tag:blogger.com,1999:blog-64922192008-07-22T15:20:35.182+01:00Garfiargarfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comBlogger466125tag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-21406519064212761202008-07-21T19:56:00.002+01:002008-07-22T15:20:35.197+01:00<div style="text-align: right;"><span style="font-weight: bold;font-family:Constantia;" >01:15<o:p></o:p></span></div> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family:Constantia;">Entrou sorrateiramente sem acender qualquer luz. Dirigiu-se à casa de banho, fechou a porta em silêncio e sorriu: decidiu fazer-lhe uma surpresa. Despiu-se, tomou um duche rápido e, só se tendo secado, apagou a luz, abriu a porta da casa de banho e ficou imóvel. Não ouvia nenhum ruído, nem sentia qualquer movimento. Pé ante pé foi até à cama, onde se deitou com mil cuidados. Sentiu o fresco do lençol e o calor que emanava do corpo desejado. Sorriu e tocou-lhe suavemente. Feliz, teve um ligeiro tremor de excitação: a surpresa ia começar…<o:p></o:p><br />A luz do candeeiro acendeu-se.<o:p></o:p><br />O corpo imóvel moveu-se e sentou-se: mão no interruptor e cara de tempestade.<o:p></o:p><br />– Deves pensar que sou uma puta!<o:p></o:p><br />Entre o espanto do tom, da luz, da cara, esqueceu-se de retirar a mão que pousara na perna e sentiu-a afastar-se até que a mão caiu desamparada no lençol.<o:p></o:p><br />– Uma puta?!<o:p></o:p><br />– Sim, uma puta! – A luz fraca da lâmpada economizadora distorciam-lhe as feições e o silêncio da noite amplificavam-lhe a voz.<o:p></o:p><br />– Uma puta?! – tornou a perguntar, à procura de um sinal em sentido contrário, de um sorridente “Enganei-te!” ou de algo que… de qualquer coisa que… não sabia mas ainda esperava qualquer coisa. – Porquê uma puta?<o:p></o:p><br />A luminosidade da lâmpada aumentava mas o que via não se tornava mais claro, pelo contrário: a mão que continuava agarrada ao interruptor, os olhos perdidos em pálpebras demasiado abertas que não descolavam dos seus, os lábios numa linha horizontal de força quase descontrolada, o pescoço retesado com as veias salientes num esforço de contenção… Tudo o que via enegrecia o quadro.<o:p></o:p><br />Entristeceu definitivamente sentindo que a luz afastava a remota possibilidade do “Enganei-te!”, que a claridade já não permitiria, e olhou para a casa de banho onde desejou estar e recomeçar tudo de novo.<o:p></o:p><br />– Uma puta! – O volume baixara mas o tom era mais duro, a mão largou o interruptor e os braços alinharam-se ao longo do corpo, terminando em punhos cerrados que entravam pelo colchão. – Sim, deves pensar que sou uma puta para estar aqui, a esta hora – olharam de viés para o relógio –, a esta hora de pernas abertas à espera de vossa excelência para foder!<o:p></o:p><br />Olhou de novo para o relógio, não se enganara, era 1:15. “E que não fosse” censurou-se por entender que estava a justificar o injustificável.<o:p></o:p><br />– A seguir vais-me perguntar onde é que andei? – perguntou, enquanto se sentava na cama. Tentava pensar mas não conseguia, as ideias, os pensamentos, as dúvidas, as perplexidades atropelavam-se, caíam em catadupa umas atrás das outras e anulavam-se.<o:p></o:p><br />– Não posso?<o:p></o:p><br />O aguçado “Não posso?”, manejado com fria e letal destreza, fez-lhe pior que a surpresa da “puta à espera de pernas abertas”, que a luz do candeeiro a iluminar uma relação que não sabia condenada, que a expressão disforme e animalesca que os reflexos sombrios do seu interior e da sua fraca lâmpada mostravam. <o:p></o:p><br />– Não, Paulo, não podes. – Ela rodou sobre as nádegas e pousou os pés no chão. – Agora não podes.</span><span style=""><o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-13093238938422273432008-07-15T13:23:00.001+01:002008-07-17T11:16:53.548+01:00<span style=";font-family:";" >sábado à noite<o:p></o:p></span> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style=";font-family:";" >aninhou-se no sofá; agarrou no comando da televisão e aninhou-se no sofá; rodou as três grandes pedras de gelo com um habituado gesto de pulso dentro do imenso balão de baileys quase cheio, pouso-o no braço do sofá, agarrou no comando da televisão e aninhou-se no sofá; olhou desconsolada para o comatoso telemóvel, rodou a cabeça para confirmar o que já sabia na caixa vazia do Outlook e no silente messenger, torceu o nariz ao livro no chão, bebeu um longo gole de baileys ainda em pé, mordeu o lábio inferior, sentou-se, descalçou as havaianas de trazer por casa, rodou as três grandes pedras de gelo com um habituado gesto de pulso dentro do imenso balão de baileys quase cheio, posou-o no braço do sofá, agarrou no comando da televisão, aninhou-se no sofá e ficou na penumbra a olhar para o ecrã apagado, de braço direito estendido com o comando em riste e o esquerdo encolhido agarrado ao imenso balão que embalava suavemente num gesto automático e, aninhada, ficou pensando em si, ali, num sábado à noite, se era louca ou misantropa, se o mal era dela ou do mundo, se se queria encontrar com alguém ou se queria permanecer ali sozinha sem sequer chorar com um doloroso nó na garganta como uma rolha de cortiça que flutuava até lhe cortar a respiração.</span><span style=";font-family:";" ><o:p></o:p><br />– Afinal, quem sou eu? – ouviu-se perguntar com voz rouca, embargada e acendeu a televisão para não sentir as lágrimas e bebeu para afogar a rolha e levantou-se, deixando o copo meio e a televisão acesa e as coloridas havaianas no chão, e correu, correu, correu, correu para a cama que ficava meia dúzia de passos mais à frente e deitou-se de barriga para baixo, incapaz de continuar a chorar, enfiando a cabeça na almofada e esperando sabe-se lá o quê, sabe-se lá de quem.<o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-86776655017626337582008-07-10T13:23:00.000+01:002008-07-10T13:25:11.037+01:00<span style="font-size:180%;"><span style="font-family: georgia;">Era uma vez…</span></span><br />Ela estava sempre a repetir que ninguém a queria.<br />Ele o que menos queria era contrariá-la.<br />E viveram infelizes para sempre.garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-17084356730430417872008-07-09T15:48:00.001+01:002008-07-09T16:28:19.543+01:00<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family:Constantia;font-size:100%;">Entre desculpas esfarrapadas, cenas mal amanhadas, omissões sorridentes, meias verdades, mentiras inteiras e delírios completamente estapafúrdios, ele lá ia, cantando e rindo, enganando este mundo e o outro com o seu ar sonso de quem sabe, de quem se importa, de quem quer saber, com a sua resposta pronta, expressão indignada ou olhar quase lacrimejante, como se, genuinamente, quisesse levar o mundo às costas sem que ninguém o ajudasse.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family:Constantia;font-size:100%;">– Senhor Primeiro-Ministro?<o:p></o:p></span></p> <span style=";font-family:Constantia;font-size:100%;" >– Oui, c’est moi!</span>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-38036976259239176122008-06-26T13:23:00.000+01:002008-07-09T16:30:00.001+01:00<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%;"><span style=";font-family:";" ><span style="font-family:webdings;"></span><br /> Eu estava a lavar as escadas. Só a lavar as escadas.<br /> Todas as terças e sextas, às sete da tarde, lavo as escadas daquele prédio. Além daquelas, lavo outras. Lavo escadas, que mal tem? O que interessa, acho eu, é que as lavo bem, porque eu quando faço as coisas, tento sempre faze-las bem. Sempre.</span><span style=";font-family:";" ><o:p></o:p><br /> É verdade que nunca pensei vir a lavar escadas. Acho que não é um futuro que uma mãe deseje para uma filha, mas também não tem nada de mal. É um trabalho como outro qualquer e eu, já que tenho de o fazer, tento fazê-lo bem. Faço-o bem. Pelo menos, nunca ninguém se queixou das minhas escadas… Não é que eu lave escadas há muito tempo, não lavo, mas, mesmo assim, se fizesse um mau trabalho, de certeza que já me tinham dito.<o:p></o:p><br /> Lavo escadas desde que me divorciei, não tenho vergonha de o dizer, preciso do dinheiro. Criar dois filhos pequenos e pagar casa e carro não é barato. Nada barato. E não é com o que eu ganho como ajudante de cabeleireira que me safo. Tive de ir lavar escadas e é o que faço às terças e sextas naquele prédio.<o:p></o:p><br /> Naquela sexta-feira, deviam ser para aí umas sete e dez, pois, já tinha varrido desde o quarto andar até ao rés-do-chão e ia para cima, para preparar os degraus – ia passar com a esfregona húmida só com um bocadinho de detergente, já tinha deixado o balde da esfregona lá em cima, no quarto andar. Era um balde daqueles modernos, com duas divisões independentes. Uma tinha água com detergente e a outra só tinha água, para ir limpando.