tag:blogger.com,1999:blog-55144259530357423222009-07-13T14:25:35.644-03:00meet me at the back of the blue buscarlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.comBlogger41125tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-7859098165882068222009-07-06T02:40:00.002-03:002009-07-06T02:54:23.519-03:00a sombra de tudo que fomos nósvocê olha pra você mesmo e vê as cenas que se repetem incessantemente no seu mundo. você presta a mínima atenção à sua volta e vê as músicas, os livros e os filmes que compõem a sua vida e quase entram em metamorfose com a sua realidade. você não quer saber os porquês, preferia não saber, mas no fundo, eles são óbvios. óbvios e doem fundo demais para serem minimamente esquecidos ou para qualquer um desses elementos poder ser trocado.<div><br /></div><div>então lá estava eu mais uma vez, praticamente na minha origem e no meu final. sentado num canto de fim de festa, com uma das ultimas garrafas que sobraram sendo bebidas no gargalo, já em estado de destruição prévia. é a mesma situação do post anterior, mas em outro dia e outro lugar. dessa vez, porém, tinha um rádio, e tinha mais pessoas que queriam brincar de depressão e de pessimismo, só que sem saber o quanto essa brincadeira é séria e os caminhos que ela leva.</div><div><br /></div><div>no rádio, chico, com trocando em miúdos. eu sabia que podia - e posso - morrer a qualquer momento, e portanto, faço planos pro meu funeral. mas eles são rapidamente interrompidos. chico diz <i>devolva o neruda que você me tomou, e nunca leu. </i>e nunca leu. se simplesmente tivesse tomado, não seria nada. são partes que um amor carrega de outro, sempre necessário à sobrevivência. mas o pior é não ter lido. às vezes é neruda, às vezes é kundera, às vezes é james joyce, às vezes é nelson rodrigues. não importa. simplesmente leia. ou veja os filmes, caso seja uma coleção de godards.</div><div><br /></div><div>depois, a música muda, e vem cartola e <i>o mundo é um moinho. </i>música perfeita pra cartas de término. música perfeita quando você quer ter a cabeça erguida em relação a qualquer coisa. você diz, fundo, <i>dos amores herdarás só o cinismo, logo estarás à beira do abismo, abismo que cavastes com teus pés. </i>mas, meu amigo, quem está à beira do abismo, sentado no canto da festa, com uma garrafa numa mão, um cigarro sem filtro na outra e o olhar perdido na imensidão, é você. o abismo é universal.</div><div><br /></div><div>eu reflito, então, sobre como poetas usam metáforas para amores perdidos constantemente com fumaças, marcas e afins. olho e vejo que a garrafa é a melhor metáfora. sempre. oi, minha amiga, você nunca estará à beira do abismo. sempre alguém vai te beber. você estará vazia e irá voltar para o mundo das garrafas que cumpriram sua missão - deixaram mais poesia no mundo.</div><div><br /></div><div><i>trocando em miúdos </i>e <i>o mundo é um moinho </i>no meu funeral. lembrem-se. grato.</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-785909816588206822?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-42895449428737958982009-06-12T03:08:00.003-03:002009-06-12T03:39:41.300-03:00a mesma noite de junhotrês horas da manhã. o álcool ainda exalava da minha pele - era uma mistura insana de catuaba vagabunda, pinga ainda mais vagabunda, bebidas típicas de festa junina e muita cerveja. além disso, meus pulmões estavam intoxicados com dois maços de cigarros só nas últimas quatro ou cinco horas e substâncias ilícitas que atacavam não só a eles. o corpo pedia uma parada, em qualquer lugar. pedia descanso. mas minha cabeça latejava em pensamentos, sofrimentos e criação.<div><br /></div><div>a princípio, eu estava sentado em um canto, naquele contexto típico de final de festa, com as músicas sendo tocadas com a única intenção de espantar os poucos que ainda insistiam em ter alugma diversão. eu não queria, porém, ter nenhuma diversão. nunca quis. falava na morte e no amor levando à morte. falava que as pessoas não deviam se preocupar em morrer. falava que todas elas já estavam mortas - e que eu também queria estar. nisso, virava a garrafa de catuaba no gargalo e acendia outro cigarro.</div><div><br /></div><div>então, todas as pessoas sumiram. é, a festa tinha acabado, eu tinha colocado minha bolsa nas costas, minha blusa e saído andando sem rumo. era uma noite tremendamente escura e não havia nenhuma pessoa com coragem de andar por aquelas ruas. a cada passo, o álcool escorria pelo corpo, a nicotina pela garganta, as substâncias por todos os cantos do corpo. a cada passo, eu precisava mais de liberdade. a cada passo, eu precisava mais compreender a importância de uma centena de coisas e, consequentemente, deixá-las ir pelo mundo como eu era naquele momento - sem rumo e sem caminho.</div><div><br /></div><div>não iria clarear tão cedo, e eu não queria que clareasse. não iria aparecer alguma pessoa tão cedo, e eu não queria que aparecesse. apesar de tudo, eu me sentia bem. sozinho, solitário, vagante. o peso da bolsa nas costas. coloquei as mãos nos bolsos e percebi que não tinha mais nenhum cigarro. não havia absolutamente nada aberto. no máximo, um animal solto pela rua. no máximo, alguma alma atormentada que já cansou do mundo dos vivos. no máximo, aquela noite para contemplar.</div><div><br /></div><div>sentei no banco de uma praça. minha cabeça latejava e pedia pra libertar tudo o que precisava ser libertado. meus olhos estavam imersos no poder da escuridão. os postes, as ruas, as placas e a sarjeta eram minhas companheiras. nada mais. não podia mais me alimentar de amor nem de ódio. não podia mais continuar. tudo que podia fazer era pegar uma caneta, um caderno e escrever. escrever eternamente.</div><div><br /></div><div>era nove de junho. o que foi escrito naquela noite é o texto mais doloroso, verdadeiro e libertador que já cheguei perto de escrever. fala sobre muitas coisas, em muitas nuances, e é, por enquanto, impublicável. a cor da noite mancha cada letra nele presente. a solidão daquela praça castiga cada palavra. a imensidão do mundo vulgariza cada frase. porém, o que está nele é a verdade de uma pessoa que precisava se libertar.</div><div><br /></div><div>e, mesmo tendo feito isso, não se libertou. porque a liberdade não existe. porque nem com centenas de outras madrugadas de álcool, cigarros, solidão, escuridão e imersão - madrugadas essas que certamente existirão - será possível se livrar de partes tão íntimas de uma existência. e isso, sinceramente, é lindamente destruidor e até me faz sorrir.</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-4289544942873795898?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-78553042068585542862009-06-01T01:03:00.003-03:002009-06-01T01:22:14.690-03:00o mesmo céu de junhoera uma noite escura e fria de junho, eu tinha bebido uma garrafa de vinho e andava por aí com uma companhia, mulher especialmente bonita e capaz de mexer com a maioria dos homens.<br />o frio daquela noite era claramente especial, como se quisesse marcar que ela significaria algo. o céu, porém, demarcava algo estranho.<br />escuro, sem nenhum brilho. vazio e imponente. zombando de todos que ousavam passar pelas ruas naqueles horários tardios. eu não ligava - passava, andava e ria. quase que um ritual obrigatório de quem tem uma companhia como aquela numa noite fria.<div><br /></div><div>o tempo passa. mais uma noite de junho, essa não tão fria. essa tinha aquele vento leve, que corta como um papel sulfite, mas que uma boa bebida faz com que você nem se importe.</div><div>praticamente o mesmo horário e o mesmo local. eu andava, sozinho, solitário. o céu me espreitava do auge da sua escuridão. eu parecia temerário com aquilo tudo, como se algo estivesse me encarando. não estava.</div><div>fiz o óbvio a se fazer - sentei numa praça, acendi um cigarro. tragava com muita calma, degustando por incontáveis segundos. olhei para cima e respondi na mesma moeda. o vazio quase me devorava. mas ele estava sempre ali e eu nunca tinha reparado. era o mesmo céu de junho.</div><div>era o mesmo céu de sempre.</div><div>era o mesmo vazio de junho.