UFRGS, a quantidade de leptina indica o quanto temos de gordura
acumulada.
Altas concentrações deste hormônio avisam o cérebro que
nossas reservas energéticas estão altas e, assim, sentimos menos fome.
Isso funciona bem para alguns, mas não para todos. Pessoas que estão
acima do peso, na maioria das vezes, apresentam resistência à ação da
leptina, que não é reconhecida pelo cérebro. Logo, comem mais do que
precisam.
Você acaba de almoçar e está se sentindo tão satisfeito que deixa de
lado o resto de feijão e arroz no prato. Mas, lá da cozinha, começa a
vir aquele cheiro de bolo com cobertura de chocolate. Mesmo de barriga
cheia, o desejo pelo doce é tamanho que você não resiste. Enquanto
saboreia a guloseima, experimenta uma forte sensação de felicidade.
Poucos minutos depois do prazer, é invadido pela sensação de ter comido
mais do que deveria.
O que nos leva a comer mesmo sem fome tem sido estudado por
pesquisadores de todo o mundo. Ao que tudo indica, o cérebro é um dos
principais vilões nessa história, já que associa a comida não somente à
fonte de energia, mas também de conforto, alívio do estresse e até de
felicidade.
– O alimento pode ser um refúgio, uma carícia, um vício. A vontade de
comer pode estar associada à “fome emocional”, em que há dificuldade em
identificar e reconhecer estados emocionais, como frustrações,
sentimentos de fracasso, raiva, tristeza, como atenuante da solidão,
entre outros – explica a psicóloga Rosemary Viana, da equipe de cirurgia
bariátrica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Entender a diferença entre a fome e o desejo de comer pode ser o
primeiro passo para manter o peso ideal. Conforme a nutricionista
Mariana Steffen Holderbaum, do Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica
do Hospital São Lucas da PUCRS, existe uma grande diferença entre estas
duas sensações. Enquanto a fome é instintiva e desencadeada pela ação
de hormônios que são estimulados quando o corpo sente falta de
nutriente, o desejo de comer pode ser provocado por diferentes
estímulos, como o olfato e a visão.
– A vontade de comer pode dar-se independentemente da necessidade de
nutrientes do organismo. A busca pelo consumo de açúcar, por exemplo,
ocorre porque ele induz o corpo a produzir serotonina (o hormônio
responsável pela sensação de prazer), o que resulta em uma sensação de
bem-estar temporário, trazendo uma falsa ideia de conforto e satisfação –
complementa a especialista.
Uma forma de identificar o que sentimos quando temos vontade de comer
é pensar em outras comidas. Para saciar a fome, qualquer alimento
serve, inclusive aqueles que não nos apetecem tanto.
Na próxima vez que
você se deparar com aquele cheirinho irresistível de pastel frito, antes
de abocanhar a guloseima, não esqueça de se perguntar: estou realmente
com fome, ou apenas com vontade de comer?
OS CULPADOS
> Nem sempre aquele ronco na barriga é sinal de fome. Mas é o
estômago, sim, quem dá o primeiro alerta da hora de abrir a boca. E quem
vai comandar essa jogada no organismo é o cérebro, mais
especificamente, o hipotálamo
PRIMEIRO AVISO
> Imagine que você acorda atrasado. Aperta o soneca, cai da cama e
pula o desjejum para não se atrasar. O estômago, por estar vazio,
começa a produzir um hormônio chamado grelina
A NECESSIDADE
> A grelina será a responsável por estimular áreas do hipotálamo
que, ao receber a informação de que o estômago está vazio, mandarão o
recado para que células nervosas espalhem a SENSAÇÃO DE FOME, nome da
necessidade fisiológica por alimentos que trarão energia para as funções
vitais do corpo
SEM PRESSA
> Hora do lanche! A distenção gástrica do estômago é o primeiro
sinal de que, pelo menos por enquanto, o órgão está cheio. O sistema
nervoso leva em torno de 20 minutos para entender isso. Coma devagar!
TCHAU, APETITE
> Depois de ingerida, a comida ruma ao intestino. No duodeno, a
presença de proteínas e gorduras estimula a ação da colecistoquinina
(CCK) que, junto à distensão abdominal, é a maior responsável pela
inibição da ingestão alimentar em curto prazo
RECADO ENTENDIDO
> Quando os alimentos chegam ao intestino grosso, os hormônios PYY
e GLP-1 ajudam a reforçar a mensagem de que é hora de fechar a boca
FALHA NA COMUNICAÇÃO?
> Além disso, um hormônio produzido pelas células de gordura
desempenha um papel importante no apetite. Quanto mais alta a
concentração de leptina, mais alta a reserva energética. Nesse caso,
comemos menos. Os mais cheinhos apresentam maior resistência à ação da
leptina e acabam comendo mais
FIM OU RECOMEÇO?
> Os hormônios da saciedade ficam na circulação sanguínea por cerca de três horas. E lá vem a fome. De novo! NÃO SE ENGANE PELO RONCO
Comer a cada três horas ajuda a manter o peso estável. VERDADEIRO
- Conforme a endocrinologista Helena Schmid, comer pequenas porções
de alimentos com baixas calorias a cada três horas faz com que o
alimento seja reconhecido no intestino, e o centro da fome, no
hipotálamo, é inibido antes que o indivíduo coma em excesso.
Sentimos mais fome no inverno. VERDADEIRO
- No inverno, o corpo tem de produzir mais calor para ficar aquecido
e, por isso, necessita buscar fontes extras de energia. Estas serão
supridas por uma maior ingestão calórica, explica a endocrinologista.
Já nascemos com paladar definido. FALSO
- Conforme a nutricionista Mariana Holderbaum, o paladar é bastante
adaptável, e é formado a partir das experiências que temos desde a
infância. Se nos acostumamos a comer saladas e frutas, apreciaremos
estes alimentos mais do que alguém que tem por hábito comer doces e
frituras, por exemplo. Quem quer mudar a forma de se alimentar deve
acostumar aos poucos o paladar ao que é mais saudável. Com o tempo, eles
vão se tornando cada vez mais prazerosos.
Quando o estômago ronca, quer dizer que estamos com fome. FALSO
- O famoso ronco na barriga ocorre quando líquidos e gases se
movimentam no trato intestinal, e isso não necessariamente quer dizer
fome. Estamos acostumados a associá-lo à fome porque quando a pessoa
está em jejum e o organismo percebe que está precisando de alimento, o
estômago começa a produzir um ácido que estimula contrações musculares
do intestino, o que pode provocar ruídos.
Depois de comer, temos de esperar cerca de 20 minutos para ver se ainda estamos com fome.
VERDADEIRO
- Para ocorrer a sensação de saciedade, as células do íleo intestinal
necessitam receber a informação de que quantidades suficientes de
nutrientes estão atingindo as suas bordas. Estas células secretam,
então, um hormônio que informa o hipotálamo que já ingerimos calorias o
suficiente. O alimento demora cerca de 20 minutos para chegar ao íleo.
Pular uma das refeições ajuda a perder peso. FALSO
- Para perder ou manter o peso, especialistas recomendam evitar ao
máximo pular refeições, já que, quando comemos, damos permissão ao corpo
para gastar parte da energia que temos acumulada. Quando ficamos muito
tempo sem comer, o corpo reprograma o metabolismo para funcionar mais
devagar e acumular o máximo de energia possível.
"CONHEÇA O CAMINHO DA FOME"
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