tag:blogger.com,1999:blog-76651912007-04-17T07:20:37.475+01:00Fora de Bordofora_de_bordohttp://www.blogger.com/profile/04599078851586060501noreply@blogger.comBlogger2125tag:blogger.com,1999:blog-7665191.post-1091222773128911772004-07-30T22:00:00.000+01:002004-07-31T15:53:02.606+01:00De um deus chamado rio ou o tempo dos fundamentalismos em 7 cenas<p><img src="http://www.brentatwater.com/OH%20M%20GOD%20OC%20WP.jpg" /></p><p>FADE IN:
<br />
<br />1. EXT./ FINAL DE UMA TARDE DE OUTONO – CAFÉ PARAÍSO
<br />
<br />Deus, assobiando. Amassado pela inércia da tarde, decide-se pela criação. Fuma cigarrilha, escrevinha numa folha de papel pardo. Diletantemente, folheia o labirinto das notícias do jornal e tricoteia uma SMS.
<br />
<br />SUPER – Vou tornar-me rio. Um rio que perpasse todas as cidades e muros. Em flor, enfim, toda a humanidade. Enviar. Número de telefone. A enviar mensagem.
<br />
<br />DEUS
<br />(sorrindo)
<br />Líquido, é o fim…
<br />
<br />Deus fecha o jornal e ensovaca-o. Ergue-se lentamente. Afasta-se, subindo a calçada em direcção ao sol alaranjado de fim de tarde.
<br />
<br />CUT TO:
<br />2. INT./ ANOITECER – QUARTO DE DEUS
<br />
<br />A janela está aberta. Torna-se fácil o câmbio de uma corrente de ar que faz sussurrar um espanta-espíritos. O quarto é animado por sombras que vão desaparecendo à medida que a luz do dia se extingue. Deus está nu, deitado no chão por cima de uma manta peruana.
<br />
<br />Embalado pelo sussurrar do espanta-espíritos, Deus adormece.
<br />
<br />3. EXT./ AMANHECER – RUA CORPO DE DEUS
<br />
<br />Duas folhas de parra bailam ao vento, em frente a um muro já rendido ao tempo, de tão degradado aspecto. No muro está afixada uma placa verde.
<br />
<br />SUPER – Rua Corpo de Deus
<br />
<br />Um automóvel em andamento, vindo da esquerda.
<br />As duas folhas de parra bailam ao vento.
<br />Um automóvel em andamento, vindo da direita.
<br />O carro da esquerda acelera.
<br />O carro da direita acelera.
<br />As duas folhas de parra bailam. Ouve-se um estrondo.
<br />CUT TO:
<br />4. INT/. AMANHECER – QUARTO DE DEUS
<br />
<br />A portada da janela bate com a força do vento da manhã. Deus desperta.
<br />
<br />CUT TO:
<br />A manta peruana ilustra o chão de madeira. O espanta-espíritos sussurra. Ouve-se a água do duche a correr e o ruído do rádio-despertador mal sintonizado.
<br />
<br />CUT TO:
<br />Deus está sentado numa cadeira de palha na varanda. Rói uma maçã vermelha. Sorri. Folheia um livro.
<br />
<br />SUPER – Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakov (em russo)
<br />
<br />Pousa o livro e resgata o telemóvel. Escreve uma SMS.
<br />
<br />SUPER – É hoje. O dia maior que os dias. Deus torna-se rio…
<br />
<br />Pega novamente no livro e folheia-o. Lê atentamente a epígrafe. Completa a SMS.
<br />
<br />SUPER – “Quem és tu, afinal? Sou parte daquela força que eternamente quer o mal e eternamente quer o bem” (Goethe, Fausto). Enviar. Número de telefone. A enviar mensagem.
<br />
<br />CUT TO:
<br />5. INT./ TARDE – CASA DE DEUS
<br />
<br />Deus coloca mochila negra às costas e sai de casa. Bate a porta e chama o elevador.
<br />CUT TO:
<br />6. EXT./ TARDE – CENTRO DA CIDADE
<br />
<br />Ouve-se uma voz que parece ecoar por toda a cidade. É a voz de Deus
<br />
<br />DEUS
<br />É o fim trágico de um deus. O nascimento imparável de um rio.
