tag:blogger.com,1999:blog-88850118076690263102008-07-23T10:21:06.883-07:00A cidade dos prodígiosK.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comBlogger21125tag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-23575358586637616692008-07-23T05:40:00.000-07:002008-07-23T06:11:52.187-07:00I'm the Grinderman, yes I am...<em><span style="font-family:Verdana;font-size:78%;"></span></em><a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/2690652798_90a8c182b1.jpg?t=1216816761"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/2690652798_90a8c182b1.jpg?t=1216816761" border="0" /></a> <span style="font-family:verdana;font-size:78%;"><em>Grinderman, Summercase 2008, Barcelona. Fotografia de Quique.</em></span><br /><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">"I'm the grinderman</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">In the silver rain</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">In the pale moonlight</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">I am open late</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">Yes I'm the grinderman</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">Seven days a week </span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">In the pale moonlight</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">In the silver rain</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">Yes I'm the grinderman </span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">Yes I am</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">Any way I can"</span><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;font-size:78%;"></span></div><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Nick Cave e a sua outra banda Grinderman. O poder solto em palco. A magnificiência de um artista completo. Há anos que não recordava ver um <em>frontman</em> como Nick Cave no Sábado passado. Ninguém diria que já vai nos 51 anos. E eu, como um puto, aos saltos e a cantar o tempo todo, de t-shirt , jeans rotos, os Puma laranja e a pulseira do festival. Pensei "<em>Parece que tenho 17 anos!",</em> mas deixei-me levar na torrente musical dos Grinderman e, abraçado aos meus amigos, saltamos e gritamos bem alto "<em>kick those baboons and other motherfuckers out</em>". Nick rules.</span></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-32831198970601493542008-07-14T06:14:00.001-07:002008-07-14T06:19:54.880-07:00Sinais<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC258882778.jpg?t=1216041231"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC258882778.jpg?t=1216041231" border="0" /></a><span style="font-family:verdana;font-size:85%;"> <span style="font-size:78%;"><em>Parque Güell, Barcelona, Julho de 2008. Fotografia de K.</em></span></span><br /><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">O silêncio do calor abatia-se sobre o parque, e dançava no ar o aroma a estio, flores e terra seca. Naquela palmeira fui procurar outro Verão, busquei o coração mal desenhado, gravado anos atrás naquele mesmo sítio. Um desenho e dois nomes numa praia de madeira em constante transformação, um corpo vivo e sulcado por um canivete, há tanto tempo, a primeira vez que ali estive. Já eram quase imperceptíveis, como se os tivéssemos gravado numa duna com os nossos dedos. O ir e vir de cada estação e o movimento vibrante da seiva haviam arrastado as nossas letras, os desenhos e os sentimentos quase <em>naifs</em>, até que se perderam nos labirintos da eternidade. Eternamente tragados no turbilhão do tempo e nas veias de uma palmeira, no vórtice sem fim de tudo o que se passou naquele parque, entre o sol de outras eras e os sonhos de Gaudí.</span> </div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-31131038909181615842008-06-22T11:43:00.000-07:002008-06-23T03:55:31.038-07:00Do futuro<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/43734751_70c9df27f0_o.jpg?t=1214156172"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/43734751_70c9df27f0_o.jpg?t=1214156172" border="0" /></a> <div><a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/43734751_70c9df27f0_o.jpg?t=1214156172"></a><span style="font-family:verdana;"><em><span style="font-size:78%;">Calle Elisabets, Barcelona. Junho de 2008, fotografia de K.</span></em></span><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;"></span></div><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;"></span></div><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Tenho sido um viajante incansável, percorrendo as ruas de sombra e poeira dourada do sol. Protegido pelas paredes graníticas das casas antigas, sob o baptismo do novo Verão, partilho este final de tarde com a Dana. Um efémero regresso a Barcelona, a quimera de bocas húmidas que festejassem o desejo que traz o estio. Caminhamos sem dizer uma palavra, ouvindo os ruídos dos viandantes e os passos cálidos do calor que passeia. De vez em quando olhamos um para o outro e sorrimos, e reparo em como é perfeita a sua pele e única a forma sensual da sua boca. Mas todas as bocas me deixaram o sabor amargo do vazio, como se cada uma proclamasse apenas a passagem das estaçőes, como se confessassem ao meu verde olhar que não iria criar raízes. As minhas mãos quiseram por momentos encontrar as suas mãos onde floresciam gestos e sonhos de aventuras distantes, mas depois lembrei-me que aquelas mãos também me deixaram no frio abraço do adeus. Continuamos a caminhar, aproveitando esse seu tempo de amazona que lhe permitira voltar, aquela voz de fada dinarmaquesa, aquele sorriso de miúda travessa. Falamos em inglês, como se o espanhol fosse já uma remota recordação de um tema <em>tabu</em> que não tocamos, e tenho cada vez mais a certeza que a sua vida nas minhas sombras é a resposta que esperava. A despedida é breve e cordial, no fundo sabemos que não queremos mais vazios nos nossos futuros, um deles aquí em Barcelona, o outro no distante Congo. Mesmo antes do crepúsculo, percorro ainda as ruas de sombra e doces mistérios da Barcelona antiga, com o pensamento noutra pessoa, cuja boca nunca beijei mas que faz com que algo dentro de mim se ilumine, e se aclare a côr do meu olhar, e se alargue o horizonte do futuro onde sei que a vou encontrar.</span> </div></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-40411667595243460962008-06-09T07:44:00.001-07:002008-06-09T07:56:27.026-07:00These are a few of my favorite things<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/2206539662_86a4c53c14.jpg?t=1213022495"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/2206539662_86a4c53c14.jpg?t=1213022495" border="0" /></a><span style="font-family:verdana;"> <em><span style="font-size:78%;">Plaza Sant Felip Neri, Barcelona, Maio de 2008. Fotografia de K.