tag:blogger.com,1999:blog-79094812009-07-05T21:58:52.597+01:00O rabo do gatomemória de palavras, expressões e outras curiosidades da linguagem da minha terra. sobre o "madeirense".Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.comBlogger562125tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-58040463390155534022009-07-02T19:47:00.007+01:002009-07-02T20:28:32.550+01:00uma prunaAs nuvens foram avançando e à hora do início do concerto temia-se chuva. Não choveu, porém. Mas ao longo da noite foi serenando e alguém virou-se para o lado e disse: " - Já sei que vou ficar doente por causa deste sereno miudinho." Lembrei-me de uma expressão que ouvi no Porto Moniz: "Está a dar uma pruna!"<br />Eu não conhecia a expressão, não sei se só se diz naquela freguesia do norte, mas segundo os meus alunos "está a dar uma pruna" significa exctamente "está a cair sereno". Vivendo e aprendendo, graças a Deus, senão este blog teria os dias contados.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-5804046339015553402?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-88345633570267568942009-06-28T16:16:00.001+01:002009-06-29T01:05:57.657+01:00Zenabre<div></div>"Está criando zenabre!" O tema da conversa era uma pulseira, espécie de bracelete, que estaria começando a perder a cor original. Não era comigo mas ouvi e reconheci logo a palavra, tão comum nos tempos da infância.<br />Diz-se de qualquer objecto de metal que comece a oxidar, adquirindo um tom esverdeado e um cheiro diferente, que está com zenabre.<br />A pulseira em questão era muito bonita mas de pechisbeque. O ouro e a prata não criam zenabre.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-8834563357026756894?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-2315875204207711912009-06-24T15:18:00.007+01:002009-06-28T22:54:56.351+01:00Para sarar o imbigo dos bebésEra no dia de São João, antes de o sol sair, que se resolvia antigamente o problema dos umbigos que não saravam. A essas hérnias no umbigo dos bebés, as pessoas chamavam "imbigo roto" e não hesitavam em pedir ajuda ao São João, seguindo um complexo ritual que garantiam dar resultado positivo.<br />Eram escolhidas duas crianças, um rapaz e uma rapariga, sendo que ele tinha obrigatoriamente de se chamar João e ela Maria. Durante a madrugada, dirigiam-se até um local onde não passasse ninguém e existissem vimieiros. Aí era escolhido um vime que se abria a meio, de cima abaixo, com o cuidado de deixar a ponta inteira e de mantê-lo na planta.<br />Após estes preparativos, Maria e João colocavam-se um de cada lado do vimieiro e iam passando o bebé de um para o outro por entre a abertura no vime. Enquanto o faziam tinham de repetir o seguinte: " - Que me dás, Maria?/ - Que me dás, João?/ - Um menino roto. / - Para me dares um são." Não me lembro de quantas vezes era necessário repetir estas palavras, mas julgo que eram três.<br />Terminado este ritual, as duas partes do vime eram cuidadosamente ligadas e enquanto se voltavam a unir, o umbigo da criança ia também sarando, até ficar perfeito.<br />A receita só resultava se tudo fosse feito durante a madrugada do dia de São João, num lugar onde não fosse habitual passar gente, e por duas crianças, um João e uma Maria.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-231587520420771191?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-40310599284168534502009-06-23T21:30:00.008+01:002009-06-23T21:55:24.623+01:00A sorte dos cardosNão sei se ainda se fazem sortes na véspera de São João. Na minha adolescência, experimentei quase todas, afinal havia tempo e disponibilidade. Havia também um caminho desconhecido que apetecia tentar adivinhar e o santo tinha o poder de dar algumas pistas importantes. Uma delas era o nome da pessoa com quem se haveria de casar.<br />Certa vez, decidi fazer a sorte dos cardos. Durante o dia, procurei uma planta de cardos, que não era nada difícil de encontrar, algures entre poios e bardos, e apanhava três flores. À noitinha, por entre a algazarra dos rapazes e raparigas saltando à fogueira, velhos búzios tocando e o crepitar de louro verde ardendo, aproximei-me do fogo e queimei as pequenas pétalas de cor lilás dos três cardos. De seguida procurei um lugar para os plantar. <br />Os três cardos foram plantados ao lado uns dos outros, num lugar que só eu sabia e onde estes não corriam o risco de serem estragados. A cada um atribuí o nome de um rapaz, sendo que a um deles tive orbigatoriamente de atribuir o nome do santo, João. Os outros dois nomes, mandava a tradição, foram escolhidos entre possíveis pretendentes.