tag:blogger.com,1999:blog-40090748863257915332009-07-04T09:06:40.570-03:00Tabuí e seus CausosUm resgate de histórias / estórias que o povo conta.Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.comBlogger93125tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-69791773303542605072009-06-11T22:37:00.001-03:002009-06-11T22:41:01.226-03:00OS CATIREIROS<p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"></p><p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;"><b><span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large;"><span class="Apple-style-span" style="color:#FF0000;">A</span></span></b> venda do Severo, bem na entrada da ponte do córrego da Lage, era o ponto obrigatório das catiradas. Trocavam de tudo: arreio velho por galinha choca, dia de serviço por lata de banha, porco por cavalo e assim por diante. Qualquer um desencravava de qualquer coisa. Uns sempre mais espertinhos que os outros. Tucão e sô Zeca Clemente eram os mais respeitados e velhacos. Ninguém viu ou ouviu dizer que os dois cruzassem uma catira. Diziam que se respeitavam muito entre si. Os dois tinham medo de levar manta um do outro e ficarem mal afamados, pois aí um ia sair esparramando pra todo mundo que o outro havia levado a pior...</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Certa quadra o Tucão comprou a preço de galinha morta uma égua baia troteira, velha e cheia de pisaduras. O animal já era conhecido de todos. O catireiro não tinha como passar o animal pra frente. Ninguém queria. Foi então à cidade, comprou tinta preta e barro de cerâmica e arranjou um pouco de óleo queimado na oficina. Chegando em casa, colocou os ingredientes no pilão e socou até ficarem bem misturados. Buscou a égua, pegou um baita pincel e pintou o animal. Ficou pretinha, pretinha. Amarrou a criação no poste do curral e deixou-a passar o dia exposta ao sol. Quando chegou a tardinha, montou no seu cavalo de estimação e foi puxando pelo cabresto a égua pintada rumo à venda do Severo. Era noite quando chegou.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Apeou do cavalo, cumprimentou a todos e foi logo dizendo: </span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Hoje eu tenho esta égua pra breganhá numa outra coisa qualquer. Este animal é de boa procedência, neta do cavalo pampa do Zé Maricota. Boa de cela, marchadeira, só teve uma muda e é mansa de coçar!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">O Ocride do Cornélio, catireiro principiante, interessou-se pelo negócio e foi fazendo uma oferta:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Tucão, te dou dois garrotes da mesma era pela égua!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Qual é a era?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Dois e meio!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Tucão matutou, matutou e catimbou:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Quero treis garrote. Se não, num tem negócio!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Não! Só dou dois e pronto!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Ora, a égua não valia nem um garrote. O iniciado estava levando uma manta medonha. Tucão não perdeu tempo. Calou a boca, coçou o bigode e perguntou:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Cadê os garrotes?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Tão aqui, amarrados no pau de aroeira!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Levaram um lampião a querosene. Tucão olhou, agradou e disse:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Ocride, tá feito o negócio! Leve a égua que eu levo os garrotes!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Daí a pouco o céu estrelado foi desaparecendo e São Pedro foi avisando: relâmpagos e trovoadas. Ocride montou no seu cavalo, pegou a égua pelo cabresto e se mandou pra casa. Mal acabara de chegar e soltar os animais, São Pedro abriu as torneiras do alto. Foi quase um dilúvio.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">No outro dia, manhã beleza, pássaros cantando, céu azul. Ocride e mulher despertam. O entusiasmo era grande, não se conteve mais e disse:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Muié do céu! Só cê vendo a manta medonha que passei no veiaco do Tucão!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Divera?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Divera, sá! Escalavrei o home! Breganhei aqueles dois garrote incroados numa égua neta do pampa do Zé Maricota! Vou fazê a cruza da égua com o dourado e o fiote vai valer uma bufunfa doida. Vô lá no pasto buscar o animal pra ocê vê qui tetéia!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Chegando ao pasto chamou:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Cá... cá... cá... vem... vem... vem...</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Os animais foram se chegando. E para espanto do catireiro, cadê a égua? Sumiu? Roubaram? Quando ele observou direito, viu que tinha no meio da tropa uma égua meio preta e meio baia. A chuva lavara a pintura do animal. </span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Ocride ficou furioso. Arriou um animal e correu pra casa do Tucão. Lá chegando encontra o careca narigudo com um pito grosso de palha, escumando no canto da boca.