tag:blogger.com,1999:blog-54147312008-02-16T20:21:20.346ZCastor 2 - MetafenixGajoBanalnoreply@blogger.comBlogger346125tag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1122300340521628862005-07-25T15:05:00.000+01:002005-07-25T15:05:40.580+01:00Sexualidade (o renascer)Anos antes do m&iacute;tico incidente do pancreas de Dusseldorf ela era dada &agrave; inova&ccedil;&atilde;o. O seu sentido de neg&oacute;cio para nichos era bastante inspirado. Mas, tal como nas emo&ccedil;&otilde;es, quando as coisas s&atilde;o pessoais h&aacute; um <i>"mix fodido"</i> (como ela diz) que nos cega a objectividade. A ideia era estranha: uma casa de sandes de fruta, sendo o best-seller a sandes de p&ecirc;ssego panado. Usando p&ecirc;ssegos em calda misturado com p&atilde;o ralado acido-picante, conseguia uma iguaria digna de qualquer monarca vegetariano. O neg&oacute;cio cedo empalideceu, obscurecido pela mesma raz&atilde;o que o fez florescer: a busca da novidade, doen&ccedil;a social cr&oacute;nica dos vira casacas metropolitanos da actualidade. <br /><br />Afogada em d&iacute;vidas, l&aacute; ia alimentando a depress&atilde;o no seu T0 no 14&ordm; andar, observando as felizes formiguinhas que se passeavam em rebanhos de &ecirc;xtase. Um dia teve um pico de l&iacute;bido ao colocar um frango no forno e a sua energia sexual atingiu picos in&eacute;ditos at&eacute; ent&atilde;o. A imagem do frango de rabo para o ar, roli&ccedil;as pernas abertas e todo untado nunca mais de dissociou do conceito de sexo e, com o tempo, aprendeu a perdoar-se da sua insanidade.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1122083695126537472005-07-23T02:54:00.000+01:002005-07-23T02:54:55.133+01:00(outr)A história de ChibitaChibita era arruaceiro. Era o seu super-poder. Chibita integrava-se num grupo depois de espancar um inimigo de um membro influente. Quando fazia jeito o m&uacute;sculo, Chibita era tratado como rei, a quem eram ofertadas abundantes d&aacute;divas de uma resina de planta. Chibita era moldado &agrave; for&ccedil;a de murro. Duro nas ruas, mas quando convidado a lanchar em casa de um amigo de tend&ecirc;ncias familiares de suburbia, Chibita derretia nas m&atilde;os das m&atilde;es dos amigos. <i>"Diz ao teu amigo que leve uns bolos para a vaigem!"</i> O cheiro a fertilidade e trigo cosido numa cozinha de um n&uacute;cleo familiar est&aacute;vel era a sua posi&ccedil;&atilde;o fetal.<br /><br />De volta a casa, cinzentos blocos maximizadores de espa&ccedil;o, Chibita olhava o espelho e fazia a sua cara de pena. Pena dele pr&oacute;prio. Depois de ver um epis&oacute;dio de "Norte e Sul" com a m&atilde;e divorciada e desempregada, Chibita ia para o quarto. J&aacute; em pijama, desprovido de qualquer ins&iacute;gnia Death Metal, colocava em volume empalidecido o vinil do Vanila Ice que a irm&atilde; tinha comprado pela P&aacute;scoa, com o dinheiro do folar.<br /><br />Detestava fins de semana, quando tinha que palmilhar quil&oacute;metros &agrave; procura dos amigos em todos os bares e casas de "flippers". <i>"Ah, &eacute; o Chibita. Pois. Olha, o meu filho n&atilde;o est&aacute;, pois... N&atilde;o sei onde ter&aacute; ido!"Pois &eacute;...</i>. Chibita sabia que estavam em casa, mas nunca arriscaria ficar sem amigos. Uma vez estava &agrave; porta da sala de m&aacute;quinas, fumando clandestinamente um cigarro, e uma carrinha carregada de gado passa pelo meio daquela rua apertada. Um seu amigo que se encontrava demasiado perto da estrada apanhou com um espelho de cami&atilde;o nas costas. Eram aqueles cami&otilde;es de caixa larga, com espelhos muito sa&iacute;dos para compensar o enorme volume. O amigo de Chibita ca&iacute;u ao ch&atilde;o. Apressou-se a largar o seu cigarro, com medo de atrair conhecidos para a cenas