</span><span style=";font-family:";" ><o:p></o:p><br /> Eu tenho um método de lavar escadas, podia ser à balda, não é preciso grande ciência para lavar umas escadas, mas eu tenho um método, desenvolvi-o e, além dos bons resultados, é rápido, porque é tudo feito como planeado e sempre da mesma forma. Primeiro, preparo o balde, uma parte só com água e outra com água e detergente; depois, antes de pôr a água toda na parte que tem detergente, molho a esfregona quase só com detergente, para ficar húmida e deixo-a<span style=""> </span>cá em baixo no hall de entrada; vou para cima, levo a vassoura e o balde; deixo o balde lá em cima e varro tudo de cima para baixo; quando chego cá abaixo, depois de varrer, deixo a vassoura na entrada e com a esfregona que está húmida com o detergente vou para cima passando-a em todos os degraus, limpando as nódoas e deixando os degraus com detergente; por fim, chego lá acima e volto para baixo, com a esfregona e o balde com a água e com o detergente e lavo a escada toda, enxaguando-a e limpando.</span><span style=";font-family:";" ><o:p></o:p> Faço sempre assim. É um método, o meu método. Há quem faça de maneira diferente, mas eu faço assim e acho que as escadas ficam espectaculares.<o:p></o:p><br /> Ah! Sim…</span><span style=";font-family:";" ><o:p></o:p><br /> Na sexta-feira, o tipo apareceu ia eu a subir com a esfregona, passando só com o detergente. Acho que ia no patamar do primeiro andar. Ele não me disse nem bom dia, nem boa tarde. Passou por mim, como quem passa por um cão… Pior! Passou por mim como se eu fosse invisível, nem se deu ao trabalho de se desviar, eu é que tive de me encostar à parede para sua excelência passar! Como ele vinha com os pés sujos da rua e não se deu ao trabalho de os limpar no tapete da entrada, tive de voltar para baixo e recomeçar com a esfregona.</span><span style=";font-family:";" ><o:p></o:p><br /> Passados uns minutos, ia eu quase a chegar lá acima, já com a escada quase toda passada com o detergente, tornou a passar por mim. A mesma falta de educação e mais umas grandes pegadas.<o:p></o:p><br /> Quando ele passou para cima, nem lhe liguei, mas quando ele passou para baixo, depois de ter estado em casa, e parecia que ainda tinha os pés mais sujos – deixou umas pegadas piores do que quando foi para cima – quase lhe falei, mas, no último momento, calei-me, não lhe disse nada. Pensei que ele se fosse embora e decidi que não valia a pena chatear-me. Ainda limpei uns degraus para baixo, mas decidi continuar e quando fosse para baixo usava mais detergente onde fosse preciso.</span><span style=";font-family:";" ><o:p></o:p><br />Já me tinha quase esquecido dele quando tornou a aparecer. Já tinha limpo o patamar do 1.º andar, estava a escada quase toda lavada, quando ele, de repente, passou por mim. Ouvi-o a bater os pés, parecia que vinha a subir um escafandrista, tal era o barulho. Ploc, ploc, ploc, não falhava um degrau e quando olhei para o chão, ia morrendo. O homem parecia que tinha estado na parte mais suja de uma pocilga e parecia que tinha botas que armazenavam sujidade e a espalhavam em todas as direcções…<br /> Ah! Eu ia morrendo!... Ia!... Ele foi!</span><span style=";font-family:";" ><o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-26133534613108495702008-06-19T18:16:00.002+01:002008-06-20T17:21:34.982+01:00<span style="">O Negócio</span><span style=""><o:p><br />(conforme visto daqui)<br /></o:p></span> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style=""><o:p style="font-weight: bold;"></o:p>Há um dedo em riste que fala sem parar; dois pés que se agitam entre saltinhos e passos de menina como se o chão queimasse; há dois braços que se cruzam, descruzam, se esticam ao longo do corpo ou se unem nas extremidades, entrelaçando dedos, passando as mãos pelas calças ou escondendo-as nos bolsos; há uma farta cabeleira loura, esvoaçante que sorri abaixo de uns óculos escuros de marca; e há cigarros nas bocas do concentrado dono do dedo, do apopléctico dançarino amador e da loura falsa com uns óculos verdadeiramente escuros mas realmente falsos. Só as suadas mãos do nervoso esbracejante não agarram qualquer cigarro.</span><span style=""><o:p></o:p><br />Espantado, o vendedor de automóveis usados ouve o indicador falante e inveja-lhe a prosápia parlapateira, assiste ao duracellico sapateado do indivíduo com cara de gnu sorridente, controla os braços e as mãos que não sabe suadas do pouco relevante careca e tenta perceber se a loura pinta as raízes de escuro ou se é morena e pinta o cabelo de louro.</span><span style=""><o:p></o:p><br />Imperioso do alto do seu metro e sessenta, o dedo conclui o discurso ficando mudo mas não quedo à espera de uma resposta do vendedor.<o:p></o:p><br />A falsa loura dos óculos contrafeitos aproveita o silêncio do dedo e a mudez asmática do vendedor e ataca-o sedutoramente fazendo boquinhas com os lábios como se lhe quisesse sugar alguma coisa enquanto se aproxima lentamente para lhe permitir uma visão directa do decote e do seu vasto, bem armado e composto recheio.<o:p></o:p><br />O vendedor engole em seco e esfrega o rosto, mas não nas mamas como parece querer, com as mãos, as suas mãos, admirando pouco disfarçadamente os lábios vermelhos da loura que lhe prometem este mundo e o outro e as poderosas mamas que ela por pouco não lhe espeta literalmente na vista.</span><span style=""><o:p></o:p><br />Nervoso, o boxeur de trazer por casa exagera nos passinhos e saltinhos que lhe permitiriam esquivar-se dos socos imaginários que realmente o parecem afligir e quase se estatela em cima do carro, sujeito passivo da relação comercial que o grupo tenta concretizar. Diligente, o apagado tipo das mãos suadas saca-as dos bolsos traseiros e agarra no último momento o desajeitado boxeur, impedindo-o de tocar na viatura. Há um princípio de censura verbal mas que o dedo logo interrompe e suspende, reordenando o grupo e insistindo no negócio.<o:p></o:p><br />A loura levanta os óculos para lá da franja, levando-a como o lado do mar vermelho que se encavalitou no resto do mar vermelho que por lá ficou, e fixa-se, olhos e tudo, no vendedor, que se vê forçado a recuar e a encostar-se à porta do veículo. A loura, quase em cima do vendedor, diz-lhe qualquer coisa, certamente em tom extremamente sensual, e o vendedor sorri sonhador e, sem querer, coça-se entre as virilhas.<o:p></o:p><br />As mãos suadas voltam aos bolsos, o boxeur enxertado de fred astaire volta mais calmo aos seus passos e o dedo permanece em riste.<o:p></o:p><br />Encurralado, entre o carro e a loura, ladeado por um dedo em riste, temporariamente silencioso, um boxeur dançarino com cara de gnu sorridente repondo-se da anterior triste figura e um par de escondidas mãos suadas, o vendedor descola-se do carro e começa a falar, torneando lenta e disfarçadamente o grupo sitiante para sublinhar e apontar o vasto elenco das maravilhosas qualidades da viatura que vai desfiando em tom sério e resoluto, como se mentir, exagerar e omitir fosse o seu modo de vida.<o:p></o:p><br />– Ah! – proferem todos ruidosamente em coro, dando estrondosa fé da manifesta dificuldade com que integram as excelsas características cantadas em tom laudatório quase sacro pelo vendedor, com ar compenetrado e sério – caia-me já um raio fulminante no meio da mona se estou a exagerar –, sobre o chaço que se encolhe tímido ante os seus sete olhos (o boxeur com cara de gnu sorridente e passinhos de menina contente é zarolho).<o:p></o:p><br />O dedo volta a tomar a dianteira e a falar, apontando, diminuindo, escarnecendo, desvalorizando. O grupo ouve e acena concordante. O dedo continua a regatear. A loura cerra os lábios, acabaram-se as promessas de amanhãs que cantam entre gargarejos ou queres que engula?, e olha friamente o vendedor. O gnu zarolho com cara de boxeur sorridente aumenta o ritmo do sapateado e afasta-se como se o objecto do negócio tivesse repelente. O hiperidrótico palmar atende o telemóvel, ouve sem falar e ordena qualquer coisa que eu daqui não oiço, só ouvi o Ah! confesso, e saem todos de cena em passo acelerado como se algo os perseguisse.<br /><o:p></o:p></span><span style="">O vendedor vê-os partir, sem um gesto ou um som, e coça-se entre as virilhas enquanto confere que as nádegas da loura fazem um conjunto eficaz com as mamas e os lábios carnudos de que quase sentiu o calor.</span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-14059897381394110712008-06-17T14:27:00.000+01:002008-06-17T14:28:41.697+01:00<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: SimSun; font-weight: bold;">Se cá nevasse...