tag:blogger.com,1999:blog-9894999.post-1152243548202784832006-07-07T00:38:00.000-03:002006-07-13T09:26:33.410-03:00Gokon (合コン)<p><i>Gokon</i> é uma palavra híbrida formada por um caractere chinês (合), que significa “combinar” e um fragmento em <i>katakana</i> (コン), que é a abreviação de (コンパ - konpa), que por sua vez vem da palavra inglesa “company”, que aqui no Japão tem o sentido de “reunião para beber e conversar”. Sendo assim, daria para traduzir esta palavra como “festa combinada”, sendo que aqui <i>combinada</i> se refere ao fato de que nos gokons necessariamente o número de homens é exatamente igual ao número de mulheres. Caso esse requesito não seja atendido, não teremos um gokon.</p> <div class="fullpost"> <p>Os gokons são arranjados por um casal de amigos ou conhecidos. Por exemplo, eu posso combinar com uma amiga que ela irá convidar um certo número de amigas e eu convido o mesmo número de amigos. O número ideal é entre 4 e 5 de cada sexo. Escolhemos então um local para o encontro, geralmente uma <i>izakaya</i> (bar em estilo japonês). As izakayas são ideias porque proporcionam salas separadas para cada grupo de clientes, de forma que não são vistos pelos outros freqüentadores do local, permitindo que o grupo possa ficar mais à vontade. O casal que organiza o gokon fica responsável pela reserva do local, contato com os outros participantes e cálculo e recolhimento do dinheiro. </p> <p>Ao chegar ao local, todos sentam ao redor da mesa. A distribuição das cadeiras pode variar, mas pelo que eu vi até hoje, geralmente no início, sentam todos os homens de uma lado e todas as mulheres do outro e começam a beber e conversar, enquanto comem salgadinhos e outros tira-gostos como saladas, sushi, edamame, sashimi, yakitori, etc. (esses tira-gostos não são exclusividades de gokons, mas apenas o que geralmente é oferecido em izakayas). O objetivo é se conhecerem, ou melhor dizendo, os homens conhecerem as mulheres e vice-versa, já que tanto o grupo dos homens como o das mulheres já são amigos ou conhecidos entre si. No início, as conversas geralmente giram em torno do local de origem de cada um, do seu trabalho, gostos para música e comida, etc.</p> <p>Depois de um certo tempo, os organizadores convidam todos a trocarem de lugar, até que todos tenham a oportunidade de conversar com todos. Com o consumo de álcool, os assuntos podem ir mudando, e podem acontecer declarações de amor à primeira vista, discussões e desagravos, principalmente entre os homens, etc. Nessas horas também, é comum organizar algumas brincadeiras. Vou descrever duas dessas aqui:</p> <dl> <dt>Brincadeira do rei</dt><dd>O organizador escreve números numa das ponta de <i>hashis</i> (pausinhos de comer). Em um desses hashis, ele escreve “rei”. O organizador segura então os hashis de modo que a ponta que onde ele escreveu não fique visível e pede a cada participante que escolha um. Quem pegar o que estava escrito “rei” tem o direito de emitir uma ordem do tipo: “O rei manda o número 1 fazer ··· com/para o número 5.” Parece (e é) brincadeira de crianças, a não ser pela diferença no tipo de ordem que o rei dos gokons é capaz de dar. Por exemplo: “O rei manda o número 4 dar um beijo de língua no número 3”!</dd> <dt>Brincadeira do <i>pocky</i></dt><dd>Pocky é um biscoito em forma de bastão com cobertura de caramelo ou chocolate ou outra coisa doce. Se fosse no Brasil, esta brincadeira se chamaria “brincadeira do plic-plac”. A brincadeira é simples: um casal tem que comer um pocky, cada um começando por uma ponta. Não pode deixar o pocky cair, mas quase todos acabam derrubando, por isso ganha o casal que deixar cair o menor pedaço. Embora a idéia seja comer até o fim, sem se tocar, o normal é que, se o casal se propor a comer até o fim, acaba por se beijar na boca! heheheh</dd> </dl> <p>O tempo que podem passar na izakaya geralmente é limitado a umas duas horas. Depois disso, o grupo segue para algum outro local, sendo o karaoke o destino mais comum. A hora do trânsito entre um local é outro é uma boa oportunidade para conversar mais reservadamente e trocar telefones. Deve-se ter muito cuidado com a hora exata de pedir o telefone da moça, porque as japonesas não se sentem bem em dar o telefone da frente de todo mundo.</p> <p>Como segundo local, escolhe-se um lugar em que se possa ficar mais tempo, pelo menos até pouco antes do horário do último trem, que é quando o gokon acaba, pois as moças têm que voltar para casa e se perderem o último trem, terão que esperar até depois das 5h da manhã, quando novamente os trens começam a circular. Nesta hora, há mais uma oportunidade para se conversar a sós, ao acompanhar a moça até a estação.</p> <h3>Outros detalhes</h3> <p>Em primeiro lugar, uma coisa que se fala muito é que você deve ter muito cuidado com a escolha da conhecida para quem vai propôr o gokon. A regra básica é: a moça sempre vai escolher amigas mais feias dos que ela, pois o gokon é uma espécie de competição para impressionar os rapazes (e quem sabe conseguir um namorado). Mas nem sempre ela pode escolher, pois ela tem a responsabilidade de juntar um número definido de amigas que estejam dispostas a participar do gokon e que não tenham compromisso no dia marcado. Esse esforço pode significar que ela convidará amigas mais bonitas e interessantes que ela, mas geralmente significa que ela trará algumas moças abaixo do nível que ela mesma considera ideal. Entre os rapazes, acontece o mesmo, e pode acabar vindo uns caras muito esquisitos.