tag:blogger.com,1999:blog-54147312008-02-16T20:21:20.346ZCastor 2 - MetafenixGajoBanalnoreply@blogger.comBlogger346125tag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1122300340521628862005-07-25T15:05:00.000+01:002005-07-25T15:05:40.580+01:00Sexualidade (o renascer)Anos antes do mítico incidente do pancreas de Dusseldorf ela era dada à inovação. O seu sentido de negócio para nichos era bastante inspirado. Mas, tal como nas emoções, quando as coisas são pessoais há um <i>"mix fodido"</i> (como ela diz) que nos cega a objectividade. A ideia era estranha: uma casa de sandes de fruta, sendo o best-seller a sandes de pêssego panado. Usando pêssegos em calda misturado com pão ralado acido-picante, conseguia uma iguaria digna de qualquer monarca vegetariano. O negócio cedo empalideceu, obscurecido pela mesma razão que o fez florescer: a busca da novidade, doença social crónica dos vira casacas metropolitanos da actualidade. <br /><br />Afogada em dívidas, lá ia alimentando a depressão no seu T0 no 14º andar, observando as felizes formiguinhas que se passeavam em rebanhos de êxtase. Um dia teve um pico de líbido ao colocar um frango no forno e a sua energia sexual atingiu picos inéditos até então. A imagem do frango de rabo para o ar, roliças pernas abertas e todo untado nunca mais de dissociou do conceito de sexo e, com o tempo, aprendeu a perdoar-se da sua insanidade.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1122083695126537472005-07-23T02:54:00.000+01:002005-07-23T02:54:55.133+01:00(outr)A história de ChibitaChibita era arruaceiro. Era o seu super-poder. Chibita integrava-se num grupo depois de espancar um inimigo de um membro influente. Quando fazia jeito o músculo, Chibita era tratado como rei, a quem eram ofertadas abundantes dádivas de uma resina de planta. Chibita era moldado à força de murro. Duro nas ruas, mas quando convidado a lanchar em casa de um amigo de tendências familiares de suburbia, Chibita derretia nas mãos das mães dos amigos. <i>"Diz ao teu amigo que leve uns bolos para a vaigem!"</i> O cheiro a fertilidade e trigo cosido numa cozinha de um núcleo familiar estável era a sua posição fetal.<br /><br />De volta a casa, cinzentos blocos maximizadores de espaço, Chibita olhava o espelho e fazia a sua cara de pena. Pena dele próprio. Depois de ver um episódio de "Norte e Sul" com a mãe divorciada e desempregada, Chibita ia para o quarto. Já em pijama, desprovido de qualquer insígnia Death Metal, colocava em volume empalidecido o vinil do Vanila Ice que a irmã tinha comprado pela Páscoa, com o dinheiro do folar.<br /><br />Detestava fins de semana, quando tinha que palmilhar quilómetros à procura dos amigos em todos os bares e casas de "flippers". <i>"Ah, é o Chibita. Pois. Olha, o meu filho não está, pois... Não sei onde terá ido!"Pois é...</i>. Chibita sabia que estavam em casa, mas nunca arriscaria ficar sem amigos. Uma vez estava à porta da sala de máquinas, fumando clandestinamente um cigarro, e uma carrinha carregada de gado passa pelo meio daquela rua apertada. Um seu amigo que se encontrava demasiado perto da estrada apanhou com um espelho de camião nas costas. Eram aqueles camiões de caixa larga, com espelhos muito saídos para compensar o enorme volume. O amigo de Chibita caíu ao chão. Apressou-se a largar o seu cigarro, com medo de atrair conhecidos para a cenas do acidente. Chibita correu atrás do camião. O camião virou para uma outra rua. Chibita mudou também, e assim que se viu fora do alcance visual dos amigos, Chibita sentou-se ali ficou agachado. Passado um bocado, voltou a correr a fingir-se cansado. Disse ao seu amigo que danificou a parte lateral da cabine do camião com uma pedra. Riram para disfarçar a criancisse. Por dentro todos gritavam pela mãe. Por fora mandavam as caveiras do Death Metal e a imitação dos gritos guturrais dos seus ídolos. Riam nervosos...