</span></em></span><br /><em><span style="font-family:Verdana;font-size:78%;"></span></em><br /><em><span style="font-family:Verdana;font-size:78%;"></span></em><br /><div align="justify"><span style="font-family:Verdana;">Ver os gatos ao sol como lânguidos seres peludos, ler poesia e sentir a força das palavras, atirar pedras e vê-las saltar no lago do Parque do Retiro, ouvir Zeca Afonso numa estrada secundária numa tarde de Verão. Vinho tinto e queijos portugueses, espanhóis e franceses com conversas amenas, o Museu do Prado com a companhia da Bea, o cheiro do café acabado de fazer, a Praia do Espelho na Bahía, Johann Sebastian Bach no primeiro despertar cada vez que vou a Portugal. O peixe grelhado na esplanada de um restaurante de pescadores, as caretas que troco com o menino que está no carro ao lado num engarrafamento, a chuva de Maio, reler “<em>O Fio da Navalha</em>”, caminhar nas dunas, o cheiro de um livro antigo, ler baixinho Julio Cortázar numa noite fria, o pão da aldeia barrado com manteiga, regar as plantas da Catarina com o <em>shaker</em> de <em>cocktails</em>, o “<em>Begin the Beguine</em>” do Cole Porter, respirar tranquilamente num bosque. Receber um postal, a máquina de escrever <em>Underwood</em> do meu avô, Jordi Savall no Palau de la Música Catalana, o barulho das ondas do Atlântico, os casacos de couro <em>retro</em>, velas negras e verdes, os clubes de <em>jazz</em> de Barcelona e Paris.<br /><br />Cantar sozinho no duche, oferecer flores quando não se espera, tomates <em>cherry</em>, o sabor de um puro cubano, conversas intermináveis na Plaza Sant Felip Neri, ouvir The Magnetic Fields num descapotável na costa de Girona, o aroma a manjerico nas ruas do Porto no S. João, lagostins e cerveja ao pequeno-almoço no Mercat de La Boquería num Sábado de Verão. Dormir ao ar livre, o sorriso da Audrey Hepburn, os amigos boémios e anarquistas, a recordação do primeiro beijo, os fotogramas surreais do David Lynch, o sal na pele e nos lábios depois de um banho no mar, andar perdido nas ruas de cidades que amo, o som de um comboio ao longe, as palavras da Joana Manuel. Os <em>abuelitos madrileños</em> nos bancos do bairro de La Latina, descobrir palavras novas num dicionário, o riso da minha mãe cada vez que digo um disparate, o cheiro de alfazema num quarto, os provérbios de Lao-Tsé, andar no eléctrico 28 em Lisboa, a alegria dos dias de praia em S. Pedro de Moel. As minhas velhas botas <em>Camel</em>, as fotografias antigas da família, as histórias que vivi com os meus amigos, a recordação da magia do Maradona, o sabor do último beijo.</span></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-4001479548032412512008-05-28T10:41:00.000-07:002008-05-29T00:08:41.442-07:00Citrinos<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/400743892_919631b49b.jpg?t=1211997883"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/400743892_919631b49b.jpg?t=1211997883" border="0" /></a><span style="font-family:verdana;font-size:78%;"><em> Caipirinha. Barcelona, Maio de 2008. Fotografia de V.B.</em></span><br /><br /><div><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Verde chegas aos meus sentidos, com a lima como aroma da tua boca. Toda a vida te sai dos poros, sumo recém espremido, polpa de alegria, o cabelo claro ondulando ao sol. Danças, animada pela brisa que acaricia o teu corpo, como uma palmeira inclinada para o mar. Desces as escadinhas em direcção à areia e estendes-te na praia, e sabes que aí te encontrarei. Caminho até ti, pela margem dos beijos, num areal de silêncio, num vento sem escalas. Para, como um citrino, madurar-te entre as sombras. </span></div></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-69312480831517239092008-05-12T02:14:00.000-07:002008-05-12T02:26:22.123-07:00Para a Sara, que se acreditou eterna no que dava<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC00203.jpg?t=1210584178"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC00203.jpg?t=1210584178" border="0" /></a><span style="font-size:78%;"><em><span style="font-family:verdana;"> Sara. Barcelona, Julho de 2006. Fotografia de K.</span></em><br /></span><br /><div><div align="justify"><span style="font-family:Verdana;"></span></div><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Às vezes tudo se esclarece num instante, num ápice de lucidez. Num golpe súbito vês o que fizeste e apercebes-te, absorta e espantada, que outra coisa muito diferente surge diante dos teus olhos. O que tiveste do amor não era amor, mas apenas o resplendor mortal de uma carícia, que não advertiste enganada pela sua mentirosa doçura. E depois veio a triste desilusão. Para sempre amaste uma pessoa sem saber ou intuir que te enganavas, acreditando que eras eterna no que davas, até que um dia te encontraste sozinha. O sonho foi tão necessário para ti como as lágrimas que caíram depois dos teus olhos, quando desfeita a ilusão o sol se escondeu para sempre e tu ficaste abandonada como um brinquedo esquecido. </span></div></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-6145078528240840282008-04-16T11:19:00.000-07:002008-05-12T02:28:08.198-07:00Luminosa pende a vida das nuvens<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC00002454.jpg?t=1208371539"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC00002454.jpg?t=1208371539" border="0" /></a><em> <span style="font-family:verdana;font-size:78%;">Port de Barcelona, Abril de 2008. Fotografia de M.A.</span></em><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Luminosa pende a vida das nuvens, espalhando-se pelo porto, delicada e abundante. Enquanto a água se enruga lentamente para descansar, o vento suave corre pela ponte de madeira em busca dos momentos que a calidez da tarde promete. O céu é vasto como se guardasse um segredo imenso, um intenso convite a largar todo o receio de partir, a zarpar esta mesma tarde, a pisar a proa de uma qualquer embarcaçao e abandonar as velas do mastro ao vento. E as velas inchariam como nuvens febris, soltas no ar salgado, alvas como anjos empapados de águas mediterrânicas. Sonho com as velas que se confundem com os desfiladeiros sépia do céu do fim da tarde, com a água que se abre à passagem dos cascos brancos dos barcos. Abençoada corrente, venturoso vento, a pior tormenta hoje nao faria mais que submergir-me no novo mar do céu. </span></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-77661134145109938232008-04-07T10:14:00.000-07:002008-04-08T00:55:37.814-07:00O Segredo<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC00039491011_Marzia.jpg?t=1207588740"><span style="font-family:verdana;"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC00039491011_Marzia.jpg?t=1207588740" border="0" /></span></a><em><span style="font-family:verdana;"> <span style="font-size:78%;">Marzia. Autoretrato. Barcelona, Abril de 2008.