tag:blogger.com,1999:blog-8119133.post-1111757264425251382005-03-25T05:05:00.000-08:002005-03-25T05:27:44.430-08:00Os suspeitos do costumeNao é fácil falar de jazz, pelo menos para mim, por duas razões muito simples: primeiro, devido à especificidade do mesmo, que se multiplica num turbilhão de emõções e sentimentos particulares e que difere tanto entre músicos como a água difere do azeite. Falar sobre jazz é como dissertar sobre a nossa alma. E como raramente gosto de me expôr em público de tal maneira, falar sobre jazz é algo que não faço frequentemente. <br />Quanto à segunda razão que anunciei logo no início é porque conheço poucos interlocutores, cujo valor intelectual faça valer a pena uma abordagem a tal temática.<br /><br />Gostar de jazz parece ser algo destinado apenas aos pseudo-intelectuais, na nossa sociedade. Ou pelo menos, assim me parece. Dizer que <strong>The Shappe Of Jazz To Come </strong>é um dos melhores álbuns de música, parece querer dizer que somos estranhos por gostar de um disco instrumental, de deambulações imprecisas, sem um pingo de letra que revele o que vai na alma do artista. Então e que tal, se em vez de o ouvirem, procurarem senti-lo?<br /><br />Depois, há ainda outro caso em que o jazz parece ter-se tornado um lugar comum, onde se encontram as personalidades óbvias da área. Quem nunca teve numa tertúlia que resvalasse para uma discussão aerca de jazz e que temrinasse à volta duma fogueira ateada pelos nomes óbvios de <strong>Ornette Coleman</strong>, <strong>Duke Ellignton </strong>ou <strong>John Coltrane</strong>?<br />Claro que não vamos recusar um génio, apenas porque este caiu na rotina dos meandros da arte. Porque como disse alguém, um clássico será sempre um clássico, porque antes de o ser já era.<br />Então, mas... e os outros? Então e <strong>Jimmy Smith </strong>que um dia decidiu dar personalidade a um Hammond? Ou <strong>Gene Krupa </strong>que achou por bem tirar a bateria do anonimato? Ou mesmo <strong>Buddy Rich </strong>que lhe deu notoriedade? Ou <strong>Lucky Peterson</strong>? Ou o cosmopolita <strong>David Murray</strong>? Ou <strong>Ron Carter</strong>? <br /><br />Por isso, apetece-me falar de alguém que é pouco falado. Ou pelo menos, não é falado da maneira correcta.<br /><strong>Mike Ladd </strong>é geralmente, associado ao hip-hop - raramente, o nome "<strong>Mike Ladd</strong>" e a palavra "hip-hop" não entram na mesma frase. No entanto, dizer simplesmente que <strong>Mike Ladd </strong>é um gajo do hip-hop, é o mesmo que dizer que a Stratocaster é só uma guitarra.<br /><strong>Mike Ladd </strong>é um gajo da música, com muita (des)semelhanças com <strong>Mike Patton</strong>. E o seu último álbum, <strong>Negrophilia</strong>, é um OSNI (Objecto Sonoro Não Identidicado) que passou quase despercebido pelos escaparates.<br />Nele, há uma fusão entre hip-hop, música electrónica e jazz - os ritmos do primeiro, os sons futuristas do segundo e a colaboração de vários avant-gardeistas do terceiro. Fantásticamente, <strong>Mike Ladd </strong>transforma tudo isto num caos organizado. Como se <strong>Mr. Spock </strong>e <strong>John Zorn </strong>tiveem ido beber um copo à galáxia Nebula, à velocidade do som na Enterprise. <br /><strong>Negrophilia</strong> não se ouve. Sente-se.<br /><br /><center><img src="http://www.metacritic.com/media/music/artists/laddmike/negrophilia/picture.jpg"></center><br /><center>[Banda Sonora - <strong>Sam And Milli Dine Out</strong>; Negrophilia; 2005]</center>dermothttp://www.blogger.com/profile/04123770946187963873noreply@blogger.com