<br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1122082435095461602005-07-23T02:33:00.000+01:002005-07-23T02:33:55.186+01:00(um)A história de ChibitaChibita era o típico puto arruaceiro que todos tiveram como amigo ou como conhecido. Uma vez tentou assaltar um velhote apenas porque lhe disseram que levava com ele 100 contos. Por 100 contos, Shibita era capaz de sujar as mãos em anonimato. Na sua fase Death Metal chegou a entrar numa igreja gritando "Satanás!" com todo o potencial que os seus pulmões permitiam. Para seu azar, as vizinhas contaram à sua mãe o que lhe valeu um valente ensaio de cinto. Mais velho começou a "engatar". Com um estilo datado e pré-fabricado, ora era Tom Cruise em Cocktail como passava rapidamente a Conan o Bárbaro. Engatou pouco, pobre rapaz, mas uma briga por semana (pelo menos) tinha orgulho em manter.<br /><br />Um dia estava à boleia para a praia. Sozinho, como sempre. O Chibita é daqueles miúdos que nunca anda acompanhado. Vai sempre "lá ter". Voltava sempre sozinho também... Como dizia, estava à boleia e encostou um tipo num Opel Mantra. Azul desbotado. Parecia o Wolverine que o conduzia. Chibita entrou, sentou-se e agradeceu. O Wolverine português olhou para ele perplexo. Nem havia dado conta da sua entrada. Gaguejou algo e depois articulou qualquer coisa parecida com "Rapaz, eu estou estacionar!".GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1121385767079439972005-07-15T01:02:00.000+01:002005-07-15T01:05:44.050+01:00Mensagens do futuroEle recebera mensagens do futuro. Pelo que me disse era algo que vinha a acontecer há algum tempo. Não teria havido trauma ou acontecimento potencialmente endutor de tal anomalia. Ele recebia as mensagens e lá ia ignorando ou aceitando o seu conteúdo consoante o que a sua atormentada personalidade escolhesse. Por vezes negava completamente algo ou simplesmente dizia que era um simples sonho. Às vezes o futuro era um mundo definhante, sem astronautas, sem roupas de alumínio ou migrações massivas interplanetárias. Era sujo e seco... Como aqueles lagos cinzentos de lama seca que forma puzzels bizarros. Ele não era dado a sentimentalismos, mas isto de saber que andamos aqui só para aquecer, mesmo que um milhão de anos no futuro, não agrada a ninguém.<br /><br />Algumas revelações que ele me contava eram perdidas por mim num onda de quase total alheamento. Desde o cliché da mancha da parede àquelas situações em que pensava <i>"Merda, o imposto era para pagar até hoje"</i>, passando pela azia que me provocara a lasanha do almoço. Ficou-me, no entanto, cravada no cérebro a ideia de que a preservação do panda iria criar um espécie geneticamente modificada altamente procriadora e imune a todas as maleitas que os apoquentam actualmente. Essa espécie iria criar um praga global que iria, em primeira instância, colocar o bambu à beira da extinção.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1120669908958085312005-07-06T18:11:00.000+01:002005-07-06T18:11:49.020+01:00Um pâncreas em DusseldorfEra tarde quando o telefone tocou. O cheiro a terra molhada da miúda chuva de Verão entrava pela velha janela. As paredes descascadas assombravam a casa vazia. O telefone jazia ali no meio da sala, reanimado abruptamente pelo energética vontade de distribuir notícias frescas. Do outro lado um voz ofegante tentava recuperar o fôlego. Ela havia sido atingida por um pâncreas no centro de Dusseldorf. Ainda pingava sangue. Uma equipa de psicólogos tentava ajudar. Em pânico tentou explicar-me que não sabia o que tinha acontecido, ou como tudo estava a ser demasiado surreal. <br /><br />Disse-me que teve uma crise de pânica e gritou "<i>Pâncreas</i>" em plenos pulmões. Apareceu um polícia e só conseguia dizer "<i>Pâncreas</i>". Essa foi a única palavra que disse até à esquadra.