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Que que foi, Ocride? Apêia!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Não! Só vim desmanchá o negócio! Ocê me enganou! Pintou a égua! E ainda mais ela é véia, pisada e troteira! Vô levá os garrote e ocê busca a égua!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Não senhor! Negócio é negócio! O mundo é dos mais sabidos. Não dizem que dinheiro de trouxa é matula de malandro?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">O aprendiz de catiras ficou com medo do Tucão. Deu um golpeado na rédea, virou o cavalo e voltou para casa. No caminho foi matutando sobre como se vingar do velhaco catireiro. Lembrou-se do sô Zeca Clemente, o outro catireiro velhaco e espertalhão. Ocride mudou a rota e foi parar na fazenda do velho Zeca. De longe o velho avistou o visitante e foi esperá-lo na sombra do pé de cedro.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Bom dia, sô Zeca!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Bom dia! Pra dentro!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Cumo vão as coisas, seu Zeca?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Vão remando, mais pro lado da perrenguesa!...</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Tá doente?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Uai, sô, tô numa remeleira, num toçume e numa catarreira danada! E ainda pru riba meti a pataca do juêio na cadeira. Tá c’um inchume danado! Mas deixando de lado a queixança, o que trais ocê na minha casa?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- É sobre aquele desgraçado do Tucão!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Aí Ocride relatou o acontecido para o velho Zeca.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- E antão Ocride? Qui qué qui eu faça?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Quiria qui’ocê me vingasse passano uma manta nele!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Pelo que vejo, ocê quer que eu repasse a égua nele?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- É isso aí, sô Zeca!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Ocê ainda tá muito verde </span><st1:personname productid="em negócios. Nem" st="on"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">em negócios. Nem</span></st1:personname><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;"> pensar em égua. Tenho um plano. Ocê guarda segredo?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Icha! Garanto levá no caixão!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Antão vô te contá a tramóia que vou tentá fazê. Tenho uma porca, comedeira de pinto. Não há galinha que agüenta chocar pintinhos pra diaba comer. Vô tentar passar ela no Tucão. Combinado?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Combinado!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">No outro dia o Tucão recebe um convite do seu Zeca para ir à casa dele. Convite aceito, teve que cavalgar duas léguas para chegar à casa do velho Zeca.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Vamo apiá, Tucão!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- O que qui’ocê tem pra breganhar?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Gaguejando e chupando os beiços, ele respondeu:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Tenho cavalo, tenho bezerros, tenho roda de fiar, tenho monjolo d’água e tenho uma porca criadeira pra fazê inveja em quarqué fio de Deus!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Óia, Zeca, só me interessa a porca se ela não for comedeira de pinto!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Ocê tá ficando doido? Isso eu te garanto! Nas minhas mãos ela nunca comeu pinto!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Verdade?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Pura verdade!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Se eu ti comprar ela ocê garante que nas suas mãos ela nunca comeu pintos?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Garanto!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Quanto quer na porca?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- 450 réis.</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Não posso!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Quanto ocê dá?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- 400 réis!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Negócio feito. Dinheiro pra cá, porca pra lá!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Sô Zeca recebeu o dinheiro e se encarregou de entregar a criação na casa do comprador. Alguns dias depois volta o Tucão à casa do velho Zeca. Não quis apear do animal e foi gritando:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Ô Zeca! Vem cá!