Belo Horizonte, 30/ABR/2014
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A professora Ana Maria Caetano de Faria (E), coordenadora do projeto,
acompanha Natália Pinheiro Rosa, graduanda em biologia, no teste com os
animais.Pesquisa desenvolvida no Instituto de
Ciências Biológicas da UFMG avalia a eficácia da aplicação de bactérias,
fungos e leveduras geneticamente modificados contra Esclerose Múltipla,
colite ulcerativa e outros males inflamatórios.Doenças inflamatórias crônicas, a exemplo de esclerose múltipla, colite
ulcerativa, diabetes, artrite e obesidade, podem ganhar novas terapias
de tratamento. Pesquisa do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estuda a eficácia da
aplicação de probióticos geneticamente modificados – como bactérias,
fungos e leveduras – para combater sintomas dessas e de outras
enfermidades degenerativas. Resultados positivos já foram alçados para
casos de esclerose, doença inflamatória autoimune que destrói a bainha
de mielina – estrutura que recobre as fibras nervosas – e paralisa as
funções do corpo. Do mesmo modo, o estudo já comprovou eficiência no
tratamento da colite ulcerativa, doença inflamatória que afeta o
intestino e provoca perda de peso, cólicas abdominais e dificuldade na
absorção de nutrientes. Os testes com probióticos no
Laboratório de Imunobiologia do ICB são feitos com camundongos e deve
demorar alguns anos para que experimentos sejam feitos com humanos.
Ainda não se sabe de que forma ele será administrado em pessoas, se na
forma de um medicamento ou um simples iogurte, já que a bactéria usada
nos experimentos é da espécie Lactococcus lactis, amplamente usadas em
laticínios.
O processo de patenteamento já foi iniciado. Mas
para qualquer produção em escala industrial é preciso ainda que
laboratórios se interessem pelo estudo, desenvolvam um produto para uso
humano e acompanhem a evolução dos testes. Se hoje houvesse patrocínio,
os testes demorariam cerca de três anos. “O processo é longo e caro. A
UFMG tem a Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT)
que ajuda pesquisadores a fazer patentes e entrar em contato com
laboratórios. Existem consórcios internacionais (conveniados no Brasil
com a Finep, empresa pública ligada ao Ministério de Ciência, Tecnologia
e Inovação) com orçamento para levar a pesquisa para a etapa de teste
clínicos em humanos”, ressalta a professora do Departamento de
Bioquímica e Imunologia do ICB, Ana Maria Caetano Faria, coordenadora da
pesquisa.
Apesar disso, a pesquisa aparece como uma esperança
para quem sofre com os sintomas das doenças inflamatórias crônicas.
Hoje, elas são tratadas com imunossupressores e outras medicações que
têm alto custo ou apresentam efeitos colaterais graves. “Quando tivermos
uma formulação para humanos, queremos testá-la em pacientes com doenças
intestinais crônicas do Hospital das Clínicas, parceiro da UFMG”,
explica a pesquisadora. Ela destaca ainda a importância do estudo diante
do aumento das enfermidades inflamatórias de modo geral. “Essas doenças
cresceram muito nos países emergentes e o Brasil está nesse grupo. A
elevação de casos de diabetes, obesidade ou doenças inflamatórias
intestinais tem relação direta com as mudanças de hábitos alimentares e
de vida”, destaca. A Lactococcus lactis foi escolhida por sua segurança
de uso e pela produção natural de fatores anti-inflamatórios no
organismo. Existem vários micro-organismos não patogênicos presentes na
microbiota do intestino humano, onde há cerca de trilhões de bactérias
de 500 a 1.000 espécies diferentes.
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Para alcançar o efeito desejado na terapia, a bactéria Lactococcus
lactis sofre um pulso eletromagnético, recebe uma carga de material
genético e começa a produzir uma proteína, chamada proteína de choque
térmico, com alto poder anti-inflamatório. O processo é feito por
profissionais do Laboratório de Genética Celular e Molecular do
Departamento de Biologia, que são colaboradores da pesquisa. “Sozinha, a
bactéria não teria o efeito desejado. Por isso ela é manipulada
geneticamente, a ponto de começar a produzir essa proteína de choque
térmico que atua no combate às doenças inflamatórias”, explica o
biólogo, pesquisador e professor de genética do departamento, Anderson
Miyoshi.