</span><span style="font-family: SimSun;"><o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: SimSun;">Sozinho, almoçava em sil</span><span style="font-family: SimSun;">ê</span><span style="font-family: SimSun;">ncio de olhos magneticamente colados </span><span style="font-family: SimSun;">à</span><span style="font-family: SimSun;"> televisão, bebendo o chorrilho de palavras pretensamente doutas e supostamente engraçadas de umas personagens definitivamente pretensiosas e decididamente sem graça nenhuma que se vendiam </span><span style="font-family: SimSun;">à</span><span style="font-family: SimSun;"> asneira num canal qualquer. A sua devota atenção merecia todos os lugares-comuns que eu conseguisse encavalitar num texto de sorriso ir</span><span style="font-family: SimSun;">ó</span><span style="font-family: SimSun;">nico, sard</span><span style="font-family: SimSun;">ó</span><span style="font-family: SimSun;">nico, disfarçadamente armado ao pingarelho, subtilmente superior, mas, olhando-me, sozinho, almoçando em sil</span><span style="font-family: SimSun;">ê</span><span style="font-family: SimSun;">ncio de olhos no sujeito que comia de olhos colados </span><span style="font-family: SimSun;">à</span><span style="font-family: SimSun;"> televisão, encarei o prato e desisti, sem sequer um mal amanhado sorriso contrafeito.</span><span style="font-family: SimSun;"></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-54284669770642076802008-06-11T13:18:00.000+01:002008-06-11T13:22:41.498+01:00<span style=""><span style="font-weight: bold;">Operação Anulada</span><o:p></o:p></span> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style=""><o:p></o:p>– Bolas, Joana, nem parece que fomos casados! – recriminou ele, melindrado.<o:p></o:p><br />Joana não respondeu imediatamente, fez uma pausa como se eliminasse várias respostas que podia ou queria dar mas que decidia não fazer e, por fim, com ar compreensivo mas num tom sarcástico acabou por dizer:<o:p></o:p><br />– Pois e tu parece que não percebeste o correcto tempo verbal que usaste, Mário.<o:p></o:p><br />– O… O… – engasgou-se o Mário com a areia que era demais para a sua camioneta. – O quê?<o:p></o:p><br />– Fomos, Mário, fomos. Já não somos, já não somos nada um ao outro.<o:p></o:p><br />– Ah! mas isso não quer dizer…<o:p></o:p><br />– Isso quer dizer isso – interrompeu Joana – e quer dizer tudo!<o:p></o:p><br />– Quer dizer que te escuso de pedir os dez euros – queixou-se ele.<o:p></o:p><br />– O quê?! – Ela fulminou-o com o olhar, com o ponto de exclamação em riste que abafava o de interrogação, e continuou, furiosa: – Tanta conversa para me pedires dez euros? Dez euros?!<o:p></o:p><br />– Na verdade, vinte – mastigou ele, sem levantar os olhos.<o:p></o:p><br />Ela agarrou na mala, de onde retirou a carteira com maus modos e abriu-a, tirou uma nota de vinte e…<o:p></o:p><br />– Desculpa lá!... – A nota permanecia na sua mão, junto à carteira aberta.<o:p></o:p><br />Ele levantou os olhos, passando o olhar pela nota, mas não mudou o ar de cão sem dono que apresentava desde a censura à sua fraca percepção do tempo verbal que utilizara.<o:p></o:p><br />Ela, calada, olhava-o sem mexer a mão que agarrava a nota. Após um momento de indecisão, reintroduziu-a na carteira que fechou. Deixou cair a carteira na mala.<o:p></o:p><br />– Fomos, Mário, fomos casados – disse ela, com um sorriso triste. – Só é pena que só me conheças quando queres…<o:p></o:p><br />– Não…<o:p></o:p><br />– Não?! Tu sabias que ias chegar aos dez euros e que eu tos ia dar, aborrecida e chateada mas dar. Era ou não era?!<o:p></o:p><br />– Não…<o:p></o:p><br />– Sabes o que é pena?... Sabes do que eu tenho mesmo pena, Mário?<o:p></o:p><br />– Não.<o:p></o:p><br />– De que só usasses esse jeito para me enrolares para merdinhas sem jeito nenhum… De que só fizesses uso do que me conhecias, e conhecias bem, e conheces, pelos vistos, para tirar esses proveitos da treta. Vai-te lixar!<o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-40586702347178720972008-06-06T19:33:00.000+01:002008-06-06T19:36:04.390+01:00<span style="font-family: Constantia; font-weight: bold;">Na Roda<o:p></o:p></span> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: Constantia;"><o:p style="font-weight: bold;"></o:p>– Não me apetece continuar – lamentou-se ele.<o:p></o:p><br />– Não? – gemeu ela.<o:p></o:p><br />– Não – reafirmou ele.<o:p></o:p><br />– Não? – desesperou ela. – Depois deste trabalho todo, agora não queres continuar?<o:p></o:p><br />– Não é bem não querer – remediou ele –, não me apetece… não me apetece continuar…<o:p></o:p><br />– Porquê? – interrompeu ela.<o:p></o:p><br />– Porque não – disse ele. – Dói-me a cabeça.<o:p></o:p><br />– Dói? – Ela tossiu. – Porquê?<o:p></o:p><br />– Não sei – respondeu ele, fez uma pausa e suspirou profundamente: – Se calhar estou com uma quebra de tensão, estou com tonturas.</span><span style="font-family: Constantia;"><o:p></o:p><br />– Oh… – suspirou ela. – Queres que te desamarre?</span><span style="font-family: Constantia;"><o:p></o:p><br />– Talvez não – sugeriu ele –, põe-me só direito, de cabeça para cima.<o:p></o:p><br />– E queres um copo de água com açúcar? – perguntou ela, rodando lentamente a grande roda em que ele se encontrava amarrado, completamente nu. – A mim costuma fazer-me bem.<o:p></o:p><br />– Ias buscar? – agradeceu ele.<o:p></o:p><br />– Claro, pode ser que fiques bom – disse ela sorrindo por baixo da negra e brilhante máscara que apenas lhe deixava os olhos e a boca à vista mas ele não viu. Bateu-lhe levemente com a chibata no peito: – Ou, se calhar, pensavas que te safavas só por causa de uma dorzinha de cabeça? – Encostou-lhe a chibata ao sexo e, levantando-o, avisou: – Ainda temos umas coisas para fazer, meu menino!</span><span style="font-family: Constantia;"><o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-77332276918695356752008-06-03T19:48:00.002+01:002008-06-08T18:40:33.996+01:00<div style="font-weight: bold;" class="title">A teoria</div><br />- As gajas giras só se interessam pelos gajos mais parvos - queixou-se o tipo à belissima mas discreta acompanhante, que lhe bebia as palavras com inexistente sentido critico.<br />- Achas? - perguntou ela, embevecida mas sem querer perceber exactamente o que ele dissera.<br />Desfolhei mais um livro da prateleira junto a eles, esperando a resposta do rapaz que não se tomava como dos mais parvos mas dos mais injustiçados na atenção das gajas e cujo semblante indicava um claro e ressentido "não vês?" apontado para si próprio.garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-84711461459336506662008-05-16T19:32:00.001+01:002008-05-16T19:40:40.473+01:00<div style="text-align: justify;"><span style="font-family:Sylfaen;">As Mãos<o:p></o:p></span> </div><p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style="font-family:Sylfaen;">As mãos aproximaram-se como se tivessem vontade própria. Tocaram-se. Roçaram primeiro levemente, costas com costas. Os indicadores saíram ligeiramente da formação e encontraram-se um com o outro, como corajosos batedores ao serviço dos restantes dedos ainda expectantes. Por um instante apenas eles se tocaram, indicador contra indicador, cruzando-se, sentindo-se, tacteando o desejo do outro, a vontade do outro. Sem parar, ele e ela continuavam a andar, a falar sobre uma coisa qualquer, como se as mãos que se tocavam, os dedos que se roçavam e entrelaçavam fossem sorrisos etéreos, sem corpo, sem passado nem futuro, sem justificações nem expectativas e não lhes pertencessem nem os vinculassem. Os toques leves, o roçagar ainda acidental que se podia explicar pela lenta caminhada lado a lado, entre sorrisos, risos e conversa sem conteúdo, deu lugar, espontaneamente, a um encadeamento perfeito, como se os dedos se vissem, soubessem o que fazer, como se as mãos se conhecessem, como se a pele se atraísse, e atraía. Mais do que mãos dadas, eles sentiam-no ainda que o evitassem pensar, era um abraço, eram dois corpos unidos por duas mãos; uma estranha união, que eles, perplexos, cada um por si, cada um com as suas razões, com as suas incertezas, sentia como completa, como estranhamente correcta, certa. As mãos juntas, sem que qualquer um deles o mencionasse sequer, para não quebrar o momento, o encantamento, representavam o que as bocas queriam, o que os olhos desejavam, o que os corpos esperavam sem que os cérebros o quisessem reconhecer.<o:p></o:p><br />A compasso, sem uma palavra, pararam e viraram-se um para o outro, unidos só pelas mãos, depois pelos olhos, pela boca, pelos braços. Beijaram e abraçaram na fúria contida da primeira vez, na contenção furiosa do tempo que esperaram para o fazer.