tag:blogger.com,1999:blog-82673885926208973522008-12-04T15:17:27.965ZMeditação na PastelariaAna Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.comBlogger599125tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-21667523911265490732008-12-04T03:25:00.010Z2008-12-04T12:46:47.166ZPorque o prometido é devido: da vez em que estava a gamar matrículas<div align="justify"><a href="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STdOUia2dpI/AAAAAAAABvA/MyrZYWnvN_M/s1600-h/carro.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5275771603231602322" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 318px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STdOUia2dpI/AAAAAAAABvA/MyrZYWnvN_M/s400/carro.jpg" border="0" /></a>Encontrava-me eu uma noite muito sossegadinha de rabo para o ar a tentar desaparafusar uma matrícula quando o meu ângulo de visão – rasteiro – se viu invadido por um par de sapatos que lenta, silenciosa e resolutamente se aproximava de mim sem margem para erro. Com a respiração, os movimentos e a chave de fendas suspensas, deixei-me ficar assim, feita estátua de sal. Não sei se por ter enxergado que as meias do portador dos sapatos eram cada uma de sua cor ou se do incómodo da posição, o certo é que algo me trouxe de volta à vida. Dei por mim erguendo-me em slow motion enquanto atirava também sem pressa e sem barulho o material de trabalho para dentro do saco que apanhara do chão e abraçava agora dramaticamente junto ao peito como se ele me protegesse do frio que não fazia. Os sapatos estacaram a dois metros e o meu olhar tímido não ultrapassara ainda a linha dos joelhos da figura que se erguia imóvel à minha frente quando uma voz me obrigou a reconhecer que estava definitivamente lixada. A voz, trémula, dizia assim: «Quietinha, senão disparo!»<br />Se a voz tremia, o mesmo se diga da mão, acometida de tosse convulsa: subia e descia em espasmos irregulares, e ora fazia mira aos meus olhos ora me visava o estômago. Enquanto isso, o guarda-nocturno – porque de um guarda-nocturno se tratava – não parava de me ameaçar: «Se te mexes, disparo!» Devo ter ido buscar sangue-frio às histórias de partisans que consumia então com ferrenha militância no escurinho do Palácio Foz: «Calma homem! Veja lá se tem calma senão isso dispara mesmo!» Atrás de nós, sobre o que teria sido um terreno agrícola, achava-se agora o corpo descarnado de uma obra. Pedras, tijolo, ferros retorcidos e paredes inacabadas que me pareciam o local ideal para despejar o material de trabalho. E enquanto estávamos para ali os dois, eu abraçada ao saco, ele escorado ao revólver, passou uma motorizada que o guarda-nocturno fez parar com grande determinação, dando indicações ao motard para que fosse chamar a polícia. Não havia telemóveis.<br />Aproveitei o interregno para dizer que tinha de fazer chichi. O motard, se já estava baralhado, mais baralhado ficou: «O senhor está-me a deixar nervosa com a arma! Vou fazer chichi e já venho!» E fui. Em vez disso esvaziei o saco dos aprestos comprometedores, conservei os documentos e a bolsa de maquilhagem, e voltei. Não tinha por onde fugir e ser baleada não fazia parte dos planos.<br />Passado algum tempo chegou, em linguagem de época, o nívea da bófia. «Então, o que é que se passa aqui?», perguntou a autoridade naquele seu modo clássico habitual. Cada um de nós deu a sua versão dos acontecimentos. Eu, que ia descansada para casa quando um louco me saltara ao caminho com uma arma na mão ameaçando-me de morte (era quase tudo verdade). Ele, que ia descansado na ronda quando dera de caras com uma meliante que andava por ali a desaparafusar matrículas (também não era tudo mentira). Entrei no carro da polícia para ser conduzida à esquadra. Comecei a ver a vida a andar para trás, seja o que for que isso queira dizer, mas pelo caminho um dos polícias confortou-me: «Não se preocupe, não é a primeira vez que temos chatices com o velho. Com a idade ficou um pouco destrambelhado...».<br />Estava eu sentada na esquadra pronta para assinar uns papéis e ir dormir – e até me tinham perguntado se quereria tomar algo – quando deu entrada de rompante o meu opositor. Mal me viu, colocou shakesperianamente o dedo em riste e disse: «E ela foi despejar o material na obra... De certeza!» Era dos duros.<br />Regressaram à obra – e ao partir um dos polícias pediu-me desculpa pelo incómodo acrescido – e voltaram, azar dos Távoras, com os meus despojos. Fui revistada por uma mulher polícia que já não foi assim tão simpática e interrogada por um outro que me chamou mentirosa. Não gostei, até porque mentirosa é coisa que não sou mesmo, e foi depois disso que eu, recorrendo de novo ao meu imaginário cinéfilo, disse que tinha direito a um telefonema e que queria telefonar para casa. Telefonei à minha mãe e pouco depois ela aparecia. Esbaforida. Como eu era menor, antes de nos virmos embora levou uma descompostura do chefe. Depois deu-me ela uma descompostura durante o pequeno-almoço que com aquilo tudo já eram horas. Desde esse dia nunca mais gamei matrículas, nem para a causa nem por conta própria. Mas também vos digo, e isto pensei-o logo: aquele guarda-nocturno era um perigo e um dia ainda matava alguém. </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-10821851463248115812008-12-03T13:21:00.007Z2008-12-03T13:52:48.315ZFoi debaixo do vulcão que Lowry concluiu que no se puede vivir sin amar<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/-VVICG1L2Ws&color1=0xb1b1b1&color2=0xcfcfcf&feature=player_embedded&fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/-VVICG1L2Ws&color1=0xb1b1b1&color2=0xcfcfcf&feature=player_embedded&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /><strong>Agustín Lara, <em>Noche de ronda</em></strong><br /><br /><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/UcLweZ4hHOw&hl=pt-br&fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/UcLweZ4hHOw&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /><strong>Agustín Lara, <em>Arrancame la vida</em></strong><br /><br /><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/jo_edUrXJzo&hl=pt-br&fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/jo_edUrXJzo&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /><strong>Agustín Lara, <em>Piensa en mí</em> </strong><br /><br /><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/96NzAzGIWoI&hl=pt-br&fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/96NzAzGIWoI&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /><strong>Agustín Lara, <em>Solamente una vez</em></strong>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com10tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-14171143061840654692008-12-03T00:23:00.012Z2008-12-03T12:06:07.429ZNão podia deixar passar em branco a anedota mais seca do ano face à qual a nossa Manuela Ferreira Leite devia ser nomeada a rainha da comédia<div align="justify"><a href="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STXX3zao6ZI/AAAAAAAABu4/V9rh5-MLMZw/s1600-h/Iraque.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5275359892229122450" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 329px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STXX3zao6ZI/AAAAAAAABu4/V9rh5-MLMZw/s400/Iraque.jpg" border="0" /></a><a href="http://www.guardian.co.uk/world/2008/dec/02/george-bush-iraq-interview">Iraq war my biggest regret, </a>admitiu o Bush Júnior, a umas semanas de se pirar da Casa Branca. E a anedota só não tem mesmo graça por causa <a href="http://www.iraqbodycount.org/">disto</a>.*</div><div align="justify"><em><span style="font-size:85%;">* Infelizmente, os números que se exibem na imagem estão muito desactualizados; no momento em que publico este post já foram substituídos pela variável 89, 544 - 97, 762</span></em></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-47066306116632941712008-12-02T00:30:00.009Z2008-12-02T11:14:35.999ZE foi ele de Galveias ao México... (também pode ser o caso de ter bebido mescal marado mas acho pouco provável)<div align="center"><a href="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STSLMEpXcUI/AAAAAAAABuw/-jCtgvHlp7s/s1600-h/tequila+1.bmp"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5274994103079629122" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; CURSOR: hand; HEIGHT: 351px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STSLMEpXcUI/AAAAAAAABuw/-jCtgvHlp7s/s400/tequila+1.bmp" border="0" /></a></div><div align="center"><strong>Da série embirrações assumidas II</strong> </div><div align="justify"></div><div align="justify">Seguindo uma lebre levantada pela <a href="http://orostodaspaginas.blogspot.com/">Ana</a>, fui espreitar o <a href="http://bravonline.abril.ig.com.br/blog/joseluispeixoto/">blog</a> daquele cujo nome evito pronunciar. Foi lá que encontrei estas pérolas.</div><div align="justify"></div><div align="justify"></div><div align="center">«ALGUMAS COISAS QUE APRENDI ONTEM SOBRE O MÉXICO»</div><div align="justify">«Os emos no México são lindos. Existem em toda a parte e falam com voz muito frágil enquanto levam a mão à testa para quase afastar a franja. Há emos adultos. Nunca tive nada contra emos, agora tenho ainda menos. Além disso, aqui até há manifestações de emos, de que já ouvi falar bastante (...).