Ana Maria Faria explica a atuação da proteína no
organismo. “Normalmente, ela já está presente em todo o corpo, mas em
níveis mais baixos. Mas se apresenta em concentração maior nas situações
de inflamação dos tecidos do corpo e, quando administrada por via oral,
induz mecanismos anti-inflamatórios para pontos específicos onde ela
está presente em altas concentrações”, afirma a cientista, destacando
que, dessa forma, a proteína passa a gerar mecanismos para regular a
inflamação.
Terapia age no foco do problema
Para
entender a atuação prática do probiótico modificado geneticamente,
basta analisar os testes feitos com camundongos que receberam o
antígeno da esclerose múltipla. Com o passar do tempo eles perderam o
movimento do rabo, das patas traseiras e posteriormente das dianteiras,
até parar de andar. A paralisia ocorreu devido a uma inflamação na
bainha de mielina, estrutura do sistema nervoso que permite a condução
rápida de impulsos nervosos e, consequentemente, dos movimentos. Depois
de submetidos a doses da bactéria que produz a proteína de choque
térmico, os animais retomaram os movimentos, já que a substância atua
na desinflamação da bainha. Quando a aplicação do probiótico é feita
antes do surgimento da doença, os sintomas nem mesmo aparecem. Ou seja,
é possível prevenir a enfermidade. Quando já são notados, eles
diminuem consideravelmente”, explica a coordenadora da pesquisa, Ana
Maria Caetano Faria.
A terapia com probióticos se diferencia em
relação aos tratamentos com imunossupressores por agirem no foco da
inflamação. Já os medicamentos melhoram a doença, mas suprimem o
sistema imunológico, o que torna a pessoa mais suscetível a infecções.
Outro obstáculo no uso das drogas para tratamento da esclerose múltipla
é a impossibilidade de se administrar os imunomoduladores e
imunossupressores em situações como gestação, lactação, depressão,
insuficiência cardíaca e hepática.
“Trabalhamos há mais de 20
anos no ICB/UFMG com o intuito de criar alternativas terapêuticas para
doenças inflamatórias crônicas, principalmente as autoimunes, caso da
esclerose múltipla. Essa foi a primeira, mas estamos testando em outras
doenças, como artrite reumatoide – que afeta as articulações – e as
doenças intestinais, como a doença de Crohn e a colite ulcerativa.
Também já comprovamos, em experimentos com infecção por Salmonella, que
o nosso probiótico não causa imunossupressão, pois ele não interfere
na imunidade anti-infecciosa”, acrescenta a cientista.
Em todos
os procedimentos desenvolvidos para esta pesquisa os animais são
anestesiados. O artigo do estudo feito no caso da esclerose múltipla
foi publicado no ano passado, enquanto o estudo da aplicação de
probióticos nos casos de colite deve ir a publicação até o fim deste
semestre. Cientifiquês - Glossário
Probióticos –
micro-organismos vivos (como bactérias, fungos e leveduras) de atuação
funcional benéfica no organismo, têm efeito sobre o equilíbrio
bacteriano intestinal: controle do colesterol e de diarreias e redução
do risco de câncer. Os probióticos podem ser componentes de alimentos
industrializados presentes no mercado, como leites fermentados, iogurte,
ou podem ser encontrados na forma de pó ou cápsulas.
Doenças autoimunes –
doenças em que as pessoas têm uma reatividade imunológica aos
componentes do próprio corpo, gerando inflamações, a exemplo do
diabetes, da artrite reumatoide e da esclerose múltipla. Doenças
inflamatórias crônicas – grupo de doenças inflamatórias de longa duração
que causam lesão dos tecidos e órgãos, podendo ser de origem autoimune
ou não, a exemplo da colite ulcerativa, da doença de Crohn, da
obesidade, da aterosclerose e da esclerose múltipla. Doenças degenerativas
– doenças crônicas que levam a lesões nos tecidos e órgãos e perda de
função, podendo ser inflamatórias ou não, a exemplo da doença de
Alzheimer, da artrose, do glaucoma, da esclerose múltipla.
"UFMG TESTA PROBIÓTICOS PARA O TRATAMENTO DE DOENÇAS CRÔNICAS"
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