<o:p></o:p><br />Depois, um beijo rápido, lábios que quase não se chegaram a tocar, e retomaram a caminhada, sem sorrisos, sem palavras, no pavor de chegar</span><span style="font-family:Sylfaen;">, unidos de novo só pelas mãos como se estas tivessem vontade própria.</span><span style="font-family:Sylfaen;"><o:p></o:p><br />Aproximaram-se dos dois carros lado a lado, que haviam estacionado antes de se encontrarem para lanchar, e despediram-se com o formalismo da amizade e partiram sem mais, de mãos dadas.<o:p></o:p><br />– O teu carro fica ali?<o:p></o:p><br />– Fica – e beijou-lhe levemente as costas da mão que continuava unida à sua.<o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-17305855596017212582008-05-12T15:30:00.000+01:002008-05-12T15:34:08.863+01:00<div style="text-align: justify; font-family: courier new;"><span style="font-size:100%;">Um Curto Reencontro<br /><br />Encontraram-se, por acaso, num bar. Cumprimentaram-se. Ela olhou-o, ganhou balanço e avançou sem rodeios mas com um sorriso torcido a preparar a fuga se necessário fosse:<br />– Nunca mais me disseste nada. – declarou. – Desapareceste.<br />– Desapareci? – perguntou ele, apenas para ganhar tempo, sorrindo só com a boca.<br />– Foi – afirmou ela, abrindo o sorriso defensivo. – Nunca mais disseste nada.<br />– Pois não – reconheceu ele, esboçando um ténue sorriso comprometido, procurando-lhe os olhos para perceber o terreno que pisava. Não compreendeu, o sorriso voltara à primeira forma, torcido mas sem qualquer ressentimento, o que ele preferiria. – Tens razão, nunca mais te disse nada.<br />O sorriso dela fechou-se por um instante, a franqueza dele desarmava-a sempre, ela sabia-o e, ainda por cima, nunca percebia se ele fazia de propósito ou se era mesmo assim.<br />– Porquê? – retorquiu ela, encolhendo os ombros, recuperando o sorriso e baixando propositadamente a pouca carga dramática do diálogo. Com eles não havia dramas, nunca houvera. – Porque é que nunca mais me disseste nada? – e gracejou, ante o desconforto dele: – Estavas com medo de mim?<br />Ele olhou em volta, pensativo, pôs os cotovelos nos braços da cadeira, entrelaçou as mãos em cima da mesa, mostrou-se pouco à vontade, separou as mãos e procurou o copo com a mão direita, segurou-o, aproximou-o de si sem o levantar da mesa e, sem a olhar, respondeu:<br />– Não sei – bebeu um gole, molhando os lábios, tornou a beber e despejou meio copo. – Achei que estavas à espera de algo meu que eu não te podia dar...<br />– O quê?! – interrompeu ela, surpreendida, furiosa. – Eu nunca te pedi nada!<br />– Ah! – Ele tentou sorrir, achou que havia ali um mal entendido qualquer, não estava à espera daquela reacção. – Não é isso – e, nervoso, não conseguiu deixar de rir, principalmente porque não sabia do que estava a falar, nem fazia ideia do que ela estava a pensar.<br />– Não é isso, o quê?! – inquiriu ela, o riso nervoso dele enfurecera-a ainda mais.<br />– Espera – pediu ele, sério –, deixa-me explicar.<br /></span><span style=";font-size:100%;" >Mas ela, espantada com o seu olhar saltitante e com a sua cara de vítima, já não quis saber.</span><span style="font-size:100%;"><br /></span></div>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-88423967753048845562008-05-08T18:43:00.001+01:002008-05-08T19:09:53.819+01:00Nunca tinha comido um "fortune cookie" ou bolinho da sorte, daqueles que se vêem nos filmes e séries americanas com um papelinho lá dentro contendo uma mensagem mais ou menos críptica, mais ou menos engraçada e com mais ou menos relevo para o desenrolar do filme ou série em questão.<br />Nunca tinha comido mas agora já comi - ofereceram-me um - e, se o bolo, na verdade uma espécie de bolacha, não é bom nem é mau, o papelinho fez-me voltar aqui, ainda que, provavelmente, contrariando o seu propósito, ora leiam:<br /><div style="text-align: center; font-style: italic; font-weight: bold;">You should respect the power of words and choose them with caution.<br /></div><br />E é isso que tenho feito, talvez com cautela a mais, pois, não escrever não é respeitar as palavras nem, muito menos, escolhê-las com cuidado; não escrever é apenas a ausência de escrita, de palavras, é não só não as escolher como, realmente, acaba por ser um desrespeito ao poder das mesmas. Vou pensar nisso.garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-29981612499557837602008-04-16T23:59:00.000+01:002008-05-08T19:05:26.693+01:00<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family:Constantia;">Tocou-se. Sentada no bidé olhando a parede forrada a azulejos, tocou-se, com raiva, com ódio, como se o que estava a fazer o pudesse magoar.<o:p></o:p><br />– sim gostava que entrasses agora</span><span style="font-family:Constantia;"><o:p></o:p><br />cuspiu nos dedos<o:p></o:p><br />– sim gostava que me visses<o:p></o:p><br />roçou-os espalmados, friccionou, acariciou</span><span style="font-family:Constantia;"><o:p></o:p><br />– sim gostava que me perguntasses porquê</span><span style="font-family:Constantia;"><o:p></o:p><br />afastou os grandes lábios<o:p></o:p><br />– sim gostava de ver a tua expressão de repulsa, de horror<o:p></o:p><br />introduziu o indicador e o médio<o:p></o:p><br />– sim gostava de me rir e perguntar-te e tu?<o:p></o:p><br />chorou, entre espasmos, prazer e um vazio que não conseguia preencher.</span><span style="font-family:Constantia;"><o:p></o:p><br />– e nós?<br /><o:p></o:p></span><span style="font-family:Constantia;">– sim e nós?</span><span style=";font-family:Constantia;font-size:12;" ><br /></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-67198227398708510142008-04-02T11:56:00.000+01:002008-04-02T11:59:03.039+01:00Pois... <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family:Constantia;">– Gostava de ir a tua casa, conhecer os teus espaços, a tua luz, os teus objectos, sentir o cheiro e o ar da tua casa, ver os livros que tens, perceber a forma como a decoraste, como te instalas, como estás. Gostava de te ver no teu espaço, no teu mundo.<o:p></o:p><br />– Gostavas de me comer no sofá!<o:p></o:p><br />– Pois, isso também.</span><span style="font-family:Constantia;"><o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-20026572344993449502008-04-01T23:59:00.000+01:002008-04-02T10:27:28.784+01:00Novas de Alegria no <a href="http://desconhecidonestamorada.blogspot.com/">desconhecido nesta morada</a>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1148062017068326192008-03-27T19:55:00.000Z2008-03-27T20:20:38.053Z<div style="text-align: right;"><span style="font-size:78%;">(alguém se lembra do Pereira da repartição? É ele!)</span><br /></div><span style="font-size:100%;"><br />– Está muito cheio, doutor? – Pergunta-me a lasciva empregada de balcão, que, até hoje, não me deu abébias, "ou comia-me e mais qualquer coisa?" parece perguntar-me, surpreendendo-me.<br />Olhámos para a chávena de café, está quase a transbordar. Os nossos quatro olhos – três, virei a saber depois – encontram-se uns centímetros acima do café, ela sorri e eu retribuo.<br />– Ainda cabia mais qualquer coisa... – digo, tentando apresentar uma expressão facial sorridente e dúbia que pudesse corresponder ao pensamento entre aspas que acabam de ler e que eu acho que ela estava a ter.<br />A pastelaria está quase deserta, tirando umas doze ou quatorze pessoas sentadas e outras sete ou oito em pé, isto, claro, se formos generosos e tivermos a malha pouco apertada quanto à definição de pessoas. Ela ignora olimpicamente pedidos e chamadas de atenção e mantém-me no centro das suas atenções. Eu estou excitadamente nervoso ou nervosamente excitado, nem sei, mas estou a gostar. Ela encolhe o sorriso, mas não se afasta, põe ar de menina travessa e pergunta:<br />– Acha, doutor? – carregando sensualmente no doutor. – Conseguia e... – ronrona – comia?<br />"Se conseguia?! Se conseguia?!", eu já vou a duzentos à hora, pronto para me estampar ao mínimo deslize. Hesito na resposta, ela deixa crescer o meio sorriso ante a minha evidente atrapalhação, a expressão facial sorridente e dúbia já era. Devo acrescentar, sem jurar, que ouvi um "me" no fim do ronronado "comia" mas por essa altura, após a pausa que antecedeu o miado, já pouco ouvia, confesso, provavelmente terei imaginado, ela não me disse "comia-me?", ainda que a expressão do Oliveira que se colou a mim me fizesse crer exactamente o contrário, ele ouviu, conseguirá ainda em choque dizer-me umas horas depois, mas também não acreditou.<br />Respiro fundo, faço que estudo o tampo do balcão e torno a respirar, parece-me que se não me capacitar que o tenho de fazer o meu corpo não o faz por mim. Inspiro. Expiro. Inspiro.