Alternativas perigosas 30/03/2013 [Image] Uso de remédios para emagrecer tem restrições.Consumo gera discussões que transitam entre a ética médica e a obsessão pelo emagrecimento a qualquer custo.
O desejo de perder peso em pouco tempo e, de preferência, com o
mínimo de esforço, pode custar sérios danos à saúde e até levar à morte.
Há quem ignore os riscos, mas há quem assuma conscientemente todos os
perigos em nome do emagrecimento rápido.
Na internet, não faltam ofertas de dietas milagrosas e até remédios
proibidos que podem ser facilmente encomendados. Gotas de HCG, sigla em
inglês para gonadotrofina coriônica humana, hormônio produzido por
mulheres grávidas, por exemplo, são oferecidas por preços entre R$ 87 e
R$ 225, prometendo eliminar até dois quilos por dia. No rótulo do
produto, escrito em inglês, uma mensagem alerta que o medicamento ainda
não foi avaliado pela Food and Drug Administration (FDA), órgão do
governo dos EUA que controla remédios e alimentos, equivalente à Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Apesar das restrições científicas e legais, a mesma substância é
usada com objetivo idêntico em consultórios médicos na forma injetável. É
aí que a discussão passa da obsessão pela perda de peso a qualquer
custo para a ética médica.
— Indicar remédio não aprovado para esse fim é uma infração ética e
técnica de quem prescreve. É um uso ilegal, uma irresponsabilidade — diz
o médico Cláudio Mottin, diretor do Centro de Obesidade e Síndrome
Metabólica do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul (PUCRS).
Não existe "milagre"
Na avaliação do médico, o uso de remédios para emagrecer tem
restrições até se forem regulamentados, caso da sibutramina, que teve a
licença mantida em 2011, enquanto outros emagrecedores foram retirados
do mercado pela Anvisa. Primeiramente, porque é preciso diferenciar a
necessidade clínica do medicamento, no caso de obesidade em nível grave e
quando já se esgotaram as alternativas convencionais, da mera
insatisfação com os "quilinhos a mais". Mottin enfatiza:
— O remédio representa apenas 20% do resultado. Para perder peso, é
preciso manter o tripé reeducação alimentar, atividade física adequada e
mudança de estilo de vida. Não existe milagre.
Nos Estados Unidos, há registros de embolia pulmonar em mulheres que
usaram HCG para emagrecer. Na semana passada, a Polícia Civil gaúcha
passou a investigar a possibilidade de que a mesma substância possa ter
contribuído para a morte da secretária estadual de Políticas para as
Mulheres, Márcia Santana, 35 anos, encontrada morta no banheiro de sua
casa no dia 13.
Inclusive no tratamento de fertilidade, há restrições ao uso de HCG
em pessoas com doenças cardíacas, renais, hepáticas, epilepsia, asma e
antecedentes de câncer, pelo que se lê na bula do remédio. O
ginecologista Marcos Höher, especialista em medicina reprodutiva,
reitera que, diferente da dieta, em que são feitas três aplicações
diárias durante 26 dias, no tratamento de fertilização o HCG é aplicado
em dose única e em quantidade comprovadamente segura. Quanto ao suposto
efeito na perda de peso, o alerta às pacientes é justamente o contrário.
— Em geral, os hormônios retêm líquidos e, por reterem líquidos, podem gerar um discreto aumento de peso — explica Höher.
Faltam evidências científicas
Além do HCG, também o Victoza, aprovado para diabetes, vem sendo
utilizado para perda de peso, embora esse uso ainda esteja em fase de
estudos clínicos. É o chamado off-label, quando um medicamento é
administrado de maneira diferente do que consta na bula, tanto em
dosagem quanto em intervalo ou doença a ser tratada.
Os riscos dessa utilização englobam o surgimento de reações adversas
não previstas ou não relacionadas anteriormente ao medicamento, conforme
a farmacêutica Clarissa Ruaro Xavier, que atua no Centro de Informações
sobre Medicamentos do Rio Grande do Sul.
— Se não é aprovado, é porque não existem ensaios clínicos que
comprovem a sua eficácia e segurança para tal utilização — reforça.
É o caso do HCG para emagrecer. A endocrinologista do Centro de
Obesidade da PUCRS Jacqueline Rizzolli comenta que estudos feitos com o
uso do hormônio e dietas com menor restrição calórica não comprovaram
nenhuma eficácia. Ou seja: o que emagrece é a dieta e não o medicamento.
Porém, só as 500 calorias já representariam sério risco à saúde.
— É preciso desconfiar de tratamentos que prometem uma redução de
peso superior a 500 gramas por semana. Dieta com menos de 800 calorias
só pode ser feita em casos muito indicados e com rigoroso acompanhamento
médico, pois pode causar arritmia, desequilíbrio hidroeletrolítico,
cetose e acidose metabólica, podendo levar à parada cardíaca — enumera.
Outra ressalva feita pelo endocrinologista Rogério Friedman,
professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é quanto à
oferta do HCG na forma de cápsulas:
— Nas indicações formais para fertilidade, o uso é injetável. Muitos
hormônios, ao serem ingeridos, são degradados e se tornam inócuos.