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">O velho chegou no alpendre com a cara bem lerda e disse:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Apêia, uai!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Seu velho mentiroso! Ocê me garantiu que a porca nunca tinha comido pinto nas suas mãos! E lá em casa ela fez uma dirriça!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- E por acaso eu menti?</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">Sô Zeca fitou o colega, esticou os braços, abriu as mãos e falou:</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Óia bem aqui: nestas minhas mãos ela nunca comeu pintinhos!</span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">O velho, depois de fingir estar nervoso, voltou à calma e completou: </span></p> <p class="MsoNormal" style="text-indent:35.45pt"><span class="Apple-style-span" style="color:#333300;">- Dinheiro de trouxa é matula de malandro. Aqui se faz, aqui se paga!</span></p><p></p><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-6979177330354260507?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com7tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-19082887979847628762009-05-19T10:58:00.001-03:002009-05-19T11:01:52.158-03:00MALUCO TROCADO<span style="font-family:verdana;color:#003300;"><strong><span style="font-size:180%;color:#cc0000;">L</span></strong>á na prefeitura, certa quadra, trabalhou o Miguel Generoso. Era o quebra-galho do prefeito. Fazia qualquer serviço bem feito e sem reclamar. Até o dia em que apareceu na cidade o Quequé, um doido ora carinhoso, ora violento. Suas atitudes malucas começaram a preocupar povinho de Tabuí. Prefeito foi pressionado a tocar Quequé da ciade. Mas pradonde?<br />Após muita deliberação ficou resolvido que a prefeitura iria assumir os gastos de mandar Quequé para um hospital de doidos na capital. Miguel Generoso foi escalado para fazer o serviço. No dia marcado os dois embarcam no trem noturno. Miguel sempre de olho no Quequé, pronto a qualquer atitude suspeita. Um pouco antes de chegar à capital, o trem fica retido numa estaçãozinha por várias horas por causa de um troço lá pra frente. E a viagem que deveria ter demorado cinco horas retardou umas treze. Nesse tempo todo, enquanto Quequé dormia tranquilo, seu acompanhante não pregou o olho. Preocupado em cumprir bem sua tarefa, não queria correr o risco de deixar o doido fugir.<br />Chegando a Belo Horizonte, o Miguel tava um bagaço. Pegaram um taxi e foram direto para o hospital. Lá, como sempre acontece em hospital público, foram atendidos de má vontade. Depois de muita encheção de saco, mandaram os dois entrarem numa sala grande e esperar. Sala cheia de gente de olhares estranhos e gestos esquisitos. Arrumaram um banco, sentaram e esperaram, esperaram...<br />O Generoso não aguentou a tensão e o cansaço e dormiu sentado. Quequé, que tava na sua fase de doido carinhoso, caiu fora. Miguel acordou com um cutucão nas costas. Era um negão cheio de músculos:<br />- Vai lá dá seu nome! É sua vez!<br />Miguel, tonto de sono, nem se lembrou do Quequé. Foi lá no guichê e deu seus dados pessoais. Recobrou a razão quando ouviu do atendente uma ordem pra dois brutamontes que estavam atrás dele:<br />- Tudo em ordem! Podem levar mais este!<br />Quando Miguel quis refugar, os brutamontes o agarraram e o foram levando meio arrastado por um longo corredor.<br />- Gente! Eu num sô doido! O doido é o outro!<br />Quanto mais o Miguel esperneava e reclamava, mais era prensado contra a parede, seguro pelos cabelos e tinha os braços torcidos. Ele só resolveu parar de reclamar quando ouviu o negão brutamontes dizer pro outro:<br />- Esse doido parece que é mais maluco que os outros. Só uma injeção daquelas de 20 centímetros cúbicos para dar um jeito nele!...<br />Miguel foi jogado numa sala cheia de doidos e ficou esperando a hora de tomar a injeção prometida. Desesperado, preocupado, agoniado, sem saber como provar que ele não era doido. Até que, num certo momento, ele olha para um canto da sala e tava lá o Quequé sorrindo e dando tiau para ele. Nessa hora o Miguel ficou bravo. Pegou o Quequé pelo colarinho, deu uma boa esfrega nele e o obrigou a contar quem era o doido de verdade. Ainda bem que, naquele dia, Quequé era doido carinhoso.<br /> </span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-1908288797984762876?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-17888354225131819402009-04-24T10:28:00.002-03:002009-04-24T11:29:25.900-03:00No escurinho do cinema<span style="font-family:verdana;color:#330099;"><strong><span style="font-size:180%;color:#cc0000;">C</span></strong>inema só uma vez existiu em Tabuí. Durou nem um mês. Funcionava no Bar Ganha, do Cidão. Na hora do filme botavam bancos compridos no salão improvisado, com uma tela na parede do fundo e o bar virava cinema. Nas noites de sábado só entrava mulher e os homens ficavam pra domingo.<br />O filme, único, era “Amor ao Entardecer”, um faroeste de quarta ou quinta categoria. Nas primeiras duas semanas, nenhum incidente. Mas na terceira...