do acidente. Chibita correu atr&aacute;s do cami&atilde;o. O cami&atilde;o virou para uma outra rua. Chibita mudou tamb&eacute;m, e assim que se viu fora do alcance visual dos amigos, Chibita sentou-se ali ficou agachado. Passado um bocado, voltou a correr a fingir-se cansado. Disse ao seu amigo que danificou a parte lateral da cabine do cami&atilde;o com uma pedra. Riram para disfar&ccedil;ar a criancisse. Por dentro todos gritavam pela m&atilde;e. Por fora mandavam as caveiras do Death Metal e a imita&ccedil;&atilde;o dos gritos guturrais dos seus &iacute;dolos. Riam nervosos...<br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1122082435095461602005-07-23T02:33:00.000+01:002005-07-23T02:33:55.186+01:00(um)A história de ChibitaChibita era o t&iacute;pico puto arruaceiro que todos tiveram como amigo ou como conhecido. Uma vez tentou assaltar um velhote apenas porque lhe disseram que levava com ele 100 contos. Por 100 contos, Shibita era capaz de sujar as m&atilde;os em anonimato. Na sua fase Death Metal chegou a entrar numa igreja gritando "Satan&aacute;s!" com todo o potencial que os seus pulm&otilde;es permitiam. Para seu azar, as vizinhas contaram &agrave; sua m&atilde;e o que lhe valeu um valente ensaio de cinto. Mais velho come&ccedil;ou a "engatar". Com um estilo datado e pr&eacute;-fabricado, ora era Tom Cruise em Cocktail como passava rapidamente a Conan o B&aacute;rbaro. Engatou pouco, pobre rapaz, mas uma briga por semana (pelo menos) tinha orgulho em manter.<br /><br />Um dia estava &agrave; boleia para a praia. Sozinho, como sempre. O Chibita &eacute; daqueles mi&uacute;dos que nunca anda acompanhado. Vai sempre "l&aacute; ter". Voltava sempre sozinho tamb&eacute;m... Como dizia, estava &agrave; boleia e encostou um tipo num Opel Mantra. Azul desbotado. Parecia o Wolverine que o conduzia. Chibita entrou, sentou-se e agradeceu. O Wolverine portugu&ecirc;s olhou para ele perplexo. Nem havia dado conta da sua entrada. Gaguejou algo e depois articulou qualquer coisa parecida com "Rapaz, eu estou estacionar!".GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1121385767079439972005-07-15T01:02:00.000+01:002005-07-15T01:05:44.050+01:00Mensagens do futuroEle recebera mensagens do futuro. Pelo que me disse era algo que vinha a acontecer h&aacute; algum tempo. N&atilde;o teria havido trauma ou acontecimento potencialmente endutor de tal anomalia. Ele recebia as mensagens e l&aacute; ia ignorando ou aceitando o seu conte&uacute;do consoante o que a sua atormentada personalidade escolhesse. Por vezes negava completamente algo ou simplesmente dizia que era um simples sonho. &Agrave;s vezes o futuro era um mundo definhante, sem astronautas, sem roupas de alum&iacute;nio ou migra&ccedil;&otilde;es massivas interplanet&aacute;rias. Era sujo e seco... Como aqueles lagos cinzentos de lama seca que forma puzzels bizarros. Ele n&atilde;o era dado a sentimentalismos, mas isto de saber que andamos aqui s&oacute; para aquecer, mesmo que um milh&atilde;o de anos no futuro, n&atilde;o agrada a ningu&eacute;m.<br /><br />Algumas revela&ccedil;&otilde;es que ele me contava eram perdidas por mim num onda de quase total alheamento. Desde o clich&eacute; da mancha da parede &agrave;quelas situa&ccedil;&otilde;es em que pensava <i>"Merda, o imposto era para pagar at&eacute; hoje"</i>, passando pela azia que me provocara a lasanha do almo&ccedil;o. Ficou-me, no entanto, cravada no c&eacute;rebro a ideia de que a preserva&ccedil;&atilde;o do panda iria criar um esp&eacute;cie geneticamente modificada altamente procriadora e imune a todas as maleitas que os apoquentam actualmente. Essa esp&eacute;cie iria criar um praga global que iria, em primeira inst&acirc;ncia, colocar o bambu &agrave; beira da extin&ccedil;&atilde;o.