tag:blogger.com,1999:blog-78548804091934008202008-06-24T19:07:25.651+01:00Que farei quando tudo arde?José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comBlogger44125tag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-25214214858319008472008-06-24T18:17:00.001+01:002008-06-24T18:19:27.922+01:00<div align="justify"><em>Eu sou tu e tu és eu; onde estás eu estou e em todas as coisas me acho disperso. Seja o que for que encontres é a mim que encontras: e, ao encontrares-me, encontras-te a ti mesmo.<br /></em><br /><br />Epifânio em <em>Haer</em>, 26.3 </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-41755614527848409552008-06-24T18:16:00.002+01:002008-06-24T18:17:34.266+01:00véspera<div align="justify">Não estive cá a semana passada.<br /><br />Passeavam pela berma os cães num desfile de urinas, ladravam os cães palavras que não se entendiam, e as trelas eram puxadas, tensas, perto<br /><br />(sempre)<br /><br />de uma crise qualquer que as distendesse, para além dos buracos das ruas, e nada podiam fazer, apenas esperar<br /><br />(no meio dos latidos)<br /><br />que a tarde, acabada, viesse a ocultar os rostos que gritavam silêncios.<br /><br />Era a véspera: que farei quando tudo arde?<br /></div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-42377192425173337892008-06-24T18:16:00.001+01:002008-06-24T18:16:29.363+01:00chinfrania<div align="justify">A humanidade, gritavam. Eu sabia que era um grito incolor, por isso não dei muita importância ao facto e segui em frente sem nunca ter olhado para trás. As vozes desfilaram durante ainda algum tempo seguindo os meus passos<br /><br />(os meus, os teus, os de toda a gente, não estou a ser pretensioso),<br /><br />apelando a humanidade numa chinfrania que metia dó. Até que se precipitaram para o rio, chamadas que foram pelo ondear prateado das águas. Fiquei a resolver o tempo observando o gesto das pontes enquanto as sombras se faziam tarde.<br /><br />Quando virei costas e enfiei as mãos nas algibeiras, o crepúsculo era de silêncio.</div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-46959251731035397152008-06-24T18:15:00.003+01:002008-06-24T18:15:58.273+01:00vieram e partiram<p align="justify">Vieram com um cadáver a implorar que não tivéssemos medo, e o santo tossiu. Era véspera de todas as exéquias, e as carpideiras não ouviam outros soluços que não os da terra que lhes doía. Os cães farejaram a morte e vieram beber a sede aos pés do defunto embrulhado em madeiras perfumadas. Vieram e partiram quando as flores viçosas perderam o brilho.</p>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-55795500608018352252008-06-24T18:15:00.001+01:002008-06-24T18:15:29.655+01:00esperando<div align="justify">Estão ali o dia todo, esperando. Que sopre o vento e arraste uma palha. Que brilhe o sol e aqueça a pele enrugada. Que se abra uma pálpebra. Que se quebre o sono. Que a partilha seja de duas palavras. Que as mãos se toquem, frouxas, nostálgicas da firmeza e do coração à boca.<br /><br />A voz é uma planície em pousio.<br /><br />Querem ver a terra abrir para lhe sentir o humo.</div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-37959463141379066172008-06-24T18:14:00.002+01:002008-06-24T18:15:03.331+01:00o dia a conquistar<div align="justify">Há muito ainda a percorrer. Será uma absurda falta de senso sentar e esperar pelo quer que seja. Não há definitivamente tempo para descansarmos, sequer pensar. O ritmo não pode - não deve - abrandar. Tomemos nossos haveres e continuemos. Será o dia a conquistar. Vejam as pedras no caminho: brancas, torneadas e polidas pelo vento. Se nos quedarmos, ficaremos assim, como o calcário coxo que veste a paisagem. Forçamos nossas pernas, ordenamos nossos pés. Quando o dia morto e purpúreo, subiremos à noite para agradecer a jornada.