tag:blogger.com,1999:blog-7078586614879242325.post-39511754692418432632008-05-08T12:47:00.007+01:002008-05-23T08:51:38.103+01:00Entrevista com o Investigador José Barreto<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="https://www.ics.ul.pt/rd/fotos/PraiaRochaJul2005%20-%20thumb1.JPG"><img style="cursor: pointer; width: 68px; height: 88px;" src="https://www.ics.ul.pt/rd/fotos/PraiaRochaJul2005%20-%20thumb1.JPG" alt="" border="0" /></a><br /><div style="text-align: justify;"><span style="font-size:85%;"><span style="font-family:verdana;"><br />Temos a honra de apresentar uma entrevista com o </span><a style="font-family: verdana;" href="https://www.ics.ul.pt/rd/person/ppgeral.do?idpessoa=51">Dr. José Barreto</a><span style="font-family:verdana;">, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que está neste momento a preparar uma </span><a style="font-family: verdana;" href="https://www.ics.ul.pt/rd/project/projectinfo.do?idprojecto=177">edição dos Escritos Políticos de Fernando Pessoa</a><span style="font-family:verdana;">.</span></span> <span style="font-size:85%;"><span style="font-family:verdana;"><br /><br />José Barreto é um especialista em Sociologia, História e Ciência Política e estará dia 2 de Julho na Casa Fernando Pessoa a falar sobre o tema "Pessoa e Fátima. A prosa política e religiosa", no âmbito das <a href="http://mundopessoa.blogs.sapo.pt/248562.html">conferências comemorativas do 120.º aniversário de nascimento do poeta</a>.</span></span><br /><br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >Está a preparar desde 2006 uma colectânea dos escritos políticos de Fernando Pessoa. Podes falar-nos um pouco sobre esse projecto, como nasceu e como está a decorrer?</span><span style="font-weight: bold;font-family:verdana;" ><br /><br /></span><span style="font-family:verdana;">Publicar todos os escritos políticos de Pessoa é um objectivo ambicioso e por força ainda muito distante, se pensarmos que Pessoa escreveu seguramente, segundo os meus cálculos, mais de duas mil páginas rotuláveis como ‘escritos políticos’, a que há que juntar trechos de outro tipo de escritos − cartas, por exemplo. Muitos dos escritos políticos de Pessoa, em prosa e também em verso, não passam de fragmentos com uma, duas ou três páginas, mas também os há com mais de uma centena. Diga-se que uma parte muito considerável destes escritos está ainda inédita. Alguns deles são de dificílima leitura, porque os que eram mais fáceis de ler, já foram transcritos e publicados. O meu objectivo, mais realista, é publicar uma colectânea de escritos políticos escolhidos em três volumes, correspondendo cada um não a uma área temática, como fez Joel Serrão nos anos 70-80, mas sim a um período da sua vida de cerca de dez anos (1905-1915, 1915-1926, 1926-1935). O volume correspondente ao terceiro período está bastante adiantado, prevendo eu a sua conclusão ou no corrente ano ou no início do próximo. Neste volume caberá toda a produção escrita sobre a Ditadura Militar e o Estado Novo até 1935, a que se somarão os escritos sobre outros temas, inclusive não portugueses.<br /><br /><span style="font-style: italic;">Como qualificaria o pensamento politico de Fernando Pessoa, sendo certo que ele foi evoluindo, como o poeta, num período muito conturbado da história Portuguesa?<br /></span><br />Pessoa foi republicano, democrata e radical na juventude. Depois, deixou o radicalismo e declarou-se republicano conservador e anti-afonsista. Em seguida abandonou o republicanismo e a democracia − a atracção pelo Sidónio também é desse período, embora Pessoa se tenha tornado ‘sidonista’ só depois da morte do ‘Presidente-Rei’. Aderiu à ideia monárquica, mas não aos movimentos monárquicos portugueses, pois os detestava a todos: constitucionalistas, legitimistas, integralistas. Cultor de paradoxos (mais aparentes do que reais), Pessoa dizia-se adepto de uma monarquia não hereditária, coisa estranha de que só se conhece o exemplo do papado, mas sustentava também a ideia de uma ‘República aristocrática’. Nos anos 20 adere à voga nacionalista e antidemocrática. Quando muitos dos que tiveram um percurso semelhante ao dele se tornaram fascistas, Pessoa enveredou por outro caminho: o seu! A formação inglesa, nomeadamente nos planos filosófico e político, tinha deixado marcas profundas no seu pensamento. No fim da vida dizia-se ‘nacionalista liberal’ e ‘conservador de estilo inglês’. Eu acho que toda a vida ele foi isso mesmo, por vezes escondido por baixo de outras coisas conjunturais.