21/11/2012
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A biotecnológica portuguesa Technophage desenvolveu um medicamento
inovador, destinado à Artrite Reumatóide, e prepara-se para iniciar os
testes em humanos. Um instituto chinês viu aqui uma boa oportunidade e
quis fazer parte do processo de ensaios clínicos da primeira molécula
biológica made in Portugal, avança a revista Visão.
Sempre que começa a explicar aquilo que faz, Frederico Silva, 37 anos,
pega num papel e numa caneta e põe-se a desenhar. Numa simbologia
simples, constrói células, proteínas e anticorpos. E tudo se torna mais
fácil de entender.
Este jeito para o desenho ser-lhe-á particularmente útil nas duas
semanas que vai passar em Xangai, China, embrenhado no Shangai Institute
of Materia Medica (SIMM) uma instituição estatal de investigação
científica. Em Junho deste ano, a empresa portuguesa Technophage e o
SIMM assinaram, em Lisboa, um protocolo de colaboração inédito. As duas
entidades serão parceiras nos estudos pré-clínicos e clínicos, que agora
se iniciam, de uma nova molécula, descoberta por aquela biotecnológica
portuguesa, e que se destina ao tratamento da artrite reumatóide.
Frederico Silva, licenciado em engenharia biotecnológica e doutorado em
farmácia, é o responsável científico do projecto e esta será apenas uma
das muitas deslocações que terá de fazer a Xangai, nos próximos sete ou
oito anos, para acompanhar a produção do medicamento e o teste em
doentes. Sem avançar muitos pormenores sobre o protocolo, Miguel Garcia,
44 anos, CEO da Technophage, sublinha: "O SIMM acredita nas
potencialidades da molécula e, por isso, tem todo o interesse em
realizar os ensaios clínicos necessários à colocação do medicamento no
mercado chinês." A ideia para a colaboração partiu de Lisboa, mas o
envolvimento da prestigiada instituição chinesa, onde já foram
desenvolvidos medicamentos contra a malária ou para problemas de
memória, representa um importante voto de confiança nos dez
investigadores, altamente qualificados, da Technophage, empresa sediada
no Instituto de Medicina Molecular.
"Neste sector é preciso atrair financiamento e a nível mundial. E o
SIMM é o parceiro ideal: grande e eficiente. Queremos o mercado chinês e
a nossa expectativa é chegar até à fase de comercialização do
medicamento", continua Miguel Garcia, que se afirma defensor de um
modelo de negócio sustentado neste tipo de parcerias, bem como no
financiamento através de projectos europeus, em detrimento dos
investimentos de capital de risco.
Todo este entusiasmo explica-se com o facto de a molécula desenvolvida
pela Technophage, a TA 101, representar uma promessa no tratamento de
patologias tão incapacitantes como a artrite reumatóide ou a doença de
Chron. Pertencente à classe dos anticorpos de pequenos domínios, a TA
101 cabe na categoria das terapias biológicas baseadas nas
potencialidades do organismo para combater determinadas doenças. "Só
três empresas, em todo o mundo, trabalham neste tipo de anticorpos ",
sublinha Frederico Silva. Mais eficaz, mais barato Em metade de uma folha A4, Frederico Silva resume a relação entre a TA
101 e a proteína TNF uma molécula da categoria das citoquinas, que
existe no nosso organismo, à volta das células, e que serve de mediadora
da comunicação que as envolve.
Quando o nível de TNF sobe acima dos valores normais, inicia-se um
processo inflamatório, como é o caso da artrite reumatóide. Ora, a nossa
TA 101 tem uma excelente afinidade com aquela proteína, ligando-se a
ela e suavizando a resposta inflamatória. Uma vez que a artrite
reumatóide é uma doença crónica, será necessário aplicar uma injecção
mensal do medicamento para manter os níveis de TNF controlados.
O trabalho da equipa da Technophage começou em 2007, ano que representa
um marco para os cerca de 40 mil portugueses mergulhados em dor por
causa da artrite reumatóide. Ao cabo de meses de luta e de uma forte
campanha de sensibilização promovida pelas associações de doentes, era
finalmente aprovada a introdução das terapias biológicas para o
tratamento daquela patologia auto-imune, em que o sistema imunitário
ataca tecidos do próprio corpo. Com menos efeitos secundários e
aparecendo como tratamento de segunda linha, quando os de primeira
deixam de obter resultados, os medicamentos biológicos ajudam a
controlar a inflamação, o inchaço e a rigidez nas articulações sobretudo
das mãos e dos pulsos, que massacram os doentes, normalmente jovens e
em idade activa. Mas a guerra não acaba aqui. Estudos recentes mostram
que a incidência desta doença tem vindo a aumentar, principalmente entre
as mulheres ( julga-se que por questões hormonais, estilo de vida e
falta de vitamina D). E nem todos os doentes reagem como o esperado à
terapêutica disponível. São urgentes outras opções, de preferência mais
baratas um mês de terapia biológica custa cerca de mil euros. E o novo
anticorpo TA 101 promete responder a mais do que um requisito: tem
custos de produção potencialmente inferiores, apresentará menores
efeitos secundários e nele vislumbrasse uma grande capacidade de
penetração nos tecidos.