<br />– Quando é bom, cabe sempre mais qualquer coisa – respondo por fim, ignorando a última pergunta. Inspiro. Expiro. – Como se costuma dizer, quem come por gosto...<br />– Não é corre, doutor?<br />– Mas quem come com gosto também não se cansa, não acha?<br />– Lá isso é verdade – ela abre o sorriso. Eu mexo o café e entorno para o pires, mas faço-me despercebido, como se fosse de propósito. Ela continua: – E gostava de... – baixa e torna a levantar os olhos, encontrando-os com os meus. – Quero dizer, gostava... O doutor gosta de comer?<br />Decido dar um passo em frente, que se lixe, não sou doutor.<br />– Gostava – faço uma pausa para sublinhar o gostava e concluo como se estivesse seguro do que estou a dizer: – Gostava, gostava muito de... comer – o "a" é que não tive coragem de incluir, não saiu ainda que eu não pensasse noutra coisa. – Quero dizer, gosto, gosto muito de comer.<br />A frase soou-me mal, muito rasteira, ou melhor, o acrescento soou-me mal, mal metido, muito evidente, sem graça e temi o pior. Ela enigmatizou o sorriso e o olhar e atendeu displicentemente aquele a quem já se tem chamado Borrego, mas que não entra nesta história.<br />Bebi o café.<br />Ela não me olhou.<br />Tirei as moedas do bolso e coloquei uma de 50 cêntimos em cima do balcão. Olhei para dentro da chávena, confirmando que bebera tudo e, na certeza, de que a responsabilidade do insucesso era minha, preparava-me para sair.<br />– Já vai, doutor? – perguntou com uma ponta de tristeza. – Afinal, não come nada?<br />"Mau" penso, tentando esfriar o entusiasmo, quando a esmola é muita o pobre desconfia ou, pelo menos, devia desconfiar.<br />– O que eu queria – fixo-me nos seus olhos, – não posso comer agora! – com ponto de exclamação e tudo. Agora agarra, vamos lá ver se te desenrascas desta, venho aqui há dois anos e hoje, de repente, passas do oito para o oito mil sem justificação, nem preparação prévia. Eu sei que sou giro, mas isto é demais.<br />Ela abre o sorriso que se estende a toda a face, não!, a todo o corpo.<br />– É? – Agarra na minha chávena e pires. – E o que é que o doutor queria comer que não pode comer agora?<br /></span>– Ah!...<br />E, felizmente, o Oliveira e o Borrego em coro, como duas meninas, começaram a tossir, a agitar-se, quase a desfalecer e ela com uma careta safou-me:<br />– É melhor ajudar os seus amigos, doutor, que eles não me parecem nada bem – piscou o olho direito e murmurou: – Amanhã à mesma hora e não se esqueça de me dar a resposta!garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-9839508340526229282008-03-24T18:19:00.000Z2008-03-24T18:21:06.154Z<span style="">(iv)<o:p></o:p></span> <p class="MsoNormal"><span style="">Já sob a imensa e legal exaustão atmosférica, Sónia e Carla ainda riam quando encostaram a porta de vidro que dava acesso à varanda do vício, como todos lhe chamavam. Carla acendeu prontamente o seu cigarro, entrincheirou o isqueiro em mão protectora, estendeu-o na direcção da ponta do cigarro de Sónia e, ainda o fumo não chegara aos pulmões da amiga, </span><span style="">avançou sem rodeios</span><span style="">:<o:p></o:p><br />– Vão?<o:p></o:p><br />Sónia sabia que a “água”, a mesma água que as trouxera ali, havia de trazê-los à tona e que o cigarro era apenas uma desculpa da amiga para saber dela e dele, mas não esperava que os corpos – pensou assim, “os corpos” – dessem à costa logo na primeira onda. Engoliu o sorriso com a segunda passa no cigarro e fez-se despercebida:<o:p></o:p><br />– Vamos?... Quem?<o:p></o:p><br />– Tu e ele. Vão?<o:p></o:p><br />Sónia lembrou-se das magníficas unhas pintadas a baterem no tampo da secretária, revelando a impaciente curiosidade da amiga, e sorriu com a sua transparência, sem subterfúgios nem rodriguinhos. Era directa. Carla era sempre directa. Sónia levou o cigarro à boca, deu uma passa especialmente demorada, exalou o fumo com lentidão e, no fim, tentou:<o:p></o:p><br />– Sabes que ando para te perguntar uma coisa…<o:p></o:p><br />– É?! O quê?<o:p></o:p><br />– Estás a fumar mais?<o:p></o:p><br />– O quê?<o:p></o:p><br />– Estás a fumar mais?<o:p></o:p><br />– E o que é que isso tem a haver? – Carla olhava-a fixamente, propositadamente, sem definir a expressão.<o:p></o:p><br />– Com quê?<o:p></o:p><br />– Com vocês – o tom era ríspido, ainda que amaciado por um meio sorriso compreensivo. – Tu e ele.<o:p></o:p><br />– Nada – reconheceu Sónia, arqueando ligeiramente as sobrancelhas.<o:p></o:p><br />– Ah!... – Carla não se importou com a tentativa fracassada da amiga de desviar a conversa, encolheu os ombros e persistiu como se nada fosse: – Mas vão?<o:p></o:p><br />– Vamos.<o:p></o:p><br />– Ah!... É?... Onde?<o:p></o:p><br />– Estás a fumar mais, não estás? – insistiu Sónia.<o:p></o:p><br />– Vão onde? – Carla, como sempre, tinha a sua própria agenda, o seu próprio ritmo e escolhia em função disso as respostas que dava ou omitia e as perguntas que fazia.<o:p></o:p><br />Sónia, que a conhecia bem e sabia quando devia desistir de engodar a conversa em seu favor, deu outra longa passa, olhando distraidamente para outros homens e mulheres que fumavam noutras varandas e acabou por responder directamente e com sinceridade:<o:p></o:p><br />– Não sei – disse e, sem se virar, acrescentou: – Ele estava esquisito…<o:p></o:p><br />– É segunda-feira – sentenciou Carla e, tocando no ombro da amiga, apontou disfarçadamente para uma varanda à esquerda: – Olha!<o:p></o:p><br />– E depois?<o:p></o:p><br />– É o António.<o:p></o:p><br />Sónia seguiu-lhe o subtil movimento, a varanda não era longe, e os gestos eram perceptíveis à distância. O homem acenava.<o:p></o:p><br />– Não é isso – esclareceu, ainda que procurasse perceber quem era o António. – O que têm as segundas-feiras?<o:p></o:p><br />– Ah! – Carla sorriu e decretou a meio-tom: – As segundas-feiras são dias estranhos em casos extraconjugais.<o:p></o:p><br />– Desculpa?! – Sónia engasgou-se e tossiu mas Carla não lhe ligou, ainda olhava para a varanda do 3.º esquerdo das traseiras de um prédio do quarteirão, onde estava António e outro indivíduo. Sónia espantada, tanto com a forma como com a matéria da sintética mas definitiva tese da amiga, repetiu-lhe a frase: – As segundas-feiras são dias estranhos em casos extraconjugais – e questionou, de sobrancelha direita a sublinhar a estranheza: – Que merda de conversa é essa?!<o:p></o:p><br />Carla riu, acenou para António que lhe acenava com insistência e comentou displicentemente:<o:p></o:p><br />– Era um bom minete mas um chato do pior.<o:p></o:p><br />Sónia tornou a engasgar-se mas não tossiu. A sobrancelha direita, que por acaso era a esquerda, sinalizou a mudança de humor da dona e arqueou ligeiramente, para um trejeito cómico. <o:p></o:p><br />Carla, acenando para António, repetiu para amiga:<o:p></o:p><br />– Tinha uma língua brutal, fazia coisas… brutais mas de resto, era quadrado. Um chato do pior.<o:p></o:p><br />Sónia não se conteve e deu uma gargalhada:<o:p></o:p><br />– Um bom minete?<o:p></o:p><br />– Era, era um bom mineteiro – confirmou Carla, de polegar em riste, perguntando à distância se estava tudo bem com o mineteiro fumador que, percebia-se, inchara e sorria com quantos dentes tinha na boca ante os coloridos cumprimentos da mulher.<o:p></o:p><br />– António? – perguntou Sónia.<o:p></o:p><br />– Sim – respondeu Carla entre gestos e acenos excessivamente simpáticos, teatrais. – Achas que estou a exagerar? – perguntou a meia voz.<o:p></o:p><br />– Em quê?<o:p></o:p><br />– Nisto, nestes cumprimentos, nestes acenos – explicou Carla, ainda a gesticular. – É certo que ninguém me fez um minete como ele fazia…<o:p></o:p><br />– Era assim tão bom?<o:p></o:p><br />– Era de ir ao céu e… – Carla olhou a amiga directamente, suspirou e de sorriso beato e olhar ditoso completou: – E ir ao céu e ir ao céu e ir ao céu.<o:p></o:p><br />– Bolas! – pasmou Sónia, fixando-se em António, que continuava a gesticular e a sorrir com ar de parvo.<o:p></o:p><br />Carla esticou o polegar e o mindinho encolhendo os restantes dedos da mão direita que encostou à face enquanto acenava com a esquerda uma fria despedida e disse à amiga virando-se definitivamente para a porta envidraçada:<o:p></o:p><br /><span style=""> </span>– Um bom minete mas pouco mais, de resto era muito mole. Acho que pensava que tinha uma língua de ouro e que isso bastava, o panhonha. E está na mesma, com o seu ar convencido e meio apalermado.<o:p></o:p><br />– Estavas a dizer-lhe para te ligar…<o:p></o:p><br />– Pois estava – Carla riu – e, se ele me ligar, vai falar com o Antunes.<o:p></o:p><br />– Qual Antunes? O Antunes, o teu ex?<o:p></o:p><br />– Sim – Carla não conseguia parar de rir –, ele é que ficou com o telemóvel que o António tem.