</div><div>era o mesmo vazio de sempre.</div><div><br /></div><div>mulheres, cigarros, viagens, filmes, livros, o que for. eles se juntam a esse céu. eles se juntam a esse vazio. por mais que eu ame todos eles, não posso fazer nada. só olhar para cima e contemplar, da praça ou da rua, sozinho ou acompanhado, o que ali estiver. zombando de mim, mas eu também zombando dele.</div><div>o mesmo céu de junho.</div><div>o mesmo céu de sempre.</div><div>o mesmo vazio de junho.</div><div>o mesmo vazio de sempre. </div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-7855304206858554286?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com5tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-82148665391810924282009-05-23T03:27:00.003-03:002009-05-23T03:33:23.839-03:00ausênciadesculpem por ela. crise de inspiração alarmante. várias entradas no blog fechadas antes de se completar um parágrafo.<br />um dia, ela volta. pode ser amanhã, pode ser daqui há anos. vocês descobrirão.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-8214866539181092428?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-48939676018496502032009-04-30T03:04:00.002-03:002009-04-30T03:13:21.262-03:00às vezesàs vezes, só às vezes, acontece uma ou outra coisa que me faz achar tudo isso tão bonito.<br /><br />e pra achar tão bonito, eu preciso achar tão feio. e preciso já ter achado tão bonito. e já ter achado tão feio antes. é meio paradoxal, eu sei, mas é necessário.<br /><br />dois anos atrás eu tinha uma vida amorosa teoricamente perfeita, mas nenhuma perspectiva artística/profissional, meus dias eram atolados por um cursinho besta, meu time era incapaz de fazer qualquer coisa útil e outra centena de tragédias paralelas.<br />então, o tempo passa, e em dois dias você, primeiro, ganha dezoito mil reais no primeiro projeto de incentivo à cultura que se inscreveu, e no dia seguinte vê seu time ter uma das vitórias mais impressionantes da história do futebol, e sabe que pode mandar a faculdade ir tomar no cu a qualquer momento pra beber e fumar eternamente num bar ao lado dela, com seus amigos, comemorando os fatos. ao mesmo tempo que sua vida amorosa ruiu e há um bom tempo não existe mais.<br /><br />e sabe, o bonito disso tudo não é você ter ganho seu projeto, não é você ter amado alguém, não é você poder encher a cara. o bonito disso tudo é que essas coisas simplesmente não podem coexistir. que felicidade plena é uma lenda. que nas maiores alegrias, sempre há uma tragédia por trás. mas você está lá, rindo, e tremendo, e com a tensão gostosa de qualquer uma dessas situações. sem nunca saber o porque.<br /><br />esse texto não tem absolutamente nada a ver com o blog. não é uma crônica, não é profunda, não é nada.<br />eu simplesmente precisava dizer isso.<br />que às vezes, só às vezes, eu consigo ver um mínimo de beleza nisso tudo. e sorrir de canto de boca às três horas da manhã de uma quinta-feira de abril.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-4893967601849650203?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-34211186274160479612009-04-26T03:46:00.003-03:002009-04-26T04:14:59.085-03:00um ano.um ano de crônicas massarianas.<br /><br />um ano de centenas de amores que deram errado. um ano de infinitas viagens de ônibus. um ano com rocks dos anos sessenta e setenta sendo repetidos incessantemente. um ano de melancolia. um ano de palavras que tentam ser poéticas, mas no fundo, são tão vazias quanto seu autor. um ano de experimentos ocasionais. um ano de mágoas em forma de textos. um ano de pessimismo. um ano de olhares constantes para o mesmo lugar. um ano de promessas quebradas. um ano de passados que insistem em viver. um ano de sentimentos mortos que, na verdade, nunca estão realmente mortos.<br /><br />um ano de alguns poucos amores que deram errado. um ano de infinitas viagens de ônibus. um ano com rocks dos anos sessenta e setenta sendo repetido incessantemente. um ano de melancolia. um ano de tardes filosofando palavras vazias, ou engraçadas, ou desesperadoras, em bares aleatórios. um ano de passos razoavelmente calculados. um ano de mágoas exprimidas nas mais diversas formas. um ano de olhares constantes para os mais diversos lugares. um ano de promessas quebradas. um ano de passados que insistem em viver. um ano de sentimentos mortos que, na verdade, nunca estão realmente mortos.<br /><br />um ano de vermute. um ano de iguarias preferidas por uma garota do passado. um ano de marteladas. um ano de alegrias em verde e branco. um ano de promessas quebradas. um ano de relatos cinematográficos. um ano de infinitas viagens de ônibus. um ano de casais perfeitos que nunca se falariam. um ano de casais errados que se amavam. um ano de objetos que contam uma história. um ano de contos sobre amor, noite e música. um ano de casais que se escondem do destino. um ano de cavaleiros solitários. um ano de vidas sem sentido. um ano de dolorosas lembranças escritas quase com sangue sobre amores perdidos.<br /><br />um ano de solidão. um ano de perdas. um ano de olhares constantes para o mesmo lugar. um ano de chopp e vinho e cerveja e vodka em bares aleatórios. um ano de noites tristes em rodoviárias. um ano de guerra interna e externa. um ano de mentiras por causa de necessidades egoístas. um ano de quase nenhum amor verdadeiro. um ano de quase nenhuma perspectiva nos quase nenhum amores verdadeiros. um ano de mulheres erradas nas tardes erradas. um ano de mulheres erradas nas tardes certas. um ano de mulheres erradas nas noites erradas. um ano de mulheres erradas nas noites certas. um ano de cigarros filados de francesas em festas confusas. um ano de cigarros no mesmo banco com a mesma publicidade. um ano de cervejas que são o conforto da alma.<br /><br />um ano de crônicas massarianas.<br /><br />porque a intenção deste blog é contar histórias. sejam elas falsas ou verdadeiras. sejam elas inspiradas ou não na realidade. sejam elas livres para tomar seus próprios caminhos ou não.<br /><br />e que agora, muitas outras histórias surjam - não só aqui, mas sobretudo, na tela, em tons de sépia e acinzentados, com homens fazendo a barba e fumando cigarros em uma praça escura.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-3421118627416047961?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-36420197989836249842009-04-12T02:36:00.003-03:002009-04-12T02:51:15.337-03:00paraíso e salvaçãoacordara mais cedo que nunca naquela sexta-feira. obviamente, não era uma sexta-feira qualquer, era sexta-feira santa, da morte de cristo, o salvador. não que ele acreditasse nessas coisas todas - era ateu com todas as suas forças, com seu centro de crenças sendo mais petrificado que uma múmia. porém, como a fé faz bem a tantas pessoas, fazendo-lhes esquecer dos problemas ou imaginar até que os superaram, para ele, era a farsa que dava tamanho prazer.<br /><br />a igreja nem mesmo tinha aberto e ele já estava na porta. com os primeiros fiéis, conversava sobre coisas como a importância daquele dia, o absurdo que são as pessoas que comem carne, se tatuam e blasfemam. usava óculos e penteava o cabelo, ao contrário do cotidiano, quando era tão desarrumado que mal conseguia emprego. logo no início, cumprimentava o padre, e se confessava - não que realmente contasse os pecados que cometera, ou que os que contasse fossem de verdade - simplesmente, o que lhe agradava ali era o ritual todo.<br /><br />conforme a missa corria, entoava os hinos, com palavras estranhas como jeová, judas, pilatos, salvação e paraíso. não sabia o significado de nenhuma delas, certamente. depois, voltava para a rodinha com os senhores idosos e as velhinhas que, durante toda a vida, fizeram sexo apenas com seus maridos e pela procricação da perfeita raça humana, feita à imagem e semelhança do senhor - mesmo que algumas das crias tenham morrido de câncer e outras virado corinthianas. os assuntos agora se desdobravam entre como jesus morreu para salvar a todos, como o coração é bondoso e, principalmente, como deus foi incrível ao impedir que mais pessoas morressem no terremoto da itália. sorria imensamente. e por dentro, gargalhava sarcasticamente.