<br /><br /><span style="font-style: italic;">Foi Pessoa a seu tempo também um desiludido com a política, sobretudo depois da "queda do sonho" de Sidónio Pais?<br /><br /></span>Não me lembro de ter lido nunca uma única palavra de Pessoa contra os políticos em geral ou contra a política. Pelo contrário, Pessoa foi toda a vida um apaixonado dos temas políticos. E um analista político de grande lucidez. A desilusão dele foi com os democratas e republicanos portugueses, sobretudo com o afonsismo. Não teve mais desilusões, porque nunca mais alimentou ilusões em relação a ninguém, mantendo o seu sentido crítico sempre muito activo, incluindo a respeito de Salazar.<br /><span style="font-style: italic;"><br />Há alguma polémica na posição de Pessoa face ao Estado Novo. Qual a sua opinião, face sobretudo ao "Interregno" de 1928?<br /><br /></span>O Interregno é uma obra datada, que Pessoa depois repudiará em parte. Mas nada nessa obra é dito em favor da ditadura militar concreta que havia então em Portugal, nem das suas políticas concretas. O único nome de político contemporâneo que aparece no folheto, e de quem cita as ideias, é o de Lord Hugh Cecil, um político conservador britânico íntimo de Churchill. Pessoa limitava-se a reconhecer aí a necessidade de um Estado de transição, liderado pelos militares, para uma nova ordem constitucional (não foi isso que se passou também em 1974-76 em Portugal?). Pessoa nunca aderiu ao Estado Novo, à Constituição de 1933 ou ao corporativismo, dos quais discordava por razões de fundo. A ‘aceitação’ e ‘confiança’ que Salazar nele despertou durante um período de dois ou três anos, que nunca significou adesão nem a Salazar nem ao salazarismo, desapareceu completamente em 1935, quando Pessoa se revoltou primeiro contra a lei antimaçónica e, depois, contra a guerra que o poder (Salazar, Ferro, etc) moveu aos intelectuais livres e à liberdade de expressão. Curiosamente, Pessoa nunca reconheceu verdadeiras qualidades de liderança política em Salazar nem lhe augurava grande futuro político. Em 1935 achava que Salazar só se mantinha no poder por falta de alternativas (não só de um sucessor, mas também de políticas alternativas) e porque havia no país um grande medo do comunismo, por causa da situação em Espanha. Sobre o assunto, recomendo a leitura de um artigo meu a publicar no próximo verão na revista inglesa Portuguese Studies, ‘Salazar and the New State in the Writings of Fernando Pessoa’.<br /><br /><span style="font-style: italic;">Pessoa que foi qualificado famosamente por Jorge de Sena como um "indisciplinador de almas" e não tanto um interventivo, via-se realmente como um possível instrumento de mudança da politica do seu tempo?</span><br /><br />Pessoa ansiava pelo estatuto de oráculo político. Que é a sua República Aristocrática senão um sistema em que o poder respeita, cultiva e ouve uma elite esclarecida? Ele não acreditava na sapiência das urnas em Portugal, onde dizia não existir uma ‘verdadeira opinião pública’ (comparada com a britânica, decerto que não). Como intelectual que se situava militantemente au-dessus de la melée, Pessoa achava que não tinha de intervir directamente na vida política e partidária. Compare-se com o estatuto que têm alguns intelectuais e opinion makers nossos contemporâneos, afastados das lides partidárias e da política quotidiana, preferindo exercer uma influência directa, não intermediada por nenhuma organização, sobre os governantes e as elites.<br /><span style="font-style: italic;"></span></span><span style="font-weight: bold;font-family:verdana;" ></span></span></div>Knoreply@blogger.com