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1120669908958085312005-07-06T18:11:00.000+01:002005-07-06T18:11:49.020+01:00Um pâncreas em DusseldorfEra tarde quando o telefone tocou. O cheiro a terra molhada da mi&uacute;da chuva de Ver&atilde;o entrava pela velha janela. As paredes descascadas assombravam a casa vazia. O telefone jazia ali no meio da sala, reanimado abruptamente pelo energ&eacute;tica vontade de distribuir not&iacute;cias frescas. Do outro lado um voz ofegante tentava recuperar o f&ocirc;lego. Ela havia sido atingida por um p&acirc;ncreas no centro de Dusseldorf. Ainda pingava sangue. Uma equipa de psic&oacute;logos tentava ajudar. Em p&acirc;nico tentou explicar-me que n&atilde;o sabia o que tinha acontecido, ou como tudo estava a ser demasiado surreal. <br /><br />Disse-me que teve uma crise de p&acirc;nica e gritou "<i>P&acirc;ncreas</i>" em plenos pulm&otilde;es. Apareceu um pol&iacute;cia e s&oacute; conseguia dizer "<i>P&acirc;ncreas</i>". Essa foi a &uacute;nica palavra que disse at&eacute; &agrave; esquadra.<br /><br />Meio adormecido tentei falar em v&atilde;o. Procurei uma acalmia para meter uma frase que me foi recursivamente negada. Continuou a gritar, enquanto atr&aacute;s e ouviam vozes semelhantes &agrave;queles filmes da 2&ordf; guerra mundial onde os generais nazis falam todos ingl&ecirc;s. Esperei pelo final da cacofonia. N&atilde;o precisava de me ouvir. Precisava de falar. Desligou.<br /><br />Peguei no telemovel e mandei-lhe um SMS. <i>"Como raio soubeste tu identificar um p&acirc;ncreas?"</i>GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1120581194876038032005-07-05T17:33:00.000+01:002005-07-06T17:04:06.333+01:00Castor Reborn<i><b>Flui o nada no vazio</b></i><br /><br />Assustado fixou o olhar na luz alaranjada que respingava pregui&ccedil;osa por entre as cortinas. <i>Foda-se!</i>, pensou. Tanto tempo passara e ainda assim n&atilde;o tinham brotado cinzas de si. Mesmo no esquecimento e na pacatez do universo interno... Mesmo a&iacute;, onde nem ele pr&oacute;prio caminha em seguran&ccedil;a. Mesmo nos locais que s&oacute; ele conhece, mesmo no p&oacute;s-&uacute;tero, mesmo de m&atilde;o dada com a alma. Mesmo fugindo e desaparecendo, mesmo criando um labirinto de dor e opress&atilde;o, mesmo fazendo churrascos ao s&aacute;bado, mesmo ouvindo pop, mesmo passando fins de semana com os sogros e sorrindo aos primos long&iacute;nquos. <br /><br />Mesmo depois de tudo o turbilh&atilde;o voltou. Efervescente, mas n&atilde;o agressivo. Teimoso, quase violador. <i>Pega nessa merda!</i>, ouviu no escuro... Acordou banhado em suor, em plena orgia barroquina, com uma ma&ccedil;&atilde; na boca e um exemplar original de Sade na m&atilde;o esquerda. O vazio voltou, havia que o documentar!<br /><br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1096903885915250112004-10-04T16:31:00.000+01:002005-07-01T22:50:07.530+01:00<b>A alma do mundo</b><br /><i><i>Carcere espelhada forrada a finas sedas</i></i><br /><br />Numa sociedade pr&oacute;spera, algures num futuro victoriano, presente para alguns, existe um povo invis&iacute;vel. Abaixo do n&iacute;vel dos olhos, oculto, onde ningu&eacute;m nunca procura. Deitados, esfarrapados, sujos, feios, desdentados, de m&atilde;o esticada e unhas encardidas. Est&aacute;tuas de pano velho, prostadas em poses de escultura romana, sobre estruturas de carne deformada. A az&aacute;fama das infantarias orientais abafa os gritos, duas oitavas abaixo, impercept&iacute;vel ao novo humano, ao info-humano. Dois plebeus discutem assuntos mundanos, cheirando o vento. O povo invis&iacute;vel estica os bra&ccedil;os, atravessando um imensid&atilde;o de r&eacute;stias humanas, n&atilde;o bio-degrad&aacute;veis:<br />Uma vit&oacute;ria da estat&iacute;stica, a nova ra&iacute;nha da corte. O conceito do tempo real ass&iacute;ncrono. <br /><br />- Viste aquilo?