<br />No dia seguinte, logo de manhã, lembro-me de correr até ao local onde estavam plantados os cardos. Espantosamente, havia um deles que tinha florescido durante a noite. Segundo a crença popular era esse o sinal que indicava o nome do futuro marido. Pequenas pétalas de cor lilás refilavam no cardo e eu fiquei fascinada com aquela espécie de milagre do santo e da Natureza.<br />Não casei com nenhum dos dois possíveis pretendentes. Saiu-me o nome do Santo.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-4031059928416853450?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-56971819499179089542009-06-18T15:00:00.000+01:002009-06-22T17:08:56.687+01:00boquejar- "Falámos um bom bocado mas ela não boquejou nada".<br />E não tendo boquejado nada sobre o caso de que já muitos falavam, a interlocutora fez de conta que nada ouvira, que nada sabia.<br />"Boquejar" significa revelar, desvendar algo que se reveste de algum secretismo, normalmente algo inesperado, algo que não convém deixar passar para as "bocas do mundo". E porque não é desejável, nem convém, são precisamente esses os factos que mais rapidamente chegam aos ouvidos e às bocas das bilhardeiras.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-5697181949917908954?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-35372031938589933722009-06-13T20:12:00.000+01:002009-06-15T20:41:26.053+01:00Picar a imagem de Santo António" - Pobrezinho, ele está todo picado!" A Dona Adelaide olha com ternura para a imagem de Santo António e volta a dizer "coitado, tem os pezinhos todos picados com alfinetes." Nunca se socorreu dessa artimanha para conseguir arranjar marido, aquele ar condoído é sincero, puro. <br />Mas muitas outras raparigas solteiras, sem olhar a meios para conseguir os fins, usaram o antigo método das picadas com alfinetes para coagir o Santo a arranjar-lhes marido, afinal não há outro santo casamenteiro. Dona Adelaide encolhe os ombros e ouve-se-lhe uma voz doce mas triste: "dizem que sim, parece que resulta". Sorri e continua calmamente a enfeitar com flores brancas e perfumadas o andor do santo que não lhe arranjou marido. Fico a olhá-la em silêncio e apetece-me dizer-lhe que fez bem, afinal qual é o sentido de obter seja o que for recorrendo à tortura? Porém não digo nada nem pergunto nada, não tenho coragem de tentar confirmar as minhas suspeitas. Limito-me a agradecer as explicações e vou embora. Há coisas que parecem difíceis de compreender e talvez tenham uma explicação tão simples como esta história do alfinete. Talvez. Tal como a Dona Adelaide, não sou capaz de recorrer à tortura.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-3537203193858993372?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-27490960111471748522009-06-09T22:32:00.003+01:002009-06-09T22:38:05.338+01:00alguém que nos quer bemSabemos que alguém nos quer bem quando sonhamos um um cão. Mesmo que sejamos perseguidos pelo cão, mesmo que ele seja feroz e nos morda, seja o que for que sonhemos envolvendo um cão é um bom sinal: quer dizem que alguém nos quer bem.<br />Sonhei com cães e lembrei-me que esta era uma das muitas sentenças que a minha avó repetia numa enorme lista de interpretação de sonhos guardada apenas na memória. Depois da minha avó, é agora a minha mãe que repete esses ensinamentos que explicam os sonhos à boa maneira popular. Espero ser eu a perpetuar na família estes pequenos dizeres, crenças que não fazem mal a ninguém e nos aproximam da memória das gerações que nos antecederam.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-2749096011147174852?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-32581766264679501332009-06-07T16:45:00.000+01:002009-06-07T18:28:35.494+01:00virar o pão ao contrárioUma superstição antiga ensinava que nunca se devia virar o pão ao contrário, porque dava azar. Não sei porque a fixei no meio de tantas outras, nem sempre a memória guarda o que é mais importante, ela tem também os seus estranhos caprichos.<br />Sei que não tenho qualquer tipo de explicação para este receio de virar o pão ao contrário. Lembro-me que a minha avó benzia sempre o pão, antes de o meter no forno, será que tem algo a ver com isso?