<br />
<br />CUT TO:
<br />7. INT./ TARDE – CAFÉ PARAÍSO
<br />
<br />Uma mão sintoniza um rádio, passando por vários noticiários simultâneos.
<br />
<br />LOCUTOR/LOCUTORA
<br />Atentado em…
<br />Bombista suicida provoca 12 mortos e…
<br />A resposta armada já se fez ouvir…
<br />
<br />FADE OUT
<br /></p>
<br />fora_de_bordohttp://www.blogger.com/profile/04599078851586060501noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-7665191.post-1090197669269169062004-07-19T00:59:00.000+01:002004-07-19T01:41:09.270+01:00O deus anoitecido de Mukavel<img src="http://www.reuelpoeta.blogger.com.br/por%20do%20sol.jpg" />
<br />
<br /><span style="font-family:trebuchet ms;">Ondulava Lusa, com seus pés de tamborzinho ritmado, por entre a noite cantada da selva. A aldeia de colmo silencioso pendurada no estalar da fogueira de lua e mar. Ao fundo os gambozinos e outros dissabores sonhados que tais.
<br />
<br />Emolduradas no azul nocturno, as derradeiras ossadas do que se contava terem sido os botes de muita viúva trazida ao mundo. Dezenas de carcaças de madeira que o tempo soprou cascas de noz anoitecidas num desígnio quase arqueológico. E nessa peste de cheiro salgado por certo a pele se engalinhava pela quasi-presença de um novo olhar.
<br />
<br />Lusa era ânsia soluçante. Atentara no esplendor da tarde passada: Mukavel chegara de bicicletar. Nesse instante, de corpo entornado em suor, pousou aquele deus embrulhado em lona mixuruca. Logo o assento de erva selvática e terra batida se viu convertido em templo ou ilha de admiração.
<br />
<br />Mukavel, tornado Messias do embrulho, não desvendou logo os olhos da curiosidade. E pregou do alto do seu corpo de colibri esfomeado.
<br />
<br />- Dentro daquele saco trago novos olhos para toda a gente…
<br />
<br />A aldeia tresandava a murmúrio. Mukavel, inesperado propagandista, retorquiu.
<br />
<br />- Quem gostar dos novos olhos, compra! Quem não gostar, cega!
<br />
<br />Assim animado, converteu palhota em escritório de peregrinação. Para experimentar os novos olhos Mukavel cobrava. Podia ser em moeda, galinha ou favor a prestar. Estratégia para valorizar o produto e agigantar a expectativa.
<br />
<br />À porta da palhota rentavelmente milagrosa engrossaram as gentes. Os carreiros transbordaram e os estômagos não almoçaram para ver com outros olhos.
<br />
<br />Lusa desconfiava. Mukavel impusera o total sigilo – se é que pode existir o parcial – aos peregrinos pagadores. Forma esperta de não afastar a possível clientela. E assim Lusa – não pagadora – via proibir-se esse novo mundo do olhar.
<br />
<br />Ao fim de tardias horas de consulta e de crédito, Mukavel decretou perante o fascínio generalizado.
<br />
<br />- Logo à noite, ESPECIALMENTE – fez questão de erguer o braço e a voz – há consulta para todos… GRATUITAMENTE… – empenho do mesmo jeito empolgado de quem já folgou o bolso – Quando o sol terminar, consulta para a gente…
<br />
<br />A aldeia desunhou-se pela refeição antecipada. De modo algum, a falta à comunhão sob as estrelas e a noite cantada do mato. Assim se profetizou, assim se cumpriu.
<br />
<br />Findo o sol, Mukavel descobriu para todos o novo deus. A noite de gente arqueou-se. A partir daí, proibiu-se a palavra e decretou-se o ronronar único da fogueira ante a sombra de Mukavel. </span>
<br /><span style="font-family:trebuchet ms;"></span>
<br /><span style="font-family:trebuchet ms;">A aldeia fez-se silêncio. O deus fez-se televisão.</span>
<br />fora_de_bordohttp://www.blogger.com/profile/04599078851586060501noreply@blogger.com