<br /><br />então, era hora de ir para casa. o que chamava de casa era um apartamento de poucos metros, com algumas bebidas, uma televisão e suas melhores amigas, as baratas. aguardava a próxima missa enquanto abria a primeira garrafa. olhava pela janela os carros parados, engarrafados, com braços gesticulantes pulando para fora. ria dos pobres colegas cristãos. esse riso era sua felicidade. como, para eles, crer em deus era a felicidade, o caminho, a salvação e o paraíso. ao olhar no espelho, mais tarde, vendo uma barata, sua cara de bêbado e o olhar morto, talvez soubesse o culto ao seu mundo era paraíso e salvação - simplesmente, com significados diferentes dos que aparecem no dicionário de sinônimos e no dicionário de contradições, aquele tão conhecido como bíblia.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-3642019798983624984?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com5tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-26647550543185762932009-03-20T12:39:00.002-03:002009-03-20T12:47:20.146-03:00carta anônimaeu só queria te dizer que o mundo não tem lugar para pessoas como nós.<br /><br />todas as outras sorriem por aí, felizes, às sete horas da manhã. vêem televisão e lambem os beiços com potes de sorvete antes de se deitar, dormindo sob um edredon estrelado. olham pelas janelas e acreditam estar vendo alguma forma superior no mundo simplesmente porque as árvores balançam de forma coordenada. elas amam sem se entregar. elas se entregam sem amar. elas confundem viver com existir. elas existem sem viver. elas vivem sem existir.<br /><br />e nós avançamos, madrugada adentro, sem temer a escuridão, queimando as pontas dos cigarros nos lugares que acharmos mais propícios. por que não ficar ainda mais escuro? por que não os galhos das árvores não se tornam ainda mais densos? por que não as pessoas não compreendem que os verbos podem ser parecidos, podem ter sentidos parecidos, mas no fundo são tão diferentes?<br /><br />é o vento que corta o rosto na noite sombria que traz a vida de verdade, no olhar fixo grudado no nada, na chama que sai do isqueiro e queima junto com o ardor do álcool no estômago. é a conjunção das sensações, das formas, da solidão momentânea e eterna. do estar que diverge do ser. do ser que diverge do existir. do existir que diverge do viver. do viver que é praticamente um amar.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-2664755054318576293?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-29280421263738342622009-03-07T18:34:00.003-03:002009-03-07T18:57:28.415-03:00confessionáriopoucas pessoas conseguem entrar em um mundo composto por palavras, referências e lembranças, sentar-se, observar tudo com calma e transformar isso em textos com sentido ou imagens. essa é normalmente a minha intenção quando eu venho aqui, e sei que uma meia dúzia de pessoas acompanha essa tentativa quase mensal de me retratar ou de viajar em outros universos de sensações e pensamentos e traduzi-los nesse pequeno canto. quando eu sento em frente à minha mesa e coloco meus dedos sujos com todas as idéias que acabarão aqui nos teclados, praticamente faço um trabalho de purificação.<br /><br />é como se este blog fosse um padre rezando uma missa pela minha alma. com os salmos sendo o que eu realmente passei. com os provérbios sendo o que eu inventei. com o apocalipse sendo a junção de tudo, culminando nesta montanha de poeira, quase violenta, quase romântica, quase exploradora, quase alentadora, que é o ato de expôr toda uma ânsia de liberdade em alguns parágrafos. pode não servir para alguma coisa, mas trata-se da fé na representação e no poder de uma linguagem e de um mito.<br /><br />vocês nunca saberão o que é verdade entre todas essas mulheres, bebidas, cigarros, noites, músicas e viagens que já foram retratadas por aqui, e entre todas as outras que ainda serão. mas no fundo, talvez nem eu saiba. agora mesmo, eu estou olhando pela minha janela, vendo o céu terrivelmente cinza, encoberto em alguns pontos por algumas árvores e por um terminal de ônibus que fica próximo à minha casa. os barulhos são sobretudo desses ônibus, indo para os mais diversos locais dentro da minha cidade interiorana. nada me impediria de criar uma história sobre isso. nada me impediria de falar de uma mulher com semblante triste, esperando a hora de voltar para casa após mais um dia de trabalho numa loja de calçados. nada me impediria de conhecê-la.<br /><br />cada dia e cada noite que passam deixam marcas ímpares. até mesmo cada dèja vu que se tem, no final, é ímpar. cada simples criatura neste planeta existe para ser ímpar. eu escolhi isso aqui, escrever, contar histórias, filmar histórias, me envolver com as mulheres erradas nas noites erradas, seguir os caminhos que só me levariam aos lugares errados, tomar as bebidas e fumar os cigarros nos dias errados. vinte e um anos depois, ainda estou aqui, vivo, e meu coração pulsa esperando pela próxima história que poderei contar. seja inventada, seja absolutamente real. até que isso aconteça, eu acendo as velas e espero o padre.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-2928042126373834262?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-81398606410292437582009-02-22T16:42:00.004-03:002009-02-22T17:16:08.554-03:00o amante do lixoo lixo o atraia de uma forma sobrenatural. não sabia, porém, se era uma atração verdadeira, feita de atrações internas e palpitações do pensamento, se era uma vontade que consumia, se era um ímã à todas aquelas coisas destruidas, mulheres com caras estranhas em quartos de motéis com baratas mortas. talvez fosse realmente algo incontrolável, devorador, talvez precisasse olhar por aquelas janelas e ver barro, sangue e roupas rasgadas. talvez não.<br /><br />era nas praças mais feias, nas garrafas mais vagabundas, no álcool que descia queimando e ardendo sem trazer alento, no sexo que dava tanta repulsa quanto prazer, nos corpos femininos que não seriam bonitos à vista da maioria dos homenzinhos clichês que com ele rivalizavam, mas que ali, naqueles locais tão fortemente escolhidos, tornavam-se ideais. era essa a vida que por anos lhe agradara, era essa a vida que por anos lhe perseguira, escoltara frente a todas as hipocrisias e máscaras no dito bonito, no supostamente aceitável.<br /><br />com essa verve bukowskiana, encarava o mundo. porém, sem encará-lo. porque não são quartos de motéis com baratas mortas que amedrontam. porque o lado feio, rejeitado, pobre e acinzentado era singelo e verdadeiro. quando conversava com ele, sempre me dizia que tinha medo das mulheres com sorrisos brancos e vestidos roxos. que tinha medo do que elas traziam por dentro. que tinha medo de ser tragado por elas como tragava a erva misturada com mato seco de cada dia.<br /><br />um dia, eu estava em um bar, bebendo durante algumas horas, justamente para esquecer a imagem de uma dessas mulheres de vestido roxo e sorriso branco. ele chegou, sentou-se à minha frente e estendeu a mão. não entendi aquele gesto. era como se soubesse tudo que eu estava pensando, tudo que acontecera nas noites anteriores nos motéis bem cuidados, com banheiras luxosas e espelhos lustrados. olhei com estranheza, quase investigando o seu semblante. entao ele me disse, de forma calma, mas muito sôfrega:<br /><br />- sabe, eu concordo com você. as mulheres de vestido roxo são muito mais atraentes. eu normalmente as amo na minha dor, no meu cheiro interno de pinga, no meu pensamento sujo com personagens que nem sequer existem. mas elas são assustadoras. tem alguma coisa naquela tinta, naquela preciosidade, naqueles olhares distantes e vazios, que realmente me dá medo. muito mais medo que uma barata morta no chão de um motel.<br /><br />então, ele sumiu. sumiu como se nunca tivesse sido real e tivesse estado à minha frente. do outro lado da rua, eu vi uma mulher de vestido roxo e sorriso branco, ainda mais bonita que o habitual, passando e olhando para mim. levantei, fui atrás dela, mas soube que talvez seria bem melhor se eu simplesmente a deixasse ir e me dirigisse ao motel com baratas mortas no chão.