</span></span><br /></em><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Vieste e deixaste-me a tua voz, e permanece ainda o tom melífluo das tuas palavras entre os espaços que visitaste. Deixaste-me o céu alaranjado da tarde e a calidez da amizade, a eterna alegria do talvez. Deixaste-me o Mediterrânico, os rios e as montanhas que se interpõem entre nós, e também a fórmula do regresso. Deixei-te o sol, a claridade enérgica das manhãs e a intensidade da luz difusa. Deixei para mim as trevas, a noite cerrada que já não assusta nem separa, para embalar em mim esse fulgor e continuar a ouvir a tua voz. Voltaste por entre as horas que passaram e tornei a encontrar-te nos jardins desta cidade, depois de cruzadas as portas romanas do tempo. No silêncio calarei o nosso segredo.</span> </div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-75694760441532640452008-03-21T15:49:00.000-07:002008-03-21T15:53:13.481-07:00De um homem sozinho na hora do fecho de um pub<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/00000071827485_3c44c1f944.jpg?t=1206137570"><img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px;" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/00000071827485_3c44c1f944.jpg?t=1206137570" alt="" border="0" /></a><span style="font-size:78%;"> <span style="font-family:verdana;"> Barcelona, Março de 2008. Fotografia de K.<br /><br /></span></span> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"><span style="line-height: 150%;font-family:Verdana;font-size:10;" lang="PT" ><span style="font-size:100%;">Debruças-te no balcão quando os demais já se foram, e não vês a cara séria do <i style="">barman</i> que fecha o sítio lentamente. Não foste capaz de incendiar a vida, de vivê-la e reduzi-la a cinzas, e escolher os caminhos sem medo. Os teus lábios estão selados para o mundo e só se entreabrem para sorver o último <i style="">whisky</i>. Não mais te levantaste cantarolando velhas melodias irlandesas, como aquela do marinheiro bêbado que cantavam os jovens da mesa do fundo horas antes. No teu âmago afogam-se as baladas e canções do mar, extraídas dos velhos cancioneiros celtas, já esquecidas entre o <i style="">whisky</i> ambarino e o desânimo dos dias. Talvez vagueies pelos caminhos encharcados do Inverno, pelas alamedas que levavam à praça da tua aldeia, onde as raparigas outrora desejavam o teu coração de cotovia. Agora o teu coração bate devagar, separado da madeira do balcão pelo couro do casaco, e nele te debruças com aquela mesma melodia irlandesa no pensamento. Os olhos arrogantes do <i style="">barman</i> pousam de novo sobre ti e perguntam-se <i style="">“que vamos fazer com o marinheiro bêbado?”</i>. Mas já longe ia ele, perdido noutras marés, com a cabeça apoiada no balcão dos sonhos e toda a obliquidade da luz reflectida nos cabelos grisalhos.</span><o:p></o:p></span></p>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-47840385574089873302008-03-08T07:06:00.000-08:002008-05-12T02:28:48.465-07:00Como um vôo verde na bruma<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/000063879766_dc2f21b234_Garrotxa_Gi.jpg?t=1204989014"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/000063879766_dc2f21b234_Garrotxa_Gi.jpg?t=1204989014" border="0" /></a><span style="font-family:verdana;font-size:78%;"> La Garrotxa, Girona, Março de 2008. Fotografia de K.</span><br /><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Os meus olhos pousam sobre as ervas do campo, no desolado vale da montanha. Talvez no fundo todos saibamos as palavras que nelas nascem quando o vento se passeia livre sobre as suas delgadas formas verdes. Quase ninguém repara no seu nascimento, ninguém nota quando desaparecem, minuciosas, tenazes, delicadas, as ervas do campo. Abandonadas à sua sorte, inertes, sujeitas a ser devoradas pelo mundo, ou pisadas por um sapato como o meu. Imagino as ervas reflectidas na minha retina, frágeis, com os seus caules perfeitos, como um vôo verde na bruma.<br /><br />A solidão acompanha-nos nestas terras, em todas as terras, e avisto-a também entre estas ervas do campo, imensas, um universo de mensagens eternamente à espera de serem lidas, um mar de ondas que jamais chegarão a uma praia, sob uma luz compartida de uma pequenez infinita. O mundo parece sorrir, burlão, da translúcida presença de tudo e ditar uma regra inalterável, algo que se impõe para todo o sempre. Somos ervas do campo, alfabeto de vento, e não alcançaremos mais que um breve florescer.</span> </div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-83277727372622405692008-02-14T10:19:00.000-08:002008-05-12T02:29:25.357-07:00Contextualização<span style="font-family:Verdana;font-size:78%;"></span><a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/K.jpg?t=1203013879"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/K.jpg?t=1203013879" border="0" /></a><span style="font-family:verdana;font-size:78%;"> Fotografia de Henri Cartier Bresson, vista <a href="http://luiselmau.blogspot.com/2008/01/imagem-contextualizar-03-by-k.html">aqui</a>. Texto publicado originalmente no <a href="http://luiselmau.blogspot.com/">El Mau</a> como uma contextualização da fotografia.</span><br /><span style="font-family:Verdana;font-size:78%;"></span><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Nada tenho que ver com a vida quando caminho sozinho sem ter ninguém que me segure a mão, ninguém que me beije a cara quando choro porque não sei para onde vamos, e pelas esquinas me arrasto com os outros, e o meu reflexo nas vitrinas não é mais que um suspiro fantasmal do outro rapaz que já não existe. Nada tenho que ver com a vida quando percorro a cidade que desconheço, na companhia de outros estranhos com rostos de cinza e passados que já ninguém recorda. A fé há muito que desapareceu, e nada mais resta que o nada que está para vir, anunciado na tristeza incomensurável deste céu cinzento.Nada tenho que ver com a vida quando a vou deixando para trás pelas valas e sarjetas, e desfilo em silêncio nesta caminhada sem fim com os outros fantasmas ambulantes. Nada tenho que ver com esta cidade em ruínas, nem com a ruína que fizeram do meu coração, ainda que seja nesta cidade que se traçou o destino dos nossos dias. Das janelas saem ainda os sinais da tragédia, despojos da miséria que chegou, as roupas esquecidas ainda penduradas, o espanto por todo o lado como uma tripa esventrada. Nas casas não vive ninguém já, e ao entardecer parecem tumbas silenciosas que assistem à nossa marcha. Nelas houve um dia risos, e nelas se encontravam os que se amavam pelas manhas, e eu vivi também um dia numa casa assim. Nada tenho que ver com a vida quando esta me morde o coração a cada passo, e entre as lágrimas que já ninguém limpa do meu rosto, desejo ardentemente que todos pudessem estar vivos, e que tudo pudesse começar de novo.