Pesquisa 06/12/2013
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Dislexia afeta 10% da população mundial. Descoberta indica caminhos de novo tratamento para transtorno neurológico.
A dislexia, uma dificuldade para ler e compreender, seria resultado
de uma má conectividade entre duas regiões do cérebro, revelou nesta
quinta-feira uma pesquisa que lança nova luz à origem deste transtorno
neurológico que afeta 10% da população mundial.
Durante várias décadas, neurologistas e psicólogos atribuíram este
problema de aprendizagem a uma representação mental defeituosa das
palavras, inclusive fonemas, elementos sonoros característicos da
língua, segundo Bart Boets, autor principal do estudo publicado na
revista americana Science. Para confirmar esta hipótese, os cientistas
examinaram com uma ressonância magnética (RM) 45 estudantes de 19 a 32
anos, 23 dos quais eram severamente disléxicos, para obter imagens
tridimensionais do seu cérebro quando escutavam diferentes séries de
sons.
— Assim foi possível obter um bom registro neuronal de representações
fonéticas dos sons escutados — explicou Boets, psicólogo da
Universidade Católia de Lovaine, na Bélgica.
Os participantes escutaram uma série de sons diferentes como
"ba-ba-ba-ba" e deviam identificar o que era diferente, um exercício
que, segundo os cientistas, requer uma boa representação mental dos
diferentes fonemas. Os cientistas descobriram que as respostas do grupo
de disléxicos e a intensidade de suas reações neuronais foram similares
aos do grupo de controle.
— Suas representações fonéticas mentais estavam perfeitamente intactas — disse Boets.
Mas os participantes disléxicos foram aproximadamente 50% mais lentos para responder, segundo os cientistas.
Acesso defeituoso à região cerebral dedicada à linguagem
Quando analisaram a atividade geral do cérebro, os autores do estudo
descobriram que os disléxicos tinham uma coordenação menor entre treze
regiões do cérebro que têm a ver com os sons básicos e a área de broca,
uma das principais responsáveis ao processamento da linguagem.
Outras análises revelaram que quanto mais frágil a coordenação entre
estas duas regiões cerebrais, mais lenta a resposta dos participantes.
Isso demonstra que a causa da dislexia não é uma má representação mental
dos fonemas, mas um acesso defeituoso destes sons na região do cérebro
que processa o som, concluíram os autores.
Para Frank Ramus, cientista especialista neste tema na École Normale
Supérieure de Paris, que não participou deste estudo, "esta é a pesquisa
mais conclusiva em cinco anos" sobre a dislexia. "Se estes resultados
se confirmarem vão mudar completamente nossa compreensão da dislexia",
disse em um artigo à parte, publicado na Science.
No entanto, outros especialistas se mostram mais céticos. Michael
Merzenich, neurologista da Universidade da Califórnia em San Francisco
(oeste dos EUA), disse não estar convencido de que a atividade neuronal
medida no estudo seja representativa dos diferentes fonemas ouvidos.
Para Iris Berent, linguista da Universidade Northeastern em Illinois
(norte dos EUA), também citada em um artigo da revista Science, as
diferenças nos sons usados neste estudo foram muito óbvias.
Um método mais preciso seria provar contrastes mais sutis entre os
sons ambíguos com os quais os disléxicos têm a maior dificuldade, disse,
em desacordo com Boets e Ramus. Mas, segundo Ramus, "a RM teria
mostrado se os disléxicos tinham uma representação defeituosa" dos
fonemas escutados, inclusive se não tivesse diferenças mais sutis entre
eles.
Boets já vislumbra um novo tratamento potencial para restaurar a
conectividade normal entre as duas regiões do cérebro, que são
aparentemente a causa da dislexia.
— Não é inconcebível usar algum tipo de estimulação elétrica não
invasiva do cérebro para restaurar a comunicação entre estas duas
regiões do cérebro — disse o pesquisador.
"DISLEXIA É CAUSADA POR RUÍDO NA CONECTIVIDADE CEREBRAL, APONTE ESTUDO"
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