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-8139860641029243758?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com5tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-42556816716136223752009-01-31T13:50:00.001-02:002009-01-31T13:51:52.020-02:00essênciaera no teu abraço que eu encontrava forças pra me enfrentar<br />era no teu abraço que eu encontrava forçar pra me libertar<br />eu nunca soube bem quem era, e ao mesmo tempo sempre soube<br />olhares, carícias, silêncios, todos até de alguma forma serviam<br />mas era no teu abraço que eu encontrava forças pra me enfrentar<br /><br />sentei num banco velho, desbotado, próximo ao porto. o dia ainda amanhecia, as primeiras luzes forçavam em aparecer. alguns navios reluziam ali, distantes, vagos, tristonhos com uma imensidão de água em volta e nada que com eles colaborasse. são sóbrios, soturnos, solitários. semeiam sua sofreguidão. no porto, nada tem sabor. nem o frio que congela a necessidade de sentir, nem o calor que derrete a vontade de amar.<br /><br />era no teu abraço que eu encontrava forças pra me enfrentar<br />ali, no porto, não tinha abraço nenhum. ali, no porto, eu simplesmente olhava. olhava para longe, sem prédios e sem concreto para bloquear, sem portas, sem janelas, sem espelhos nem vidros para refratar. o olhar era puro, eterno, intocado.mas eu não via nada. só o vazio, de ser como eu sou.<br />eu me via podre, detestável, repleto de vermes e ácaros. eu me via em carne viva, como se esperasse um abutre devorar os pedaços mais à mostra. eu me via, mas não queria ver.<br /><br />e nem tinha o teu abraço pra me libertar.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-4255681671613622375?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com6tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-27396611608757703072009-01-23T21:43:00.003-02:002009-01-23T21:44:20.112-02:00cinzas<a href="http://www.curtacinzas.blogspot.com/">www.curtacinzas.blogspot.com</a><br /><br />no endereço acima, crônicas sobre ele, o protagonista de cinzas.<br /><br />neste blog aqui, continuam crônicas sobre todos os outros meus pedaços.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-2739661160875770307?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-49158161693720338262009-01-05T04:06:00.003-02:002009-01-05T16:15:23.221-02:00i'll never look into your eyes againnós nos amamos e nos odiamos intensamente e simultaneamente, nossas línguas se babaram enquanto nossos corpos quentes ardiam, minha mão nos seus peitos, meus olhos nos seus, minha caneta tecendo palavras estranhas e que eu mal conhecia a existência para fazer você sorrir e assim te ver mais bonita, meu punho cerrado indo contra o teu rosto, meus olhos queimando fortemente em algum lugar fixo buscando não te encarar, minha caneta rasgando palavras bonitas para te ver chorar e assim te ver mais estranha.<br /><br />deitada na minha cama, completamente nua, enquanto eu pegava alguma coisa que você tinha me pedido, sem bem entender o porquê, eu te contemplava, te espiava, te fotografava mentalmente para toda a posteridade. você se vestiria e desceria, mas aí nada nada mais tem o menor significado. onde quer que você tenha ido, com certeza voltaria com uma metralhadora de insultos, que assim que eu conseguisse desarmar, deixaria cair também a sua roupa.<br /><br />nós nos amamos de todas as formas possíveis, com toques no cabelo, com juras e promessas, com olhares, com abraços nos quais o mundo simplesmente poderia acabar. nós nos tivemos por anos, em qualquer distância, em qualquer momento. sua voz estava ali, dizendo conteúdos bobos com uma voz de criança, mas que mudavam meu humor. seu corpo estava ali, presente, realçado por um fio dental ou um decote, que pouco tempo ficariam à mostra, mas muito serviam para atiçar. seu amor estava ali, mas este, ao contrário de todos os outros, era volátil, cruel, escondia uma face que eu não queria conhecer.<br /><br />nós nos odiamos de todas as formas possíveis, com xingamentos que criariam um novo dicionário de ofensas - você foi a minha vadia, a minha puta, a minha maldita, eu fui o seu filho da puta, o seu cínico, o seu canalha. nós nos esbofeteávamos com o olhar, e dentro de mim, muitas vezes o ódio queimava enquanto eu te fotografava intimamente. mas logo chegavam a tua voz, o teu corpo e o teu amor, que eu não sabia ser tão volátil, para me derramar sobre você novamente.<br /><br />nós nos amávamos no nosso ódio e nos odiávamos no nosso amor. nós nos mordíamos durante os beijos ardentes e nos batíamos no sexo mais selvagem. os seus cabelos pediam puxões, longos, caindo quase sobre seu belo quadril, e eu ali estava, liberando todas as minhas emoções, fazendo assim com que o meu amor não acabasse como o seu.<br /><br />nada, porém, resiste ao implacável poder do tempo. as minhas fotografias imaginárias chegam perto de desaparecer, seus cabelos foram cortados e os seus fio-dentais estão guardados em alguma caixa de bombons no fundo do teu armário, se é que eles ainda existem. nem sequer vale mais a pena tentar te reparar. o estrago foi feito, o preço seria alto demais e eu, sinceramente, não quero correr o risco de pagar este conserto e ver tudo ser quebrado de novo.<br /><br />talvez, algum dia futuro, eu encontre a tua voz, o teu corpo e o teu amor devidamente renovados, em alguma vitrine por aí. até lá, melhor pegar a estrada, soltar as tuas algemas e deixar jim morrison dizer, com o seu timbre tão melancólico, <em>it hurts to set you free, but you'll never follow me, </em>mesma coisa que ele dizia quando te chamei para sair pela primeira vez, sem te amar nem te odiar, sem prever nem um décimo da explosão que ocorreria a partir de uma mera tarde de sábado.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-4915816169372033826?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com12tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-1241905715170008902008-12-31T17:21:00.003-02:002008-12-31T17:31:57.183-02:00the song remains the samedia trinta e um de dezembro, eu estou aqui no meu momento habitual de quase todos os dias, com a porta do meu quarto fechada, o dvd do led zeppelin na televisão e um recipiente contendo álcool em cima da minha mesa do computador. esse, porém, é o último dia do ano, em breve eu terei que me trocar, tomar um banho e ir com a família para comer peru, beber vinho e ver parentes fazendo simpatias bizarras pra atrair dinheiro, em algum lugar por aí. mas não, hoje nada disso vai me irritar.<br /><br />passaram-se trezentos e sessenta e cinco dias cheios de reviravoltas intensas, de momentos de alegria extrema e de tristeza absoluta. das vinte viradas de ano pelas quais eu já passei, essa é a que eu chego com o maior número de novas histórias pra contar, de risadas altas dadas, de lágrimas vertidas, de lugares novos conhecidos, de pessoas que realmente valem a pena com quem se convertou e, mais que isso, de projetos e esperanças para os próximos doze meses que virão. não posso dizer que fui feliz, até porque esse sentimento me parece muito mais algo industrializado e vendido em comerciais de supermercado, mas posso dizer que eu estive presente aqui, neste mundo, de corpo e alma.<br /><br />se alguém me contasse, lá no dia primeiro de janeiro de dois mil e oito, como esse ano acabaria, eu daria risada e mandaria internar essa pessoa. e agora estou aqui, tentando ainda compreender tudo o que aconteceu, tentando olhar para mim e ver a mesma pessoa de sempre. em muitos momentos eu acabei fugindo de quem eu sou de verdade. mas a essência continua a mesma. eu tenho meus pensamentos, a minha moral, as minhas metas, meu jeito totalmente peculiar de ver o mundo e as pessoas. e é com eles que eu entrarei em dois mil e nove. a única coisa que eu quero é não saber de nada. que eu termine o ano exatamente como estou terminando esse, com o meu dvd do led zeppelin rodando na tela, um recipiente com álcool em cima da mesa, mas, sobretudo, com o recheio absolutamente desconhecido e improvável.