</span></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-77284120461514146902008-01-05T07:45:00.000-08:002008-05-12T02:30:09.129-07:00La Boquería<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC02598.jpg?t=1199547970"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC02598.jpg?t=1199547970" border="0" /></a><span style="font-size:78%;"> <span style="font-family:verdana;"><em>Mercat de La Boquería, Barcelona. Fotografia de K.</em></span></span><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Era Sábado de manhã e passeava no Mercado de La Boquería. Um homem de uns cinquenta anos, pelo menos de aparência, caminhava à minha frente. Tinha um ar desalinhado de mendigo, ténis rotos e uma camisola quase desfeita que me chamou a atenção por ter nas costas uns desbotadíssimos Bugs Bunny e Daffy Duck. Caminhávamos a uns metros de distância, entre as bancas de peixe e marisco fresco, frutas, especiarias, carnes. Gosto de mercados em geral, e particularmente da Boquería, mediterrânica, espontânea, verdadeira, sobrevivente da modernidade e da higiene, da caça às bruxas sanitariamente correcta duma Europa que cada vez mais tenta esconder as suas origens. Ia vendo as pessoas que passavam no mercado, enchendo os meus sentidos de cores fortes, de aromas cruzados, ouvia o rumor intenso das vozes que gritavam os pregões, que perguntavam preços, que tocavam nas coisas, que regateavam. Ia assim, envolto num sonho do presente e do passado, entre as pegadas e os rastos do que fomos e do que somos, e via o mendigo que ia à minha frente cumprimentar os donos das bancas do mercado. Via aquele homem arrastar os pés entre o chão sujo e parecia ser habitual dali, um daqueles desafortunados que pedem esmola, carregam cargas ou fazem pequenos favores. Quando passava em frente a uma das bancas de peixe é chamado por uma peixeira. O homem voltou atrás e aproximou-se dela, uma mulher já madura, grande e forte, com um avental todo manchado. Pegou num peixe da vitrine, embrulhou-o em papel de jornal e ofereceu-o discretamente ao mendigo, sem dizer uma palavra. E então o mendigo sorriu o seu sorriso desdentado, acenou com a cabeça e fez um gesto como que de beijar o embrulho. E depois partiu.<br /><br />Fiquei parado a observar a peixeira, que tinha voltado ao trabalho sem dar mais importância àquilo. Amontoava o gelo picado sob as gambas em exposição e acondicionava as douradas e os rodovalhos. Lembrei-me das peixeiras que tinha visto noutros sítios da minha vida e sempre me deixavam uma impressão inapagável, no mercado do Bolhão, na lota de Matosinhos e de Angeiras, no mercado de Aveiro. Todas pareciam a mesma, ou havia sempre algo comum àquelas mulheres. Não era o avental sujo, o corpo gordito ou as mãos avermelhadas pelo trabalho árduo. Era aquela força e aquela capacidade de agir sob o impulso pessoal da caridade sem esperar aplausos nem nada em troca. Apenas porque sim. Meti as mãos nos bolsos e continuei a andar, e naquele momento desejei apenas que sítios assim, onde sempre encontro mulheres como aquela, não desapareçam nunca.</span></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-32072234220459775712007-12-24T15:38:00.001-08:002007-12-25T04:09:42.773-08:00A cidade onde nasci<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/0000389346539_009cgsgf90_Porto24.jpg?t=1198539492"><img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px;" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/0000389346539_009cgsgf90_Porto24.jpg?t=1198539492" alt="" border="0" /></a><span style="font-style: italic;font-size:78%;" ><span style="font-family:verdana;">Baixa do Porto, Dezembro de 2007. Fotografia de Mariana Gelabert.</span></span><br /><br /><p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"><span style="line-height: 150%;font-family:Verdana;font-size:100%;" lang="PT" >Estava na sala de jantar, na lareira crepitavam alguns troncos pequenos num leito de labaredas alaranjadas. A mesa estava já preparada, com a toalha de linho bordado, o serviço antigo de louça de Viana e os copos de cristal. Não se ouvia o som da televisão nem os rugidos dos automóveis na rua, apenas os ruídos dos últimos preparativos na cozinha. Nas paredes e nos <i style="">passepartout</i> espalhados pela sala vigiavam-me as caras de antepassados e de nós mesmos nos anos da infância ou início da juventude. No andar de cima ouvia-se uma porta a fechar, e passos lentos e abafados no tapete do corredor. O aroma da madeira que ardia e o som das fagulhas que iam rebentando nos troncos davam um tom nostálgico a tudo, acentuavam o ar <i style="">démodé</i> daquela sala e anunciavam promessas de melancolia. Trazia-me de volta à realidade o odor dos filetes de polvo que chegava da cozinha, polvo galego que era sempre tenro e macio. Os passos no corredor eram da minha avó, ouvia já o roçar do seu vestido nos degraus da escada, vinha acompanhada pela minha tia, que lhe cochichava qualquer coisa baixinho. Em breve terminaria o silêncio da noite de Natal e os risos soltar-se-iam, misturando-se com as lembranças de outras noites como aquela. <o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"><span style="line-height: 150%;font-family:Verdana;font-size:100%;" lang="PT" ><o:p> </o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"><span style="line-height: 150%;font-family:Verdana;font-size:100%;" lang="PT" >Agora, tudo não passa de lembranças felizes. Apenas o silêncio se mantém, como se houvesse algum secreto apelo ao recolhimento e à reunião íntima. O tempo dos outros Natais parece tão distante, a família, as sobremesas abundantes servidas tarde, o nervosismo que antecedia a abertura dos presentes. Esta noite aproximei-me da janela e afastei as cortinas para ver o céu, o céu negro da cidade do Porto. E fiquei sem palavras porque no alto, entre o frio e a quietude, brilhavam as estrelas. Brilhavam e a mim parecia que iluminavam todo o horizonte, tudo o que tinha ficado para trás da linha desse horizonte e tudo o viria ainda. </span><span style="line-height: 150%;font-family:Verdana;font-size:100%;" >Fiquei mais uns momentos a observar aquele céu, e pareceu-me ouvir a voz suave do Chet Baker cantar “<i style="">and I remember too a distant bell / and stars that fell / like rain / out of the blue</i>”. </span><span style="line-height: 150%;font-family:Verdana;font-size:11;" lang="PT" ><span style="font-size:100%;">Era belíssima a visão da abóbada celeste, o sítio de onde saíram os meus primeiros sonhos, o céu negro da cidade onde nasci.