<br /><br />Meio adormecido tentei falar em vão. Procurei uma acalmia para meter uma frase que me foi recursivamente negada. Continuou a gritar, enquanto atrás e ouviam vozes semelhantes àqueles filmes da 2ª guerra mundial onde os generais nazis falam todos inglês. Esperei pelo final da cacofonia. Não precisava de me ouvir. Precisava de falar. Desligou.<br /><br />Peguei no telemovel e mandei-lhe um SMS. <i>"Como raio soubeste tu identificar um pâncreas?"</i>GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1120581194876038032005-07-05T17:33:00.000+01:002005-07-06T17:04:06.333+01:00Castor Reborn<i><b>Flui o nada no vazio</b></i><br /><br />Assustado fixou o olhar na luz alaranjada que respingava preguiçosa por entre as cortinas. <i>Foda-se!</i>, pensou. Tanto tempo passara e ainda assim não tinham brotado cinzas de si. Mesmo no esquecimento e na pacatez do universo interno... Mesmo aí, onde nem ele próprio caminha em segurança. Mesmo nos locais que só ele conhece, mesmo no pós-útero, mesmo de mão dada com a alma. Mesmo fugindo e desaparecendo, mesmo criando um labirinto de dor e opressão, mesmo fazendo churrascos ao sábado, mesmo ouvindo pop, mesmo passando fins de semana com os sogros e sorrindo aos primos longínquos. <br /><br />Mesmo depois de tudo o turbilhão voltou. Efervescente, mas não agressivo. Teimoso, quase violador. <i>Pega nessa merda!</i>, ouviu no escuro... Acordou banhado em suor, em plena orgia barroquina, com uma maçã na boca e um exemplar original de Sade na mão esquerda. O vazio voltou, havia que o documentar!<br /><br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1096903885915250112004-10-04T16:31:00.000+01:002005-07-01T22:50:07.530+01:00<b>A alma do mundo</b><br /><i><i>Carcere espelhada forrada a finas sedas</i></i><br /><br />Numa sociedade próspera, algures num futuro victoriano, presente para alguns, existe um povo invisível. Abaixo do nível dos olhos, oculto, onde ninguém nunca procura. Deitados, esfarrapados, sujos, feios, desdentados, de mão esticada e unhas encardidas. Estátuas de pano velho, prostadas em poses de escultura romana, sobre estruturas de carne deformada. A azáfama das infantarias orientais abafa os gritos, duas oitavas abaixo, imperceptível ao novo humano, ao info-humano. Dois plebeus discutem assuntos mundanos, cheirando o vento. O povo invisível estica os braços, atravessando um imensidão de réstias humanas, não bio-degradáveis:<br />Uma vitória da estatística, a nova raínha da corte. O conceito do tempo real assíncrono. <br /><br />- Viste aquilo?<br />- Não.<br /><br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1095990160985423452004-09-24T02:42:00.000+01:002004-09-24T02:42:40.986+01:00<b>Mix 23<br /><i>Molotov com framboesa<br /></i></b><br />Era gago, quase surdo e tinha saudades da avó. Desde o dia em que se viu numa casa de banho de um colega, sem papel higiénico e sem coragem para pedir, que evitou convivio social.<br /><br />Viajou um dia pelas margem de um vasto rio da América do Sul, acompanhado por um crocodilo que adoptou como animal de estimação. Mascou as folhas de <i>Yemet-kuy</i> e jurou que os deuses o puxavam para o seu seio. Reparou depois que o seu animal de estimação, Toby, se tinha servido da sua perna para jantar. Assim sem pedir. No fim procurou o seu calor para uma sesta digestiva. Ele acabou por morrer por perda de sangue, mas o crocodilo ainda se aguentou umas semanas. Era uma zona livre de abutres. <i>Os gases da nova usina</i>, diziam. <br /><br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093745180313307542004-08-29T03:06:00.000+01:002004-08-29T03:07:12.300+01:00<b>Avô sentado no sofá, em chamas</b><br /><br />(...) <i>Serás sempre gente, meu filho. Até ao dia que to neguem por decreto de lei.