<br />- N&atilde;o.<br /><br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1095990160985423452004-09-24T02:42:00.000+01:002004-09-24T02:42:40.986+01:00<b>Mix 23<br /><i>Molotov com framboesa<br /></i></b><br />Era gago, quase surdo e tinha saudades da av&oacute;. Desde o dia em que se viu numa casa de banho de um colega, sem papel higi&eacute;nico e sem coragem para pedir, que evitou convivio social.<br /><br />Viajou um dia pelas margem de um vasto rio da Am&eacute;rica do Sul, acompanhado por um crocodilo que adoptou como animal de estima&ccedil;&atilde;o. Mascou as folhas de <i>Yemet-kuy</i> e jurou que os deuses o puxavam para o seu seio. Reparou depois que o seu animal de estima&ccedil;&atilde;o, Toby, se tinha servido da sua perna para jantar. Assim sem pedir. No fim procurou o seu calor para uma sesta digestiva. Ele acabou por morrer por perda de sangue, mas o crocodilo ainda se aguentou umas semanas. Era uma zona livre de abutres. <i>Os gases da nova usina</i>, diziam. <br /><br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093745180313307542004-08-29T03:06:00.000+01:002004-08-29T03:07:12.300+01:00<b>Av&ocirc; sentado no sof&aacute;, em chamas</b><br /><br />(...) <i>Ser&aacute;s sempre gente, meu filho. At&eacute; ao dia que to neguem por decreto de lei.</i> (...)GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093745089473112442004-08-29T03:04:00.000+01:002004-08-29T03:04:49.473+01:00<b><b>Ep&iacute;logo</b><br /><i>O ante-projecto de fim</i></b><br /><br />Nas condi&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas ideais, se olhares em frente vais ver-te por tr&aacute;s... em todas as &eacute;pocas do tempo. E n&atilde;o &eacute; um por ano ou por segundo. Isto &eacute; anal&oacute;gico rapaz, n&atilde;o divides o segundo por 25. &Eacute; mais cont&iacute;nuo e f&aacute;sico...GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093744954113679852004-08-29T03:02:00.000+01:002004-08-29T03:02:34.113+01:00<b>Planeta Dolm&eacute;n</b><br /><b><i>O povo-s&oacute;</i></b><br /><br />Julgava ver morcegos nas c&acirc;maras de vigil&acirc;ncia da auto estrada. Achava-se ainda mais rid&iacute;cula por n&atilde;o ter uma obcess&atilde;o paran&oacute;ica exclusiva. Fazia parte de um grupo de ajuda para a recupera&ccedil;&atilde;o de pessoas que v&ecirc;em morcegos nas c&acirc;maras de vigil&acirc;ncia da auto estrada.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093744506744725722004-08-29T02:55:00.000+01:002004-08-29T02:55:06.743+01:00<b>Go get your knife!<br /></b><br />Pediu que a levassem ao m&eacute;dico no dia em que julgou ter descoberto o padr&atilde;o da sua vida numa sequ&ecirc;ncia de gritos em cl&iacute;max de uma m&uacute;sica dos Deftones. O gr&aacute;fico de frequ&ecirc;ncias, impressas numa jacto de tinta parecia comprovar o facto.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093531092546357042004-08-26T15:38:00.000+01:002004-08-26T15:38:12.546+01:00<b>Expresso Trans-Goya</b><br /><font size="1"><i>|[|\||\[|||\|\[|||//|\\|/|\/\||<</i></font><br /><br />Era aquele homem que afirmara ter visto uma crian&ccedil;a a chorar, sentada nos an&eacute;is de Saturno. Tinha uma perna desfeita, devorada por algo. Got&iacute;culas de sangue perfeitas flutuavam em gravidade zero em volta do seu corpo, atra&iacute;das pela sua min&uacute;scula massa. Aquele homem barbudo tinha uma mancha em redor da boca. Diz-se que assim ficou pela imagem de horror da crian&ccedil;a perdida no espa&ccedil;o. <br /><br />"<i>Era uma crian&ccedil;a normal. Empunhava um controlo remoto e apontava o planeta. Disse-me que poderia acabar com a nossa verdade, com o nosso infinito. Podia destruir as nossas certezas carregando num bot&atilde;o.