</span> <o:p></o:p></span></p>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-74542736106469720742007-12-17T07:54:00.000-08:002007-12-17T13:13:37.833-08:00No Natal todos voltamos a algum sítio<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/00000365106410_e74838_Plancha2.jpg?t=1197907005"><img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 375px; height: 280px;" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/00000365106410_e74838_Plancha2.jpg?t=1197907005" alt="" border="0" /></a><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:78%;" >Ferro de engomar. Barcelona. Fotografia de A.C.<br /><br /></span><p class="MsoNormal" style="margin-right: 0.85pt; text-align: justify; line-height: 150%;font-family:verdana;"><span style="line-height: 150%;font-size:100%;color:black;" lang="PT" >Acabei de passar a roupa a ferro e fui fumar um cigarro à varanda, iluminado pelas luzes de Natal do quarteirão. O ar frio e límpido da noite aliviou-me de imediato e fez-me sentir relaxado. Só quando voltei a entrar reparei como se impunha na sala, no corredor, sobrepondo-se inclusivé ao cheiro do tabaco. O odor a roupa acabada de passar a ferro. Parei na penumbra e respirei fundo e dei por mim a sorrir sozinho, como a</span><span style="font-size:100%;"><st1:personname><span style="line-height: 150%;color:black;" lang="PT">dora</span></st1:personname></span><span style="line-height: 150%;font-size:100%;color:black;" lang="PT" >va o odor da roupa acabada de passar, desde sempre. E as recordações jorraram vívidas, aquele aroma, a sensação de tocar a roupa quente e engomada, o som do vapor e dos esguichos de água. Olhei os lençóis que tinha deixado na cozinha, peguei neles suavemente e recordei. Tinha contado isto apenas a uma pessoa, em toda a minha vida.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="margin-right: 0.85pt; text-align: justify; line-height: 150%;font-family:verdana;"><span style="line-height: 150%;font-size:100%;color:black;" lang="PT" >Quando eu era criança, uma das muitas empregadas domésticas da minha mãe fascinava-me terrivelmente. Deve ter sido na altura em que comecei a entender o conceito de empregada doméstica. Ela passava a ferro num quartinho antigo e pequeno da casa onde vivíamos então, eu teria uns cinco anos e ficava pasmado a vê-la naquele labor. Chamava-se Carmen, era a dona Carmen, uma senhora à moda antiga do Porto, forte e cheia de boa disposição. Eu via o ferro a deitar fumo, deslizando sobre a roupa que ela estendia na tábua antiga, e ficava intrigadíssimo a pensar porque pagaria a minha mãe a uma senhora de idade para ir lá a casa queimar a nossa roupa. Dia após dia ia espiá-la, a ver quando é que ela incendiava tudo finalmente, mas em vez de labaredas e cinzas ficavam apenas montes de roupa ordenada e cheirosa.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="margin-right: 0.85pt; text-align: justify; line-height: 150%;font-family:verdana;"><span style="line-height: 150%;font-size:100%;color:black;" lang="PT" >Ficava meio escondido a vê-la passar a ferro, deitado sobre um grande sofá com almofadas antigas de cetim azul lavanda, e às vezes estremecia quando o ferro assobiava com algum jacto de vapor mais forte. Ela apercebia-se porque me olhava pelo canto do olho e ria-se muito, um riso sincero e bonito como as coisas antigas. Tinha sempre o rádio ligado numa daquelas estações de música fora de moda, e cantava as canções que iam passando. Às vezes eu adormecia no sofá, a curiosidade de espiá-la vencida pelo sono maravilhoso da infância. E ficava ali, embalado em sonhos que já não recordo, entre as músicas antigas e o cheiro do vapor do ferro.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="margin-right: 0.85pt; text-align: justify; line-height: 150%;"><span style="line-height: 150%;font-family:Verdana;font-size:10;color:black;" lang="PT" ><span style=";font-family:verdana;font-size:100%;" >Pousei os lençóis perto do armário para quando arrefecessem os arrumar. O silêncio enchia aquela casa, e sentia-me cansado e sonolento, embora soubesse bem que não teria mais aquela paz do sono da meninice. Nem o riso forte da dona Carmen, nem as músicas antigas e românticas, nem a magia de não saber como eram as coisas fora daquele mundo tão pequeno onde era tão feliz. Apenas o odor da roupa acabada de passar permanecia no ar, mais de um quarto de século depois, noutro país, como um cordão umbilical do passado. Muitas vezes, nas horas sem sonhos, lembro-me daquele menino que imaginava a empregada a queimar a roupa com um ferro e a ser paga para isso, e espero sinceramente não ser hoje uma desilusão para ele.</span> <o:p></o:p></span></p>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-13685573274062327022007-12-01T08:10:00.000-08:002007-12-17T07:47:52.807-08:00I want a little sugar in my bowl<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC00006562_LunaBCN.jpg?t=1196525528"><img style="margin: 0px auto 10px; display: block; width: 320px; text-align: center;" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/DSC00006562_LunaBCN.jpg?t=1196525528" border="0" /></a> <span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:78%;" >Luar na varanda. Barcelona. Fotografia de K.</span><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Enches-me como sangue numa ferida recente, percorres-me como a gota escarlate que flui desse escuro caminho. Estendes-te como a noite na cidade tingida de sombras, brotas como as flores no </span><span style="font-family:verdana;">jardim que se vê da varanda aberta. Apagas com mãos mágicas a solidão da perda e dos anos que se foram, iludes com o teu sorriso o desvanecer dos sonhos e a dor de saber demasiado. Apenas um reflexo ténue do candeeiro do hall da entrada chega aqui, o resto é prata do luar que cai em cascatas. Danças suavemente em frente à aparelhagem </span><span style="font-family:verdana;">quando a música começa a sair aveludadamente das colunas, imitando o menear arrastado da saudosa Nina Simone.