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-124190571517000890?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-49614471046053311662008-12-24T02:58:00.002-02:002008-12-24T03:15:54.377-02:00feliz natalescurecia em um dia qualquer de dezembro, a cidade começava a brilhar com todas as luzes natalinas penduradas nos potes, pulando pra fora das lojas, escorregando das árvores e enfeitando as casas, das mais bonitas às mais feias. a música brega cantada por simony ou alguma genérica com nome parecido ecoava de forma quase irritante pelos ouvidos, entoando melodias que tendiam a ser bonitinhas e fazer a função de esconder os clichês tão exaustivos das letras, que ressaltavam o amor, a família, jesus cristo, deus, o nascimento, dentre outros elementos considerados tão lindos pela (i)moralidade burguesa.<br /><br />era nesse cenário que ele caminhava pelas ruas do centro, com passos apressados, buscando escapar logo da aglomeração e chegar ao seu destino. era difícil, muitas pessoas caminhavam sacolas com coisas que entregariam com um sorriso de canto de boca àquele parente que detesta, ou simplesmente andavam devagar demais justamente por não ter noção de que existiam outras pessoas tentando passar pelo mesmo lugar. ainda o tempo não colaborava, com um calor extremo, aumentado pelos escapamentos de ônibus e carros presos no trânsito, pela quantidade desumana de pessoas em um espaço tão pequeno espremendo e dividindo o ar castigado pelo fato da localização da cidade ser numa região tropical.<br /><br />enquanto pisava no chão da calçada ou passava pela rua desviando de carros dirigidos por motoristas incapazes de dar seta ou respeitar os direitos de um pedestre, observava nas vitrines os novos desejos pelos quais as pessoas venderiam suas almas - um tênis com o valor de um salário mínimo, uma blusa que uma mera etiqueta fazia seu preço ser multiplicado por dez. seu raciocínio não compreendia o que acontecia com esse mundo. o que aqueles zumbis faziam ali, procurando a felicidade em algo para revestir os pés.<br /><br />chegou então à sua casa, pegou as chaves, abriu a porta, pisou no velho chão de taco, acendeu a luz, pegou duas velas e acendeu. sentou-se na mesa e olhou enquanto elas se queimavam por alguns minutos, até ir buscar uma faca e aparar os pavis. deixou-as pela metade, como se quisesse que a sua fé na humanidade ainda estivesse, como se esperasse que este gesto simbólico fosse capaz de demonstrar para ele que todos aqueles seres vistos durante aqueles minutos passeando pela cidade iluminada ainda eram mais que personagens de um filme de terror. um filme de terror real, na qual a doença não é transmitida por mordidas, e sim por notícias, palavras e cédulas com valores impressos.<br /><br />desistiu. cortou as velas em vários pedaços, jogou no lixo e foi pensar no que daria de presente para seu sobrinho mais novo.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-4961447104605331166?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-65342762961894924072008-12-12T19:40:00.003-02:002008-12-12T19:59:21.694-02:00um pré-ensaioa maioria dos meus textos fala sobre amores mal-sucedidos, mulheres, viagens, todos devidamente e ilusoriamente musicados por rock dos anos 60 e 70. a maioria dos meus personagens é repleta de sentimentos vazios, nutre paixoes por sensaçoes mundanas, gosta de sexo, de bebidas, de cigarros e de arte. são seres solitarios, buscando encontrar lugares em um mundo cada vez mais excludente, em que as pessoas mais parecem ser feitas em série, prontas para ir em qualquer shopping e em qualquer balada de musica eletronica e para fechar o cérebro eternamente.<br /><br />essa reflexao me causou desespero numa madrugada dessas. eu tenho vinte anos de idade, faço uma faculdade publica na area de humanas/artes e quero viver contando historias. historias com imagens, mas historias. teoricamente, sou o tipico cara que deveria sonhar eternamente em mudar o mundo, tatuar a foice e o machado nas costas e sair pelas ruas distribuindo folhetos e preparando a luta armada. oh, céus, mas tudo o que eu faço é escrever sobre amores mal-sucedidos, peitos e vodca. o que está acontecendo com o mundo?<br /><br />entao, eu lembrei justamente de uma das discussoes mais complexas e recorrentes dentro desta mesma faculdade: o vazio da minha, e provavelmente nossa (ja que voces, meus leitores, tambem devem fazer parte dela), geração. nós estamos na pior época de todas - simplesmente nao temos contra o que lutar, contra o que dirigir a nossa poesia, a nossa verbalizaçao, as nossas imagens. por mais que pensemos com mentalidade esquerdista, de "eu odeio essa merda toda", não há para onde se mexer.<br /><br />pensemos: antes, os casamentos eram arranjados, as profissoes eram decididas pelos seus pais, o amor era distante, quase lúdico. as proibiçoes, porem, foram caindo. mas ainda haviam os tabus: o sexo era um tabu, as drogas, o alcool, a liberdade era um tabu! nossos pais lutaram contra uma ditadura militar. e havia a politica, duas ideologias vivas, e nós, os estudantes-de-humanas-numa-faculdade-publica, sabiamos perfeitamente por qual deveriamos lutar! todos eles, no mundo todo, tinham motivos e assuntos para direcionar as suas concepçoes artisticas.<br /><br />na literatura, as pessoas falam do mundo e mostram a sua revolta. bukowski cria henry chinasky, salinger cria holden caulfield, isso com um intervalo de vinte anos na linha narrativa. depois, o cinema tem bertolucci, tem godard, tem scorsese, tem glauber rocha - e todos eles, ao seu modo, mostrando as suas geraçoes, as lutas lutas, as suas vontades, as suas frustraçoes. os painéis estao lá, claros. as artes sao maravilhosamente pintadas para demonstrar o mundo em efervescencia - e nenhum deles esquece dos amores mal-sucedidos, dos peitos e da vodca, todos estão lá, só que a serviço de algo.<br /><br />hoje, anos 2000, nós todos falamos dos mesmos assuntos, mas sem ter contra o que lutar. eu faço um curta sobre uma pessoa que luta contra a sociedade. não. eu faço um curta sobre uma pessoa que se adequa à sociedade. nao existe luta. a geração toda é passiva, conformada, simplesmente por olhar para frente e não ver mais nada alem de pessoas feitas em série, prontas para ir no shopping center, na balada ouvir musica eletronica e pegar vinte.<br /><br />a historia definitiva que eu quero contar é a historia dessa geraçao. nao sei ainda como será, quem serão os personagens e o que farão, mas eu sei que quero falar sobre ela. sobre o seu vazio. sobre a sua passividade. com amores mal-sucedidos, com peitos e com vodca, mas já com alguma luta - a luta contra isso que nós somos.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-6534276296189492407?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com7tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-38659049665102485852008-11-28T23:56:00.002-02:002008-11-29T00:24:08.521-02:00o lobo e as cinzasnão sabia bem o que tinha ido embora primeiro. tudo tinha sido muito repentino, na velocidade que cinzas caem no chão de um cigarro que queima. o fato é que os dias tinham se tornado sem nenhum brilho, o sol não existia mais, nem a chuva, nem o vento - apenas uma interminável névoa que impedia qualquer sensação de existir. ali, sentado em seu sofá, via televisão, bebia em garrafas vazias e esperava telefonemas que nunca aconteceriam.<br /><br />era como um lobo, movimentando-se atrás da carne apodrecida, buscando os momentos mais desatentos para fazer prevalecer sua vontade. era como um lobo, mas um lobo já sem forças, desgastado, preso dentro de pornas e janelas incapazes de se abrirem. na mata, as árvores eram muito altas, os matagais tinham espinhos e a água era amarga. restava deitar-se e olhar a toca destruída por uma enxurrada, distante, encoberta.