</i>"GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093128764595805292004-08-21T23:52:00.000+01:002004-08-21T23:52:44.596+01:00<b>Ensaios 98nn.23b: Andr&oacute;meda aqui t&atilde;o perto</b><br /><i>Uma li&ccedil;&atilde;o de paci&ecirc;ncia<br /></i><br /><br /><img src="http://castordemarmore.no.sapo.pt/discurso_.jpg" alt="Discurso " border="3">GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1093020634249355602004-08-20T17:50:00.000+01:002004-08-20T17:50:34.250+01:00<b>O punho de Deus</b><br /><i>A sombra de uma dor latente</i><br /><br />O comboio passava por um bairro degradado de crian&ccedil;as encardidas sentadas em sof&aacute;s a apodrecer, virados para a linha-f&eacute;rrea. O ch&atilde;o estava pejado de lixo, reciclagens de reciclagens de reciclagens, usados at&eacute; &agrave; quase desintegra&ccedil;&atilde;o natural. Eram crian&ccedil;as de olhar vivo, brilhante, desiludidas com a vida. Ocasionalmente, por entre o sujo da cara surgiam pequenos regatos de l&iacute;mpida pele, sulcados &agrave; for&ccedil;a de l&aacute;grimas recentes.<br /><br />Ao meu lado o velho cigano continuava a sua odisseia de feitos herc&uacute;leos, palrando incessantemente como se n&atilde;o houvesse amanh&atilde;. Falava-me de uma ilha grega, onde morara nos anos 60. Um ver&atilde;o em que a natureza castigou o povo, um ver&atilde;o de vingan&ccedil;a atroz. As tr&eacute;guas homem/mar haviam sido corrompidas, quando um grupo de embriagados e jovens pescadores voltou a casa com peixe sagrado. Na ira do ver&atilde;o o c&eacute;u escureceu e uma densidade dram&aacute;tica foi transferida por telepatia para o consciente colectivo daquela velha comunidade assustada. Alguns falavam de profecias, interrompidos abruptamente por uma ocasional chapada na cara. Sim, porque era povo temente, mas n&atilde;o eram est&uacute;pidos.... As mulheres rezavam, as crian&ccedil;as choravam e os homens, do promont&oacute;rio, olhavam o mar, pediam perd&atilde;o ao seu estilo macho de peito ao l&eacute;u. De repente, do nada, o mar revolta-se. Uma imensa onda forma-se no horizonte, o punho do Deus irado. Impotentes, quedaram-se a olhar, enquanto galopava na sua direc&ccedil;&atilde;o a velocidades vertiginosas. Alguns repararam que vinha polvilhada de pontos escuros, semi l&uacute;cidos, imposs&iacute;veis de distinguir, mesmo por debaixo do azul transparente daquela t&eacute;pida &aacute;gua mediterr&acirc;nica. Mas, para al&iacute;vio da popula&ccedil;&atilde;o, a onda p&aacute;ra de repente, em plena forma&ccedil;&atilde;o de 15 metros de altura. As respira&ccedil;&otilde;es de alegria s&atilde;o curtas, porque de repente os pontos escuros come&ccedil;am a tomar forma e a emergir de dentro das &aacute;guas, propulsionadas pela in&eacute;rcia do movimento das &aacute;guas. Milhares de peixes espada s&atilde;o disparados, como que por canh&otilde;es, em direc&ccedil;&atilde;o &agrave; costa. O povo grita, foge, procura abrigo. Espadartes imensos voam como uma nuvem de flechas de um ex&eacute;rcito chin&ecirc;s de esplendor Ming.<br /><br />Dezenas de casas destru&iacute;das. Dezenas de pescadores empalados por espadartes. Foi um dos muitos fen&oacute;menos n&atilde;o documentados daquela cheia vida do velho cigano.