*</div><div align="justify">«Nas estações de metro e nas carruagens de metro, há zonas onde só é permitida a entrada a mulheres e a crianças. Na estação, essas zonas estão separadas por um muro transparente. De um lado, só existem mulheres e crianças, do outro estão os homens, algumas mulheres e algumas crianças.»</div><div align="justify"><em><span style="font-size:85%;">*Sobre emos, eu, proprietária da Pastelaria, </span><a href="http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL366070-7085,00.html"><span style="font-size:85%;">aconselho vivamente a leitura desta notícia </span></a><span style="font-size:85%;">que dá conta de confrontos entre emos, por um lado, punks, darks e góticos por outro, com os hare krishnas no meio.</span></em></div><div align="justify"></div><div align="justify"><em></em></div><div align="center"><strong>E JÁ AGORA UM BOCADINHO DO MEU MÉXICO*</strong></div><p align="justify"><object height="344" width="425"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/-0Ck3SXspWc&hl=pt-br&fs=1"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/-0Ck3SXspWc&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p><p align="justify"><strong>Chavela Vargas, <em>Quisiera amarte menos</em></strong></p><p align="justify">*que o <a href="http://jabaptista.com/">José Agostinho Baptista </a>me fez conhecer há muitos anos, numa época em que ainda não havia emos nem pérolas peixoteiras</p>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com8tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-85476100193405339822008-11-30T00:35:00.017Z2008-11-30T17:30:14.706ZContinuação das memórias na alcova: da vez em que a minha mãe foi jantar à António Maria Cardoso e conheceu o Sacchetti<div align="justify"><a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STHnVxHynzI/AAAAAAAABug/EGdtdttIpK0/s1600-h/champagne_party.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5274250999776845618" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; CURSOR: hand; HEIGHT: 338px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STHnVxHynzI/AAAAAAAABug/EGdtdttIpK0/s400/champagne_party.jpg" border="0" /></a>Em minha casa foi tudo preso pelo menos uma vez. A qualidade das estadias na cadeia variou muito, com o meu pai a bater o recorde de mais ou menos três anos entre os Fortes de Caxias e Peniche – o de Peniche, consideravelmente mais húmido.<br />A história que quero contar diz respeito à minha mãe.<br />A minha mãe foi levada para onde andam agora a construir um condomínio de luxo com vista, ouvi dizer, sobre um marco de suplícios, em dia muito fácil de fixar. Foi no dia em que o Oliveira bateu asas e voou, apesar de na altura a Coca-Cola estar proibida e ninguém ainda ter inventado o Red Bull. A minha mãe trabalhava então numa editora anti-regime, a «Seara Nova», que depois do 25 de Abril a ânsia pelo poder (absoluto) do PCP havia de levar à falência. Oficialmente, ninguém sabia que o ditador já tinha ido para os anjinhos. Mas a malta não era parva e também tinha informadores. Alguém chegou à «Seara...» com a notícia fresquinha, testemunhada em presença pela equipa que tratava Salazar desde que ele falhara a cadeira. Transposto o cepticismo que o homem parecia eterno, bateram-se palmas e gritou-se Hurra! Hurra! (esta parte do Hurra! Hurra! sou eu agora a inventar). A minha mãe dirigiu-se ao telefone e telefonou ao meu pai (que já não era hóspede em Peniche): «Prepara uma garrafa de champanhe, hoje temos que comemorar!». No meio da excitação, uma colega, quase tropeçando nos fios, arranca-lhe o bocal do ouvido e acrescenta: «Acabaram as filmagens do “Solar das Oliveiras”. À noite há festa!». E pronto, o meu pai correu à Baixa a comprar uma gravata vermelha. Não chegou a haver arraial. Passado pouco mais de meia hora, a «Seara...» é invadida por agentes da polícia política que solicitam – sem grandes faz favor ou por obséquio – que a minha mãe e a amiga os acompanhem à sede. Os nomes coincidiam rigorosamente com as vozes sob escuta, e acabam as duas nas instalações da PIDE ao Chiado. Verdade seja dita que lhes serviram jantar. A minha mãe, sempre desconfiada, recusou educadamente o repasto «não fosse aquilo ter para lá alguma droga!». A amiga, alentejana folgazona que hoje seria catalogada de obesa, comeu e apenas não repetiu porque não quis abusar de tamanha hospitalidade. A minha mãe trejurou um evento sentimental para justificar o champanhe. A amiga disse que sofria de amnésia e que não se lembrava sequer da última vez que tinha ido ao cinema. Entretanto a minha mãe devia estar já com uma fome dos diabos, e foi quando deu entrada em cena o sempre impecável subdirector Sacchetti (ainda vivinho da costa, pelo menos na Primavera estava, e com <a href="http://www.pbi.pai.pt/search/josé-b-ferraz-sacchetti.html">contactos telefónicos </a>à distância de um só clique) que se lhe dirigiu com a costumada eloquência: «A senhora não tem vergonha! Ainda agora saiu de cá o marido e nem isso lhe serviu de lição!». Agit-prop e lições de moral à parte, quem lhes passou a carta de alforria foi ele, não sem antes invocar repetidamente o sagrado nome do falecido, esse «grande homem de quem já sentimos saudades!».<br />À porta da António Maria Cardoso esperava-as o meu pai, um pequeno saco na mão. Dentro não havia champanhe. Convencido que a madrugada seria longa para a mulher, juntara à pressa algumas mudas de roupa e julgo que uma escova de dentes. Usava a gravata vermelha, o que a minha mãe considerou certamente um repto desnecessário. Depois a amiga disse que nem se comera assim tão mal e foram comemorar na mesma. Isto agora contado tem graça mas na altura imagino. </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com9tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-88712075187486787942008-11-29T00:14:00.003Z2008-11-29T00:23:27.656ZConfessando a minha costela romântica (que também a tenho): que rapariga consegue resistir a isto?<object height="344" width="425"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/7t3yjTTJFNI&hl=en&fs=1"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/7t3yjTTJFNI&hl=en&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /><strong>Frank Sinatra, <em>Fly Me To The Moon</em></strong>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-74214674835527880862008-11-28T10:21:00.017Z2008-11-28T15:16:06.940ZA prova que um bom escritor também pode ser um idiota<div align="justify"><a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS_UMzGwYsI/AAAAAAAABuI/C6NOYihcD98/s1600-h/borges.bmp"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273667005016203970" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: hand; HEIGHT: 357px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS_UMzGwYsI/AAAAAAAABuI/C6NOYihcD98/s400/borges.bmp" border="0" /></a>Se me perguntassem por nomes de escritores, Jorge Luis Borges estaria entre os primeiros. Lembro-me, aliás, de abandonar a conferência que ele deu há uns anos na Faculdade de Letras, incomodada até ao vómito com a feira de vaidosos que, tomando a palavra para simular perguntas, esqueciam que tinham pela frente um génio (e eu não sou nada de ver génios a cada esquina...). Lembro-me também de uma entrevista brilhante que lhe foi feita pela Lourdes Féria, salvo erro para o <em>Diário de Lisboa</em>, e lembro-me dela me contar os meandros da conversa.<br />Lourdes Féria tinha ido a Madrid entrevistar Mick Jagger. Acontece que os Rolling Stones se tinham fechado em copas. Por uma daquelas coincidências que nem a Vila-Matas ocorreria, Lourdes soube que Borges estava hospedado no mesmo hotel do que ela. Foi tentar a sorte e bateu-lhe à porta. E Borges falou. Sobre tudo. Até sobre os Rolling Stones.<br /><br /><a href="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS_UXhrTNBI/AAAAAAAABuQ/oLXF8Lchtz8/s1600-h/naipaul.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273667189316203538" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 277px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS_UXhrTNBI/AAAAAAAABuQ/oLXF8Lchtz8/s400/naipaul.jpg" border="0" /></a>Lembrei-me disto a propósito destas declarações de V. S. Naipaul (de quem foi há pouco publicada uma <a href="http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1351211&idCanal=14">biografia</a>). Disse ele sobre o escritor argentino: <a href="http://sem-se-ver.blogspot.com/2008/11/uma-questo-pessoal.html"><em>Não sou nada como Borges. Acho que Borges é um escritor muito limitado (...). E era cego, claro. Eu não sou cego. Faz uma grande diferença, porque o homem cego vive internamente, enquanto eu sempre vivi com o mundo que vejo, que conheço</em> </a>(o que me recordou uma entrevista que fiz ao Luís Sepúlveda onde o chileno afirmou, do alto da sua mediocridade, que afinal Borges não merecia o Nobel porque escrevia sempre o mesmo livro). </div><div align="justify">Agora se me encostassem uma pistola à cabeça e me obrigassem a escolher ― ou o mundo sado-masoquista de um ou o imaginário luminoso do outro ― eu sei bem o que escolheria. A Borges, o cego, bastava-lhe ter escrito estes versos. Definitivos.<br /><em><strong>Yo, que tantos hombres he sido/ no he sido nunca/ aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach.</strong></em> </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com16tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-26678050384321705762008-11-27T00:29:00.022Z2008-11-29T17:43:07.284ZEm louvor das modas & bordados: porque há outros assuntos menos fúteis do que a política que também merecem o meu interese<div align="justify"><a href="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS32xiV9RXI/AAAAAAAABtY/wROnEhbUzKA/s1600-h/colagem+moda.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273142069613643122" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS32xiV9RXI/AAAAAAAABtY/wROnEhbUzKA/s400/colagem+moda.jpg" border="0" /></a><strong>A ex-comunista Miuccia Prada</strong> foi absolutamente franca acerca do assunto: <em>Não acredito em pessoas que dizem que roupa não é importante.</em> Perante este quase jacobinismo, e ainda que certos argumentos de autoridade possuam a solidez de uma casca de banana, não resisto a invocar em defesa da signora Prada a arte certeira de Twain: <em>Clothes make the man. Naked people have little or no influence in society</em>.<br />Pretende o anterior parágrafo introduzir o tema. E o tema é: será a moda um capítulo essencial da ditadura imagética? Para tentar responder, três interrogações prévias en passant. <strong>O que é moda? O que é ditadura? O que é imagem?<br />Segundo a proverbial definição de Jean Cocteau,</strong> <em>la mode, c’est ce qui se démode</em>, o que concorda em absoluto com a máxima de Coco Chanel: <em>A moda passa, o estilo permanece</em>. O que é ditadura? Essa parece fácil. Mais coisa menos coisa, resume-se a um quadro de pensamento único (segundo os seus acólitos tendencialmente ad aeternum…) em que alguém manda e eu obedeço. Imagem? Conceito de contornos menos claros, talvez nos baste entendê-la como a representação visual de um objecto ou de uma ideia.<br /><strong>Chegados aqui, estrebucha um pouco o juízo de que a moda serve a ditadura da imagem.</strong> Desde logo, porque aquela é na essência efémera e toda e qualquer ditadura anseia por imitar a Toyota: <em>Vem para Ficar</em> (cito um slogan português de 1969 que gozou de considerável sucesso ― a prova é que até eu me lembro dele). Depois, porque as imagens de moda são cada vez mais plurais; fenómeno que tem, aliás, fácil justificação: se há algo que não casa com a moda é o modelo uniforme, que sucede ser o fardamento dilecto dos ditadores das mais variadas tendências. Ou como colateralmente se escreve em <strong>História da Beleza</strong>, obra colectiva dirigida por Umberto Eco: <em>Os media já não apresentam um ideal único de beleza. Os meios de comunicação tanto propõem a opulência de Mae West como a graça anoréxica das últimas modelos; a beleza negra de Naomi Campbell e a nórdica de Claudia Schiffer; a mulher fatal e a rapariga frágil ao estilo de Julia Roberts. O nosso viajante do futuro já não poderá diferenciar o ideal estético difundido pelos media. Será obrigado a render-se perante a orgia de tolerância, de sincretismo total, de absoluto e irrefreável politeísmo (…).</em> <strong>De onde virá, então, a crença generalizada de que a moda é um factor de opressão?<br /></strong><br /><a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS385ugPSMI/AAAAAAAABtg/YpSofhtN2X4/s1600-h/colagemMODA2.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273148807386712258" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS385ugPSMI/AAAAAAAABtg/YpSofhtN2X4/s400/colagemMODA2.jpg" border="0" /></a><strong> Vou dar um exemplo. A minha tia Raquel, uma leiga em semiótica que intuitivamente sabia como um vestido pode significar muitas coisas,</strong> tinha a opinião que se segue: <em>Quem quer ser bonito deixa-se esfolar!</em> Escusado será dizer que cuidava da aparência com apuro hollywoodesco e que, tão-pouco dada às letras, teria subscrito, voluntária, a desafectação confessa de Clarice Lispector: <em>Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios</em>. Seriam, tanto a tia Raquel como a conceituada escritora, fashion victims avant la lettre? Porque é nisso, afinal, que todos estão a pensar quando falam de ditadura da imagem relacionando-a com moda.<br />Claro que «ditadura da imagem» é tecedura provida de muito mais elasticidade. Tanto pode compreender os manuais escolares (polvilhados de «bonecos») como a anorexia nervosa (disfunção alimentar grave que define um quadro neurótico, e cuja origem tem vindo a ser imputada, com alguma ligeireza, aos modelos em passerelle); tanto abarca as entorses televisivas (a virtualidade do meio a substituir-se ao real) como a manipulação publicitária (produtos fetiche causa de (in)satisfação narcísica), como, como…<br /><strong>Afinal, num mundo saturado de signos</strong> que vertiginosamente se auto-reproduzem, gerando um efeito de hiper-realidade, talvez seja difícil, senão mesmo impossível, escaparmos às imagens e às suas representações simbólicas (mas, ainda agora, a crise financeira veio provar que uma hipoteca não deixa de ser uma hipoteca só porque alguém a mascara sob títulos nobiliárquicos como «Structured Investment Vehicles»/SIV). Mal comparado: um vestido comprado numa grande superfície não passa a ser Alber Elbaz só por lembrar vagamente um desenho da Lanvin.<br /><br /><a href="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS39pKty1FI/AAAAAAAABto/AqtzhR0hy3A/s1600-h/modalanvin.bmp"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273149622413612114" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS39pKty1FI/AAAAAAAABto/AqtzhR0hy3A/s400/modalanvin.bmp" border="0" /></a><strong>Voltando às fashion victim e à tia.</strong> No caso dela, pelo seguinte. A todos os partidários de que a actual ditadura imagética engendra mulheres supliciadas por saltos-agulha funâmbulos, pinças contorcionadas, escovas de rímel cerdosas, escalpes faciais sanguíneos ou jejuns sacrificatórios, apenas vos digo isto: haviam de a ter conhecido! Carradas de limão nos olhos para lhes puxar o brilho. Pastos sebosos na cara. Cabelos engomados a quente. Soutiens armadilhados. Depilação nauseante. Cintas asmáticas. Receitas cabalísticas. Mezinhas encriptadas. Alguém falou n’<strong>O Jardim dos Suplícios</strong>? Octave Mirbeau não alcançaria sequer o primeiro grau maçónico se tivesse de se medir com a geração das mulheres da filha da minha avó!<br /><strong>Aqui há uns anos, o poeta Herberto Helder</strong> contava uma história que era assim: parara a carrinha de livros da Gulbenkian num descampado alentejano, quando uma camponesa se acercou da dita e se pôs a folhear os títulos. Depois de muito folhear, requisitou dois: <strong>Pode-se Modificar o Homem?</strong>, do biólogo francês Jean Rostand, e <strong>Estética</strong>, de Hegel. Surpreendido com a preferência, e embora correndo o risco de parecer snob, o livreiro motorizado perguntou-lhe o motivo da escolha. A resposta foi simples. Com o primeiro, pretendia aprender a lidar melhor com o seu homem; com o segundo, a pôr-se mais bonita para ele. Que moral podemos tirar daqui? Por um lado, que os signos, como queria Saussure, estão sujeitos à lei da arbitrariedade, por outro, que mesmo no deserto de Mário Lino as mulheres preferem estar bonitas a feias.<br /><strong>E agora pergunto eu.</strong> O que mais as favorece? Por exemplo: produtos de beleza La Mer, maquilhagem Shiseido e roupinha Hermès, ou qualquer um dos referidos itens comprados no supermercado? Se este texto não se dirigisse aos dois sexos, seria chegada a altura de interpelar as leitoras: «Minhas amigas, que não nos contem patranhas! A ditadura não é da moda. A ditadura é do dinheiro.» (ou como disse a Dolly Parton: <em>You’d be surprised how much it costs to look this cheap!</em>) Não fora isto, poucos se importariam em tornar-se fashionistas, pelo menos de vez em quando.<br /><a href="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STFi5teOVRI/AAAAAAAABuY/_-Te8D7NPlU/s1600-h/Donna+karan.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5274105382225990930" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: hand; HEIGHT: 360px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/STFi5teOVRI/AAAAAAAABuY/_-Te8D7NPlU/s400/Donna+karan.jpg" border="0" /></a><strong>O termo fashion victim tem, e com justeza, conotações pejorativas</strong>.Terá sido inventado por Oscar de La Renta para definir alguém que, desprovido de estilo e carisma, se rende acriticamente a todas as tendências, sobretudo àquelas que calcula estarem na mó de cima. A marca é tudo e quanto mais cara melhor, poderia resumir o credo das fashion victims. As quais, se quando se olham ao espelho escutam sempre uma voz pronunciando as palavras mágicas ― <em>Em todo o mundo não existe beleza maior!</em> ―, na realidade não deixam de ser o melhor álibi para o sarcasmo de Wilde: <em>A moda é algo tão intoleravelmente feio que tem de ser mudado todos os seis meses.<br /></em>Mas agora vou confessar-vos uma coisa. É verdade que na série <strong>Sexo na Cidade</strong> todo o guarda-roupa estava irrepreensivelmente correcto. Mas quem se lembra de <strong>Absolutamente Fabulosas!