</i> (...)GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093745089473112442004-08-29T03:04:00.000+01:002004-08-29T03:04:49.473+01:00<b><b>Epílogo</b><br /><i>O ante-projecto de fim</i></b><br /><br />Nas condições físicas ideais, se olhares em frente vais ver-te por trás... em todas as épocas do tempo. E não é um por ano ou por segundo. Isto é analógico rapaz, não divides o segundo por 25. É mais contínuo e fásico...GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093744954113679852004-08-29T03:02:00.000+01:002004-08-29T03:02:34.113+01:00<b>Planeta Dolmén</b><br /><b><i>O povo-só</i></b><br /><br />Julgava ver morcegos nas câmaras de vigilância da auto estrada. Achava-se ainda mais ridícula por não ter uma obcessão paranóica exclusiva. Fazia parte de um grupo de ajuda para a recuperação de pessoas que vêem morcegos nas câmaras de vigilância da auto estrada.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093744506744725722004-08-29T02:55:00.000+01:002004-08-29T02:55:06.743+01:00<b>Go get your knife!<br /></b><br />Pediu que a levassem ao médico no dia em que julgou ter descoberto o padrão da sua vida numa sequência de gritos em clímax de uma música dos Deftones. O gráfico de frequências, impressas numa jacto de tinta parecia comprovar o facto.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093531092546357042004-08-26T15:38:00.000+01:002004-08-26T15:38:12.546+01:00<b>Expresso Trans-Goya</b><br /><font size="1"><i>|[|\||\[|||\|\[|||//|\\|/|\/\||<</i></font><br /><br />Era aquele homem que afirmara ter visto uma criança a chorar, sentada nos anéis de Saturno. Tinha uma perna desfeita, devorada por algo. Gotículas de sangue perfeitas flutuavam em gravidade zero em volta do seu corpo, atraídas pela sua minúscula massa. Aquele homem barbudo tinha uma mancha em redor da boca. Diz-se que assim ficou pela imagem de horror da criança perdida no espaço. <br /><br />"<i>Era uma criança normal. Empunhava um controlo remoto e apontava o planeta. Disse-me que poderia acabar com a nossa verdade, com o nosso infinito. Podia destruir as nossas certezas carregando num botão.</i>"GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093128764595805292004-08-21T23:52:00.000+01:002004-08-21T23:52:44.596+01:00<b>Ensaios 98nn.23b: Andrómeda aqui tão perto</b><br /><i>Uma lição de paciência<br /></i><br /><br /><img src="http://castordemarmore.no.sapo.pt/discurso_.jpg" alt="Discurso " border="3">GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093020634249355602004-08-20T17:50:00.000+01:002004-08-20T17:50:34.250+01:00<b>O punho de Deus</b><br /><i>A sombra de uma dor latente</i><br /><br />O comboio passava por um bairro degradado de crianças encardidas sentadas em sofás a apodrecer, virados para a linha-férrea. O chão estava pejado de lixo, reciclagens de reciclagens de reciclagens, usados até à quase desintegração natural. Eram crianças de olhar vivo, brilhante, desiludidas com a vida. Ocasionalmente, por entre o sujo da cara surgiam pequenos regatos de límpida pele, sulcados à força de lágrimas recentes.<br /><br />Ao meu lado o velho cigano continuava a sua odisseia de feitos hercúleos, palrando incessantemente como se não houvesse amanhã. Falava-me de uma ilha grega, onde morara nos anos 60. Um verão em que a natureza castigou o povo, um verão de vingança atroz. As tréguas homem/mar haviam sido corrompidas, quando um grupo de embriagados e jovens pescadores voltou a casa com peixe sagrado. Na ira do verão o céu escureceu e uma densidade dramática foi transferida por telepatia para o consciente colectivo daquela velha comunidade assustada. Alguns falavam de profecias, interrompidos abruptamente por uma ocasional chapada na cara. Sim, porque era povo temente, mas não eram estúpidos.... As mulheres rezavam, as crianças choravam e os homens, do promontório, olhavam o mar, pediam perdão ao seu estilo macho de