Embalados pela aprovação das terapias biológicas e pelos resultados
animadores de experiências com anticorpos de pequeno domínio, os
investigadores da Technophage começaram, há cinco anos, a desenvolver a
sua própria molécula.
Tudo se iniciou com uma comunidade de coelhos brancos, mantidos num
ambiente completamente esterilizado de um biotério, na Faculdade de
Medicina Veterinária. Nestes animais, injecta-se uma boa dose da
proteína TNF. Nos coelhos, a TNF inoculada vai como que simular a
doença, provocando uma resposta imunitária, de defesa. Os animais
começam, então, a produzir anticorpos, para contrariar o seu efeito. Ao
fim de dois meses, extrai-se o baço e a medula órgãos-chave do sistema
imunitário, para colheita dos anticorpos, que estão a ser produzidos em
ritmo acelerado. No laboratório, estas moléculas são humanizadas, o que
quer dizer que se tornam idênticas às produzidas pelo nosso organismo,
conta a Visão.
Aí, entra em acção um robô, alojado numa das salas do segundo andar do
Instituto de Medicina Molecular. "Foi o nosso maior investimento", diz
Miguel Garcia, sem revelar, no entanto, o valor do equipamento que
representa uma enorme poupança de tempo. Na máquina, entram dezenas de
anticorpos diferentes, distribuídos por pequenas cavidades de uma placa
de plástico. Em cada uma das cavidades, o robô injecta uma dose de TNF.
Se houver ligação entre o anticorpo e a proteína inflamatória, surge uma
coloração verde fluorescente e temos um bom candidato a medicamento. Se
nada acontecer, o anticorpo não serve. No final do processo, o robô,
capaz de analisar 4 mil moléculas numa semana, apresenta uma série de
bons candidatos e, depois, cabe aos cientistas verificar qual o melhor
dos melhores. O eleito é então produzido em larga escala por uma fábrica
de bactérias, geneticamente modificadas para libertarem a TA 101 num
processo semelhante à síntese de insulina. Primeiro a China, depois o planeta A produção, deste modo descrita, parece trivial. Mas cada uma das fases
do processo está sujeita a um rigoroso escrutínio, muitas verificações
de segurança, e também de protecção. Por exemplo, a metodologia de
utilização de coelhos para a extracção de anticorpos está patenteada,
assim como a própria TA 101.
Depois dos cinco anos de trabalho em laboratório e de testes em
animais, é altura de ver o que a molécula de facto vale enquanto
tratamento. Só lá para 2020, quando tiverem sido concluídas as três
fases de ensaios clínicos em humanos, é que o produto poderá chegar ao
mercado.
"Na China, acompanharemos o processo até ao fim. Seguiremos quer a produção quer os testes médicos", revela Miguel Garcia.
Paralelamente ao mercado asiático, a empresa portuguesa pretende
entrar, também, no europeu. Para isso, já foi submetido um pedido de
autorização, com vista ao início dos ensaios clínicos na Europa, ou CTA
(Clinical Trials Application). "Portugal tem muito boas condições para a descoberta de novos produtos” Há investigação de qualidade nas universidades", diz à Visão Miguel
Garcia. Mas uma parte significativa do trabalho de desenvolvimento de um
novo produto biotecnológico passa pela subcontratação externa, como os
advogados de patentes, que são americanos. É pouco provável que a TA 101
venha a ser comercializada em Portugal, ou noutro qualquer país
europeu, com a marca da Technophage.
"O caminho é vender a uma grande farmacêutica, quando chegarmos à fase II dos ensaios clínicos", admite Miguel Garcia.
Além de se apresentar como uma promessa no tratamento da artrite
reumatóide, a TA 101 é, igualmente, uma boa candidata ao alívio de
outras doenças inflamatórias. Na forja, a empresa portuguesa tem outras
moléculas inovadoras para o tratamento da osteoporose e da doença de
Parkinson, ou para a eliminação de bactérias resistentes. Mas, sobre
isto, Miguel Garcia pouco avança. O segredo, sabe-se, é a alma do
negócio. FONTE:http://www.rcmpharma.com/actualidade/id/21-11-12/molecula-made-portugal-contra-artrite-reumatoide
postado por André Ponce da Silva às 12:20 em 21 de nov. de 2012
"MOLÉCULA "MADE IN" PORTUGAL CONTRA A ARTRITE REUMATÓIDE"
2 Comentários -
Sempre colocando matérias úteis e interessantes, parabéns pelo blog amgo
22 de novembro de 2012 às 10:24
(y) Valeu Adriana!!
22 de novembro de 2012 às 10:27