Cardiologistas costumam ser reticentes tanto com emagrecedores quanto
com hormônios, por conta dos possíveis efeitos adversos ao sistema
cardiovascular.
— O HCG, diferente do estrogênio, usado em terapias de reposição
hormonal, não tem risco cardiovascular comprovadamente associado, mas
aparentemente não funciona para emagrecer — cardiologista Daniel Souto
Silveira, diretor de Comunicação da Sociedade de Cardiologia do Rio
Grande do Sul.
Como o HCG age no organismo
— O HCG (Gonadotrofina Coriônica Humana) é um hormônio produzido naturalmente no organismo feminino durante a gestação.
— Ele se forma nas células da placenta de sete a 10 dias após a
ovulação e penetra no endométrio. Nos tratamentos de fertilidade, o HCG é
injetado, por via subcutânea, para estimular a ovulação.
— O protocolo proposto pelo médico britânico Albert T. W. Simeons, em
1954, sugere que o HCG "engana" o cérebro, fazendo-o acreditar que a
mulher está grávida. Com isso, o hipotálamo ordena que a gordura
armazenada no corpo seja queimada. No caso de uma gravidez real, essa
gordura nutriria o bebê.
— Como o uso do HCG para emagrecer é associado a uma dieta muito
restritiva, o organismo queimaria maior quantidade dessa gordura
acumulada para gerar energia, o que levaria à perda de peso.
— Entre os efeitos colaterais mais graves da dieta com menos de 800
calorias estão a arritmia cardíaca e a acidose metabólica (excesso de
ácido no sangue), que pode levar à parada cardíaca.
Fontes: ginecologista Marcos Höher e endocrinologista Jacqueline Rizzolli
Farmácia do emagrecimento
HCG
— Indicado para o tratamento da fertilidade — Não recomendado para tratamento da obesidade
Não há evidências científicas que validem o uso do HCG para
emagrecimento, nem aprovação pela Anvisa nem por agências reguladoras da
Europa e dos Estados Unidos. O hormônio tem uso permitido para
tratamentos de fertilização. A dieta do HCG foi proposta pela primeira
vez em 1954, pelo médico britânico W. Simeons, e voltou a ser difundida
em 2007, com a publicação do livro HCG weight loss cure guide: a
supplemental guide to Dr. Simeon's HCG protocol. Clínicas médicas de Los
Angeles passaram a oferecer o tratamento e kits de injeções passaram a
ser vendidos ao custo de US$ 1 mil para serem aplicadas em casa. Em
2011, a moda pegou no Brasil, com adesão de celebridades e reportagens
em revistas femininas.
Victoza
— Indicado para tratamento do diabetes tipo 3 — Não recomendado para tratamento da obesidade
O remédio, que é injetável, é aprovado para o tratamento de diabetes.
Como foi identificada perda de peso entre os pacientes diabéticos, ele
passou a ser utilizado para perda de peso, embora esse uso não esteja
regulamentado e estudos clínicos ainda estejam em andamento. O
fabricante do Victoza afirma apenas que o remédio é usado para tratar
diabetes mellitus do tipo 2 quando dieta e exercícios sozinhos não são
suficientes para o controle da glicemia. Não há referência, na bula, à
perda de peso.
Topiramato
— Indicado para tratamento da epilepsia e enxaqueca — Não recomendado para tratamento da obesidade
Associada a fentermina, um tipo de anfetamina, o topiramato se
mostrou útil no combate à compulsão alimentar em estudos produzidos nos
Estados Unidos, mas a FDA requisitou mais pesquisas para aprovar o uso
comercial da combinação. No Brasil, o medicamento tem liberação para
tratar epilepsia e enxaqueca. Como as anfetaminas estão proibidas no
país, o uso combinado da medicação ficaria impedido.
Sibutramina
— Indicado para tratamento da obesidade — Não recomendado para uso por cardíacos
Atualmente, o medicamento aceito pela Anvisa para o tratamento da
obesidade é a sibutramina. Chegou a se criar a expectativa de que o
remédio tivesse o registro suspenso, a exemplo do que ocorreu em outubro
de 2011 com a anfepramona, o femproporex e o mazindol, inibidores de
apetite. Na ocasião, o uso da sibutramina foi restringido e a Anvisa deu
início a um estudo, cujo relatório deve ser votado na próxima semana
pela diretoria. O presidente da agência, Dirceu Barbano, já adiantou que
o registro deve ser mantido.
Orlistat
— Indicado para tratamento da obesidade — Não recomendado para mulheres amamentando ou pessoas com histórico de problemas cardíacos Vendido com o nome comercial Xenical, o orlistat também é permitido
pela Anvisa. De acordo com a bula do remédio, ele é indicado para o
tratamento a longo prazo dos pacientes com excesso de peso e para
obesos, em conjunto com uma dieta levemente hipocalórica. O medicamento
atua no intestino, com efeito na absorção de gordura.
"O RISCO DO USO DE MEDICAMENTOS APROVADOS PARA OUTROS FINS PELA PERDA DE PESO"
Não foi feito nenhum comentário até agora. -