<br /><br />quando observava uma presa em potencial, pensava nos atributos, nas características, no sabor. todas as carnes tinham sabores diferentes, pensava, mas muitas delas não mereciam ser devoradas nem com o melhor dos temperos. sempre gostara das raposas, elas eram vistosas, inteligentes, mereciam ser caçadas, mereciam ser lentamente devoradas. elas sabiam deste gosto, e talvez por gostarem de perigo, simplesmente desafiarem as vontades e a esperteza daquele lobo, andavam muito próximos de sua toca, como se pedissem para que um jogo fosse iniciado. o jogo era feito, normalmente vencido e a carne salgada brilhava naquela bela mesa.<br /><br />ao longe, deitado na relva, via as montanhas crescerem no horizonte. quando uma raposa passava por perto, ele tentava se levantar, mas não valia a pena. nada, nada valia a pena. não havia mais toca, não havia mais carne, não havia mais lobos, não havia mais mundo.<br /><br />naquele sofá, a imaginação tinha picos de alguns centímetros. fosse um lobo, uma águia ou um tigre, o chão era o mesmo, tinha as mesmas marcas e as mesmas coisas caídas, coisas que demarcavam um passado distante, onde havia uma toca, havia carnes e havia raposas. seu nome escrito em um documento surrado, há alguns centímetros do tapete, não significava mais nada. acordar daquele pesadelo era uma questão de sobrevivência.<br /><br />quando o homem se levanta do sofá, caminha até a porta e a abre, revê o sol no horizonte e decide correr atrás dele, as coisas já estão por demais modificada. a carne, sobretudo, está cheia de vermes representados em anéis de noivado, revistas burguesas e noções desvirtuadas. onde se pode chegar de volta é uma pergunta sincera. talvez na toca. talvez no rio. talvez simplesmente caia definitivamente pelo meio do caminho e lá fique.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-3865904966510248585?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-81037143058939741732008-11-15T01:11:00.005-02:002008-11-15T01:28:11.732-02:00portaltodas as madrugadas eram dolorosamente iguais. sentado na cadeira de couro rasgado dentro de sua sala, trajando camisa aberta, calça surrada e com um cigarro a queimar pelos dedos, assistia futilidades na televisão, bebia vodka de quinta categoria e aguardava por algo mais complexo para resolver na administração. às vezes, simplesmente saia e ficava ao ar livre, espairecendo a cabeça e observando alguns belos rebolados. porém, com o tempo as marcas ficavam mais evidentes, e pouco podia fazer além de se contentar com seus dentes fortemente amarelados e sua vida totalmente rabiscada.<br /><br />decidira abrir aquele motel de beira de estrada há alguns anos. sua esposa e filho foram embora para um lugar muito distante, e ele sabia que tinha grande parcela de culpa - não era bom marido, nem sequer pai. as constantes bebedeiras atordoavam a todos à sua volta, o futebol era um escape, mas só se acompanhado por cervejas e amendoins. o corpo já flácido e obeso que via nas raras noites de sexo já não o interessavam, nem os gostos duvidosos para música daquele que carregava seu muito comum sobrenome.<br /><br />porém, quando tudo se esvaira como uma lança na escuridão, as coisas ficaram complexamente irremediáveis. não tinha mais café quente de manhã, era raro chegar em casa e ver as roupas passadas, a comida pronta e o banheiro limpo. nada mais existia. só uma conta no banco. só a possibildade de um negócio limitado, longe de tudo, no qual se pudesse ser absorvido e absolvido.<br /><br /><br />este era o motel. casais, trios, grupos, solitários, todos por ali passavam, com as mais diversas buscas, dos mais diversos tipos - de profissionais a virgens, de idosos a jovens que nem ali poderiam estar, todos entravam e se trancavam naquele limitado espaço por um limitado tempo, como se estivessem passando para um novo planeta, de sonhos e de mágoas, de fantasias e de ilusões. ali, em frente à sua televisão exibindo as mesmas futilidades de todas as madrugadas, gostava de se colocar neste mundo e criar novas faces para cada ser que passava pelo portal pintado com camelos e norte-africanas nuas à entrada. quem era cada um? por que ali estavam?<br /><br />era tudo que lhe restava. não tinha mais mulher, filho, amor, cervejas ou amendoins. só podia observar o rebolado daquelas que ali entravam para ser de outros, criar seu próprio mundo e, quando alguém de fora dele lhe dirigia a palavra, fazer piadas ruins com seu amargo bafo de vodka com cigarro.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-8103714305893974173?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com6tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-5670553175384012692008-11-08T19:40:00.002-02:002008-11-08T19:50:24.976-02:00sobre fazer cinema IIalguns posts abaixo há um textinho chamado "cinzas - argumento". não sei quanto tempo faz que aquilo foi feito, talvez um mês ou dois, talvez menos. o fato é que tudo passa muito rápido, e um argumento se transforma, se recria, vira um texto monstruoso e então, se desgarra da simples imaginação de seu criador e se torna mais real. cada vez mais real.<br /><br />fato é que hoje faltam cerca de cinco meses para as filmagens de <em>cinzas, </em>e ele começa a crescer. não sei bem até onde isso tudo vai chegar, mas nesta semana foram oito horas de reuniões, com equipes de áreas diversas - e já há mais duas marcadas, uma para segunda e uma para terça. o filme é cada vez menos meu e cada vez mais da equipe toda. e a equipe toda está o adotando com extremo carinho, com cada vez mais alegria nos olhos e dedicação.<br /><br />eu não sei bem no que isso tudo vai dar. cinco meses é muito tempo, mas temos locações e patrocínios para procurar, atores para escalar, muitos, mas muitos problemas para passar por cima. a cada etapa destas que se vai, maior o projeto fica. quando, na última sexta-feira, conseguimos o nosso primeiro patrocínio, pela primeira vez na minha vida me senti preocupado quanto a um projeto - será que eu posso mesmo comandar algo deste tamanho?<br /><br />e é desta dúvida que nascerá <em>cinzas. </em>hoje, não parece tão complicado. é passar idéias, fazer reuniões, auxiliar a produção, coordenar todo o processo criativo. mais pra frente, tudo tomará níveis assustadores. e realmente tomará, pois o tamanho que ele tem hoje, em proporção ao que pode vir a ser no futuro, já é realmente assustador.<br /><br />o engraçado, então, é ler o post feito em maio ou junho que chamava <em>sobre fazer cinema </em>- com um projeto de duas semanas, produzido e gravado em um dia, editado em um final de semana. ler aquilo tudo hoje é muito engraçado. e ler isso tudo sobre <em>cinzas, </em>provavelmente será muito engraçado em algum tempo. mas mais do que isso, será lindo lembrar dos rostos felizes das produtoras no momento do <em>negócio fechado, 2 mil cotas no xerox em troca do logo na divulgação do filme!</em> e, sobretudo, do que esses rostos representam.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-567055317538401269?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-67544075106367947622008-10-17T02:25:00.003-03:002008-10-17T02:42:42.040-03:00máscarafazia dez anos que a tinha visto pela última vez, e não tinha sido um encontro nada saudável. lembrava-se do dia, com o centro paulistano e sua clássica garoa, o chão das ruas levemente molhado, a enxurrada parada que teima em escorregar, os carros que passam e molham apenas quem estiver muito descuidado. era uma quinta-feira, tarde de quinta-feira, e o céu cintilava um escuro quase vulgar. nem sequer valera a pena discutir, foi uma mera troca de formalidades, um mero jogo de olhares e de "até nunca mais". nem telefonemas haviam voltado a trocar, mas ambos permaneceram com aquele céu de quinta-feira em suas memórias.<br /><br />nesse tempo, ele se relacionou com várias outras mulheres, mulheres de diversos tipos, formas físicas, mulheres estonteantes, bonitas, nem tão bonitas, feias. mulheres que queriam carinho, que queriam alguém que cuidasse delas, que queriam comodidade, que queria sexo sem maiores preocupações. mulheres médicas, professoras, engenheiras, donas-de-casa, balconistas de bar, prostitutas. todas as mulheres passaram por sua vida e deixaram marcas. nenhuma, porém, apagou aquela quinta-feira chuvosa e tudo o que a antecedera.