</div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-24958433046893623202008-06-24T18:14:00.001+01:002008-06-24T18:14:35.274+01:00areias brancas<div align="justify">Trouxeram-no com o olho esquerdo cego, e a acenar a multidões com o braço direito erguido. Por não ver do lado esquerdo, e com a boca descida<br /><br />(cicatriz de insecto que rasteja)<br /><br />arrasta-se de lado como um caranguejo. Alguns dizem que anda mesmo para trás, incapaz de vislumbrar o horizonte de onde nascem dias. É sabido que vive de sandálias<br /><br />(nunca os pés descalços!)<br /><br />e com o pão ressequido desvia a fome, anoitecendo as vozes em areias brancas. O tempo viu-o esquecer-se numa ravina de sombras. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-25875327118969985702008-06-24T18:13:00.000+01:002008-06-24T18:14:05.875+01:00a certa dúvida<div align="justify">Ser mais do que essa dor de cabeça: o sangue que ferve espumoso no sono mais prolongado. Veia que resiste à cicatriz. Ao disparares lentamente o olhar que se esfuma encontras a abertura perpendicular da cortina fugindo para as cores do sol. Se ouves as buzinas dos automóveis estás desperto, o que pressupõe que a íris não devia ser o vidro com que se anuncia e a pele não se acinzentaria de uma cera com cheiro que os cães perseguem. Porque me mentes? Larga-me os sonhos e torna-te, de uma vez por todas, efémero. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-42989605235623593982008-06-24T18:11:00.001+01:002008-06-24T18:13:33.549+01:00janelas veladas<div align="justify">Comiserativos actos além. Prostradas carnes pela dor dos joelhos que latejam, e dos pés que incham. Cega constrição ao abandono de uma imagem vacilante, ora de barro, ora de madeira, pétrea sempre. Um espelho tetro para os espíritos velíferos, exuberando cada gesto inerte como se as janelas veladas sem um até amanhã augusto. Fé que não duvida é fé morta. <span style="font-size:85%;">(*)</span></div><p align="right"><br /><span style="font-size:85%;">(*) <em>Miguel de Unamuno</em></span> </p>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-54597456497072269032008-06-24T18:10:00.000+01:002008-06-24T18:11:26.301+01:00ainda não<div align="justify">Valerá a pena que as janelas se abram e espalhem as notícias pelo chão violando o ressonar dos meus lençóis cheios de mim? Valerá entorpecer-me de um sono mal acabado ou de um acordar em sobressalto? O sonho ainda não terminou, não faças isso, cerra as janelas e deixa a solidão respirar, acertando o passo pelo ritmo do meu peito repousado.<br /><br />Estamos já na véspera e nada me ocorre sobre o que farei quando tudo arde. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-34287516778067942292008-06-24T18:09:00.000+01:002008-06-24T18:10:51.573+01:00sem desvirtuar<div align="justify">Se eu falhar promete-me que me corriges, me chamas à atenção. Não, não ignores, não menosprezes, não sejas indiferente. Promete-me essa fidelidade sem sombras, sem tortuosos desvios, sem olhares desconfortáveis. Se eu falhar fica lá para me veres a reaprender, para me veres a erguer da vergastada, para me veres a afastar o lodo do corpo. Não vires as costas, muito menos chores porque as lágrimas são um céu plúmbeo que se inteira da minha cabeça obrigando-me a comer o alcatrão do chão. Promete-me que me seguras no braço, e alongas um sorriso que me incite: Vai! Se eu falhar não tragas os jornais nem a televisão, sopra-me o teu hálito à falta de uma brisa que me acalente. Não cedas, por favor, não cedas comigo à corrupção das palavras que despertam cedo demais para o desespero; por favor, se eu falhar promete-me que estarão lá os teus olhos para que haja luz, e alguma fé. Não me faças acreditar que nasci e permaneço na solidão, até que a morte me acompanhe. Se eu falhar, chama-me pelo nome. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-11402346484373207142008-06-24T18:08:00.000+01:002008-06-24T18:09:11.717+01:00cristo falando à humanidade<div align="justify">Apanha-me as migalhas, por favor. São pedaços que deixei de mim nas tuas mãos, julgando-te com uma dessas fomes danadas, de queixo aguçado e olhos saltando das órbitas. Não tens dedos delicados e humildes para numa paciência de puzzle confortares o estômago com tão miseráveis pedaços do pão que te dei. Tinha como te alimentar e te fortalecer os músculos para uma luta mais justa, agora que é tão intensa e não podes fugir dela. Tinha todas as fontes onde pudesses saciar as tuas sedes. Preferiste espalhar-me ao largo, voltar costas, com um aceno breve por cima dos ombros arrogantes. Agora não sei. Nunca soube se esse aceno era de repúdio ou se querias ainda que te pusesse a mão por baixo, como se faz aos passarinhos que aprendem os primeiros passos do voo. Nada mais a dizer. Recolhe-me por favor as migalhas, e devolve-me o corpo, traçado a dores que não quiseste compreender. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-61532066935944628092008-06-24T18:07:00.002+01:002008-06-24T18:08:26.969+01:00estender a mão<div align="justify">Estendi a mão apenas para saber o que poderia acontecer. Não esperava grandes manifestações afectuosas e alegrias inusitadas. Era apenas um estender da mão, como outra coisa qualquer que se estendesse ao ar, e perante os olhares.<br /><br />Um ambiente apreensivo. E a resvalar para a incompreensão. O que queres de mão estendida, perguntaram-me, na margem entre o medo e a repulsa.<br /><br />Nada, foi a minha resposta.<br /><br />Da fúria, as pedras então atiradas fizeram com que recolhesse novamente a mão à algibeira, e a noite deslocou-se dentro de mim. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-27691268060881435002008-06-24T18:07:00.001+01:002008-06-24T18:07:40.165+01:00céptico<div align="justify">Não sei suportar a normalidade e a simpática hipocrisia deste mundo. Se falasse em suicídio, viriam todos correndo com as mais belas palavras como que tiradas a varinha de condão de uma cartola. Sei que não estou só, mas sei que ainda estou longe.<br /><br />Resta saber se realmente vale mesmo a pena. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-32396689399275490722008-06-24T18:06:00.001+01:002008-06-24T18:06:58.995+01:00peste<div align="justify">A questão não era ter que levantar-se. Era, isso sim, levantar-se para o mundo, de olhos cegos pela fadiga e lábios ressequidos pela febre.<br /><br />Para quê então ter que despedir-se do leito que lhe embalava a raiva do sangue?<br /><br />Mas tanto insistiram que se levantou. Levantou-se e caiu, porque o mundo segregava prurido pelas entranhas e fedia como animal morto sob o sol.<br /><br />Parece-lhe que, afinal, o inferno sempre morou aqui ao lado... </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-39904593143091182792008-06-24T18:05:00.001+01:002008-06-24T18:05:50.131+01:00corpos frios<div align="justify">Sabias que a morte transpira madrugadas como quando tens pesadelos? O suor frio das convulsões. A dolorosa contenção dos espasmos.<br /><br />Tudo tem o toque da pedra depois de parida e abandonada na sua agreste natureza. Tudo primeiro é um pó, que vai ardendo aos poucos enquanto os relógios do cosmos compõem o seu mecanismo. Vem depois fervilhando como o sangue, como a paixão que te coloca uma cruz nos ombros. Ao nascer, vindo do mito da ressurreição, solidifica com os beijos do vento e as crinas das chuvadas. Nasce para morrer, é cristo fidedigno. E duro que só a água mole.<br /><br />De modo que… Se o que pretendes é conhecer-me o hábito e trocar prazeres menos mundanos, prefiro que me não toques, pele com pele, carne com carne. Lê-me, antes. Apalpa-me com o teu sexto sentido e adivinha-me o medo que tenho dos corpos frios. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-5894641636480212122008-06-24T18:04:00.002+01:002008-06-24T18:05:19.173+01:00omega... alfa<div align="justify">Prefiro começar pelo ómega, e ir derretendo a história à velocidade estóica da luz. Circundar a existência, ir buscar o último ponto ao princípio de tudo, regredir para me encontrar, dar uma cambalhota cósmica e saber do útero onde deus ouviu o pulsar do primeiro coração. No cabo do ponto alfa avistar-se-à a finisterra, e todo o mar entretanto – amniótico para a gestação de deus – terá a fértil verdade de tudo nas feições do simétrico anjo que conclui o bem e o mal. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-62485372452166448372008-06-24T18:04:00.001+01:002008-06-24T18:04:51.101+01:00fungos<div align="justify">Na parede nascem os fungos com a súbita progressão da música abalando a sapiente leveza do cotão varrido no soalho e o farelo da cal que desce do tecto. Veio uma nesga de sol acender o brilho das unhas que repousam a manhã abreviada. Ergues-te num pulo de ave marítima, e tocas-me com o bico da tua boca desfeita na cinza do primeiro cigarro.<br /><br />Na parede crescem os fungos e já te custa respirar o sal que a brisa pulveriza sobre o corpo encontrado na janela. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-606919428448130492008-06-24T18:03:00.000+01:002008-06-24T18:04:20.724+01:00é tempo de haver tempo para o tempo<div align="justify"><span style="font-size:130%;">O tempo<br /></span><br />(não apaga os teus episódios da história, esconde-os manhoso, esquece-os indefinidamente. E na sua maquinal brandura de relógio, o tempo ergue do nada muros e fecha portas - não se abrem quaisquer janelas -, e impõe a sua lei lavrada com dentes cerrados e o sobrolho carregado. É o dono do mundo, rei universal, pai de luz e som, guardião divino)<br /><br /><span style="font-size:130%;">será o ócio de deus?</span> </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-83527768796643636692008-06-24T18:02:00.000+01:002008-06-24T18:03:00.318+01:00de pé<div align="justify">Aguenta-te como as árvores. Dizem que morrem de pé, escancarando a boca dos ramos num esgar de perene agonia. E sem mudar de figura secam até ao esqueleto, depois de levadas a enterrar no húmus do tempo. Se as esquecem, serão ingratos. Por isso deves aguentar-te firme, assim como uma árvore. Ignorando intempéries, catástrofes de maior calibre. Cada dedo teu o ramo que deixará, ano após ano, de ver nascer as folhas dos teus gestos. Secarás até ao esqueleto, e se o tempo também te recolherá, terás ainda o perfume da terra que te plantará na língua toda a eternidade.<br /><br />Por isso, em vez de pensares em tudo o que te digo e te lembrarei consoante o embalo do vento, faz com que floresça o que és, e te amadureça no peito o melhor do fruto. Se te esquecerem, morrerão de fome, deitados como qualquer folha velha varrida na sarjeta. Porque as árvores, pois que são nobres se nos dão a sombra e o fruto, morrem de pé. Não tenhas medo da tua boca escancarando o mundo.<br /><br />Latirão os cães o dobrar dos finados. Deles não se esquecerão nunca. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-41755078385105202452008-06-24T18:01:00.002+01:002008-06-24T18:02:30.367+01:00descendência<div align="justify">Nasceu-lhe um filho nas mãos para carpir o suor dos séculos. Diz que é filho do futuro e não traz boca para chamar os nomes. Nem um vagido. Nada. Apenas o rosto firmando com o olhar a categoria humana dos oprimidos. Nasceu-lhe um filho cego de palavras, porém com aptidão para as cores das bandeiras como farrapos ao vento. E sensibilidade para os prantos das viúvas de cada país. Nasceu-lhe um filho das mãos para sentir a impureza dos seus poros. Para saber o quanto envelheceu.<br /><br />A liberdade não se deitou com um homem. Fez-lhe o filho um mundo inteiro que, de decrépito, já não se erguerá do abismo para ensinar a sua descendência. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-21407914134511192412008-06-24T18:01:00.001+01:002008-06-24T18:01:55.757+01:00a condição<div align="justify">Cedo à paisagem e ao frio a minha perspectiva do futuro. Sabemos todos que nada será como dantes e quem assim não pensar seguirá enganado. Mas os rostos que passam parecem-me os mesmos rostos de outrora, e a terra germina agora as mesmas sementes de antes. Um aperto de mãos, um afago, um beijo que poisa aqui e ali nos afectos, vozes que falam e vozes que se calam, braços que lutam e braços que baixam os seus esforços. A mesma sede, a mesma fome, a mesma fartura para quem não bebe ou come. As mesmas janelas. Sobretudo as mesmas janelas apontando aqueles horizontes. E eu cedo toda a minha perspectiva do futuro à mesma condição de sempre: onde é a saída desta anciã caverna? E porquê as mesmas sombras, sinónimas de todas as palavras e actos que urdem a nossa história? </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-10722748266216285142008-06-24T18:00:00.000+01:002008-06-24T18:01:22.044+01:00nado-morto<div align="justify">Vamos apascentar a fadiga e devolver o sangue derramado à terra. A tua confissão é um novelo de pó com o sol e a chuva e toda a miséria emigrada do teu corpo - um país sem fronteiras, mas um condomínio perfeito. Diz-se morte mas não acreditamos, são todas as cicatrizes e a raiva e os prantos, todos os gritos emparelhados como bois que abrem a terra. O aconchego do teu colo exalando o livre odor acre. Acredita-me. Não são madrugadas recicladas ao espelho. Tão pouco a aceitação do destino. Será sempre o vigor crescido dentro da nossa saliva, com os restantes humores à mistura. De terrenas náuseas. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-27575579352236964252008-06-24T17:59:00.003+01:002008-06-24T18:00:44.659+01:00descartáveis<div align="justify">Somos descartáveis, peneirados com insistência até ao sal da nossa pele. Marcados, cambiados, clamados, vendidos ou emprestados. Na tua voz colocam um selo de garantia que não podes quebrar - estás ao abrigo de um procedimento interno, de um contrato.<br /><br />Até que a terra te engula, sabias? E certo dia tudo terá acabado, assim como se esvai a cor dos jardins à medida que a tarde avança como pluma sobre a vida e os relógios. É o gesto de um cigarro, ou o folhear de um livro. E tu repeles a ideia como se acreditasses que alguém fica para semente<br /><br />- Que parvoíce estás tu aí a dizer?<br /><br />e ninguém é semente, porque ninguém amadurece completamente para a deixar, para o ser. Ficam sempre resquícios de algo que não se fez, um sonho qualquer que fica sempre para trás, adiado constantemente<br /><br />- Agora não pode ser, talvez mais tarde,<br /><br />de modo que, quer queiras ou não, um dia tudo terá acabado, e como ficarão os objectos, as roupas, os sítios<br /><br />- Onde está fulano?<br /><br />para todo o sempre órfãos ou muito mal adoptados por quem fica.<br /><br />Então falam-te da obra deixada, da memória que deve ser respeitada, e coisas assim, tão circunstanciais como a própria partida, que é somente um simples momento e nada mais. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7854880409193400820.post-53620346402236754052008-06-24T17:59:00.001+01:002008-06-24T17:59:33.963+01:00bicho urbano<div align="justify">Porque nos procuras ainda, Cristo, nas paredes sólidas do pecado? A nossa carne é um bicho urbano, de olhos reduzidos às sombras dos becos, sujo e fedorento como as ratazanas abundando nos esgotos. Céu azul é um sonho, Cristo, céu azul e amor são contos antigos que já não sabemos de cor, e perdemos há muito o livro em que foram escritos.<br /><br />Não mostres, Cristo, essas chagas. Que nos interessa, se a alma com que abrimos o nosso destino é ela mesma uma ferida borolenta, gangrenando todas as aspirações humanas?<br /><br />Não venhas, Cristo, sai-te do nosso caminho, poupa-te à delicadeza dos espinhosos cardos, nossa enxerga de todas as noites.<br /><br />E ao subires ao céu leva contigo quem ainda duvida que o que te dizemos é a clara verdade. </div>José Alexandre Ramoshttp://www.blogger.com/profile/05982208213232738214noreply@blogger.com