<br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1092184286960023762004-08-11T01:31:00.000+01:002004-08-11T01:31:26.960+01:00<b>O meu tio Gaspar procura a prova cient&iacute;fica acerca do infinito<br /><i>[cr&oacute;nicas do tio Gaspar - dia 1]</b></i><br /><br />Larga avenida esta que subi. Realmente os tons amarelados tendem a suavizar a violenta paisagem urbana, dita hist&oacute;rica. Duvido que este amarelo aguente, mas tamb&eacute;m vos digo sinceramente que provavelmente nunca mais c&aacute; voltarei. Podem crer que n&atilde;o... Que gente reles, que estranhos costumes. &Agrave; mesa parecem selvagens, a conduzir parecem alucinados tresloucados, s&oacute; acidentes j&aacute; vi seis. E um era bem feio. Isto n&atilde;o &eacute; para estar a armar-me em fino, mas ainda n&atilde;o vi ningu&eacute;m a usar peles. Nesta altura de frio e com o mercado em alta, como podem abdicar. Quer dizer, j&aacute; vi milh&otilde;es destes selvagens e ainda nem uma vestida de pele. E as marcas s&atilde;o todas a imitar ou falsifica&ccedil;&otilde;es. Que horror. <br /><br />Cheira mal. E &eacute; tudo guardanapos de papel.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1092014248541409002004-08-09T02:17:00.000+01:002004-08-09T02:17:28.540+01:00<b>Um gui&atilde;o Barrosino, o Dan&uacute;bia de las Ventas</b><br /><i>17/8 de tr&aacute;s para a frente</i><br /><br />[Sil&ecirc;ncio, estamos a gravar...]<br />Um grito que dura d&eacute;cadas. Modulado ao longo de um t&uacute;nel met&aacute;lico, criando harm&oacute;nicos m&iacute;ticos, sons que se enfiam na pele. Dentro da carne. Escondidos num ba&uacute; de arquivo morto. A imagem de fora &eacute; irreal, tromb&oacute;nica, mono-tom. Azul codreado. &Eacute; lento como o tempo, como a sua escala de areia pura. Um virtuosismo de sumptuosidade e magnificiencia. Irreal, como os tonificadores musculares da Gigashop.TV....<br />[Corta]<br />[Segunda aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; mesma cena, vers&atilde;o medieval instru&iacute;do]<br />[Sil&ecirc;ncio, estamos a gravar...]<br />Dizia-me hoje uma entidade oculta que prezo pela discri&ccedil;&atilde;o, que os maestros que fazem bandas sonoras para os filmes de terror desistem do conservat&oacute;rio antes de chegarem &agrave;s teclas pretas. Retorqui que tamb&eacute;m o Michael Nyman o faz, disse, mas toda a gente interpreta como op&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica. "segredos, meu caro" e esfumou-se numa fina camada de p&oacute; azul, levitando em espiral inversa. <br />[Corta]<br />Bebi martinis o resto da noite e preocup&aacute;va-me com uma falta de mem&oacute;ria que tive o m&ecirc;s passado. Era p&ocirc;r-do-sol, como no cinema, mas aqui parecia mais real... Matutava num erro de acentua&ccedil;&atilde;o que lera hoje, algures num gui&atilde;o.<br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1091754944978509842004-08-06T02:15:00.000+01:002004-08-06T02:15:44.976+01:00<b>Semi-lividez. Holo-Eu, cyber-consumo de bolacha americana<br /><i>Ol&aacute;, fresquinho!</i></b><br /><br />A correr pela, rua... Amanhecer.<br /><i>- Corre Malva, corre. Ainda perdemos o comboio.<br /></i>A correr, rua abaixo. Acelerar.<br /><i>- O que achas que estou a fazer, S&iacute;lvio?<br /></i>A ver ao longe o comboio partir. Meio sul, meio ferrugem.<br /><i>- Merda, zarpou!</i><br />Ofegante, m&atilde;os nos joelhos e convuls&otilde;es com sabor a chicote. Antiquado.<br />Um rel&oacute;gio gigantesco, ofuscado pela sujidade de d&eacute;cadas.<br />Tlooomm. Tlooomm...<br /><i>- Sabes S&iacute;lvio, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;quela conversa...<br />- Sim, sei. Percebes a l&oacute;gica?<br />- Sim, percebo. Quer dizer, tirando uma coisa que n&atilde;o p&aacute;ra de me incomodar.<br />- O qu&ecirc;?<br />- Por exemplo, n&atilde;o conhe&ccedil;o ningu&eacute;m que tenha gostado do Titanic nem chorado na Lista de Schindler. E no entanto, l&aacute; est&atilde;o os "Cl&aacute;ssicos". Assim como n&atilde;o conhe&ccedil;o ningu&eacute;m que goste do George Bush ou do Paulo Portas. E ningu&eacute;m parece minimamente aborrecido com isso.<br />- &Eacute;. Isso &eacute; verdade. Mas...<br />- Mas?