tag:blogger.com,1999:blog-9894999.post-62338261323781733342007-07-30T13:17:00.001-03:002007-07-30T13:44:03.579-03:00Os japoneses são frios? — III: As boas maneiras.<p>Uma das coisas que, na época que eu cheguei no Japão, causava-me certa aversão são os bons modos dos japoneses. Pode parecer estranho dizer isso, mas acredito que qualquer brasileiro entenderia exatamente o que eu quero dizer se eu colocar assim: os japoneses são educados demais.</p> <div class='fullpost'> <p>Eu uso a palavra “educação” aqui no sentido de “boas maneiras” ou de “cuidados com a etiqueta”. É o sentido ao qual se refere a palavra <em>reigi</em> (礼儀) em japonês. As boas maneiras geralmente são vistas como virtudes, mas, na nossa cultura, há o que podemos chamar de “educação excessiva”. Ou seja, é bom que se seja educado, mas não demais. Se passar de um certo limite, o sujeito começa a ser visto como bajulador, esnobe, fresco, ou simplesmente passa a impressão de que quer manter uma certa distância, o que também não é admissível entre os brasileiros. Foi isso que não me agradou com relação aos japoneses: eu pensava que eles queriam manter distância de mim. Eu me sentia de certa forma excluído porque os meus colegas da universidade não utilizavam a mesma linguagem que eu ouvia eles falavam entre eles.</p> <p>Para explicar melhor, primeiro eu tenho que falar um pouco sobre a língua japonesa. A gramática do japonês é bem mais simples do que a do português. Não há plural, nem gênero e poucas flexões verbais — ao passao que em português temos 5 tempos e 3 modos, a língua japonesa só tem dois tempos: presente e passado. Por outro lado, há inúmeras formas que são usadas para expressar respeito ao interlocutor ou modéstia do falante. Por exemplo, o verbo auxiliar <em>suru</em> pode se tornar <em>shimasu</em>, <em>itashimasu</em>, <em>saseteitadakimasu</em>, <em>saremasu</em>, podendo também ser substituído por <em>nasaimasu</em>, dependendo de com quem e o que estamos falando.</p> <p>Um dia, quando eu estava me arrumando para voltar para casa da universidade, um colega perguntou: “<em>o-kaeri desu ka?</em>” (o senhor vai embora?). Nesse dia, eu me irritei um pouco e tive que dizer para não falar assim comigo. Acontece que existem basicamente — digo <em>basicamente</em> porque existem mais — 4 maneiras de se perguntar se alguém vai embora: <em>kaeru?</em>, <em>kaerimasu ka?</em>, <em>o-kaeri desu ka?</em> e <em>kaeraremasu ka?</em>, indo nessa ordem do menos educado para o mais educado. Ou seja, ele usou a segunda forma mais educada para falar comigo, um simples colega de aula, que, ao meu ver, deveria ser tratado como igual, usando a primeira forma.</p> <p>O fato é que eu sou 3 anos mais velho do que ele e, na ocasião, ele estava no primeiro ano do Mestrado e eu no primeiro ano do Doutorado. Na sociedade hierarquizada do Japão, 1 ano de diferença na idade já é motivo para se utilizar formas mais educadas de se falar. Mesmo sabendo disso, eu queria ser difereter, eu queria me sentir mais próximo dos meus colegas. Queria que eles me tratassem como um igual, como os estudantes brasieiros tratam-se uns aos outros. No Brasil não existe diferença entre estudantes. Numa escola brasileira, existem duas categorias de pessoas: os alunos e os professores. Eu não conseguia aceitar estar num grau de hierarquia diferente dos colegas que passavam o dia inteiro na mesma sala fazendo a mesma coisa que eu fazia.</p> <p>Naquele dia, o meu colega me olhou com uma cara de ponto de interrogação, tentando entender o que eu queria dizer. Acho que, no final, ele acabou entendendo, mas não consegui fazê-lo mudar o seu jeito de falar. É que os bons modos — ou pelo menos o que os japoneses entendem por bons modos — são uma coisa tão natural para eles que eles simplesmente não conseguem se despojar desse hábito. Isso fica claro quando se vê japoneses que nunca moraram no exterior tentando falar inglês. Eles ficam completamente perdidos com a falta de expressões para demonstrarem respeito com o interlocutor. Não me restou outra alternativa senão agüentar o excesso de educação dos meus colegas, pois a maioria estava abaixo de mim na hierarquia dos alunos.</p> <p>Para os estrangeiros, utilizar a forma correta do verbo conforme a situação e o interlocutor não é uma tarefa fácil, pois é difícil de julgar a situação e a pessoa correta para se usar determinado palavreado e forma verbal. Quando eu comecei a trabalhar no hotel, tive a oportunidade de utilizar vários níveis de respeito e modéstia ao falar. Precisava que falar diferente, dependendo de se estava me dirigindo um chefe, um colega mais antigo, com colega mais novo, um hóspede, uma pessoa de idade, uma criança, etc. Quando eu me dei por conta, estava sorrindo e até me mexendo como japonês. Não há outra maneira de <i>falar</i> japonês corretamente, se não se observar as regras de etiqueta mais integralmente.</p> <p>Mas afinal, qual é o segredo para se julgar em que situação e com qual interlocutor utilizar determinado palavreado? A resposta está no coração. Só é possível falar japonês corretamente se realmente sentirmos um respeito sincero pelas pessoas. O palavreado e a flexão verbal sai naturalmente como expressão desse respeito. Mesmo que não esteja totalmento correto gramaticalmente, não poderia estar mais correto do que se não representasse o que o falante está sentindo enquanto fala. Estudar as inúmeras regras de etiqueta e expressões gramaticais de respeito não é suficiente para falar e agir corretamente. É necessário sentir respeito e consideração pelos que nos rodeiam para que possamos nos comportar educadamente dentro da cultura japonesa.</p> <p>O “excesso” de educação e cerimoniosidade que nós interpretamos como <em>frieza</em>, na verdade só pode existir quando o respeito vem do coração. A exata característica dos japoneses que é tida por nós como frieza é uma das suas maiores expressões dos mais calorosos, sinceros e virtuosos sentimentos humanos.</p> </div>Adriano Dal Bosconoreply@blogger.com