<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-3258176626467950133?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-58150678203743846252009-05-30T00:48:00.000+01:002009-05-30T21:43:29.604+01:00criar feição ou tomar sal- "Ainda está criando feição." A expressão surge como uma espécie de promessa e refere-se sempre a uma pessoa, normalmente um ou uma adolescente.<br />Diz-se dos jovens, naquela fase em que o rosto vai mudando e parece estranho, com borbulhas, com um nariz desproporcional, que estão ainda criando feição.<br />Depois de todas essas transformações naturais da idade, o certo é ficarem mais bonitos, já com o seu rosto de traços definidos, únicos, espelho de uma personalidade.<br />No meu Sítio, para além de "criar feição", diz-se, com o mesmo significado: "Ainda está tomando sal", ou "Ainda está temperando".<br />- "Ele ainda está tomando sal...mas vão ver quando estiver temperado, vai ser um belo rapaz." E estas previsões acertam sempre.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-5815067820374384625?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-25933107211868824872009-05-28T16:38:00.004+01:002009-05-28T18:58:53.028+01:00Minha Salvação!Nunca mais ouvi ninguém dizer "Minha Salvação!" Esta expressão era uma espécie de juramento em que se podia confiar. Quem vinculava à sua salvação aquilo que dizia, estava com certeza a falar a verdade, e não era preciso mais nada. Belos tempos!<br />Era uma fórmula muito usada, às vezes até em demasia, como no caso de um dos meus avós que em relação a quase tudo o que dizia acrescentava "Minha Salvação", já mais como hábito do que por necessidade de que nele acreditassem.<br />Havia quem tentasse usar o diminutivo da expressão e dissesse: "Minha Salvinha!"<br />Salvação ou Salvinha, o que interessa é que as pessoas colocavam a verdade ao nível da salvação da sua alma, tratavam-na como algo valioso. Por onde anda hoje a verdade? A que nível está? Tem algum valor? Quem souber que responda.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-2593310721186882487?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-42197752023308090722009-05-26T18:32:00.000+01:002009-05-26T18:32:00.177+01:00arregoar<div></div>- "Está arregoando!" Olhei e confirmei que era verdade. Estavam a abrir-se fendas numa parte da parede e eu compreendi o lamento. - "Sim, está arregoando..." Por vezes basta isto para demonstrar solidariedade, às vezes as pessoas procuram apenas que alguém confirme os seus receios, mais nada.<br />E o verbo arregoar ficou ali, dito e repetido, desafiando tudo e todos. Ficou à espera que eu o agarrasse e colocasse aqui e foi o que eu fiz. Enquanto o arrumava numa espécie de arquivo mental, reparei nas mãos do agricultor...todas arregoadas mas de um a beleza comovente. Quase todas as palavras têm este dom, de não serem uma coisa só.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-4219775202330809072?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-90027493769439500012009-05-22T00:39:00.003+01:002009-05-22T00:47:37.925+01:00afilhados e afilhadasDesde pequena que ouço dizer isto: "Uma rapariga deve ter como primeiro afilhado um rapaz." Porque sendo um rapaz traz sorte. As afilhadas meninas só devem vir depois...não trazem a desejada sorte.<br />Ora, esta é uma das tais superstições que me irritam profundamente. Nada me faz seguir crenças que discriminam o género feminino, e a prová-lo está o facto de ser madrinha de duas raparigas e de nenhum rapaz. Gosto muito das minhas afilhadas, que me fazem sentir uma sortuda.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-9002749376943950001?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-26253491097620715312009-05-19T16:42:00.002+01:002009-05-19T17:12:33.395+01:00a sorte dos meninos e o azar das meninasNas superstições, o género feminino sempre foi associado ao azar e o masculino à sorte. Até nos sonhos! Dizem os antigos que é bom sonhar com meninos e mau sonhar com meninas. Sonhar com meninas é sinal de desgosto, com meninos sinal de sorte, fortuna.<br />Às outras superstições acho piada, a estas não acho. Soa a discriminação, machismo, ou à simples constatação que os homens sempre tiveram a vida mais fácil do que as mulheres.