<br />- Podemos tentar o boato da actriz suicida.<br />- Resulta?<br />- Se for na noite da v&eacute;spera, sim.<br />- Ok.<br /></i>N&atilde;o &eacute; negrume nem luz. E esfuma-se em fulgor.<br />GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1091728515945063242004-08-05T18:55:00.000+01:002004-08-05T18:55:15.946+01:00<b>Ensaios 234v.b33 </b><br /><i>S&uacute;plicas de carne viva - sangue em freeze-frame</i><br /><br /><img src="http://castordemarmore.no.sapo.pt/flor.jpg" alt="S&uacute;plicas de carne viva - sangue em freeze-frame" border="1">GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1090973442083032542004-07-28T01:10:00.000+01:002004-07-28T01:10:42.083+01:00<b>Excertos da biografia alternativa de Jos&eacute;<br /></b><i>Hey now, you're an allstar...<br /></i><br /><br />Um sol dourado tinha vindo naquele dia acariciar a neve que coloria de branco aqueles cinzentos armaz&eacute;ns de cereais, do outro lado da rua, frente ao pal&aacute;cio. Lenine, j&aacute; sem poder falar, gravemente doente, ouve a velha porta ranger. A densa madeira adornada com puxadores de ouro era ainda do tempo dos Czares, do tempo em que o velho Lenine, ent&atilde;o jovem, vivia no p&acirc;nico da clandestinidade. Pela porta entra Estaline com uma bandeja de ch&aacute; e bolinhos. Tentava disfar&ccedil;ar o ar zangado com um olhar de complac&ecirc;ncia falso. Sabia que o velho Lenine tinha a carta, aquela que queria publicar para o afastar do cargo de Secret&aacute;rio Geral no pr&oacute;ximo congresso. Antes da porta fechar, o velho Lenine ainda conseguiu olhar de soslaio o amigo preocupado Trotsky. <br /><br />Estaline ignorava o velho Lenine enquanto delineava mais umas partes do seu plano de nacionaliza&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola. No entanto n&atilde;o conseguia de pensar naquela mi&uacute;da de 15 anos que vira uns dias antes na cozinha do seu amigo Dimitri, calceteiro nobre dos palacetes dos suburbios de Sao Petersburgo. Notando que estava a fugir ao plano e que a sua mente come&ccedil;ava a divagar, tentou concentrar-se no partido e nos seus planos de moderniza&ccedil;&atilde;o acelerada agr&iacute;cola. Como que inspirado por uma divina mensagem, vira-se de repente para o moribundo Lenine, prestes a monologar aborrecidamente umas palavras:<br /><br />- <i>Sabes velho, aquele Trotsky n&atilde;o nos serve. Nem um nome decente soube escolher. Trotsky? Que merda de nome &eacute; esse? N&atilde;o &eacute; nome que sugira respeito, &eacute; mais nome de padeiro de segunda categoria ou de saltimbanco domador de ursos. Eu tenho um tio carpinteiro que uma vez cortou um carvalho junto ao ch&atilde;o, e as estrias da velha &aacute;rvore revelaram-lhe uma profecia que at&eacute; agora tenho escondido de ti. Via-se claramente uma imagens em tons de castanho de Rasputine a ser sodomizado por um trabalhado p&eacute;nis de madeira, cuidadosamente incorporado numas cuecas de seda da Czarina Alexandra, enquanto um grupo de membros bolcheviques, sentados, faziam desenhos para imortalizar a cena. <br /></i><br />Lenine bate fortemente, aterrorizado, com o punho na mesa, derrubando uma garrafa que tilinta aos peda&ccedil;os pelo ch&atilde;o. Trotsky entra quarto adentro assustado. Estaline chama-lhe "filho da puta" entre dentes e sorri sarcasticamente. Ao levantar-se, bate com a cabe&ccedil;a na c&oacute;moda e d&aacute; um grito de menina. Trotsky solta uma gargalhada sonora e um guarda e alguns membros do soviete tentam esconder uma risada furtiva. Estaline corre para a casa de banho, corando de vergonha. Com a pressa, derrubou um guarda armado que se desmancha rir antes de bater violentamente no ch&atilde;o. <br /><br />Do lado de fora da casa de banho Trotsky perguntava-lhe se era preciso chamar a mam&atilde; para ajudar o menino a fazer chichi, enquanto os guardas, agora deitados no ch&atilde;o, se rebolavam a rir, em espasmos incontrol&aacute;veis de g&aacute;udio. O velho Lenine foi aqui visto sorrir, numa das suas raras alegrias de final de vida.