tag:blogger.com,1999:blog-8046989.post-1114791250141788532005-04-29T11:13:00.000-05:002005-04-29T11:14:10.143-05:00Era uma vez uma rãEsta rã vivia num quadradinho dum jardim botanico juntamente com uns nenúfares e uns papiros e uma tabuleta com uns dizeres em latim. Esta era uma rã feliz porque tinha um quadradinho só para ela e vizinhos sossegados que só faziam barulho quando lhes dava o vento. Um belo dia, estava a rã a croackar no seu quadradinho, a pensar no quão bela era a vida, quando ouviu um croackar longínquo. Ao princípio pensou que era eco, acontecia às vezes que as paredes do mundo lhe devolviam os croacks, da mesma maneira que a superfície da água lhe devolvia o eu, mas isso não costumava acontecer naquela altura do ano porque os papiros tinham muitas folhas e não deixavam os ecos passar, e deixou-se ficar muito caladinha, a tentar perceber que eco era aquele que atravessava folhas. Mas os croacks continuaram, mesmo com ela caladinha, e ela ficou muito surpreendida porque no mundo os únicos croacks eram os dela, mesmo que repetidos em épocas menos frondosas. E então a rã pôs-se a pensar no assunto, a tentar descobrir uma explicação para o mistério dos croacks sem dono, e decidiu que os croacks deviam pertencer a algum ser doutro mundo, algum extra-quadradinhestre. E deciciu averiguar, não porque estivesse particularmente interessada em conhecer outros seres, mas porque queria sentir a satisfação de estar certa. E começou a construção duma máquina capaz de traspor as paredes do mundo, usando folhas de papiro, um nenúfar particularmente grande e a placa com dizeres em latim. Terminada a construção e preparado um farnel com comida suficiente para uma semana (se eu dou a volta ao mundo numa hora, uma semana deve chegar para ir a outro mundo, comprovar a existência de extra-quadradinhestres e voltar, pensava ela), a rã deu às patas e partiu. Transpôr as paredes do mundo não foi particularmente difícil e demorou uns tão miseros 5 minutos, que a rã até pensou que nem valia a pena ter construído a maquina, que podia ter vindo aos saltos. Mas depois das paredes do mundo a rã verificou que havia muitos outros mundos, com a mesma forma do dela, e também com uma placa com dizeres em latim, mas onde os papiros e nenúfares tinham outras cores e folhas diferentes e flores pequeninas e brancas, e nesses mundos viviam tambem outros seres, seres compridos e prateados com barbatanas, seres redondos e rechonchudos com riscas vermelhas e brancas e com barbatanas, e seres pretos e achatados e com barbatanas. E para alem destes mundos havia vastas extensões de mundos sem agua com papiros grandes e de troncos castanhos e seres com barbatanas cobertas de penas, e ainda mais vastas extensões de mundos pretos com riscas brancas e com seres brilhantes a andar muito depressa e a fazer fumo, e a rã sempre a dar às patas, aguardando vislumbrar os mundos onde vivessem os seres que faziam croack. Quando a rã ja começava a pensar se se iria ver obrigada a comer a maquina para sobreviver, começou a ouvir muitos croacks, e viu ao longe uma grande mancha azul com um enorme papiro de tronco castanho e folhas verdes em forma de pena no meio, e deu ainda mais às patas, com o dobro das forças, até chegar à grande mancha azul. Exausta, morta de fome, com as patas a tremer, viu-se no meio de um monte de seres e verificou surpresa que eram todos iguais a ela, que faziam croack como ela, que comiam as mesmas coisas que ela e que gostavam de descansar nos mesmos sitios que ela gostaria caso vivesse naquele mundo. E a rã soube então que o mundo era grande e cheio de coisas e achou que a vida dela tinha sido um desperdicio de voltas ao quadradinho e conheceu a infelicidade.tasquehttp://www.blogger.com/profile/12557945864081479386noreply@blogger.com