<o:p></o:p><br />– O teu ex-marido ficou com o teu telemóvel?<o:p></o:p><br />– Ficou com um, disse que era da empresa – Carla falava despreocupadamente com um sorriso malicioso. – Quando me pagou metade da quota nas partilhas, quis ficar com tudo o que era da empresa e eu dei-lhe o telemóvel…<o:p></o:p><br />– Podias ter ficado com o cartão.<o:p></o:p><br />– Não – o sorriso cresceu e alastrou, a expressão facial e corporal de Carla era todo um tratado de satisfeita malícia. – O cartão é que interessava, eu só lhe disse que, se fosse a ele, não dava aquele telemóvel a ninguém e ele ficou com ele, o parvo, e não o desligou!<o:p></o:p><br />Carla deu uma gargalhada.<o:p></o:p><br />– Mas, afinal, o que tinha esse telemóvel?<o:p></o:p><br />– Tu não o tinhas – Carla não parava de rir. – O António tinha. O Fernando tinha. O Dr. Paulo tinha. O…<o:p></o:p><br />– Ah! E tu deste-lhe esse telemóvel?! – interrompeu Sónia, quase escandalizada.<o:p></o:p><br />– Dei – confirmou Carla a rir. Fez uma pausa, parou de rir e declarou séria: – Foi para ele perceber que enquanto andava a dar na secretária, aquela mamalhuda de merda, eu não estive propriamente a chorar pelos cantos, parvalhão! – Carla deu uma passa no cigarro, olhou pelo canto do olho confirmando o desaparecimento de António e virou-se de novo para a rua. – Não sei que raio de fixação é que os homens têm por mosquinhas mortas com mamas grandes…<o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-78347971337373563022008-03-20T12:49:00.000Z2008-03-20T12:53:26.318Z<strong>o chato</strong><br /><br />Havia um chato que me chateava, o chato.<br />Era chato, o chato, que não me falava, nem me dirigia palavra.<br />Às vezes, olhava-me, o chato, e chateava-me. Ele sabia e disfarçava o sorriso de forma a que eu visse que ele sorria e disfarçava, o chato.<br />Era daqueles chatos que não se confrontam, nem se questionam.<br />O chato se pudesse chateava-me mais, chateava-me sempre.<br />Era chato, o chato que me confundia, aborrecia, só de o olhar, só de o ver e não o conseguia ignorar, nem ultrapassar.<br />Do chato podia fugir, mas não me conseguia esconder. Se estivesse dias sem o ver, havia de aparecer e era como sempre lá estivesse, a censurar-me, a condenar-me com um olhar, com um gesto sabido, estudado.<br />Acho que o chato ensaiava para o ser, porque o era de forma tão natural, tão absoluta, tão insidiosamente brutal.<br />Era chato, o chato que não me largava, mas que fugia ao contacto e não me via se eu lhe falava, o chato!<br />E, afinal, o chato era eu, disse-me que se chamava consciência por parte da mãe e escrúpulo por parte do pai.Vai-te lixar, pá, lancei-lhe eu, e ele, encolhendo os ombros deixou-se ficar e, sem mágoa, falou-me nos irmãos, o remorso e o arrependimento, que haviam de me vir visitar, mas que o problema não era dele e que, se ele era chato, havia de conhecer os outros.garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-14514012894024127662008-03-19T16:15:00.002Z2008-03-19T18:17:53.840Z<span style="font-weight: bold;font-family:verdana;font-size:78%;" >É?</span> <p class="MsoNormal">«Daqui ninguém sai na mesma», declarou nas suas brilhantes letras coloridas mas sem qualquer boneco amarelo no fim da frase que aliviasse a seriedade da declaração.<br />«Não sei», duvidei lacónico, armado em sofista de trazer por casa, escrevendo em letras negras, formais, de folha de vinte cinco linhas. Gosto de ser do contra mas, na verdade, estava de acordo. «Porquê?», perguntei, sem denunciar a minha opinião.<br />«X. está a escrever uma mensagem», li em letras pequenas por baixo da caixa de diálogo e esperei.<br />“Ter um blog, muda-nos?”, fiquei a pensar, “Vir ao messenger, muda-nos?”<br />Puxei um cigarro que não acendi e deixei-o ficar ao canto da boca, enquanto brincava com o isqueiro.<br />“Mudei porque tinha de mudar, porque o tempo passou. A simples passagem do tempo muda-nos”, tentei agarrar-me a uma verdade irrecusável e mais confortável, parece-me, tentando diminuir a importância do blog ou do msn.<br />«X. está a escrever uma mensagem» desapareceu e a mensagem não apareceu. Franzi o sobrolho, mas ela, naturalmente, não viu. Sorri, por pensar com tantas vírgulas.<br />«X. está a escrever uma mensagem», reapareceu, como o gargalo de uma garrafa entre as ondas. Qual solitário Robinson no meio do nada esperei que a garrafa, que não me iria salvar, contivesse algo para ler, nem que fosse apenas uma mensagem de outro náufrago como eu. Sentei-me na areia quente da praia que conhecia centímetro a centímetro à espera que a garrafa rolhada desse à costa. O mar encrespou-se e o gargalo da garrafa e a sua rolha apareciam e desapareciam entre a espuma e as massas de água ondulantes. Ansioso, acendi o cigarro.<br />“Daqui ninguém sai na mesma” reli, entre o fumo que toldava o monitor.<br />A falta de contacto visual, a ausência da leitura das expressões, dos olhos que brilham, das sobrancelhas que arqueiam, que sobem ou se contraem, de um sorriso que se abre ou que se esconde, as mãos que falam, as mãos que passam pelo cabelo, pelo nariz, pelo queixo, enquanto se fala, quando se hesita, quando se ouve, é um filtro enorme, uma barreira quase intransponível, que as palavras, os bonecos amarelos ou outros não conseguem transpor. Aqui somos outros ou, se calhar, somos nós, mais autênticos, escondendo-nos dos outros mas revelando-nos como somos, como queríamos ser, como podíamos ser.<br />– Tinhas razão – acabei por escrever à falta de mensagem do outro lado, na minha letra sem cor, sem brilho, como se me lançasse ao mar para apanhar a garrafa, vazia?<br />X. premiu simultaneamente no seu teclado as teclas shift e "‘" e no meu monitor surgiu um colorido e espinhoso “?”<br />Tornei a franzir o sobrolho, que acompanhei com o cerrar dos lábios, já que ninguém via, e expliquei, com a infeliz certeza que a garrafa já se havia perdido. A maré mudara e a mensagem passara ao largo.<br />«Não nos vermos, permite-nos uma facilidade de expressão que não temos quando falamos uns com os outros», escrevi, contrariado.<br />«ah isso», X. reconheceu a sua ideia, sem se dar ao trabalho de convocar maiúsculas ou pontuação.<br />E eu insisti, num esforço spitziano, ainda que me faltasse o bigode:<br />«daqui ninguém sai na mesma?»</p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-87118005940237467262008-03-17T19:46:00.001Z2008-03-24T18:10:31.559Z<a href="http://desconhecidonestamorada.blogspot.com/">outras coisas, que não cabiam aqui; as mesmas coisas com, pelo menos, uma revisão; e outras mesmas coisas que aqui nunca foram acabadas.</a>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-1150583228203884522008-03-13T19:15:00.000Z2008-03-13T19:16:13.402Z<span style="font-weight: bold;"><span style="font-size:85%;">O PRIMEIRO POST</span> </span><span style="font-style: italic;font-size:78%;" >(escrito tanto tempo depois)</span><br /><p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; font-family: georgia;">Já sei.<br />Já?<br />Já. Está decidido.<br />Então?<br />Vou escrever um diário.<br />Um diário?! Um diário de quê?<br />Da minha vida.<br />Da tua vida?<br />Sim, estás a rir-te porquê?<br />Da tua vida?!<br />Sim, da minha vida! Podes parar?! Qual é a graça?<br />Não é nenhuma...<br />Então, cala-te!<br />Mas, é por isso mesmo que me estou a rir: a tua vida não tem graça nenhuma!<br />Invento!<br />Ah! Só se for...<br />O diário da minha vida depois do divórcio...<br />Do divórcio?!<br />Sim e...<br />Do divórcio?!<br />Sim, já te disse que é a minha vida depois do divórcio...<br />De quem?!<br />De quem, o quê?<br />O divórcio! A tua vida depois do divórcio de quem?!<br />Meu, de quem é que havia de ser?<br />Ah!... Claro, teu. Do teu divórcio!<br />Sim, se é a minha vida, é o meu divórcio.<br />O teu divórcio!<br />Sim, o meu divórcio! Que parte é que não percebeste?<br />Vais-te casar?<br />Não, porquê?<br />Então, onde é que arranjas um divórcio?<br />É a fingir, é um diário inventado, é o meu diário, mas eu sou outro.<br />Vais escrever um diário de outro gajo?<br />Não! Vou inventar um gajo e escrever-lhe o diário...<br />Depois dele se divorciar?<br />Sim.<br />Porquê?<br />Porquê o quê?<br />Porque é que se divorciaram?<br />Quem?<br />O gajo e a mulher!<br />Quem?!<br />Tu, ou melhor, o gajo do teu diário!<br />Ah!<br />Divorciou-se porquê?<br />Divorciou-se?<br />Bolas! O diário não é depois do gajo se ter divorciado?<br />É.<br />Então, tens de ter uma razão para os gajos se divorciarem!<br />Pois tenho.<br />Qual foi? Qual foi a razão?<br />Sei lá, ainda não comecei a escrever!<br />E o que é isto?<br />É o princípio.<br />De quê?