tag:blogger.com,1999:blog-9125429.post-8971467853196746012007-12-06T14:35:00.000Z2007-12-06T14:41:48.112Z3 Alegorias para um Epílogo<div align="justify"><strong></strong> </div><div align="justify"><strong><span style="color:#000099;">Alegoria 1</span></strong> <br />Ser criança é, por vezes, frustrante. Quer-se ir brincar para a rua, quer-se comprar um brinquedo, quer-se comer um doce, mas não se pode sem autorização desses adultos que decidem sem que se percebam as razões.<br />O Menino não era diferente. Tinha as frustrações de todos os meninos quando se deparam tantas vezes com uma barreira de incompreensíveis “nãos”. Para fazer frente ao problema, o Menino começou pela forma mais básica – a insistência. “Mas porquê?”, “Vá lá!”... eram as expressões mais ouvidas, até à exaustão.<br />Depois, ainda menino mas já mais sabedor das manhas da vida, o Menino refinou o truque. Passou a bater a diferentes portas, até ser satisfeita a sua vontade.<br />Quando queria um chocolate, pedia à mãe. E se esta lho recusava, pedia ao pai. Se este lho recusava, pedia ao tio, à avó, à madrinha… Até que alguém, mais atento à satisfação do que a outras preocupações mais cinzentas, lhe concedia o desejo.<br /><span style="color:#006600;">E era vê-lo, triunfante, exibindo o seu troféu, sacado a custo, certo da justeza da concessão, olhando para os familiares anteriores com o rancor que merece quem julgou mal. Afinal ele tinha razão. Afinal merecia o chocolate. Se não o merecesse, este último familiar ia-lho dar? Claro que não.<br /></span><br /><strong><span style="color:#000099;">Alegoria 2</span><br /></strong>O Menino cresceu, era agora o Rapaz, mas continuava com esse apetite voraz por chocolates.<br />Havia na escola um Moço a quem mãe dava dinheiro para o almoço na escola, mas que o estourava em chocolates. Justiça lhe seja feita, era generoso para com os amigos e até dividia os chocolates com eles.<br />Um dia, estava o chocolate do Moço no fim, sobrava um quadradinho, e apareceu um Amigo que lhe pediu esse último pedaço. Sem dar tempo para a resposta, que seria naturalmente positiva, o Rapaz, que estava perto, pediu-lhe também o quadradinho final.<br />Dividir estava fora de questão, ou o recheio de morango escorreria pelos dedos dos três jovens. Decidido a fazer prevalecer a ordem dos pedidos, o Moço explicou ao Rapaz que o Amigo tinha pedido primeiro.<br />Mas o Rapaz não entregava facilmente o ouro ao bandido. Afiançou-lhe então que, caso não lhe desse o derradeiro quadradinho, iria contar à sua mãe onde é que ele gastava o dinheiro dos almoços. Nunca mais haveria chocolates.<br />“Mas aí tu também nunca mais os comes”, dizia tremulamente o Moço. “Paciência; a mim não me passam para trás”, informava o triunfante Rapaz. “Faz o que achares melhor”, resignava-se o Amigo.<br />Oscilante entre os seus princípios morais e o temor que tinha à reacção da mãe caso descobrisse; hesitante entre o que achava correcto e a perspectiva de nunca mais comer chocolates na escola; balançando entre o idealismo e o interesse material, o Moço pediu desculpas ao Amigo e deu o quadradinho ao Rapaz.<br /><span style="color:#003300;"><span style="color:#006600;">E era vê-lo, triunfante, exibindo o seu troféu, sacado a custo, certo da justeza da concessão, olhando para o Amigo com o rancor que merece quem lhe tentou tirar o que era seu. Afinal ele tinha razão. Afinal merecia o chocolate. Se não o merecesse, o Moço ia-lho dar? Claro que não.</span><br /></span><br /><span style="color:#000099;"><strong>Alegoria 3</strong><br /></span>Já Homem, os chocolates deram origem a outras dependências. As desilusões da vida levaram ao vício, o vício à dependência séria, a dependência à marginalidade. Furto aqui, esquema ali, acabou por esfaquear um caixa de uma mercearia. Azar, o caixa morreu. Cúmulo do azar, havia um novo sistema CCTV na loja e ficou tudo filmado.<br />Mas já sabemos que o Homem não é pessoa para se dar por vencido assim por dá cá aquela palha. Mobilizou todos os meios que conseguiu e o seu advogado provou, por A+B, que o CCTV não estava ainda registado. Faltavam umas burocracias quaisquer ligadas à protecção de dados e às liberdades individuais dos cidadãos. O dono da mercearia ainda nem tinha colocado uns autocolantes que lá tinha a avisar que os clientes e ladrões estavam a ser filmados.<br />O vídeo era a única prova e esta tinha sido conseguida de forma ilegal. Toda a gente sabia que tinha sido ele o autor do crime, mas a justiça é cega e acabou por ser posto em liberdade.<br /><span style="color:#006600;">E era vê-lo, triunfante, exibindo a sua liberdade, sacada a custo, certo da justeza da concessão, olhando para os familiares do caixa de mercearia com o rancor que merece quem lhe tentou tirar o que era seu. Afinal ele tinha razão. Afinal merecia a liberdade. Se não o merecesse, o tribunal ia-lha dar? Claro que não.<br /></span><br /><strong><span style="color:#660000;">Epílogo</span></strong><br />De conquista em conquista, sempre certo da plenitude da sua razão, o Velho, que fora em tempos Menino, e depois Rapaz, e depois Homem, viveu numa felicidade encenada. Esfregava cada sucesso na cara de quem lhe fazia frente. Ria, ria muito. Sentia que tinha motivos para ser feliz e que todos gostariam de estar no seu lugar.<br />Mas poucos lhe invejavam a posição. Durante a sua vida, perdera gradualmente a afeição da família, o companheirismo dos amigos e o respeito da sociedade. Ria, sim, mas ria sozinho.<br />E quando, finalmente, o vida se lhe extinguiu, o filme da sua vida que viu passar em frente aos olhos fê-lo chorar. Quando a alma se soltou do corpo ainda teve tempo de pedir desculpa a todos quantos atropelou, a todos quantos pisou para chegar mais alto.<br /><span style="color:#cc0000;">Mas já ninguém o ouviu.</span></div>Avônoreply@blogger.com