</strong>, talvez possa preferir a extravagância demencial de Edwina Monsoon, apesar de, como alguém escreveu, ela parecer por vezes um batido de Elton John com corneto de morango. O que nos conduz até John Galliano, o designer da Dior que em tempos confessou:<em> Simplicity is a such a bore! Sometimes the real fun is in bad taste</em>. O que, por seu turno, nos remete para uma frase de sinal contrário: <em>Gostava de ter inventado as ‘jeans’. Têm carácter, ‘sex appeal’, simplicidade ― tudo o que desejo para as minhas roupas</em>, Yves Saint Laurent.<br /><br /><a href="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS3-_d2uRZI/AAAAAAAABtw/xFM6g2kLytU/s1600-h/ysl.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273151105020085650" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 267px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS3-_d2uRZI/AAAAAAAABtw/xFM6g2kLytU/s400/ysl.jpg" border="0" /></a><strong>O parágrafo anterior reconduz-nos ao ponto de partida.</strong> Face a tanta diversidade de estilos, atitudes e tendências, será legítimo falar de uma ditadura? Será legítimo insistir em que a moda escraviza as mulheres (e, de acordo com os números de vendas, cada vez mais homens)? Fará sentido continuar a difamar uma indústria que vive de vender beleza (mesmo que a preços obscenos)?<br /><em>Não desenho roupas, desenho sonhos</em>, resumiu Ralph Lauren. E, muito antes dele, disse Jean Cocteau: <em>A arte produz coisas feias que, não raras vezes, se tornam bonitas com o tempo. A moda, ao invés, produz coisas bonitas que, com o tempo, se tornam feias</em>. Falhou apenas Cocteau em dois dados do problema. Primeiro, o apelo estético incólume de algumas peças (basta pensar em Cristóbal Balenciaga…), depois, a capacidade da moda para se reinventar a si própria (já vestimos bocas-de-sino, já abominámos bocas-de-sino, e que eu apanhe já outra constipação se, com diferentes alinhavos, não vamos voltar a usá-las!).<br /><br /><a href="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS4CkLrhTQI/AAAAAAAABuA/vx9OjYu2fOw/s1600-h/balenciaga_bg.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273155034331303170" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 369px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS4CkLrhTQI/AAAAAAAABuA/vx9OjYu2fOw/s400/balenciaga_bg.jpg" border="0" /></a><strong>Ao contrário das mulheres do tempo da tia Raquel</strong> ― e podem crer que eu não a inventei ―, essas sim, sujeitas ao espartilho da moda (mesmo se o espartilho fora abolido algumas décadas antes, no início do século XX), os consumidores de hoje transitam livremente entre códigos. Para expor a ideia de forma visual, já que uma imagem vale mais de mil palavras (provérbio oriental que até Mao Tsé-tung honrou ao deixar-se fotografar a tomar banho no rio Yang-Tsé em 1966, provando às massas, e aos opositores da Revolução Cultural, que ainda muita água passaria por baixo das pontes até ele abandonar o poder). Que semelhanças se poderão encontrar entre os estilos de Madonna (já em si mesmo plural), Gisele Bündchen, Kate Moss, Agyness Deyn, Jennifer Lopez, Sophia Coppola, Julian Moore, e etc., só para dar uns exemplos? Talvez só a que reverte desta definição da actriz Sophia Loren: <em>O vestido de uma mulher deve ser como uma cerca de arame farpado: serve o propósito mas não tapa a vista.</em><br /><strong>No actual panorama da moda,</strong> tal qual a beleza de que falava Eco, as ofertas são polimórficas e polissémicas. É verdade que não facilitam a vida ao consumidor que, quando pouco seguro, se sentirá perdido: <em>When in doubt wear red</em>, aconselhava Bill Blass, mas já a Ivone Silva subia ao palco e dizia: <em>Com um simples vestido preto eu nunca me comprometo</em>. E a dúvida fica em aberto. Coisa que seria impossível numa ditadura. </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com16tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-12824686876512984272008-11-26T12:48:00.006Z2008-11-26T13:12:22.959ZSe isto foi tudo por causa de um vulgar assédio sexual na Praça da Alegria imagine-se se eu contasse daquela vez em que gamei matrículas<div align="justify"><a href="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS1FykwCGeI/AAAAAAAABtQ/VA2tjhTSjgw/s1600-h/sitemeditacao.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5272947473881635298" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 269px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SS1FykwCGeI/AAAAAAAABtQ/VA2tjhTSjgw/s320/sitemeditacao.jpg" border="0" /></a>Ontem, por causa deste <a href="http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2008/11/recuerdos-de-uma-data-histrica-25-de.html">post</a> [quero dizer, dos links com que tão generosamente vários blogues agraciaram este post], o meu mui modesto site meter ensandeceu*. Agradecida! </div><div align="justify"><em><span style="font-size:85%;">(*não estranhem as datas; o contador está desde sempre 12 horas adiantado)</span></em></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-43343935079359488482008-11-25T00:52:00.010Z2008-11-25T23:58:47.692ZRecuerdos de uma data histórica: 25 de Novembro? 11 de Março? Who cares?<div align="justify"><a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SStT33QMOaI/AAAAAAAABsI/ApcK4QIV3mE/s1600-h/colagem+irma+la+douce.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5272400007957068194" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SStT33QMOaI/AAAAAAAABsI/ApcK4QIV3mE/s400/colagem+irma+la+douce.jpg" border="0" /></a>Queríeis conversa? Então vamos lá.<br />Lembrei-me deste incidente por causa do histórico 25 de Novembro. E por deferência aos leitores mais novos, concedo um preâmbulo.<br />Houve o 5 de Outubro, o 28 de Maio, o 25 de Abril, o 11 de Março e o 25 de Novembro. Nas duas primeiras datas ainda não era nascida e tudo o que sei foi de ouvir dizer. Do <a href="http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2008/04/pois-amanh-25-de-abril.html">25 de Abril já falei </a>e falarei noutra altura. Quanto às que restam, despindo a coisa de atavios, era mais ou menos assim: no 11 de Março os cabrões do PCP não tomaram o poder por pouco; no 25 de Novembro os cabrões dos reaças tomaram o poder e pronto. Apesar das eventuais divergências quanto a este meu apanhado, o que interessa é que, em ambos os dias, as hostes fervilhavam.<br />A história que vos conto, julgo ter tido lugar no 25 de Novembro mas para o caso tanto faz. Aconteceu (mesmo que tenha acontecido durante o 11 de Março).<br />O nosso quartel-general, que também o tínhamos, situava-se nas instalações da Faculdade de Ciências, ali à Rua da Escola Politécnica, onde depois se vieram a expor restos de dinossauros e cadáveres chineses. Era um bom quartel-general. Tinha música (na «sonora»), uma cantina, que apesar das baratas e dos ratos podia ser tardiamente assaltada, e era muito central. A mim dava-me bastante jeito porque vinha de Cascais.<br />Na noite dos acontecimentos, andava por ali um formigueiro de gente. Os camaradas mais experientes mantinham-se em permanente contacto com os camaradas ainda mais experientes (que estariam noutro quartel-general muito mais fora de mão) e a soldadesca aguardava ruidosamente instruções. A dada altura, constituíram-se piquetes que deveriam deslocar-se a pontos estratégicos da cidade em recolha de movimentos suspeitos. Não me perguntem o quê. Era de noite.<br />Fosse quem fosse o sacana responsável pela distribuição dos lugares, a mim calhou-me a Quarta Esquadra. A Quarta Esquadra, para quem não sabe, fica na Praça da Alegria, um ponto da capital dado a engates e outros ilícitos. Sem avaliar bem o destino que me calhara em sorte (trocara há anos as artérias lisboetas pelo litoral cascalense...), lá fui, intrépida militante, vigiar a PSP.<br />Chegada ao local (e ainda hoje não me consigo lembrar porque raio o meu piquete era só eu…), sentei-me num banco no jardim, de olho no inimigo. Indiferente ao momento histórico, andava por ali um formigueiro de gente. Nos afazeres do costume. Quanto aos polícias, pareciam calmos, nada havendo a assinalar. Foi então que, ocupando o meu posto de vigia há muito menos de uma hora, comecei a ser abordada pelos regular fellows da praça, apesar da total falta de glam com que nos vestíamos na época: «oh filha, és nova aqui?», «queres um cigarro?», «quanto levas?», «fazes desconto?» e outros vitupérios bastante mais asneados.<br />Sem saber o que responder aos passantes – e alguns sentavam-se – acabaria por abandonar o meu posto, traindo assim a confiança que em mim haviam depositado os camaradas mais experientes e os mais experientes ainda. Naquela noite, confesso, não estive à altura da revolução. </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com29tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-89145414487702120112008-11-24T16:25:00.003Z2008-11-24T17:16:41.080ZQualquer um que tenha lido romances ou visto filmes em número suficiente percebe isto<div align="justify"><a href="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSrhFvDN0vI/AAAAAAAABsA/VCHiWpgkmsk/s1600-h/ditador.bmp"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5272273802436137714" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 381px; CURSOR: hand; HEIGHT: 169px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSrhFvDN0vI/AAAAAAAABsA/VCHiWpgkmsk/s400/ditador.bmp" border="0" /></a>É importante ver Sócrates ao lado de Medvedev para compreender a natureza de Sócrates. Sócrates é um perigoso prepotente inculto. Ao lado de Medvedev declarou: «A Geórgia é uma página virada» (...). Compreende-se o interesse nacional da paragem técnica de Medvedev e até se compreende que o primeiro-ministro queira ser um bom anfitrião. Mas Sócrates vai sempre mais além. Ele é o dono da História, ou pelo menos está com os donos da História (...). Permite-se falar grosso e dizer, quando Medvedev está ao lado, as coisas fortes que Medvedev gosta de ouvir, para que os fracos saibam o seu lugar (...). Se Sócrates tivesse gás e petróleo seria um Putin. Se Sócrates tivesse um Abramovic em vez de um Oliveira e Costa seria um Putin. Se Sócrates tivesse um país de gente calada e de cerviz vergada como os seus apoiantes socialistas, que de socialistas só têm a lapela fracturante, seria um Salazar reciclado, com jogging e namoradinha.