peito ao léu. De repente, do nada, o mar revolta-se. Uma imensa onda forma-se no horizonte, o punho do Deus irado. Impotentes, quedaram-se a olhar, enquanto galopava na sua direcção a velocidades vertiginosas. Alguns repararam que vinha polvilhada de pontos escuros, semi lúcidos, impossíveis de distinguir, mesmo por debaixo do azul transparente daquela tépida água mediterrânica. Mas, para alívio da população, a onda pára de repente, em plena formação de 15 metros de altura. As respirações de alegria são curtas, porque de repente os pontos escuros começam a tomar forma e a emergir de dentro das águas, propulsionadas pela inércia do movimento das águas. Milhares de peixes espada são disparados, como que por canhões, em direcção à costa. O povo grita, foge, procura abrigo. Espadartes imensos voam como uma nuvem de flechas de um exército chinês de esplendor Ming.<br /><br />Dezenas de casas destruídas. Dezenas de pescadores empalados por espadartes. Foi um dos muitos fenómenos não documentados daquela cheia vida do velho cigano.<br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1092184286960023762004-08-11T01:31:00.000+01:002004-08-11T01:31:26.960+01:00<b>O meu tio Gaspar procura a prova científica acerca do infinito<br /><i>[crónicas do tio Gaspar - dia 1]</b></i><br /><br />Larga avenida esta que subi. Realmente os tons amarelados tendem a suavizar a violenta paisagem urbana, dita histórica. Duvido que este amarelo aguente, mas também vos digo sinceramente que provavelmente nunca mais cá voltarei. Podem crer que não... Que gente reles, que estranhos costumes. À mesa parecem selvagens, a conduzir parecem alucinados tresloucados, só acidentes já vi seis. E um era bem feio. Isto não é para estar a armar-me em fino, mas ainda não vi ninguém a usar peles. Nesta altura de frio e com o mercado em alta, como podem abdicar. Quer dizer, já vi milhões destes selvagens e ainda nem uma vestida de pele. E as marcas são todas a imitar ou falsificações. Que horror. <br /><br />Cheira mal. E é tudo guardanapos de papel.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1092014248541409002004-08-09T02:17:00.000+01:002004-08-09T02:17:28.540+01:00<b>Um guião Barrosino, o Danúbia de las Ventas</b><br /><i>17/8 de trás para a frente</i><br /><br />[Silêncio, estamos a gravar...]<br />Um grito que dura décadas. Modulado ao longo de um túnel metálico, criando harmónicos míticos, sons que se enfiam na pele. Dentro da carne. Escondidos num baú de arquivo morto. A imagem de fora é irreal, trombónica, mono-tom. Azul codreado. É lento como o tempo, como a sua escala de areia pura. Um virtuosismo de sumptuosidade e magnificiencia. Irreal, como os tonificadores musculares da Gigashop.TV....<br />[Corta]<br />[Segunda aproximação à mesma cena, versão medieval instruído]<br />[Silêncio, estamos a gravar...]<br />Dizia-me hoje uma entidade oculta que prezo pela discrição, que os maestros que fazem bandas sonoras para os filmes de terror desistem do conservatório antes de chegarem às teclas pretas. Retorqui que também o Michael Nyman o faz, disse, mas toda a gente interpreta como opção artística. "segredos, meu caro" e esfumou-se numa fina camada de pó azul, levitando em espiral inversa. <br />[Corta]<br />Bebi martinis o resto da noite e preocupáva-me com uma falta de memória que tive o mês passado. Era pôr-do-sol, como no cinema, mas aqui parecia mais real... Matutava num erro de acentuação que lera hoje, algures num guião.<br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1091754944978509842004-08-06T02:15:00.000+01:002004-08-06T02:15:44.976+01:00<b>Semi-lividez. Holo-Eu, cyber-consumo de bolacha americana<br /><i>Olá, fresquinho!</i></b><br /><br />A correr pela, rua... Amanhecer.<br /><i>- Corre Malva, corre. Ainda perdemos o comboio.<br /></i>A correr, rua abaixo. Acelerar.