<br />Do blog.<br />Qual blog?<br />O diário...<br />Do gajo que se divorciou?<br />Sim.<br />Então já começaste! O gajo divorciou-se porquê?<br />És chato! Sei lá, ainda não cheguei a essa parte.<br />Mas o diário não começa depois dele se divorciar?<br />Começa.<br />Quer dizer que o tipo já está divorciado.<br />Sim...<br />Então, tens de saber! Isso é antes do início! Isso é prévio ao próprio diário!<br />É, mas como sou eu que escrevo, eu é que sei.<br />Sabes?<br />Sei, mas isso ainda não.<br />E isto? Isto é exactamente o quê?<br />Uma preparação.<br />De quê?<br />Dos leitores.<br />Quais leitores?<br />Do blog.<br />Isto é um blog?<br />É.<br />E eu?<br />Tu?! Tu o quê?<br />Quem é que eu sou?<br />Sei lá! Estás-me a ajudar a preparar os leitores.<br />Para quê?<br />Para o que se vai seguir.<br />Precisam de preparação, é?<br />É.<br />É assim tão mau?<br />É um bocadinho, isto é um exemplo, estás a ver?<br />Se lerem isto conseguem ler o resto?<br />Sim, basicamente é essa a ideia.<br />E eu?<br />Tu o quê?<br />Quando é que recebo?<br />Recebes?!<br />Sim, por prepará-los!<br />Quando começar a dar qualquer coisa...<br />Isto?<br />Sim.<br />Então, vou andando que aqui não me safo!<br />Já vais?<br />Já, a minha vida não é isto...<br />Ah...<br />Olha! Mas de qualquer maneira: Boa sorte, que bem precisas.<br />Obrigado. Lês?<br />Achas?! Isto!?<br />É original.<br />O quê?<br />Nunca ninguém começou um blog assim.<br />E achas que foi porquê?<br />O quê?<br />Que ninguém começou um blog assim!<br />Nunca ninguém se lembrou?<br />É capaz, ninguém no seu perfeito juízo se lembraria...<br />Estás a chamar-me maluco?!<br />Eu?!<br />Sim, estavas a dizer que ninguém no seu perfeito juízo...<br />Claro! Desde quando é que se começa um blog assim?!<br />Desde hoje!<br />Está bem, por mim... desde que não me identifiques!<br />Não queres?!<br />Nem pensar.<br />Mas és o autor!<br />Autor?! Autor de quê?<br />Do blog, ora essa.<br />E tu?<br />Eu sou o narrador.<br />Qual narrador?<br />Do blog, de alguns posts.<br />E eu sou o autor?<br />Sim, és.<br />Não pode ser.<br />Pode e és, meu amigo.<br />Eu não sou teu amigo!<br />És o meu criador...<br />Mas isso não quer dizer que seja teu amigo! Sou o autor deste blog?<br />Está pior! És, não sabias?<br />Não! Não disseste que eu só estava a preparar os leitores?<br />Narrei, mas quem realmente escreveu foste tu.<br />Estou a ver... fui eu...<br />Foste. Continuas a não querer ser identificado?<br />Claro! Agora ainda menos. Vamos é começar isto, para eu me ir embora. Tu és o narrador, não é?<br />Sou, queres mudar?<br />Mudar?! Mudar o quê?<br />De narrador ou passares tu a ser o narrador...<br />Nem pensar! Eu vou-me já embora!<br />Não escreves?<br />É preciso?! Não és capaz de narrar sozinho? Isto não é o teu diário?<br />Hum... É o meu diário, de facto.<br />E o teu divórcio.<br />Sim, és capaz de ter razão. Se calhar, posso narrar sozinho.<br />E era mais genuíno!<br />Pois era! Não havia cá interferências exteriores!<br />Nem mais! Nem autores, nem bodegas. Um narrador e pronto!<br />Estou a ver...<br />Posso ir?<br />Podes! Eu acho que me desenrasco!<br />Adeus.<br />Depois dizes qualquer coisa? Escreves qualquer coisa?<br />Não, não é preciso, tu desenrascas-te.<br />Mas tu és o autor, tens de cá vir de vez em quando!<br />Tu és um bom narrador, narra à vontade!<br />Se tu o dizes!<br />Eu?! Eu não digo nada!<br />Não?<br />Não!<br />Ai é?! Eu também já não narro!<br />Não?<br />Não! "Pósto" só isto e pronto!<br />Então, posta, para veres os nomes que te chamam!<br />Vão-me chamar nomes?<br />Se alguém ler até ao fim e der-se ao trabalho, o que não acredito, só podem injuriar-te, ofender-te, qualificar a tua mãe...<br />Que se lixe, eu também não tenho mãe!<br />Não?<br />Não, eu sou só um narrador.<br />E os narradores não têm mãe?<br />Alguns podem ter, eu não.<br />Então, posta "p'raí"!<br />Só este.<br />Por mim...<br /></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-15330120565623608102008-03-10T20:03:00.002Z2008-03-24T18:14:40.055Z<span style="font-size:78%;"><span style="font-family:arial;">(i) e (ii) estão aí para baixo, se quiserem ler, o que muito me admira - já vos disse que muito admirado fico sempre que vejo que alguém me lê? é verdade, fico mesmo e acho espantoso. olhem, obrigado. e desculpem lá qualquer coisinha de que gostem menos.</span></span> <p class="MsoNormal"><span style="">(iii)<o:p></o:p><br />– Já vais? – perguntou o metediço Óscar.<o:p></o:p><br />– Já, Alho – respondeu Paulo, conferindo o relógio de pulso. – Já chega, não achas?<o:p></o:p><br />O outro encolheu os ombros e acenou a cabeça com ar resignado.<o:p></o:p><br />– Tu ficas? – perguntou Paulo.<o:p></o:p><br />– E tu?<o:p></o:p><br />Paulo já o conhecia há mais de cinco anos, todavia, não conseguia atinar com as despedidas circulares do outro.<o:p></o:p><br />– Eu o quê? – inquiriu, a medo.<o:p></o:p><br />– Ficas ou vais?<o:p></o:p><br />Paulo suspirou, passou a mão pela face e, como se pedisse desculpa, respondeu quase em surdina:<o:p></o:p><br />– Vou.<o:p></o:p><br />– Ah!... Pois… – Óscar, a quem todos chamavam Alho, parecia reflectir no sentido da vida ou imaginar algo completamente diferente enquanto se fixava num pormenor qualquer do casaco de Paulo, que permanecia de pé, imóvel, hesitando entre acabar o arremedo de conversa com normalidade ou com uma espectacular fuga a correr, gritando palavrões e esbracejando como um louco.<o:p></o:p><br />– Vou andando, Alho. – Contrariado, Paulo decidira-se pela normalidade, apesar de preferir a corrida ou, pelo menos, um passo acelerado para fugir do colega, que durante o dia era absolutamente normal, mas que, ao fim da tarde, era acometido de uma absurda quase surreal incapacidade para se despedir. – Até amanhã.<o:p></o:p><br />– Ah… – soltou Óscar de olhos muito abertos. Paulo olhava-o à espera de uma continuação do “Ah” que parecia ter-lhe caído da boca. Óscar olhou para o relógio de pulso que mantinha pousado em cima da secretária, segurou-o e agitou-o. – Que horas são?<o:p></o:p><br />– Seis e vinte.<o:p></o:p><br />– Ah… – suspirou Óscar, colocando, sem mais, o relógio no pulso, com ar de quem sabia que não eram, nem nunca foram seis e vinte, nem nunca seriam, o ar era tão estupidamente absurdo, que quem o visse podia realmente convencer-se que nunca seriam seis e vinte.<o:p></o:p><br />– Porquê, que horas tens? – “Bolas!” censurou-se Paulo, quando ouviu a pergunta que havia feito.<o:p></o:p><br />Óscar Alho inchou, ruborizou e sorriu. Paulo não o acompanhou, pelo contrário, murchou, perdeu cor e cerrou os lábios.<o:p></o:p><br />– Eu não tenho horas, Paulo – expeliu Óscar entre despropositadas golfadas de riso –, mas o meu relógio regista dezoito horas e vinte e dois minutos…<o:p></o:p></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-40698609838413145812008-03-06T13:41:00.001Z2008-03-07T13:47:56.378Z<div style="text-align: right;"><span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;">All you need is me</span></span><br /></div><br /> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">– Sabes o que eu acho? – perguntou recostando-se no sofá de três lugares que ocupava a parede em frente à televisão.<o:p></o:p></span></p><p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">Ela levantou os olhos do livro que lia, no sofá individual que se encontrava ao lado do móvel da televisão, e acenou que não.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">– Que, provavelmente, seríamos mais felizes se alguém nos explicasse em pequenos que íamos passar o resto da vida sozinhos – declarou, sério.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">Ela olhou-o com atenção.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">– O quê? – inquiriu, enquanto, de relance, tentava perceber o que estava ele a ver na televisão sem som.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">– Quando éramos pequenos nunca ninguém nos disse que íamos viver sozinhos – explicou. – Toda a nossa preparação tem a ver com a sociabilização, com a vida em sociedade, com a vida com os outros e, no fim…<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">– Estamos sempre sozinhos – concluiu ela, pousando o livro no colo, marcando-o com um dedo que mantinha entre as páginas.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">– Sim – anuiu ele com um breve sorriso e, recostando-se mais no sofá, manteve-se uns segundos calado, de comando em riste mas sem iniciar o zapping que lhe fazia cócegas no polegar e perguntou: – Acabamos por estar sempre sozinhos, não é?