<br /><br />havia sido uma história muito intensa, se conheceram em um bar extremamente maltrapilho, ela com uma microssaia muito provocante, cabelos tingidos de loiro e já seriamente alcoolizada, ele simplesmente procurando alguém para impedir mais uma noite solitária. a partir de então, criaram um mundo próprio, particular, que ninguém mais poderia entrar, que a vida era uma constante comunhão de segredos e de mentiras, de vontades e de frustrações, de elos e de quebras. intensidade amorosa, intensidade sexual, intensidade de dependência, intensidade narcótica, tudo marcou aqueles meses que permaneceram juntos. os tapas, porém, substituiram cada vez mais os beijos, culminando na quinta-feira com céu cinzento.<br /><br />ainda frequentava o bar de vez em quando, mas não era dos seus lugares preferidos, além de nunca mais ter-lhe reservado uma mulher daquele nível. o reencontro foi onde menos se poderia esperar: em um shopping-center. ela, outrora tão decididamente hippie, feminista e alheia à toda sociedade de consumo, passeava olhando vitrines com uma criança de cerca de três anos. ele, saindo do cinema, olhou em seus olhos e notou um brutal estremecimento. decidiu, então, tomar-lhe a palavra pela primeira vez em dez anos, desde aquela quinta-feira fria e molhada.<br /><br />pouco se sabe sobre como as coisas ocorreram, o que foi feito com as sacolas e a criança. o fato é que minutos depois ele pôde constatar que ela tinha o mesmo vigor, talvez amplificado pela vida sedentária de mãe de família, gemia e arranhava com a mesma força, sendo capaz de arrancar sangue e até causar uma infecção, era a mesma mulher fatal de sempre. os corpos se colaram como sempre costumavam fazer muitos anos antes, transmitiram seus fluídos, suas sensações, suas belezas, misturaram-se em gestos e ruídos, criaram novamente o mundo particular durante aquele pequeno espaço de tempo.<br /><br />era uma quarta-feira ensolarada. mas isso não impediu que não voltassem a se ver.<br /><br />--------------------------------------------------------------------------------------<br /><br />a partir de amanhã, cobertura completa da 32ª mostra de SP no <a href="http://www.cinefilosonline.zip.net/">www.cinefilosonline.zip.net</a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-6754407510636794762?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com11tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-19020368019225074612008-10-13T01:00:00.003-03:002008-10-13T01:15:34.592-03:00contos sobre noite, música, ônibus e amor IIa rodovia anhanguera liga a cidade de são paulo à divisa de minas gerais, em quase 500 km de extensão. isso, porém, é um dado bastante inútil quando considera-se que a cidade em que eu moro, jundiaí, fica pertíssimo da capital e pertíssimo de campinas, sendo estes os três municípios que formam, provavelmente, a tríade de locais onde minha vida se dá, em todos os seus sentidos, o que gera incontáveis viagens quase diárias entre eles.<br /><br />esta rodovia sempre me pareceu estranha, diferenciada, completamente diferente em relação às demais. minha imaginação sempre começa a pensar em como transformá-la em cinema, e um dos meus principais projetos é um filme para a anhanguera. fato é que ela possui uma tremenda aura de filme de terror americano, daqueles em que um grupo de jovens burros viajam para um lugar inóspito e são esfaqueados até a morte. o tom da noite nela é de um cinza mais pesado, as árvores balançam com o vento e tornam tudo mais escuro e ao mesmo tempo mais bonito.<br /><br />divido-me então entre o terror adolescente, obviamente não sendo um terror adolescente, se é que vocês me entendem, ou algum road-movie romanticamente trágico como a maioria dos meus textos. ambos explorariam fantasticamente a noite da anhanguera. não só a noite, como o amanhecer. como todos os tempos e atmosferas que circulam nestas retas e curvas.<br /><br />algumas vezes já viajei pela anhanguera em horários deveras estranhos, como à meia noite ou às quatro e meia da manhã, valendo aqui apenas a opção "ônibus". minhas observações sempre variaram, mas é uma estrada difícil de dormir e difícil de pensar. as luzes sempre refletem no painel frontal do ônibus, formam caminhos interessantes nos postes e tornam as imagens das árvores ainda mais vivas, sempre há o poder daquelas cores, daqueles movimentos, daquele clima de filme de terror. sempre há o poder de que algo criará vida ali, se é que ela não tem vida por ela própria. do crepúsculo à alvorada, tudo se intensifica e se modifica.<br /><br />a anhanguera hoje é um poço de lembranças para mim, mais que a maioria das outras coisas. suas luzes, sua noite, suas árvores e seu asfalto ganharam ainda mais poder. a música e o amor, citadas no título deste texto, já me acompanharam nela por incontáveis vezes, mas com certeza por menos vezes que o ato de lembrar e de se imergir em viagens tão comuns e banais.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-1902036801922507461?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com6tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-17166455296253861872008-10-04T23:16:00.002-03:002008-10-04T23:36:08.233-03:00um experimento mais palpávela branca estrutura entrava em contato com várias coisas, mas normalmente vivia cheia apenas de ar. porém, algumas vezes por dia, via aproximar-se dela e enchê-la um límpido líquido, inicialmente transparente, depois, de outras cores, gostos, cheiros e formas, formando um complexo composto branco espumante, que rodava e se balançava naquele local com seu formato obscuro, até normalmente outra coisa ocupar o mesmo espaço.<br /><br />a outra coisa era de um branco diferente nesse caso, mas poderia ser negra, amarela, misturada ou de cores mais exóticas, dependendo da imaginação. possuía formas definidas, concretas, com quatro extremidades e muitos pêlos na parte superior. também haviam duas montanhas bastante realçadas que poderiam não existir, como também uma outra extremidade, que no caso descrito, mais uma vez, não faz parte do pacote. este material todo misturava-se com a espuma aquosa e fazia-a esparramar boa parte para fora da estrutura, deixando o que estivesse ao alcance irreconhecível.<br /><br />não há como dizer o que se passava pela parte deste último elemento que continha os cabelos, mas algo nela estava diferente naquele dia específico. vertia um líquido diferente, mais salgado, de dois dos buracos que ela possuia pelo corpo. na extremidade localizada mais ao alto e à direita, um corpo estranho, pequeno e brilhante, muito brilhante, estava estrategicamente posicionado, e era estranha aquela presença até então nunca notada.<br /><br />provavelmente as outras formas iguais àquela achariam um desperdício o que estariam acontecendo, aquelas montanhas estavam entre as preferidas da estrutura e a própria junção superior de pêlos era sobremaneira atraente. a forma toda se movimentava mais devagar que normalmente, parecia amedrontada, assustada com algum fantasma mundano, o líquido salgado não parava de verter e logo ganharia companhia de outro líquido estranho.<br /><br />esse, porém, era vermelho bem acentuado, e começou a surgir após o objeto estranho pequeno e brilhante, muito brilhante, que estava estrategicamente posicionado na extremidade mais ao alto à direita ser levado à extremidade mais ao alto e à esquerda, formando um novo orifício. dele, vertia esta nova coisa, que era bonita, fugia da forma maior como se estivesse ali aprisionada sem querer e juntava-se com o líquido branco espumante. era uma quantidade assustadora desta coisa vívida e sedutora.<br /><br />quanto mais o vermelho vazava, mais a forma superior se afundava, parecia disforme, fadada a nunca mais adentrar aquele espaço. então, simplesmente atingiu o fundo, e, ao contrário que normalmente acontecia, ficou ali por horas, até ser retirada por outras formas iguais àquela. não se sabe para onde foi levada, provavelmente para o mesmo lugar que a estrutura alguns dias depois ao ser atingida por um material de madeira com pontas de ferro.<br /><br />------------------------------------------------------------------------------<br /><br /><a href="http://www.cinefilosonline.zip.net/">www.cinefilosonline.zip.net</a> atualizado. visitem, pf!