</p> <p>Isso faz com que o gokon se torne uma coisa bem democrática. Mesmo que você seja feio ou esquisito, poderá ser convidado por um conhecido para completar o número de participantes.</p> <p>Em gokon, há uma etiqueta a ser respeitada. É de muito mal gosto partipar de um gokon e ficar quieto sem falar nada. Há que se fazer um esforço. Mesmo que não encontre ninguém que o interesse, deve conversar com todo mundo e se possível trocar telefones, pois essa moça não interessante é um contacto que pode trazer outras moças mais interessantes. Portanto, mesmo que o casal não tenha se acertado muito bem, trocam o telefone para combinar um próximo gokon com outro grupo.</p> <p>O objetivo dos gokons é arranjar namoro, mas raramente você vai encontra alguém interessante e que se interesse por você no primeiro gokon. Por isso, muitos japoneses, principalmente universitários, chegam a participar de mais de um gokon por semana. Alguns até publicam o seu ”diário“ de gokons na internet.</p> <h3>Por que os japoneses fazem gokon?</h3> <p>Embora no Brasil, nós possamos imaginar esse tipo de econtro e até praticá-lo, não acho que se difundiria tanto como aqui. É que os brasileiros têm outras formas de encontrar uma namorada. Nós vamos a bares e boates e puxamos conversa com moças para quem não fomos formalmente apresentados, ”ficamos“ e, se der certo, namoramos. Mesmo quem não sai muito à noite, sempre tem uma amiga, uma colega de trabalho ou de aula, por quem pode se interessar e com quem pode namorar.</p> <p>No Japão tudo isso é mais difícil. Primeiro, não há tantos bares e boates como há no Brasil e, os japoneses quando vão a esses lugares, é para beber e/ou dançar. Embora seja possível puxar conversa com desconhecidos (e isso acontece), é muito difícil de ficar com uma japonesa deste jeito. A não ser, é claro, que você tenha uma ferrari, muito dinheiro, etc. Neste aspecto, as mulheres são iguais em todo o mundo. Namorar com colegas de trabalho ou de aula no Japão é muito complicado, pois o povo aqui fofoca demais. No trabalho, principalmente, se houver uma relação hierárquica entre o casal, a coisa complica mais ainda. Acontece de colegas namorarem, mas o fazem com a maior discrição e no mais estrito segredo. Tanto é assim que eu já presenciei dois casos na universidade e um caso no trabalho de casais que namoravam em segredo e nunca ninguém desconfiou. De repente, eles anunciaram que iam se casar!</p> <p>No Japão, a venda de pílulas anti-concepcionais é controlada e é necessário conseguir uma receita médica para adquiri-las. Portanto, se as japonesas solteiras quiserem comprar pílulas, terão que confessar para o médico que querem <i>dar</i> com tranqüilamente. O que acontece é que elas não compram e, portanto, não usam pílulas. Como método anti-concepcional resta a camisinha. Essa sim, é vendida até em máquinas automáticas em banheiros públicos, pois muitos japoneses têm vergonha de comprá-las nas lojas de conveniência. A camisinha, entretanto, não é um método 100% garantido. Isso faz com que o sexo se torne uma coisa muito mais séria por aqui, pois o risco de gravidez é bem mais alto. Uma gravidez acidental redunda em casamento forçado (tem até uma palavra para isso: dekikon), que aliás é muito comum por aqui. Bom, eu disse tudo isso para explicar por que o namoro no Japão é uma coisa bem mais séria do que é no Brasil. Ou, em outras palavras os japoneses não ”ficam“.</p> <p>Sob essas condições, fica mais fácil de enteder porque eles procuram conhecer pessoas fora do seu círculo de amizades e conhecidos para um namoro sério e o gokon é um oportunidade perfeita para isso. Mas o gokon não é apenas uma conveniência que se criou devido ao ambiente em que os japoneses vivem. O gokon, embora seja um tipo de atividade que não existe há muito tempo, é pura e autêntica cultura japonesa.</p> <p>O gokon, é um encontro para conversas informais, com o objetivo de conhecer gente nova com o intuito final de encontrar alguém para namorar. Mas o gokon não é exatamente um econtro informal (pelo menos para os nossos padrões), afinal há um protocolo a ser seguido. Começa pelo fato de que o encontro tem que ser planejado com pelo menos duas semanas de antecedência. Se a pessoa não puder ir, então deve se responsabilizar por mandar alguém no seu lugar para não estragar o encontro dos outros. Durante o encontro em si, há regras a serem seguidas. As brincadeiras picantes e as declarações de amor à primeira vista que eu citei não são exceções, pois só se faz isso quando todos estão (mesmo que supostamente) alcoolizados. Não estou dizendo que por se estar alcoolizado, o desrespeito à etiqueta é permitindo, mas ao contrário, a etiqueta manda que todos divirtam e divirtam os outros e também que esqueçam qualquer acontecimento constrangedor que tenha se passado quando estavam sob o efeito do álcool.
</p></div>Adriano Dal Bosconoreply@blogger.com