<br /><a href="http://anaturezadomal.blogspot.com/2008/11/scrates-dono-da-histria.html"><em>Publicado aqui a 22 de Novembro.</em></a><em> </em><br /></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-16327510096519383062008-11-24T00:51:00.005Z2008-11-24T01:45:28.615ZAniversário de Herberto Helder (foi ontem)<a href="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSn-shvci-I/AAAAAAAABr4/E4TpYJ2pSWo/s1600-h/HH.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5272024879738948578" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 283px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSn-shvci-I/AAAAAAAABr4/E4TpYJ2pSWo/s400/HH.jpg" border="0" /></a>se do fundo da garganta aos dentes a areia do teu nome,<br /><div>se riscasse com a abrasadura, se</div><div>em cima e em baixo mexido às escuras,</div><div>o forno com a mão a ver se ela podia</div><div>que uma púrpura em flor fosse até ao coração,</div><div>unhas e tudo,</div><div>que estremecesse, não por dito mas sabido</div><div>contra ti, e por artes</div><div>antigas trazer o ar, fazer uma</div><div>iluminação:</div><div>mudar o mundo para que o nome coubesse,</div><div>vivaz, tocado, fértil,</div><div>houvesse um dom inseparável, música, verbo:</div><div>se eu pudesse, se a terra</div><div>se atrasasse,</div><div>se pudesse em amarga língua portuguesa com o teu nome em qualquer</div><div>parte,</div><div>para eu mesmo riscar contra ti,</div><div>raiar contra ti,</div><div>sob </div><div>serapilheiras de sangue</div><br /><div><strong>Herberto Helder,</strong> <a href="http://www.assirioealvim.blogspot.com/"><strong>In <em>A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita</em></strong></a></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-61038432782982542922008-11-23T04:15:00.013Z2008-11-23T09:10:01.048ZI beg your pardon?<div align="justify"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5271712894301590450" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 361px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSji8laxU7I/AAAAAAAABrw/pGbhBICNjwo/s400/viagra.jpg" border="0" /><strong>Palavras do primeiro-ministro José Sócrates (e que eu continue agarrada aos kleenex pelo menos até aos Reis se isto não for verdade).</strong> <div align="justify">O referido, citado pela <a href="http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/fdd7d964f8103a063b3e38.html">LUSA</a>, garantiu ontem em Valongo que os <strong>portugueses começam a ver os bons resultados da reforma efectuada na saúde</strong> e que <em>tanta incompreensão e obstáculos teve de enfrentar</em>. </div><div align="justify"><em>Esta urgência básica que hoje visitamos, que abre com os mais modernos sistemas de triagem, equipamentos técnicos e quadros, só existe porque nós realizámos uma reforma das urgências no nosso país</em>, afirmou enquanto inaugurava a ampliação do Hospital Nossa Senhora da Conceição. E acrescentou que o novo serviço ficava antes de mais a dever-se a <em>um governo que não se deixou intimidar pelo que se dizia e prossegue uma via reformista de mudança</em>.</div><div align="justify"><strong>Isto foi dito ontem.</strong></div><div align="justify"><strong>Entretanto, no passado dia 13 de Novembro,</strong> havia sido divulgado em Bruxelas um <a href="http://diario.iol.pt/sociedade/saude-doentes-hospitais-cuidados-de-saude-ue-doentes/1012613-4071.html">estudo</a> realizado pela <a href="http://www.healthpowerhouse.com/">Health Consumer Powerhouse </a>que colocava Portugal na cauda da Europa em termos de cuidados de saúde. Em 31 países analisados, Portugal ficava-se pelo 26º lugar, apenas à frente da Roménia, Bulgária, Croácia, Macedónia e Letónia, com a agravante de em 2007 ter ainda assim conseguido a 19ª posicão e em 2006 a 16ª. </div><div align="justify"><strong>Conclusão:</strong> <strong>ou os tipos da Health Consumer Powerhouse são uma cambada de aldrabões ou isto numa semana foi tudo corrido a viagra.</strong></div></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-31915191528570815742008-11-22T01:13:00.014Z2008-11-26T00:08:12.983ZEnquanto o país se assombra com um Loureiro e uma Oliveira eu dou continuidade às memórias na alcova, derivado ao raio de uma gripe ou lá o que seja<div align="justify"><a href="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSddoyQ_AUI/AAAAAAAABrY/JKoEztXjpUI/s1600-h/colagem+gripe.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5271284844129616194" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSddoyQ_AUI/AAAAAAAABrY/JKoEztXjpUI/s400/colagem+gripe.jpg" border="0" /></a><strong>A mim não foi um qualquer quem me recrutou.</strong> Não senhor. O rapaz (na altura) havia de palmilhar uma via ascensional que, não o tendo conduzido a Fátima, o levou ao Santo Sepulcro. E para quê falar com Nossa Senhora quando se pode falar com Deus? Foi o que eu pensei. Estive uns anos sem saber dele. Até que soube. Estava bastante mais gordo. De resto estava igual.<br /><strong>Vou-vos, então, contar.</strong> Na altura ele não dirigia jornal coisíssima nenhuma. Era tão estudante como eu. Um dia chegou ao pé de mim e disse-me: «Temos que falar!». O tom era imperativo e conspirativo. Revelava que havia coisa. A certa altura chamou-me «camarada!» e eu senti que o momento era solene: «Camarada! Pensamos que chegou a altura de entrares para a UEC (ml). Não tens de responder já».<br />Aqueles que me lêem e se lembram d’ <a href="http://www.mwscomp.com/movies/brian/brian-07.htm"><strong>A Vida de Brian</strong> </a>(<em>Are you the Judean People's Front? Fuck off! What? Judean People's Front. We're the People's Front of Judea! Judean People's Front. Cawk.</em> etc.) talvez consigam perceber.<br />Um: que o grande inimigo da União dos Estudantes Comunistas (marxistas-leninistas) era a União dos Estudantes Comunistas. Dois: que uma jovem ser convidada a entrar na União dos Estudantes Comunistas (marxistas-leninistas) seria o equivalente, na actualidade, a uma jovem ser convidada a entrar numa telenovela da SIC. Como protagonista. Devem-me ter tremido as pernas. Se não logo, depois. Já perceberão porquê. Respondi gaguejando que sim. E mais tarde combinou-se um encontro. Clandestino, como soía.<br />Não é preciso ter lido a <a href="http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2007/08/isto-o-que-eu-penso-sobre-o-livro-de.html">Zita</a> para saber que tais encontros envolviam preliminares kamasutrianos. Havia uma senha, como nos spy games, e havia, sobretudo, «o percurso». O percurso era um preâmbulo peripatético ao encontro, durante o qual todos os militantes tinham de atestar que a distância mais curta entre dois pontos nunca era uma linha recta. Por exemplo: eu estava no Cais do Sodré e queria ir para a Graça. Certo e certinho que havia de passar pelas Avenidas Novas com desvio pela Calçada da Estrela.<br />Abreviando, apanhámos o 28. Que estava longe de ser uma atracção turística e, como era uso então, seguia de portas abertas. Combinámos. Ali por perto da Calçada de São Vicente, quando a velocidade se encurta e o eléctrico faz corpo com o casario, pularíamos em andamento, no intuito de galgar umas escadas de que esqueci o nome. Aquiesci e lá montámos o dito, no meu caso tomada pela ânsia de ― imitando o voo do meu angariador ―mergulhar de cabeça no mundo dos ungidos.</div><div align="justify">E mergulhei literalmente de cabeça. Porque apesar do sim! sim! voluntarioso com que anuíra às instruções, a verdade é que nunca saltara de eléctrico. Quando finalmente cheguei, coxa, ao termo das escadas, o rapaz que muito mais tarde viria a ser, to say the least, um afamado e anafado director de jornal deu ― sem esconder a contrariedade ― por cancelado o encontro.<br />A coisa não começava bem e havia de terminar pior.</div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com5tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-30339275852502934452008-11-21T00:02:00.007Z2008-11-22T15:04:58.365ZSim eu sei que o Conan O'Brien não é a Manuela Ferreira Leite mas ainda assim tem piada<a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSYosRxrVtI/AAAAAAAABrQ/ufSGOjeGFtI/s1600-h/michael6.png"></a><div align="justify"><a href="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSYnjxn8A5I/AAAAAAAABrI/s8-LmMvzl18/s1600-h/michael+colagem.