</span></div><div align="justify"><br /><em><span style="font-family:verdana;">I want a little sugar in my bowl / I want a little sweetness down in my soul</span></em></div><div align="justify"><br /><span style="font-family:verdana;">Pareces alheia à ilusão da</span><span style="font-family:verdana;"> realidade, inacessível ao engano da importância dos pormenores. Agora, no fundo do meu ser, comovido, não contenho nem um vocábulo, nem me envenenam as horas idas. Deixo-me simplesmente enredar no no vasto espaço do teu abraço, arder no derradeiro incêndio dos nossos corações. A alvura da lua faz-me ver tudo como num efeito negativo, o que era luz agora são sombras, o que estava escuro agora parece-me tão claro. Jogas o teu jogo, sentes a tua luz. Eu apenas me deixo conduzir a esse final, sem memória, sem perguntas. Tudo se desvanece.</span> </div><div align="justify"><br /><em><span style="font-family:verdana;">What’s the matter daddy? Come on, salve my soul / I need some sugar in my bowl</span></em></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-22183979227868088712007-11-17T08:58:00.000-08:002008-05-12T02:30:55.648-07:00Um luar espelhado<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/004658899_DSC562833_Bolaespejos_Glo.jpg?t=1195318711"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/004658899_DSC562833_Bolaespejos_Glo.jpg?t=1195318711" border="0" /></a> <em><span style="font-family:verdana;font-size:78%;">Fotografia de Dana.</span></em><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">Observava aquela rapariga há algum tempo. O jantar havia chegado ao fim e as pessoas já terminavam os seus digestivos, a orquestra tocava e havia pares a rodopiar na pista de dança. O formalismo do evento e os discursos tinham ficado para trás, e os antes cerimoniosos convidados riam sem parcimónia e giravam em passos arrojados, flutuando quiçá nos eflúvios etílicos do Ribera del Duero. Conhecia vagamente a rapariga, chamava-se Rosario e tinha-me sido apresentada numa outra festa ou evento. Era filha de um conhecido advogado, teria pouco mais de vinte anos, reservada e bonita, com um rosto impassível e geométrico. Levantou-se, aceitando o convite que um homem jovem lhe tinha dirigido para dançar, entregou a carteira a uma das colegas que a acompanhavam e sorriu nervosa. Caminharam até à pista, ela protegida pelo jogo de luzes que se alternavam no seu sóbrio vestido, ele com a confiança a bailar-lhe no sorriso quando a envolveu nos seus braços e começaram a girar abraçados. A orquestra tocava <em>Calle Cabildo</em>, de Edmundo Rivero, a pista estava muito composta e observei-os a dançar agarrados, aproveitando o momento para falar baixinho, intimamente como só numa dança é possível. Ao meu lado a minha atenta companhia olhava-os também e pousou a sua mão sobre a minha, os gestos podem muitas vezes ser mais expressivos do que as palavras. As costas da rapariga apoiavam-se na mão direita do seu par, a música invadia com passadas de veludo o recinto, e uma lua de espelhos girava no ar, emprestando a tudo a aura de um baile antigo. A luz ia escurecendo, os corpos encostavam-se e a orquestra avançava para outro tango, um claro desafio à expressividade dos movimentos, aceite até por aqueles que bebiam a noite envoltos numa cortina de fumo de tabaco. Da varanda, por entre o jogo de luzes, avistei a Rosario, parecia desenhar arco-íris com os seus sapatos na pista de dança, expectante sob os piropos daquela falsa lua. Num gesto de elegância hesitou, mas não virou a cara, e beijou também, fingindo saber enquanto aprendia. E a música mudava, e lá fora o fulgor de outra lua espalhava-se sobre a noite, e também eu era cingido por um abraço e havia um perfume novo no jardim.</span> </div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-83768892206116681942007-10-27T08:28:00.000-07:002008-05-12T02:31:26.885-07:00A casa dos caracóis<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/Caracoles-1.jpg?t=1193498916"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/Caracoles-1.jpg?t=1193498916" border="0" /></a> <em><span style="font-size:85%;">La casa de los caracoles. Fotografia de K.</span></em><br /><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">A Claudia afasta uma madeixa rebelde do seu cabelo castanho e acende outro cigarro. Um sorriso vitorioso assoma ao seu rosto moreno, e eu não reprimo a minha réplica da felicidade que sabia um dia iria ser realidade. As lágrimas, enfim, tornaram-se sorriso. A humildade, enfim, deu lugar ao orgulho. A tão sonhada legalização como cidadã espanhola e um contrato de trabalho decente rasgam os céus plúmbeos para a entrada em dias mais azuis. Brindamos com as nossas garrafas de cerveja e falamos dos planos para esse futuro do qual durante tanto tempo a Claudia duvidou que chegasse.<br /><em>- Eu sempre tive a certeza disto, Claudia, era uma questão de acreditares e perseverar.<br />- Não diga isso não, que eu estava já duvidando, desesperando, tanto passei...<br />- Conheces a história da casa dos caracóis?<br />- Casa dos caracóis?? Não! Que é que isso tem a ver comigo?</em><br /><br />Conta a lenda, ou pelo menos ouvi-o num bar antigo, que no final do século XIX chegou a Barcelona um lavrador do interior de Espanha disposto a procurar uma vida melhor. Conseguiu um trabalho, duro e com um salário paupérrimo, com o qual mal conseguia manter-se. Como não cobrava o suficiente para pagar uma renda, habitava uma passagem entre dois edifícios que estavam em construção, perto da zona que é hoje Hostafrancs. No Inverno passava fome e frio, e como enviava quase todo o seu parco salário à família, sobrevivia cozinhando ervas e apanhando o que podia do lixo, e comendo caracóis. Numa noite glacial, desesperado, nem um caracol encontrava para levar à boca e resolveu escavar na terra em busca de raízes de plantas ou algo. Ao fim de pouco tempo a revolver a terra bateu em algo duro, e não eram raízes de nenhuma árvore, mas sim um cofre com moedas de ouro. Como a fortuna lhe sorriu, comprou os dois edifícios que estavam a ser construídos, entre a passagem onde tinha vivido como um vagabundo. Em memória do que tinha passado, e para agradecer aos caracóis que tantas vezes o tinham salvado na miséria, mandou esculpir como adorno das enormes varandas das fachadas dois gigantescos caracóis. Trouxe toda a sua família para Barcelona e os edifícios ainda existem nesse mesmo sítio, com os dois caracóis enormes nas varandas, como que afirmando ainda hoje: podes começar do nada e, sem te dares conta, chegar ao cimo.<br /><br /><em>- É bonito... Pena eu não ter moedas de ouro não...<br />- As moedas de ouro são um pormenor. O que conta na lenda não é como a fortuna sorriu ao vagabundo. O que importa mesmo é o que ele fez da sua sorte quando ela lhe sorriu.