<br />Eu sonho muito e por vezes entram bebés nos complexos enredos dessas aventuras nocturnas. É mais frequente as personagens infantis serem femininas, talvez devido à minha própria experiência de mãe de uma rapariga. Será por isso, por causa desses sonhos, que por vezes há ondas de azar que parecem intermináveis?<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-2625349109762071531?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-54297619805163396742009-05-17T15:31:00.002+01:002009-05-17T15:36:10.090+01:00para a brabeza dos bebésQuando um bebé era brabo, havia uma receita muito simples e natural, que resolvia logo o problema. Passava-se a deitar o bebé com a cabeça voltada para os pés da cama e a brabeza desaparecia. O bebé tornava-se sossegado e bonzinho, dormia quando tinha de dormir, não gritava sem necessidade, não fazia birras.<br />Claro que esta receita se aplica apenas aos bebés. Infelizmente.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-5429761980516339674?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-1334300810753739372009-05-14T14:54:00.003+01:002009-05-14T23:30:14.661+01:00Vai se dar<div></div>Na mesa ao lado da minha estava um casal de namorados que me chamou a atenção pelo facto de os dois serem extremamente parecidos. Tinham a mesma cor de cabelo, os mesmos olhos, o mesmo tipo de nariz, o mesmo sorriso feliz. Estavam um em frente do outro, era como se estivessem a ver-se ao espelho. Pareciam irmãos e eu lembrei-me logo do que a minha avó diria se os visse: - "São parecidos. Vai se dar..." Este "vai se dar" era a forma que ela tinha de dizer que o namoro ia dar certo e que acabaria inevitavelmente num bom casamento.<br />Esta é uma crença popular de que me lembro de vez em quando, sempre que reparo num casal assim, com muitas semelhanças físicas. Talvez seja apenas coincidência. Ou talvez não. Talvez haja alguma razão inconsciente para que as pessoas procurem um semelhante, como se se procurassem a si mesmas e se encontrassem no outro.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-133430081075373937?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-28261084739192462012009-05-12T21:45:00.004+01:002009-05-13T15:16:05.171+01:00Pá vista disto...- "Pá vista disto.......". Acabo de ouvir esta engraçada forma de fazer uma comparação. Talvez por ser ainda tão comum, nunca lhe tinha prestado atençã0.<br />O povo faz assim quase todas as comparações. E para melhor se fazer entender, também exagera. "Pá vista desta, a outra casa é um palácio."<br />"Pá vista de..." é a nossa expressão popular que significa "comparando com..." É uma expressão que tem tendência a ser usada com cada vez mais frequência, porque como se sabe as assimetrias aumentam sempre em tempos de crise.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-2826108473919246201?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-79436096641992248352009-05-10T15:24:00.000+01:002009-05-10T18:26:57.579+01:00o barbante dos foguetesEm vez da romaria de antigamente, este ano apenas um homem carregando os foguetes acompanhava os três elementos de capas vermelhas, dois carregando as bandeiras e outro a bandeja com o saco das ofertas para o Espírito Santo. Ao aproximar-se de cada casa, o homem dos foguetes descansava o molho e lançava o foguete que, por tradição, anuncia a chegada das insígnias do Espírito Santo.<br />Noutros tempos, o fogueteiro apenas lançava os foguetes. Era outro rapaz que carregava o molho por entre caminhos e veredas. Um bando de miúdos acompanhava também o cortejo.<br />Quando o fogueteiro se preparava para lançar o foguete, ficavam todos em sentido. Os pequenos fixavam o foguete e ficavam muito atentos para tentar perceber em que local cairia a cana. Depois desatavam a correr, a saltar poios, ribeiros e caminhos para tentar chegar-lhe primeiro. Era uma algazarra.<br />Os pequenos disputavam assim o que restava dos foguetes para aproveitar o barbante que nessa altura vinha enrolado nos foguetes. Tentavam arranjar o máximo possível desse barbante para com ele altearem joeiras. E por isso, porque os pequenos queriam arranjar barbante para as joeiras, vinha uma autêntica romaria a acompanhar os Espírito Santo, enchendo os terreiros das casas de uma animada movimentação.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-7943609664199224835?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-22436647492678513192009-05-08T14:00:00.010+01:002009-05-08T14:00:00.436+01:00bazarouco e borquilha"- Já tens esta palavra? E aquela?" Eu fico contente. Sorrio. Anoto num papelinho, agradeço e na primeira oportunidade coloco nesta página o novo contributo.