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5270943909453497234" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSYnjxn8A5I/AAAAAAAABrI/s8-LmMvzl18/s400/michael+colagem.jpg" border="0" /></a>Now that Barack Obama has been elected president, producers in Hollywood say they think America is ready for a black James Bond and a black Wonder Woman. Isn't that cool? Yeah, hell, America may even be ready for a black Michael Jackson - (Conan O'Brien) </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-74779057950911800072008-11-20T02:20:00.010Z2008-11-20T15:51:29.085ZDois poemas com sexo e escusam de se pôr com ideias<a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSWF8EJND2I/AAAAAAAABq4/vCTI5HdfJm0/s1600-h/drummond.bmp"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5270766205858025314" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 303px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSWF8EJND2I/AAAAAAAABq4/vCTI5HdfJm0/s400/drummond.bmp" border="0" /></a><strong><span style="color:#cc33cc;">Poema de sete faces</span></strong><br />Quando nasci, um anjo torto<br />desses que vivem na sombra<br />disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.<br /><br />As casas espiam os homens<br />que correm atrás das mulheres.<br />A tarde talvez fosse azul,<br />não houvesse tantos desejos.<br /><br />O bonde passa cheio de pernas:<br />pernas brancas pretas amarelas.<br />Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.<br />Porém meus olhos<br />não perguntam nada.<br /><br />O homem atrás do bigode<br />é sério, simples e forte.<br />Quase não conversa.<br />Tem poucos, raros amigos<br />o homem atrás dos óculos e do bigode.<br /><br />Meus Deus, por que me abandonaste<br />se sabias que eu não era Deus<br />se sabias que eu era fraco.<br /><br />Mundo mundo vasto mundo,<br />se eu me chamasse Raimundo<br />seria uma rima, não seria uma solução.<br />Mundo mundo vasto mundo,<br />mais vasto é meu coração.<br /><br />Eu não devia te dizer<br />mas essa lua<br />mas esse conhaque<br />botam a gente comovido como o diabo.<br /><strong>Carlos Drummond de Andrade</strong><br /><br /><br /><strong><span style="color:#cc33cc;">Com Licença Poética</span></strong><br /><a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSWGvokrdAI/AAAAAAAABrA/N3RC6P7TENM/s1600-h/adelia.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5270767091810268162" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 250px; CURSOR: hand; HEIGHT: 273px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSWGvokrdAI/AAAAAAAABrA/N3RC6P7TENM/s400/adelia.jpg" border="0" /></a>Quando nasci um anjo esbelto,<br />desses que tocam trombeta, anunciou:<br />vai carregar bandeira.<br />Cargo muito pesado para mulher,<br />essa espécie ainda envergonhada.<br />Aceito os subterfúgios que me cabem,<br />sem precisar mentir.<br />Não sou tão feia que não possa casar,<br />acho o Rio de Janeiro uma beleza e<br />ora sim, ora não, creio em parto sem dor.<br />Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.<br />Inauguro linhagens, fundo reinos<br />- dor não é amargura.<br />Minha tristeza não tem pedigree,<br />já a minha vontade de alegria,<br />sua raiz vai ao meu mil avô.<br />Vai ser coxo na vida é maldição para homem.<br />Mulher é desdobrável. Eu sou.<br /><strong>Adélia Prado</strong><br /><p></p>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com7tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-4415788988905458512008-11-19T17:15:00.013Z2008-11-19T20:27:34.231ZAutomedicação<div align="justify"><a href="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSRjv6nKdGI/AAAAAAAABqQ/BHuggt9n6PY/s1600-h/camille-04.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5270447138768843874" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSRjv6nKdGI/AAAAAAAABqQ/BHuggt9n6PY/s400/camille-04.jpg" border="0" /></a> <div align="justify">Portugal ultrapassa – na velocidade dos disparates – o gigantesco acelerador de partículas sediado na Confederação Helvética. Se Eça e Ramalho fossem vivos, a biblioteca de Pacheco Pereira (mesmo somada à do Graça Moura) seria insuficiente para conter os números d' <a href="http://www.gutenberg.org/catalog/world/readfile?fk_files=189117&pageno=2">As Farpas</a>.<br />Ainda não refeitos do encarniçamento da ministra da educação e ultrapassada a distracção de Constâncio, levamos com o <a href="http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=117200">dá e tira </a>do «Magalhães» às crianças, ouvimos <a href="http://www.jornaldigital.com/noticias.php?noticia=16828">Ferreira Leite </a>tentar ter piada em público e acabamos a confirmar que o iluminado <a href="http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=1046061">Teixeira dos Santos </a>é o pior ministro das finanças da UE.<br />Meus amigos, eu ando doente e confesso-vos que isto não ajuda nada! Vale-me a leitura, em jeito de anti-histamínico.</div><br /><div align="justify">«I.</div><div align="justify">Myra atravessou os carris desconjuntados em direcção ao mar.<br />Cresciam ervas e tojo e havia chorões apodrecidos nas juntas e as traves e ferros estavam negros das marés vivas sujas de crude. Corria contra o vento, procurando saltar as arestas de cascalho e os cacos de vidro, pulando alto a entreter o frio e o seu desgosto.<br />O céu estava baixo e muito escuro. Havia estrias roxas e vermelhas na distância mais clareada do horizonte e pareciam, céu e mar, uma única onda a levantar-se para cobrir a terra. Myra tirou os sapatos e as meias rotas e ficou parada a ver aquele assombro. Se corresse por ali adentro ninguém daria com ela nunca mais, nem no país dali, nem em nenhum outro.<br />Assoou-se à bainha da saia e limpou o resto da cara à manga do casaco esburacado que a mãe lhe fazia usar em casa e que dizia que viera de lá. Myra lembrou-se da neve em cima dos telhados de ouro e loiça. E os <em>blinis</em> que não tinham nome nesta terra. Ao princípio nada tinha nome. E a avó, com ela pela mão à porta das igrejas, o cheiro de mil velas, a estender-lhe a mão, a esconder-lhe a mão. Tanto medo. […]»<br /><strong>Maria Velho da Costa, <em>Myra</em>, 2008, Assírio & Alvim (o começo...)</strong></div></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com7tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-28647761934162497832008-11-19T02:21:00.009Z2008-11-19T03:20:14.447ZEu também mas é mais ao contrário e nem lhe perguntava nada<div align="center"><a href="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSOA1fZIOEI/AAAAAAAABp4/MyEBCG34EN4/s1600-h/bofetadas.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5270197645401929794" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSOA1fZIOEI/AAAAAAAABp4/MyEBCG34EN4/s400/bofetadas.jpg" border="0" /></a><strong>Da série embirrações assumidas</strong></div><div align="justify">«Cada vez que participo num programa de televisão em directo, tenho vontade de me levantar e de, a completo despropósito, dar uma estalada no apresentador. [...] Fazem-me perguntas: quando começou a escrever?, porque escreve?, quais são os autores que mais o influenciaram? Eu respondo devagar, e, por detrás de cada palavra, sinto vontade de levantar-me, ter a completa percepção de todos os meus movimentos e dar-lhes uma estalada.»</div><div align="justify"><strong>encontrado no </strong><a href="http://bravonline.abril.ig.com.br/blog/joseluispeixoto/"><strong>blog </strong></a><strong>do josé luís peixoto, espaço que prometo passar a visitar com regularidade a partir de agora. assim me dê deus saúde e paciência.</strong></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com9tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-9724042705494583192008-11-18T00:39:00.012Z2008-11-22T15:06:20.633ZA propósito de andarem por aí uns putos a lançar ovos e outros víveres a representantes do Estado<div align="justify"><a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSIX5aADF6I/AAAAAAAABpw/ASLUTeSWnAo/s1600-h/shampoo+de+ovos.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5269800788976408482" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 359px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSIX5aADF6I/AAAAAAAABpw/ASLUTeSWnAo/s400/shampoo+de+ovos.jpg" border="0" /></a>No meu tempo os estudantes não <a href="http://educar.wordpress.com/2008/11/17/o-despacho-dos-ovos/">lançavam produtos comestíveis a ministros e secretários de estado</a>. No meu tempo eram mais eles a levar com suspensões, expulsões e detenções e, sem querer puxar ao sentimento, com cargas da polícia. Eu própria fui suspensa por três dias, pelo desplante de ter sido colado um cartaz à entrada do meu liceu, convocando uma RGA. A escola paralisou por tão pouco e no dia seguinte fui levada à presença do reitor, não sem antes ter desfrutado dos meus fifteen minutes de fama – contados a partir da saída do comboio até à entrada no estabelecimento: «Foi ela! Foi ela! Foi ela!».<br />O reitor, com Tomás e Salazar (não me lembro do Caetano…) pairando omniscientes pelo austero gabinete, anunciou que ia chamar o meu pai. O meu pai tinha estado preso em Peniche e não simpatizava com nenhum dos retratados. Assim, o insolente à-vontade com que retorqui à autoridade: «Então, chame!» nada transpirava de heróico. O meu pai, quando eu lhe disse: «Fui suspensa!», disse: «Grande filha!». E abraçou-me.