</em></span> </div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-51324911125563598632007-10-20T06:42:00.000-07:002007-10-20T06:52:35.702-07:00A noite tinha caído<a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/0001495312528_806f4220_Ciutadella.jpg?t=1192887967"><span style="font-family:verdana;"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/0001495312528_806f4220_Ciutadella.jpg?t=1192887967" border="0" /></span></a><span style="font-family:verdana;"></span><span style="font-size:78%;"><em><span style="font-family:verdana;"> Parc de la Ciutadella. Fotografia de K. Tratamento de A.C.</span><br /></em></span><br /><br /><div align="justify"><span style="font-family:verdana;">A noite tinha caído e eu passeava nas cercanias do parque junto ao mar. Na escuridão não estava realmente escuro por completo, das janelas iluminadas dos prédios longínquos vinha um pálido resplendor. Caminhava sobre a relva, sentindo os sapatos afundarem-se um pouco naquele verde escuro, e enquanto pensava em tantas coisas dirigia o olhar para o alto, para ver se o céu estava sereno. Recordações dos que já partiram para sempre vieram ter comigo. Tantas vezes sonhei com essas ausências, e lembro-me de perguntar no silêncio da noite: dormes? Eu acordava e ficava quieto, sentado na cama, sozinho no escuro, mas ninguém nunca respondia. Dormiriam, mas longe, muito longe de mim, debaixo da terra escura de outro país e talvez com os anos já ninguém se lembrasse deles, nem ninguém lhes levasse flores. Lembrava-me de dizer os seus nomes em voz alta, de chamar por eles, Daniela, Marta, João, Filipe, Isabel, Nuno, de chamar pelos que cresceram comigo, pelos que conheci quando era criança, pelos que dançaram comigo. Mas ninguém respondia. Nenhum dos que comigo partilharam verdades, dos que comigo descobriram o mundo, a música e os livros, o amor e as coisas mais belas. Nessa noite quis também chamá-los outra vez, gritar os seus nomes e romper a espessa cortina de breu que me apertava, mas apenas um fio de voz saía da minha garganta. Ao longe parecia ouvir-se uma voz que respondia num sussurro, mas talvez fosse só um qualquer som nocturno, o rumor do mar ou a brisa nas árvores do parque. Talvez fosse assim, mas continuo a chamar os seus nomes. Nos momentos em que vem até mim a memória dos amigos, os pedaços da minha vida que me foram cruelmente arrancados, nesses momentos em que tantas coisas dolorosas se agitam dentro de mim e eu fico assim, desamparado na vida como uma criança assustada, chamo os seus nomes. Nunca ninguém responde, mas ainda assim eu lembro-me deles.</span></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-47154957103895749502007-10-09T11:19:00.000-07:002007-12-20T16:41:49.673-08:004 Gats<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/000122895542_bfb9f3b3e8_4Gats.jpg?t=1191954217"><img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px;" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/000122895542_bfb9f3b3e8_4Gats.jpg?t=1191954217" alt="" border="0" /></a> <span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;"> Els Quatre Gats. Fotografia de K.</span></span><br /><br /><p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;font-family:verdana;"><span style="line-height: 150%;font-size:100%;" lang="PT" >Eu, o Julian, o Andrés e o Joaquín trabalhámos juntos em Madrid, há anos atrás, quando andávamos todos pelos vinte e cinco anos. A semana passada reencontrámo-nos os quatro, após anos de aventuras separadas, no <i style="">Els Quatre Gats</i>, no Bairro Gótico de Barcelona. Comemos bem, mas o mais importante foi o riso, os risos que não riam juntos há tanto tempo. Todas as épocas da vida vêm e vão, agora não parecia ter sido há tanto tempo aquele Fevereiro de 2001 em que formámos uma equipa fora de série. Mais cabelos brancos, mais responsabilidades, cada um tentando descobrir no outro vestígios da alegria das vidas que partilhávamos. No restaurante pairava aquele misticismo outonal de Barcelona, sublinhado pelos traços neo-góticos daquele edifício do final do século XIX. Entre as garrafas de vinho foram surgindo os laços que um dia nos uniram para sempre, foi nascendo a magia do reencontro, aquela cálida sensação de voltar a casa, ainda que a casa sejam três estarolas madrilenos. <o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;font-family:verdana;"><span style="line-height: 150%;font-size:100%;" lang="PT" >Em 1894 um empregado de mesa do <i style="">Le Chat Noir</i> de Paris regressa a Barcelona com a ilusão de abrir um sítio semelhante, uma taberna onde se pudesse comer e beber barato. Dizem que baptizou o local como <i style="">Els Quatre Gats</i> porque naquela zona não passava ninguém, e pensou “aqui com sorte vão entrar quatro gatos”. Éramos nós, ali naquela mesa do canto. Quatro gatos com cinco garrafas de vinho, lambendo recordações nas vielas do passado e miando de felicidade por poder fazê-lo. <o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"><span style="line-height: 150%;font-family:Verdana;font-size:10;" lang="PT" ><span style="font-size:100%;"><span style="font-family:verdana;">O </span><i style="font-family: verdana;">Els Quatre Gats</i><span style="font-family:verdana;"> durou apenas meia dúzia de anos no virar do século,</span></span> <span style="font-size:100%;"><span style="font-family:verdana;">anos de esplendor ligados à boémia, à cultura e à mais vanguardista arte. Depois esteve fechado muito anos e quando abriu tentaram conservar o mesmo ambiente de fim de século e manter a essência do que representou a excelência da alma dos personagens que lhe deram vida. Naquela noite certamente não se aproximou disso, mas reinou ali um ambiente de cúmplice e tranquila festa, confirmado inclusivé pelos traços de bonomia nos sorrisos dos </span><i style="font-family: verdana;">camareros</i>. Não sei se foi na delícia do vinho que o vi, ou talvez nos três sorrisos diante de mim, mas a amizade era um milagre compartido, aqueles quatro gatos cantavam e tocavam com os talheres e os copos, celebrando o seu reencontro, bendizendo o seu acto, como que miando: que eflúvio de alegria nos permitimos.</span> </span></p><span style="font-size:100%;"><span style=";font-family:Verdana;font-size:10;" lang="PT" ></span></span>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-5729855113683133532007-10-06T10:14:00.000-07:002008-05-12T02:34:42.778-07:00Despedida em Agosto<div align="justify"><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/451126191_d8ff6556d8.jpg?t=1191690838"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: pointer; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/451126191_d8ff6556d8.jpg?t=1191690838" border="0" /></a><span style="FONT-STYLE: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >S. Pedro de Moel. Fotografia de S.M.