<br />Foi assim, através do contributo de dois amigos, que anotei estas duas palavras, que me parece terem um significado muito parecido. Borquilha é um vilão, uma pessoa simples, sem grandes conhecimentos, de modos atabalhoados. Bazarouco será um homem pouco inteligente, com jeitos desengonçados e ar atarantado, pouco despachado.<br />Agradeço outras achegas para tentar definir estas duas palavras do vocabulário madeirense.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-2243664749267851319?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-44059111589232114072009-05-07T22:11:00.005+01:002009-05-08T01:47:28.947+01:00beberagem de um dia não engorda porcos- "Queres um gelado?"<br />Balbuciei um não, pouco convicto, enquanto retirava da bolsa uma maçã.<br />- "Beberagem de um dia não engorda porcos." Tentaram, com este ditado que eu não conhecia, convencer-me de que não havia mal nenhum em comer o dito gelado, cheio de açúcar e de calorias. Afinal, seria apenas um gelado, uma vez sem repetição.<br />Não fiquei convencida a comer o gelado, mas fiquei convencida de que valia a pena registar aqui este ditado popular.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-4405911158923211407?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-22062227639924342482009-05-06T18:33:00.001+01:002009-05-06T21:27:12.919+01:00arengar-"Ela arengou, arengou, mas eu fiquei sem perceber nada."<br />Perante o desabafo, sorrio. Entretenho-me com estas expressões como se fossem pequenos tesouros de brincar. E dou por mim a pensar baixinho, só para mim: "Se fosse só ela, era bem bom, lá isso era. O que as pessoas mais fazem é arengar, arengar e não dizer nada."<br />Há pessoas tão peritas nisso, que até parece que fizeram um curso especial de arenganço. Parvos são os que ficam do outro lado, a dar a volta à cabeça para tentar compreender o incompreensível.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-2206222763992434248?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-67768955497189578732009-05-05T19:48:00.001+01:002009-05-05T22:29:46.917+01:00atrás de Maio vem São João- "Atrás de Maio vem São João." Foi com esta expressão que uma amiga, sentindo-me triste, me disse para ter calma, porque tudo passa. Pode demorar mais, pode demorar menos, mas acaba passando.<br />Tal como o mês de Junho, mês de São João na linguagem popular, sucede ao mês de Maio, a vida segue o seu curso, independentemente das nossas dores.<br />Agradeci-lhe o apoio e a expressão, que não conhecia. Atrás de Maio vem São João. Atrás de um dia vem outro. Atrás de uma tristeza vem quem sabe uma alegria. Quem sabe?<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-6776895549718957873?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-42385891722402129812009-05-02T16:38:00.002+01:002009-05-02T16:44:37.530+01:00avistar um enterro sentadoQuando os enterros saíam de casa das pessoas, percorrendo inúmeras veredas até à igreja, era costume as pessoas que por algum motivo não participavam na cerimónia irem "avistar o enterro". Lembro-me de irmos para o Cabouco avistar o enterro do senhor que tinha morrido na Ribeira e que tanta impressão me fez por não levar sapatos. Ficámos em silêncio junto ao bardo que ficava abaixo da casa da Prima Ali e a minha avó avisou para ninguém se sentar.<br />Durante todo o tempo que o enterro demorou a percorrer a vereda estreita, ficámos de pé junto ao bardo coberto de ervas e de pequenas flores. Eu fiquei alerta o tempo todo, com medo e me distrair e me sentar sem querer nalguma pequena reentrância do bardo.<br />A superstição diz que quem avistar um enterro sentado pode morrer.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-4238589172240212981?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-78248170945079647262009-04-30T20:14:00.007+01:002009-05-01T20:17:32.205+01:00dormir de meiasDurante todo o Outono, Inverno e inícios da Primavera, desafio uma antiga superstição, segundo a qual não se deve dormir de meias, porque "os mortos vão de meias".