<br />Nem todos os finais se mostravam tão ditosos. Havia quem, devido às suspensões, perdesse o ano por faltas, e havia quem fosse logo para a rua sem castigos intercalares. Também havia prisões. Uma vez foram presos 150 de uma vez só, no Hospital Santa Maria. Eu, com a minha proverbial incapacidade para lidar com a british punctuality, atrasei-me. Quando, ofegante, lá vislumbrei Económicas, para onde fora marcada inicialmente a reunião, verifiquei ser muito tarde para ir a Medicina.<br />Não fui e não fui dentro, mas recordo muito bem os rapazes de cabelo rapado à escovinha, um corte que lhes fora gentilmente ofertado pelo barbeiro das caves do Governo Civil. As raparigas não denunciavam quaisquer sinais exteriores e muitos dos rapazes optaram por usar gorros na cabeça – estávamos no Inverno de 1973.<br />Não posso garantir que Bárcia, o nosso bufo exclusivo, tenha sido engavetado na altura. Julgo que sim. Era um sujeito curioso. Magro, alto, de orelhas caracteristicamente afastadas, usava gabardines à pide, indumentária à qual se referia de modo jocoso, sublinhando que parecia mesmo um. A carreira dele teve um final burlesco.<br />Já depois do 25 de Abril, a mãe contactou ex-colegas dizendo-lhes que, incompreensivelmente, o filho tinha sido detido. Apressámo-nos a acalmá-la, alvitrando que fora o caso de um engano: perante os documentos incriminatórios, que incluíam os nomes da estudantada escarrapachados em relatórios escritos de motu proprio, ainda hoje estou para saber se alguém teve coragem de telefonar à senhora.<br />Avistámo-lo depois, bastante mais tarde, à saída de um velório na Basílica da Estrela. Num mini a cair de podre, encetou-se uma perseguição ao Bárcia pelas ruas de Campo de Ourique, mas acabámos por lhe perder o rasto ali para os lados do Canas.<br />Éramos putos. Não lançávamos, industriados por obscuros «<a href="http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1043902">adversários da política educativa do Governo</a>», produtos comestíveis a ministros e secretários de estado. Fazíamos outras coisas. E que não se me leve a mal a pergunta: o que fariam em jovens a digníssima ministra da educação e seus inefáveis secretários? </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com11tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-54623358821598536722008-11-17T01:32:00.015Z2008-11-22T15:07:07.223ZPodem-me chamar reaccionária mas eu gostei muito de ir à escola<div align="justify"><a href="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSDUWbJZYSI/AAAAAAAABpo/ufmNPe3FeEM/s1600-h/escola.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5269445045732860194" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 282px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SSDUWbJZYSI/AAAAAAAABpo/ufmNPe3FeEM/s400/escola.jpg" border="0" /></a>Fui uma privilegiada e não vou pedir desculpa por isso. A partir dos cinco anos frequentei um colégio particular, ali para os lados de Belém. Conhecido pela "Escola do Senhor Gomes", na realidade, se a memória não me falha, chamava-se Externato do Rio Seco. Quanto ao Senhor Gomes, era um reformado da Marinha com ideias arejadas sobre educação. Para a época.<br />Apesar do colégio ser feminino e usarmos todas batas de folhos, a música e a ginástica eram obrigatórias, assim como as descidas ao laboratório, a partir da terceira classe, e as visitas de estudo, que incluíam invariavelmente os Jerónimos e os jardins da frente. Era vê-lo, já velho mas rijo de carnes, a mandar parar as viaturas para que deixassem passar as meninas! E as meninas lá passavam em filas de duas a duas e mãos obrigatoriamente dadas, em direcção à Fonte Luminosa que mudava de cor e era uma das atracções da pátria.<br />No colégio ― que hoje julgo albergar um condomínio ― , então uma casa senhorial com amplas cavalariças, adaptadas a salão de ginástica em dias de frio e chuva, e edifício principal, com pátio e entrada no alto de uma pequena escadaria de pedra, transformado num espaço despido de paredes onde se alojavam as quatro classes em open space, havia carteiras individuais de madeira com tampo inclinado para manter as costas direitas, tinteiro embutido e ranhura para colocar a caneta. Que era de aparo.<br />Só na quarta classe se permitia o uso de tinta permanente e as Bic já andava eu no liceu. Aprendíamos a escrever copiando abecedários góticos transparentes e a partir do segundo ano dar mais de três erros num ditado seria o correspondente, nos dias de hoje, a um diagnóstico precoce de dislexia (isto não foi assim há tanto tempo; os que me conhecem sabem que não sou do tempo da Guerra – refiro-me à segunda, evidentemente).<br />No laboratório, que ficava na cave do edifício principal e era um sítio cheio de mistérios e tubos de ensaio retorcidos onde o ar era escuro e cheirava a pó, lembro-me de ter aprendido a classificar as folhas segundo o respectivo recorte. Nunca mais me esqueci, vá-se la lá saber porquê, das lanceoladas.<br />Havia festas nas datas do costume. Decorriam numa sala com palco e cortina a sério na casa do director (lateral às cavalariças por cujo portão largo nós entravámos para o colégio) e constavam sempre de uma demonstração de canto coral acompanhado ao piano por uma senhora saída directamente de um filme já na altura muito antigo (eu como era da terceira voz desafinada e não conseguia atinar com o canon ficava sempre na fila de trás, em silêncio religioso, recompensada depois com a recitação individual de uma poesia – e ainda hoje me lembro da Balada da Neve por causa disso…), e de uma peça de teatro que normalmente me corria mal – ou porque o anjinho entrava em cena com uma das asas abalroadas ou porque os remendos no rabo das calças do pobrezinho apareciam a servir de joelheiras. Os pais das crianças riam muito e eu engasgava-me nas deixas.<br />Nunca levei reguadas. Minto. Houve uma altura em que levava reguadas regularmente, mas era eu própria quem as aplicava. Explico. O Senhor Gomes, que tinha umas ideias avançadas para a época (mesmo que não acreditem...), pusera em prática um exercício de memória. Reproduzia no quadro um desenho com vários elementos, deixava que o observássemos durante alguns minutos, apagava-o e depois mandava-nos executá-lo de cor. A professora da quarta classe, que não a minha, era a encarregue de zelar pelos resultados. Perversa e autoritária (qualidades transversais aos mais variados tipos de pedagogo...), aplicava uma reguada a quem falhasse no teste. A mim faltava-me sempre qualquer coisa. Talvez por isso, a dada altura desistiu de me bater. Apontava-me a régua com a cabeça, eu dirigia-me à secretária dela e desferia com o vigor, que era nulo, o invariável castigo. Até que houve um dia em que o Senhor Gomes acabou com aquilo.<br />Há anos que não pensava nele. E não é pelo que estarão a pensar. </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com23tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-42880152676738677602008-11-16T00:44:00.008Z2008-11-16T20:40:04.834ZDiário de um Mau Ano<div align="justify"><a href="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SR9tYs7mqOI/AAAAAAAABpg/DLXtJHU1lR4/s1600-h/JMCoetzee030306_256.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5269050360192215266" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 180px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SR9tYs7mqOI/AAAAAAAABpg/DLXtJHU1lR4/s400/JMCoetzee030306_256.jpg" border="0" /></a><strong>Diário de um Mau Ano</strong> abre com o ensaio «Sobre as Origens do Estado» e só depois, lá para o fim da página, demarcada por um pontilhado, nos apercebemos de uma outra mancha de texto, mais pequena, que começa assim: <em>O primeiro relance que dela tive ocorreu na lavandaria</em>.<br />Os dois textos vão correndo (literalmente) paralelos, até que, chegados à página 34, de dois planos passa-se a três, introduzindo-se aí uma nova narrativa que dá voz a uma mulher: <em>Quando passo por ele, com o cesto da roupa suja, tenho o cuidado de rebolar o traseiro, o meu delicioso traseiro, envolvido na ganga justa</em>.<br />Pode parecer confuso, mas trata-se, tão-só, de uma estratégia de composição que o leitor contornará, se preferir (talvez não tenha, pelo menos à primeira, outra possibilidade…), lendo cada narrativa autonomamente (William Faulkner ensaiara uma experiência semelhante intercalando as páginas das novelas <strong>Palmeiras Bravas</strong> e <strong>Rio Velho</strong>, e o próprio Coetzee já tentara construções menos ortodoxas, por exemplo, em <strong>No Coração desta Terra</strong>).<br />A estrutura e os protagonistas expõem-se sem dificuldade. Um velho escritor solitário retirado na Austrália é convidado, por um editor alemão, a pronunciar-se, tanto melhor se de forma controversa, sobre os temas que entender, incluindo aquilo que considera ir de mal a pior no mundo; existe Anya, a jovem australiana de origem filipina que ele avista na lavandaria, e que acabará por aceitar ser sua secretária (lembramo-nos de Roth, naturalmente), e há ainda Alan, o ambicioso gestor de contas e companheiro dela, o cínico de serviço que, dados os seus poucos escrúpulos, serve de contraditório aos valores morais do escritor. Temos assim, num primeiro plano, os ensaios (Coetzee, indiscutivelmente himself), num segundo plano, a relação entre Anya e o velho romancista narrada pelo próprio e, finalmente, a mesma realidade vista pelo olhos de Anya.