<br /><i>- O que achas que estou a fazer, Sílvio?<br /></i>A ver ao longe o comboio partir. Meio sul, meio ferrugem.<br /><i>- Merda, zarpou!</i><br />Ofegante, mãos nos joelhos e convulsões com sabor a chicote. Antiquado.<br />Um relógio gigantesco, ofuscado pela sujidade de décadas.<br />Tlooomm. Tlooomm...<br /><i>- Sabes Sílvio, em relação àquela conversa...<br />- Sim, sei. Percebes a lógica?<br />- Sim, percebo. Quer dizer, tirando uma coisa que não pára de me incomodar.<br />- O quê?<br />- Por exemplo, não conheço ninguém que tenha gostado do Titanic nem chorado na Lista de Schindler. E no entanto, lá estão os "Clássicos". Assim como não conheço ninguém que goste do George Bush ou do Paulo Portas. E ninguém parece minimamente aborrecido com isso.<br />- É. Isso é verdade. Mas...<br />- Mas?<br />- Podemos tentar o boato da actriz suicida.<br />- Resulta?<br />- Se for na noite da véspera, sim.<br />- Ok.<br /></i>Não é negrume nem luz. E esfuma-se em fulgor.<br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1091728515945063242004-08-05T18:55:00.000+01:002004-08-05T18:55:15.946+01:00<b>Ensaios 234v.b33 </b><br /><i>Súplicas de carne viva - sangue em freeze-frame</i><br /><br /><img src="http://castordemarmore.no.sapo.pt/flor.jpg" alt="Súplicas de carne viva - sangue em freeze-frame" border="1">GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1090973442083032542004-07-28T01:10:00.000+01:002004-07-28T01:10:42.083+01:00<b>Excertos da biografia alternativa de José<br /></b><i>Hey now, you're an allstar...<br /></i><br /><br />Um sol dourado tinha vindo naquele dia acariciar a neve que coloria de branco aqueles cinzentos armazéns de cereais, do outro lado da rua, frente ao palácio. Lenine, já sem poder falar, gravemente doente, ouve a velha porta ranger. A densa madeira adornada com puxadores de ouro era ainda do tempo dos Czares, do tempo em que o velho Lenine, então jovem, vivia no pânico da clandestinidade. Pela porta entra Estaline com uma bandeja de chá e bolinhos. Tentava disfarçar o ar zangado com um olhar de complacência falso. Sabia que o velho Lenine tinha a carta, aquela que queria publicar para o afastar do cargo de Secretário Geral no próximo congresso. Antes da porta fechar, o velho Lenine ainda conseguiu olhar de soslaio o amigo preocupado Trotsky. <br /><br />Estaline ignorava o velho Lenine enquanto delineava mais umas partes do seu plano de nacionalização agrícola. No entanto não conseguia de pensar naquela miúda de 15 anos que vira uns dias antes na cozinha do seu amigo Dimitri, calceteiro nobre dos palacetes dos suburbios de Sao Petersburgo. Notando que estava a fugir ao plano e que a sua mente começava a divagar, tentou concentrar-se no partido e nos seus planos de modernização acelerada agrícola. Como que inspirado por uma divina mensagem, vira-se de repente para o moribundo Lenine, prestes a monologar aborrecidamente umas palavras:<br /><br />- <i>Sabes velho, aquele Trotsky não nos serve. Nem um nome decente soube escolher. Trotsky? Que merda de nome é esse? Não é nome que sugira respeito, é mais nome de padeiro de segunda categoria ou de saltimbanco domador de ursos. Eu tenho um tio carpinteiro que uma vez cortou um carvalho junto ao chão, e as estrias da velha árvore revelaram-lhe uma profecia que até agora tenho escondido de ti. Via-se claramente uma imagens em tons de castanho de Rasputine a ser sodomizado por um trabalhado pénis de madeira, cuidadosamente incorporado numas cuecas de seda da Czarina Alexandra, enquanto um grupo de membros bolcheviques, sentados, faziam desenhos para imortalizar a cena. <br /></i><br />Lenine bate fortemente, aterrorizado, com o punho na mesa, derrubando uma garrafa que tilinta aos pedaços pelo chão. Trotsky entra quarto adentro assustado. Estaline chama-lhe "filho da puta" entre dentes e sorri