<br />Sempre ouvi dizer isso mas o frio é mais forte do que a crença e só consigo adormecer se tiver os pés quentes. Não tenho medo. Nem sequer quando me vem à memória a imagem do primeiro morto que vi na vida. <br />Lembro-me muito bem de a minha avó me ter levado pela mão por entre veredas, com o vestido de chita a roçar as ervas molhadas, até uma casa na Ribeira onde se chorava a morte. <br />Entrámos na sala e lá estava o senhor na écia, deitado, de mãos no peito, vestido com o seu melhor fato, de meias e sem sapatos. Eu não percebia o que estava a acontecer, nem sequer sabia que se morria, e fiquei muda de espanto, com aquela imagem dentro da cabeça. <br />Depois de uma eternidade, regressámos pela mesma vereda e eu vinha diferente. Não sabia o que fazer do imenso frio que sentia de repente, nem do estranho medo que tinha dentro de mim e me espantava a voz. <br />Não conseguia falar e tinha frio mas lembro-me de ter perguntado à minha avó porque é que não lhe tinham calçado os sapatos, ao menos deviam ter-lhe calçado também os sapatos.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-7824817094507964726?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-40615539473439692152009-04-29T16:22:00.000+01:002009-04-29T16:44:44.642+01:00um sininho- "Não te preocupes que isto 'tá um sininho." <br />Olho para o carro que vão fazer o favor de me emprestar, graças a Deus que há um remedeio, e fico sem saber o que dizer. Está a cair de velho, tem várias tonalidades de cor, uma porta não abre, demora uma eternidade para pegar, e perante o meu ar de desconsolo, volto a ouvir: "Isto 'tá um sininho."<br />Vim a confirmar que a aparência vale muito pouco e que uma porta é mais do que suficiente. Na verdade, o carro está um sininho.<br />Um sininho é uma metáfora para algo que trabalha muito bem. "Um sininho ouve-se ao longe, não se ouve?" - explicam-me - "Trabalha bem, é afinado".<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-4061553947343969215?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-7909481.post-89855925594297990462009-04-28T09:59:00.004+01:002009-04-28T09:59:00.205+01:00a flor humanaCom as compras já metidas dentro dos sacos de supermercado e várias pessoas à espera na fila, a velhinha mexe e remexe na carteira. Abre todas as divisões da carteira que deve ter muitos e muitos anos, é um modelo antigo. Depois abre o porta-moedas da mesma idade e fica confusa. Tinha o dinheiro ali mesmo e já não sabe onde o pôs. Pede ajuda à neta. Olham para o chão, remexem nos bolsos do casaco antigo. Não sei onde nem como, devo ter-me distraído por uns segundos, o dinheiro aparece e a velhinha, rindo com os seus poucos dentes, exclama: "É como a flor humana! Aparece e desaparece."<br />A flor humana acompanhou o meu imaginário infantil, sobretudo devido a uma cantiga que a minha mãe nos cantava:<br /><br />Palhacinha sai à rua, Palhacinha sai à rua<br />P'ra comer banana<br />Para apenas um escudo, paga apenas um escudo<br />P'ra ver a flor humana.<br /><br />Era com esta cantiga que nos arraiais madeirenses um homem vestido de palhaço, sobre um pequeno palco e ao som de música gravada, atraía as pessoas à tenda onde se encontrava esse fenómeno de espantar que era a Flor Humana. A minha mãe nunca viu com os seus próprios olhos, só sabe do que ouvia contar. Mas o meu pai pagou um escudo e viu-a. <br />"Aparecia a cabeça dela saindo de dentro de uma jarra e depois desaparecia para baixo. Era o pai que dizia à filha para aparecer e depois cumprimentar as pessoas e ela tirava o chapéu para cumprimentar."<br />Aquilo dava que falar. Havia muitas teimas porque as pessoas tentavam compreender como é que aquilo era feito. Uns desconfiavam, outros acreditavam, nunca se chegava a um consenso e é assim que se alimentam os assuntos que mais duram. <br />A minha avolita pertencia ao grupo das pessoas que não acreditavam naquela magia. "Ela achava que aquilo não era espanto nenhum porque havia uma espécie de caixa que parecia o cubo de um moinho, onde ela achava que cabia a mulher escondida." Ninguém sabe se a minha avó tinha razão ou não.<br />O certo é que a Flor Humana fez parte de uma época, atraindo pessoas em todos os arraiais madeirenses. E também é certo que nunca foi esquecida. Quando algo aparece e desaparece, como o dinheiro da velhinha na caixa do supermercado, ou outro coisa qualquer, diz-se que é como a flor humana.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7909481-8985592559429799046?l=o-rabo-do-gato.blogspot.com'/></div>Líliahttp://www.blogger.com/profile/10067090615519901219sereia.da.ilha@hotmail.com2