</span><br /><span style="font-family:verdana;font-size:100%;"><br /><span style="font-family:verdana;">A praia secreta estava escondida para lá do farol, e a descida era íngreme e demorada. O mar parecia maior do que o normal, talvez porque daquela perspectiva o mundo parecia suspenso entre o areal e o céu. A cor do mar era um azul incandescente e o vento trazia o odor da rama dos pinheiros até nós. Um bando de gaivotas passava ao longe, e os seus gritos ecoaram naquele espaço que parecia uma catedral de rocha, mar e luz. A água era cristalina e na maré baixa via-se cada grão de areia dourada sob a sua superfície. O cheiro a maresia era intenso, uma brisa com sabor a sal percorria a costa e ouvi as palavras que fugiam da boca da Isabel, acompanhando o seu olhar perdido no horizonte: <i>este é o meu lugar favorito no mundo. </i></span></span></div><div align="justify"><em><span style="font-family:Verdana;"></span></em> </div><div align="justify"> </div><div align="justify"><em><span style="font-family:Verdana;"></span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-family:Verdana;"></span></em></div><div align="justify"></div><div align="justify"><span style="font-family:verdana;font-size:100%;">Tínhamos dezassete anos e desde sempre fazíamos férias em S. Pedro de Moel. Olhei para ela, reflectia toda a beleza e alva esperança daquele dia. Levava um vestido branco e leve sobre o bikini, que o vento moldava ao seu corpo. O cabelo cor de feno ondulava ao vento e os seus olhos castanhos com matizes de mel pousaram sobre os meus antes de me sorrir. A Isabel tinha o sorriso mais bonito do mundo. Fizemos o <i>picnic </i>sem mais companhia na praia, nadámos com braçadas enérgicas na água gelada e dourámo-nos sob o sol quente daquela praia silenciosa, que parecia jurar-nos que nunca revelaria a ninguém o segredo daquele dia. </span></div><p align="justify" style="font-family:verdana;"><span style="font-size:100%;"><span style="font-family:verdana;">O ocaso anunciava a hora de regressar a nossas casas, e perguntei à Isabel quantos dias assim nos reservaria a vida. Uma tristeza bailou nos seus olhos cálidos, uma premonição ou uma certeza que a juventude não me permitiu detectar. Os nossos passos pareciam não deixar pegadas na areia, mas sim rastos de esquecimento, como se fossem um modo de dizer silencioso. Caminhávamos abraçados, e cada coisa parecia saída da eternidade, o futuro era tão grande como uma data remota. <i>Não esqueças nunca este dia. </i></span></span></p><p align="justify" style="font-family:verdana;"><span style="font-family:verdana;font-size:100%;">Aquela praia da minha juventude já não existe. A erosão da costa nos últimos quinze anos e algumas derrocadas transformaram-na num reduto inacessível, o areal e a luz desapareceram para sempre e agora vivem apenas na recordação de quem ali passou. Há muitos anos que não vou lá, como se temesse que o regresso àquele sítio fizesse evaporar definitivamente a minha juventude. Quando me despedi da Isabel naquele Agosto não sabia que seria para sempre. Aos dezassete anos há notícias que não se esperam, e à medida que fui crescendo sempre voltei àquele dia na praia para afastar as sombras do passado. Não esqueço nunca aquele dia. A minha memória é também a da Isabel, e estas palavras testemunhos da luz que invadia as nossas vidas. Não sei se serão fieis ao que vivemos ou apenas ecos da saudade, porque as certezas partiram todas contigo, Isabel.</span></p><span style="font-family:verdana;"><p style="FONT-FAMILY: verdana" align="justify"><br /></p></span><p align="justify" style="font-family:verdana;"><span style="font-size:100%;"><span style="font-size:85%;"><span style="font-family:verdana;">Texto escrito para e publicado originalmente no </span><a href="http://sempenisneminveja.weblog.com.pt/"><span style="font-family:verdana;">Sem Pénis Nem Inveja</span></a></span><span style="font-family:verdana;"> </span><br /></span></p>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-8885011807669026310.post-87089938953133155252007-09-29T08:39:00.000-07:002007-10-06T10:21:28.316-07:00Um<div align="justify"><span style="font-size:85%;"></span><a href="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/168018077_8c915bc555.jpg?t=1191080376"><img style="margin: 0px auto 10px; display: block; width: 320px; text-align: center;" alt="" src="http://img.photobucket.com/albums/v619/katraponga/168018077_8c915bc555.jpg?t=1191080376" border="0" /></a> <em style="font-family: verdana;"><span style="font-size:85%;">Bar Marsella, Barcelona. Fotografia de K.</span></em><br /><br /><br /><span style="font-family: verdana;">Na rua, a brisa vinha suav</span><span style="font-family: verdana;font-size:100%;" >e de leste.</span><span style="font-family: verdana;"> O odor era pestilento, o habitual naquele cruzamento da Calle Robadors com a Sant Pau e as vozes das putas, </span><em style="font-family: verdana;">dealers</em><span style="font-family: verdana;"> e chulos de terceira categoria passavam como uma revoada por nós. Abraçei a Dana com mais força e senti o aroma inconfundível do absinto desprender-se dos nossos lábios. Conseguia detectar, no meio de toda a vileza daquela rua, o cheiro do Outono, o cheiro de um Outono incendiado, que ardia também no meu coração. Senti umas mãos suaves, uma presença, um corpo que se cingia ao meu, o suave roçar daqueles cabelos negros, muito curtos, e do </span><em style="font-family: verdana;">piercing</em><span style="font-family: verdana;"> metálico na minha pele. Um corpo que me dizia que já tinha chegado o Outono, e fazia nascer em mim as formas embriagadas dos sonhos, dos desejos e da temperança. Éramos um só corpo, com olhos verdes e azuis, mediterrânico e nórdico, homem e mulher, éramos violinos intocados que esperavam o Outono para soltar a sua música, éramos ossos e carne, éramos vértebras delicadas e sombras esguias, éramos lábios que buscavam lábios, mãos que sonhavam abraços. Ali, naquela ruela das putas, do absinto, dos pobres, dos marginais, dos órfãos de Gaudí, senti a amena felicidade das tardes ocres que passavam, havia algo que talvez nunca chegasse a saber o que era no ar, algo que caía do céu e parecia tocar apenas os nossos corpos.</span></div>K.http://www.blogger.com/profile/06342833880187127303noreply@blogger.com