sarcasticamente. Ao levantar-se, bate com a cabeça na cómoda e dá um grito de menina. Trotsky solta uma gargalhada sonora e um guarda e alguns membros do soviete tentam esconder uma risada furtiva. Estaline corre para a casa de banho, corando de vergonha. Com a pressa, derrubou um guarda armado que se desmancha rir antes de bater violentamente no chão. <br /><br />Do lado de fora da casa de banho Trotsky perguntava-lhe se era preciso chamar a mamã para ajudar o menino a fazer chichi, enquanto os guardas, agora deitados no chão, se rebolavam a rir, em espasmos incontroláveis de gáudio. O velho Lenine foi aqui visto sorrir, numa das suas raras alegrias de final de vida.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1089725763872938962004-07-13T14:36:00.000+01:002004-07-13T14:44:39.796+01:00<b>À conversa com os senhorios</b><br /><i>Uma história de coragem sem cães nem criancinhas de olhos grandes</i><br /><br />- Sim?<br />- Boa tarde. Daqui fala do Monte Olimpo.<br />- Das máquinas fotográficas? <br />- Não. Do Monte mesmo.<br />- Ah, é que tenho uma a arranjar e...<br />- Ahammm...<br />- (...) Ok, percebo. Aquele do velhote de barbas, não é?<br />- Mais respeitinho...<br />- Então e o que queriam?<br />- Era para dizer que está em número 235 para apanhar com um raio e devido a problemas técnicos e mudança de turno é capaz de ser adiado para amanhã. Era também para dizer que não faça planos...<br />- Era? Já não é?<br />- Update para número 37. <br />- HumpfffGajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1089384284837070992004-07-09T15:44:00.000+01:002004-07-09T15:44:44.836+01:00<b>Ensaios 324j.83b - 1/180s de realidade</b><br /><i>Beleza em suspensão</i><br /><br /><img src="http://castordemarmore.no.sapo.pt/flor2.jpg" alt="Beleza em suspensão" border="3">GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1089336630987362722004-07-09T02:30:00.000+01:002004-07-09T02:30:30.986+01:00<b>A tempestade prodigiosa</b><br /><i> [loop-back] Pureza foto-voltaica e a satisfação num espasmo</i><br /><br />Arrastava-se por entre extensas fileiras de jazigos, procurando não encontrar. Fitava o ponto intermédio, o ponto da ausência absoluta. Até ao infinito se alongavam aqueles carreiros branco-sujo, ensopados parasitas ácidos, corroendo a pedra e a carne. Do céu chovia deus, um deus negro e novo. Uma repulsa, uma malquerença, um dedo esmagou a mesquinha existência humana. Prostou-se de joelhos olhando o sombrio promontório, onde as sepulturas se uniam ao infinito do firmamento. Árvores mortas, funestas testemunhas silenciosas. Nos seus ramos ressequidos e abrasados apenas sobravam os corvos. De olhar ardente e semblantes de raiva, a cara do deus punidor. Não esperavam mais morte, porque mesmo o mal se sacia e a pústula da humanidade haveria de ressurgir para novamente lhe saciar o desejo sófrego de carne morta... <br /><br />...e do negro se fez espírito, e a mágoa vindimou a opulência e do esplendor se fez sobriedade. Afinal era novamente vida primordial. A oferenda dos deuses.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1089110183735319942004-07-06T11:36:00.001+01:002004-07-06T11:36:23.736+01:00<font color="#FF00FF" size="7"><b>CHOQUE...<br /></b></font><br />...SilêncioGajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1088803525490127312004-07-02T22:25:00.000+01:002004-07-09T02:35:57.516+01:00<b>Ditados extintos do Chile</b><br /><i>Interactividades </i><br /><br />Foi nessa <font color="#D6CD4D">luz que se fez </font>negridão. Foram <font color="#D6CD4D">nessas águas ensanguentadas que foram</font> lavadas as lágrimas. Foi nesse <font color="#D6CD4D">vestido branco que caiu o </font>bolor dos tempos. Foi esse <font color="#D6CD4D">olhar que oxidou. Foi esse olhar que congelou num</font> esgar sofrido.<br />GajoBanalnoreply@blogger.com