<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">Ela mexeu-se o mínimo essencial para ele perceber que ia responder, estudou-lhe o semblante carregado e, preocupada, constatou a ausência de movimentos no polegar zappinante e disse:<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">– Se calhar não nos damos o suficiente para podermos deixar de estar sozinhos – levantou o livro, que não abriu, e segurou-o na vertical. – Se calhar, tentamos não depender de ninguém e isso obriga-nos a que, de alguma forma, estejamos sempre sozinhos.<o:p></o:p></span></p> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="">As sobrancelhas dele ergueram-se concordantes, os lábios contraíram-se num leve sorriso oblíquo satisfeito, encolheu os ombros conclusivos e acenou com a cabeça agradecido pelo acordo dela, que só percebeu o fim da conversa pelos ligeiros movimentos de pressão do polegar no botão do comando que mudava sequencialmente os canais da televisão.</span></p><p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style=""><o:p></o:p></span><span style="">Olhou-o, concentrado nas imagens em movimento, abriu o livro e continuou a ler.</span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-6492219.post-89584498445267833892008-02-15T12:31:00.002Z2008-02-18T15:13:08.624Z<b><span style="">jantar<o:p></o:p></span></b> <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="">– Está cheio, isto...<o:p></o:p><br />– Pois está, é sempre assim. As pessoas em vez de se comerem vêm comer, como se não o pudessem fazer nos outros dias.<o:p></o:p><br />– É um negócio, bem vistas as coisas deve ser o Natal dos restaurantes...<o:p></o:p><br />– É, é um dia fortíssimo. Está tudo cheio!<o:p></o:p><br />– Vêm comer e vêem comer!<o:p></o:p><br />– Pois.<o:p></o:p><br />– E quantos destes casais estarão a comer e a ver comer daqui a um ano?<o:p></o:p><br />– Isso interessa?<o:p></o:p><br />– Não... Quero dizer,… não sei.<o:p></o:p><br />– Isso é um pensamento retrógrado, antiquado, próprio dos teus avós ou, quanto muito, dos teus pais. Hoje vive-se o momento e o amor é eterno enquanto dura.<o:p></o:p><br />– Achas?<o:p></o:p><br />– Façam favor. Podem escolher mas estamos com um tempo de espera de uma hora. As bebidas é que posso trazer já. E entradas, vão desejar?<o:p></o:p><br />– Bebes vinho?<o:p></o:p><br />– Quê?<o:p></o:p><br />– Tinto.<o:p></o:p><br />– Ainda não sei o que vou comer.<o:p></o:p><br />– Um gin?<o:p></o:p><br />– Sim, pode ser.<o:p></o:p><br />– São dois gins tónicos e pode trazer as entradas, enquanto escolhemos.<o:p></o:p><br />– Sim, senhor, com licença.<o:p></o:p><br />– E nós?<o:p></o:p><br />– Nós, o quê?<o:p></o:p><br />– Estamos a comer porquê?<o:p></o:p><br />– Porque são horas de jantar.<o:p></o:p><br />– Sim, mas estamos a jantar os dois no dia dos namorados porquê?<o:p></o:p><br />– Queres a verdade?<o:p></o:p><br />– Sim, claro.<o:p></o:p><br />– Não me apetecia estar em casa sozinha.<o:p></o:p><br />– E sabias que eu vinha jantar contigo?<o:p></o:p><br />– Calculava, tu fugiste sempre... nunca jantámos fora no dia dos namorados, pois não?<o:p></o:p><br />– Acho que não.<o:p></o:p><br />– Dizias sempre, "porque é que havemos de cometer esse erro", lembras-te?<o:p></o:p><br />– E tinha razão.<o:p></o:p><br />– Pois, parece que sim. E depois de nós?<o:p></o:p><br />– Depois de nós, o quê?<o:p></o:p><br />– Jantaste?<o:p></o:p><br />– Claro, como é que achas que ganhei este corpo? Se não jantasse havia de estar muito mais magro!<o:p></o:p><br />– Não é isso, parvo...<o:p></o:p><br />– Ah! Voltámos aos velhos tempos.<o:p></o:p><br />– Desculpa?<o:p></o:p><br />– Ao tempo em que me chamavas parvo por tudo e por nada.<o:p></o:p><br />– Não te chamei parvo... ou melhor, chamei mas não te estava a chamar parvo, era uma forma carinhosa de dizer que...<o:p></o:p><br />– Nunca gostei desse tipo de carinho.<o:p></o:p><br />– Eu sei... Desculpa… mas, é engraçado, tu brincas com tudo mas quando brincam contigo...<o:p></o:p><br />– Não, sabes bem que não é isso.<o:p></o:p><br />– Sim, tens razão, não é quando brincam contigo, pode-se brincar contigo, o que não gostas é de certas brincadeiras, como te chamarem parvo ou usar palavrões... Não suportas que te mandem à merda, pois não?<o:p></o:p><br />– Não.<o:p></o:p><br />– Mas eu não te estava a chamar parvo, era uma forma carinhosa de dizer que tinha percebido a tua piada e que sabia que tu sabias que estavas a fazer uma piada.<o:p></o:p><br />– Que confusão para uma coisa tão simples!<o:p></o:p><br />– Parecem mesmo os velhos tempos. Sabes que só tu é que me fazes isto?<o:p></o:p><br />– O quê?<o:p></o:p><br />– Isto, estas conversas, estas confusões para explicar coisas simples, estas conversas sem fim.<o:p></o:p><br />– Não é uma conversa sem fim...<o:p></o:p><br />– Com licença, aqui estão os ginzinhos. As entradas trago já, está bem?<o:p></o:p><br />– E se não estiver?<o:p></o:p><br />– Não trago. Já escolheram?<o:p></o:p><br />– Ah... Já escolheste?<o:p></o:p><br />– Eu?<o:p></o:p><br />– Não, não escolhemos.<o:p></o:p><br />– Estejam à vontade, hoje é preciso muita calma, estejam à vontade. Eu já volto para tirar o pedido.<o:p></o:p><br />– Hum...<o:p></o:p><br />– Não diga, por favor. Não pergunte a quem é que eu vou tirar o pedido...<o:p></o:p><br />– Não ia perguntar.<o:p></o:p><br />– Ah… pensava que ia. É que hoje os homens acham-se particularmente inspirados, absolutamente engraçados, como se tivessem de ter resposta para tudo. Quer-me parecer que os homens estão sob grande pressão... É engraçado, não tinha pensado nisso, mas cada ano que passa estes jantares estão cada vez mais estranhos, mais... com hei-de dizer,… mais competitivos, como se fossem uma prova, como se fossem um exame... Os senhores desculpem-me este desabafo...<o:p></o:p><br />– Está desculpado…<o:p></o:p><br />– Não tem nada a ver convosco mas, realmente, isto parece-se cada vez mais como uma obrigação… não digam a ninguém, mas nem é bem uma obrigação é mais um tormento que os casais têm de superar, que isto, de jantar no dia dos namorados, não é fácil, nada fácil. Volto já, não se vão embora!<o:p></o:p><br />– Vamos ver…<o:p></o:p><br />– O quê?<o:p></o:p><br />– Se nos vamos embora.<o:p></o:p><br />– Ah! Boa! Essa foi boa mas está como os outros, está visto! Com licença.<o:p></o:p><br />– Era o que faltava.<o:p></o:p><br />– O quê?<o:p></o:p><br />– Um empregado com ideias…<o:p></o:p><br />– Certas.<o:p></o:p><br />– Sim, ainda por cima.<o:p></o:p><br />– Comemos o polvo à lagareiro?<o:p></o:p><br />– Queres?<o:p></o:p><br />– Tu não? Gostavas tanto de polvo.<o:p></o:p><br />– Sim, eu quero, tu é que dantes nunca querias…<o:p></o:p><br />– As pessoas mudam.<o:p></o:p><br />– Parece que sim. E, afinal, ainda não me respondeste.<o:p></o:p><br />– A quê?<o:p></o:p><br />– Estamos a jantar, porquê?... Além de não quereres estar sozinha e eu estar disponível?<o:p></o:p><br />– É preciso mais?<o:p></o:p><br />– Sim, acho que sim. Com certeza que jantas sozinha muitas vezes… ou algumas vezes, desculpa…<o:p></o:p><br />– Não era preciso emendares!<o:p></o:p><br />– Estava a brincar.<o:p></o:p><br />– Eu sei.<o:p></o:p><br />– E, além de jantares sozinha de vez em quando, eu não estou disponível só hoje…<o:p></o:p><br />– Não?... Hummm… Isso é alguma indirecta, algum dos teus convites enviesados?<o:p></o:p><br />– Desculpa?<o:p></o:p><br />– Estava a brincar.<o:p></o:p><br />– Ah!<o:p></o:p><br />– Mas, na verdade, não sabia se ias aceitar. Se queres saber, havia uma parte de mim que nem queria que aceitasses.<o:p></o:p><br />– Porquê?<o:p></o:p><br />– Sei lá… Porque, se calhar, passava o odioso para ti, ainda que não fosse o odioso, não havia nada de odioso se não quisesses jantar comigo, ainda por cima hoje… acho que era completamente compreensível… Aliás, se pensarmos bem, era o mais normal…<o:p></o:p><br />– Eu não aceitar?<o:p></o:p><br />– Tu não aceitares e eu não te convidar, isso é que era normal. Mas como eu te convidei e a normalidade já era, tu aceitares não é anormal, de facto, é apenas a sequência lógica da coisa, da anormalidade que eu iniciei quando te liguei… Estou a falar muito, desculpa.<o:p></o:p><br />– Não tens nada de pedir desculpa e não estás a falar…<o:p></o:p><br />– E tu, porque aceitaste?<o:p></o:p><br />– … demais. Porque queria jantar contigo, porque gostei de ser convidado, porque achei que, se me estavas a convidar, era por alguma razão, afinal já não nos falamos há mais de um ano…<o:p></o:p><br />– Eu liguei-te nos teus anos…<o:p></o:p><br />– E eu nos teus mas isso não é falar.</span></p><p class="MsoNormal" style="text-align: right;"><span style="">...<br /></span></p>garfanhohttp://www.blogger.com/profile/17129945656015259275noreply@blogger.com