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1089725763872938962004-07-13T14:36:00.000+01:002004-07-13T14:44:39.796+01:00<b>&Agrave; conversa com os senhorios</b><br /><i>Uma hist&oacute;ria de coragem sem c&atilde;es nem criancinhas de olhos grandes</i><br /><br />- Sim?<br />- Boa tarde. Daqui fala do Monte Olimpo.<br />- Das m&aacute;quinas fotogr&aacute;ficas? <br />- N&atilde;o. Do Monte mesmo.<br />- Ah, &eacute; que tenho uma a arranjar e...<br />- Ahammm...<br />- (...) Ok, percebo. Aquele do velhote de barbas, n&atilde;o &eacute;?<br />- Mais respeitinho...<br />- Ent&atilde;o e o que queriam?<br />- Era para dizer que est&aacute; em n&uacute;mero 235 para apanhar com um raio e devido a problemas t&eacute;cnicos e mudan&ccedil;a de turno &eacute; capaz de ser adiado para amanh&atilde;. Era tamb&eacute;m para dizer que n&atilde;o fa&ccedil;a planos...<br />- Era? J&aacute; n&atilde;o &eacute;?<br />- Update para n&uacute;mero 37. <br />- HumpfffGajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1089384284837070992004-07-09T15:44:00.000+01:002004-07-09T15:44:44.836+01:00<b>Ensaios 324j.83b - 1/180s de realidade</b><br /><i>Beleza em suspens&atilde;o</i><br /><br /><img src="http://castordemarmore.no.sapo.pt/flor2.jpg" alt="Beleza em suspens&atilde;o" border="3">GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1089336630987362722004-07-09T02:30:00.000+01:002004-07-09T02:30:30.986+01:00<b>A tempestade prodigiosa</b><br /><i> [loop-back] Pureza foto-voltaica e a satisfa&ccedil;&atilde;o num espasmo</i><br /><br />Arrastava-se por entre extensas fileiras de jazigos, procurando n&atilde;o encontrar. Fitava o ponto interm&eacute;dio, o ponto da aus&ecirc;ncia absoluta. At&eacute; ao infinito se alongavam aqueles carreiros branco-sujo, ensopados parasitas &aacute;cidos, corroendo a pedra e a carne. Do c&eacute;u chovia deus, um deus negro e novo. Uma repulsa, uma malqueren&ccedil;a, um dedo esmagou a mesquinha exist&ecirc;ncia humana. Prostou-se de joelhos olhando o sombrio promont&oacute;rio, onde as sepulturas se uniam ao infinito do firmamento. &Aacute;rvores mortas, funestas testemunhas silenciosas. Nos seus ramos ressequidos e abrasados apenas sobravam os corvos. De olhar ardente e semblantes de raiva, a cara do deus punidor. N&atilde;o esperavam mais morte, porque mesmo o mal se sacia e a p&uacute;stula da humanidade haveria de ressurgir para novamente lhe saciar o desejo s&oacute;frego de carne morta... <br /><br />...e do negro se fez esp&iacute;rito, e a m&aacute;goa vindimou a opul&ecirc;ncia e do esplendor se fez sobriedade. Afinal era novamente vida primordial. A oferenda dos deuses.GajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1089110183735319942004-07-06T11:36:00.001+01:002004-07-06T11:36:23.736+01:00<font color="#FF00FF" size="7"><b>CHOQUE...<br /></b></font><br />...Sil&ecirc;ncioGajoBanalnoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-5414731.post-1088803525490127312004-07-02T22:25:00.000+01:002004-07-09T02:35:57.516+01:00<b>Ditados extintos do Chile</b><br /><i>Interactividades </i><br /><br />Foi nessa <font color="#D6CD4D">luz que se fez </font>negrid&atilde;o. Foram <font color="#D6CD4D">nessas &aacute;guas ensanguentadas que foram</font> lavadas as l&aacute;grimas. Foi nesse <font color="#D6CD4D">vestido branco que caiu o </font>bolor dos tempos. Foi esse <font color="#D6CD4D">olhar que oxidou. Foi esse olhar que congelou num</font> esgar sofrido.<br />GajoBanalnoreply@blogger.com