<br />Os temas ensaísticos são abordados, também eles, de maneiras distintas. Num primeiro momento, organizado sob o título «Opiniões Fortes», expõem-se assuntos tão diversos como o Estado segundo Hobbes, a liberdade individual, o racismo, a Al-Qaeda, Tony Blair, Harold Pinter e o filósofo grego Zenão, a política na Austrália, a esquerda e a direita, o criacionismo, os direitos dos animais, a pedofília, etc. Mais à frente, no «Segundo Diário», a reflexão torna-se mais pessoal e debruça-se sobre o pai, a morte, o erotismo, os clássicos, a música ou o envelhecimento, para acabar com um texto sobre Dostoievski e a ética da literatura. Ao longo destes dois registos, a escrita vai ganhando tonalidades mais sombrias, ao mesmo tempo que, nas outras duas narrativas (a do escritor e a de Anya) o encontro entre os dois se aproxima do final. E no final, mais perto da morte, é já só Anya que fala, o escritor silenciado, mesmo no texto cuja autoria não é dela, e que termina com a transcrição de uma carta sua ao Señor C, o nome pelo qual sempre tratara o seu patrão temporário.<br />Escrito e construído como uma partitura musical, <strong>Diário de Um Mau Ano</strong> vai entrelaçando os seus vários níveis, sobretudo através dos comentários de Anya às reflexões do escritor, numa espécie de contraponto esperançoso ao desencanto que adivinhamos de Coetzee (e que a personagem de Alan parece existir para confirmar). Com grande mestria, o Nobel sul-africano mostra-se mais uma vez capaz de nos dar a ouvir diferentes timbres de voz e, se alguma desafinada, a dele: “<em>Precisa-se: Guru idoso. Deve ter uma vida inteira de experiência, palavras sábias para todas as ocasiões. Condição de preferência uma longa barba branca.” Porque não hei-de tentar a minha sorte? (…). Não me tornei propriamente uma celebridade como romancista; vejamos se me celebrizam como guru</em>».<br />Dispensado o guru e concordando-se ou não com (todas) as «ideias fortes» expressas em <strong>Diário de Um Mau Ano</strong>, certo é que se trata de um romance que merece celebração (apesar de manchado aqui ou ali por uma revisão menos cuidada – <strong>Dicionário das Ideias Feitas</strong> de Flaubert não se chama <strong>Dicionário das Ideias Recebidas</strong>, só para dar um exemplo).<br /><strong><em>Diário de Um Mau Ano</em>, J.M.Coetzee, 2008, Dom Quixote</strong></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-52509541513037924392008-11-15T01:11:00.008Z2008-11-15T01:58:06.867ZGlenn Gould + Mozart (para variar)<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/68HTMNSLc8I&hl=en&fs=1&color1=0x5d1719&color2=0xcd311b"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/68HTMNSLc8I&hl=en&fs=1&color1=0x5d1719&color2=0xcd311b" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com6tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-46169953689187182922008-11-14T22:30:00.006Z2008-11-15T00:01:15.929ZA book a day keeps the doctor away<div align="justify"><a href="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SR3_bg-CPII/AAAAAAAABpQ/vx7yAfO_AU0/s1600-h/flaubert.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5268647987265027202" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 242px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SR3_bg-CPII/AAAAAAAABpQ/vx7yAfO_AU0/s400/flaubert.jpg" border="0" /></a>A crítica está para a arte como o bufo está para o soldado; e o que se segue não é, naturalmente, uma crítica. A primeira proposição roubei-a grosseiramente a Gustave Flaubert (1821-1880) ― «On fait de la critique quand on ne peut pas faire de l'art, de même qu'on se met mouchard quand on ne peut pas être soldat» ―, a segunda serve de justificação a esta curta nota: porque acaba de ser reeditado <strong>A Educação Sentimental</strong>, um daqueles livros obrigatórios se fosse o caso de embarcarmos para uma ilha.<br /><div align="justify">Assinado pelo maníaco do «mot juste», dessa obra diria Eça de Queiroz: «Na Educação Sentimental, [Flaubert] concebe esta ideia de génio: pintar numa larga acção a fraqueza dos caracteres contemporâneos amolecidos pelo romantismo, pelo vago dissolvente das concepções filosóficas, pela falta de um princípio seguro que, penetrando a totalidade das consciências, dirija as acções; e explicar por esta efeminação das almas todas as instabilidades da nossa vida social, a desorganização do mundo moral, a indiferença e o egoísmo das naturezas, a decadência das classes médias, a dificuldade de governar a democracia...». É uma leitura de época que se mantém justíssima. </div><div align="justify">Num registo que oscila entre o lirismo e a mais pura paródia, com a paixão do jovem Frédéric Moreau por Madame Arnoux (reedição do próprio amor do jovem Flaubert por Élisa Foucault) a servir de pano de fundo a um retrato ultra-realista da época, <strong>A Educação Sentimental</strong> trata não só das ilusões amorosas, mas também das ilusões políticas. Deixando aquele lastro de desencanto intemporal que Flaubert sempre soube subtrair a todo o sentimentalismo.</div><div align="justify"><strong><em>A Educação Sentimental</em>, Gustave Flaubert, Relógio D’Água, 2008, trad. de João Costa</strong> [o romance pode ser lido no original a partir <a href="http://abu.cnam.fr/cgi-bin/go?educati1">daqui</a>]</div></div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-87342352130030612042008-11-13T09:33:00.008Z2008-11-22T15:08:38.758ZE ninguém os interna...<div align="justify"><a href="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SRwCpUvDcbI/AAAAAAAABpI/AJ1u9kGMB4I/s1600-h/fruta1.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5268088573080596914" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 289px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_jyC-rTFWWqg/SRwCpUvDcbI/AAAAAAAABpI/AJ1u9kGMB4I/s400/fruta1.jpg" border="0" /></a><strong>Escusado será dizer que se isto fosse no tempo do Teatro de Revista daria origem a várias piadas brejeiras. </strong><br /><a href="http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1349756">É um documento notável e maravilhoso.</a> De acordo com uma directiva da Comissão Europeia, espécies hortícolas e frutícolas, como damascos, espargos, beringelas, feijões, couve-de-bruxelas, cenouras, couve-flor, cerejas, pepinos, alhos, repolhos, melões, cebolas, ou espinafres poderão passar, finalmente, ser vendidos em formatos «deformados». Já outras espécies, malévolas, irregulares e desobedientes, como maçãs, kiwis, alfaces, pêssegos, morangos e tomates terão de se apresentar com os tamanhos que a comissão define no gabinete. Segundo a comissária da agricultura «<strong>esta decisão marca o início de uma nova era para os pepinos curvos e as cenouras nodosas</strong>». Os nossos quintais rejubilam, eufóricos, ao verem que Bruxelas continua a meter os legumes na ordem. E os cidadãos festejam por não lhes alterarem o calibre dos tomates.<br /><a href="http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1349726">Chamo ainda a atenção para esta notícia:</a> «O Banco Alimentar de Luta contra a Fome esteve impedido este ano de distribuir frutas e legumes a quem recorre aos seus serviços para poder comer porque não está autorizado a distribuir frutas e legumes que não cumpram os parâmetros de tamanho e cor impostos pela União Europeia.»<br />Informação recebida por e-mail. <a href="http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/902881.html">Obrigada Francisco</a>. </div>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com9tag:blogger.com,1999:blog-8267388592620897352.post-77575962547560328892008-11-12T12:43:00.008Z2008-11-13T11:18:50.996ZAmy Winehouse: Who the Fuck Is Marco Perego?<p align="justify"><object height="344" width="425"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/xMyQfHWEOh0&hl=en&fs=1&color1=0x5d1719&color2=0xcd311b"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/xMyQfHWEOh0&hl=en&fs=1&color1=0x5d1719&color2=0xcd311b" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /><strong>Amy Winehouse, <em>Teach me tonight</em></strong><br /><br /><object height="344" width="425"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/rFXJAunuLw8&hl=en&fs=1&color1=0x5d1719&color2=0xcd311b"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/rFXJAunuLw8&hl=en&fs=1&color1=0x5d1719&color2=0xcd311b" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /><strong>Amy Winehouse, <em>Back To Black</em></strong><br /><br />No último Rock in Rio de Lisboa, a minha filha mais velha abandonou o concerto de Amy Winehouse, segundo ela porque «aquela gente toda a assistir ao vivo a uma pessoa a desfazer-se em palco era um espectáculo insuportável». Hoje chegou a casa baralhada por esta <a href="http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/music/article5114490.ece">notícia</a> que dá conta de uma escultura da artista morta no meio de um banho de sangue. Ou seja, há por aí muito parasita medíocre que confunde arte com antropofagia. </p>Ana Cristina Leonardohttp://www.blogger.com/profile/14063533885701376838leonardo.anacristina@gmail.com6