<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-1716645529625386187?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com12tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-44734429779699979072008-09-28T01:24:00.002-03:002008-09-28T01:31:52.331-03:00cinzas - argumentoa vida se queima e, lentamente, se transforma em cinzas. todos os passos de um homem levam, inevitavelmente, ao mesmo lugar: a metamorfose final. enquanto houver sentido, porém, sempre haverá lembranças, e elas conseguem manter sua constância enquanto não se juntam ao destino do corpo. sendo assim, as relações humanas tendem ao fracasso, ao mais fundo poço, bem como todas as ideologias e vontades que um dia podem ser desenvolvidas.<br /><br />ele tem vinte e poucos anos e sempre sonhou em ser escritor. admirava a beat generation, o existencialismo, todos aqueles que eram inquietos e rebeldes. tinha namorada, amigos, dinheiro para suas doses diárias de álcool e uma fábrica de sonhos e utopias em sua mente. só não tinha um lugar no mundo. só não tinha como evitar que tudo se transformasse em cinzas. que tudo queimasse impiedosamente, sonhos, utopias, namorada, amigos, como o cigarro que fumava durante o crepúsculo de mais um dia que terminava.<br /><br />não tem nome – afinal, na hora da sua redução, nenhum verme o distinguirá por este batismo. nenhum verme saberá distingui-lo de um mero pedaço de madeira. nenhum verme saberá o que é carne suculenta ou pedaços de barba. se conseguiu ou não ser um bom escritor. se conseguiu ou não manter seus sonhos e suas aspirações enquanto mantinha a humanidade.<br /><br />este é um filme sobre o que o passado já transformou em cinzas. é um filme sobre a destruição de tudo o que move um ser humano e a transformação em mais um escravo da vida. e é um filme sobre a vã busca por impedir a ação do tempo, a ação da psicologia humana, a ação das vontades e movimentos que acabam deixando tudo para trás, seja o mais belo dos sonhos ou o mais feliz dos amores, seja o mais bem cuidado estilo ou o mais bem fabricado cigarro.<br /><br /><em>este argumento será encaminhado ao departamento de multimeios da Unicamp nesta semana. se aprovado, e todas as outras etapas correrem conforme o esperado, as filmagens ocorrerão entre fevereiro e março de 2009.</em><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-4473442977969997907?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com6tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-28654928617227539092008-09-23T22:06:00.002-03:002008-09-25T01:14:31.782-03:00contos sobre noite, música, ônibus e amor Ipegava todos os dias o mesmo ônibus, no mesmo ponto, sentava-se no mesmo lugar - canto esquerdo traseiro, junto à janela, e ligava o mp3 com mark farner cantando sempre <em>Heartbreaker </em>e<em> </em>seu primeiro verso<em>, Once I Had a Little Girl... </em>ora, fechava o olho e esquecia do mundo que o cercava, ora, observava tudo o que o cercava, ora, simplesmente queria chegar logo em casa para encontrar com sua mulher, dar-lhe beijos apaixonados e um abraço apertado.<br /><br />para ele, não havia nada mais bonito que a noite. o vento que soprava e balançava o topo de cada casa, as cores, as nuances, as pessoas. todas as prostitutas pareciam muito interessantes com seus decotes e saias que tanto e ao mesmo tempo tão pouco revelavam, os botecos cheios de bêbados fazendo suas lamentações mundanas enquanto enxugavam o álcool de cada dia, as calçadas sujas com detritos de todos os tipos e deixados lá por todo o dia eram carregadas de poesia, as árvores tinham suas formas tão belas e pareciam crescer, dar um ar próprio àquelas horas nas quais a luz parecia tão distante, mas a vida simplesmente encontrava meios de proliferar ainda mais.<br /><br />a vida, porém, é uma constante mudança. a linha do ônibus mudou e não fazia mais o mesmo trajeto, algumas prostitutas pararam, outras mudaram os decotes e as saias, o boteco da principal esquina do trajeto fechou e, sobretudo, sua mulher fora embora. a vontade de dar um beijo apaixonado e um abraço apertado nela consistia vivendo em algum canto obscuro de seus pensamentos, mas o fato é que, aos poucos, tudo foi se desvencilhando daquelas memórias - até mesmo uma mudança de endereço ocorreu. agora, tudo estava vazio.<br /><br />ao entregar as chaves, olhou para aquele monumento de um amor encerrado e notou como aquele vazio fazia tanto sentido. era o mesmo vazio que ele sentia, repleto de segredos e auto-traições por todos os lados. as paredes ainda pareciam ter gravados todos os gemidos apertados e mordidos que haviam escutado, a torneira do box parecia manter a visão de todas as calcinhas que ali estiveram penduradas, o chão mantinha, certamente, registros leves de todos os passos dados por ali - passos marcados, passos apressados, passos leves, passos simplesmente sem rumo. era como uma casa mal-assombrada de lembranças.<br /><br />quando pegou o ônibus para sua nova casa, nada era como antes. os galhos das árvores agora eram retorcidos, tortos, retirados de um filme de terror B, o vento soprava dolorosamente, quase como um assassino frio disposto a cortar a pele da forma mais impiedosa possível, os bêbados pareciam apenas figuras sem rumo, cambaleando para o nada, as prostitutas não tinham mais interesse, os peitos simplesmente afundaram no meio da barriga e das marcas de suas vidas. mas a voz de mark farner entoando <em>Heartbreaker</em> e seu primeiro verso, <em>Once I Had a Little Girl..., </em>combinada com aquela guitarra que parece chorar lágrimas de sangue, havia ficado mais maravilhosa que nunca.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-2865492861722753909?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com9tag:blogger.com,1999:blog-5514425953035742322.post-30465187339594569722008-09-21T01:09:00.004-03:002008-09-21T14:29:42.341-03:00guerra (um experimento)sob fogo cerrado e em um claustrofóbico cárcere voraz, desfere-se uma luz cruzada, acachapante, direto contra os olhos do visionário. na retina, esta tão brilhante e construtiva poluição se transforma em uma clássica, quase aristocrática forma de puridez. na contramão ostensiva dos hábitos modernos, perambulando na surdina das esquinas escuras, repletas de sombras, de garrafas quebradas, de líquidos inflamáveis e corrosivos descendo pelo já gélido asfalto.<br /><br />o poema cresce e ataca frontalmente o carrasco. as luzes que pulavam e se multiplicavam agora são apenas pontos esquecidos na vastidão do vazio. de um lado, o martelo, a arma que se bate contra os nervos e as articulações da placidez, do outro, o canivete, que se rompe em linhas retas, abrindo trilhas, formando caminhos borbulhantes de plenos pigmentos avermelhados nesta crescente execução do luar.<br /><br />fluidos descem pela trilha. formam uma gradual, quase visceral contravenção de suas fórmulas, de compostos tão adversos, que juntos vão causando mudanças nos passos, nos gestos, nas mais simples atribulações urbanas, nos complexos medos que refletem nos advérbios abstraidos pela civilização. o ser, por ele próprio, é apenas um componente visual. lá estão, do outro lado, os restos de cada movimento. os restos que dominam as bocas que se beijam frontalmente, entre mordidas e lambidas, entre dormências e formigamentos.<br /><br />o resto do passo que leva ao passo para o resto. poucas explosões de sentidos podem ser tão traumáticas. o piscar da vingança, o piscar do outono, com folhas misturadas às imagens, com o pensamento diluído nas vitrolas, nos ônibus, nos vorazes e claustrofóbicos cárceres do fogo cerrado diretamente voltados às trilhas de fluídos avermelhados. esperando para escorrer para o fundo. esperando para juntar-se com o mar em uma noite sem restos de cigarros entre os paralelepípedos.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5514425953035742322-3046518733959456972?l=cronicasmassarianas.blogspot.com'/></div>carlos massarihttp://www.blogger.com/profile/17707651745056514815crmassari@gmail.com9