<br />Tava lá, no sábado à noite, um bando de mulheres vendo o filme que elas diziam ser de amor. Todas ansiosas esperando a cena final. O mocinho dava um beijo na mocinha, provocando arrepios na platéia, e ia indo embora por uma estrada reta que sumia de vista. Lá bem na frente ele se virava para dar adeus à amada abanando a mão. Só que o Cidão, o dono do boteco, acendeu as luzes um pouquinho antes do “The End”, a tempo de o mulherio todo ver a Fiíca do Boanerge dando adeus, também abanando a mão e chorando um choro contido.<br />No dia seguinte era a vez dos homens. Gente de tudo quanto é canto, até lá dos cafundós, aparecia para ver a novidade. Quase todo mundo com trabuco na cintura. Era moda. Numa cena do “Amor ao Entardecer” a mocinha está amarrada a uma árvore enquanto vem descendo uma cobra. Ao mesmo tempo vem chegando uma onça. A emoção era tamanha entre a platéia e o silêncio tão completo, que cada um podia ouvir as batidas fortes do próprio coração agoniado. Aí o coronel Tião Crispim, que nunca tinha visto um filme e nem tinha costume com esses modernismos, não resistiu a tanto suspense. Misturou ficção com realidade. Arrancou o revólver e pregou fogo na onça e na cobra destruindo a tela do cinema e acabando com a mais moderna diversão de Tabuí.</span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-1788835422513181940?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com7tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-79316428932021892422009-04-12T18:12:00.002-03:002009-04-12T18:16:04.030-03:00O assassinato da mula<span style="font-family:verdana;color:#000066;"><strong><span style="font-size:180%;color:#ff6600;">J</span></strong>ulgamento. Tá lá o juiz cochilando. Advogado do réu metendo a lenha, pronto a enfiar a mão no bolso de alguém. Platéia espremida feito sardinha. Grande acontecimento em Tabuí. No banco das testemunhas, só, o Tõinzin Carapina, velhinho e franzino, piscando miudinho, recebendo a saraivada verborréica do advogado perfumado que, embora ninguém dali nem notasse, tropeçava nos pronomes e nas concordâncias. Tõinzin doido pra ganhar um troco da outra parte, pra tapar os prejuízos, era inquirido pelo advogado.<br />- Este homem, senhor juiz, assim que aconteceu o acidente, disse que não tinha nada, não quis ajuda de ninguém e foi embora! - esbravejava o advogado, apontando diretamente pro nariz do Tõizin.<br />- É não, sô juiz! Ieu...<br />- Senhor Antônio Carapina! O senhor, ao entrar na sua caminhonete velha, amarrar a porta com uma corda e sumir no mundo, não disse que estava bem e que não precisava de ajuda?<br />- Ieu?... Quero expricá!... Vô contá do começo, de inhantes do acontecimento!...<br />Tôinzin era só humildade. Tremia, alvo de tantos olhares e o cheiro do seu suor nervoso viajava pelo salão do júri improvisado<br />- O senhor não tem que explicar nada! É só me responder: o senhor afirmou ou não que estava bem?<br />- Ieu?... Sim e não...<br />Foi aí que o juiz achou que era hora de interceder, tomando interesse pelo assunto.<br />- Deixe o homem falar, doutor! Para esclarecer a verdade, precisamos ouvir os dois lados.<br />Tõinzin respirou aliviado.<br />- Brigadim, dotor juiz! Eu e a minha muié, plena madrugada, acordemo a mulinha, coloquemo ela na caminhonete e eu vinha pela rodovia a fora. Só eu e ela, a mulinha. Ela na carroceria e eu na buléia. Aí veio aquela rural doida, saindo não sei donde do meio do mato e trombou na porta da minha caminhonete. Eu me machuquei muito, pois a porta do outro lado se abriu e eu caí. Caí e saí rolando estrada a fora. Nem conseguia me levantar. Minha mulinha, tadinha, tamém num tava em situação boa não. Zurrava feito besta, caída do outro lado da rodovia. Eu dei conta de levantá a cabeça e vi a bichinha, a uns 15 metros, esperneando e estrebuchando. Aí chegou o home da polícia e, no lugar de vir me olhar primeiro, foi ver a mulinha que dava mais escândalo. Acho que ele avaliou a situação e disse não tem jeito. Pegou o trabuco e deu um tiro bem na testa da bichinha que quetou na paz de Deus Pai. Aí ele veio cambaleando pro meu lado, com o trabuco na mão, ainda soltando fumacinha, e explicou: "Não teve jeito. Tive que matar sua mula que tava muito mal. E o senhor, está bem?". - O que o senhor queria que eu dissesse, sô juiz e sô adevogado?</span><br /><p><span style="font-family:verdana;color:#000066;"><span style="font-size:78%;">(Nota: este causo é muito conhecido em Minas Gerais. E muito divulgado. Esta é apenas mais uma das versões que ele recebeu).</span></p><br /> </span><br /></span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-7931642893202189242?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com8tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-23745014025153937702009-04-06T15:24:00.004-03:002009-04-06T15:39:42.212-03:00Nos braços de Morfeu<style> <!-- /* Font Definitions */ @font-face {font-family:Verdana; panose-1:2 11 6 4 3 5 4 4 2 4; mso-font-charset:0; mso-generic-font-family:swiss; mso-font-pitch:variable; mso-font-signature:536871559 0 0 0 415 0;} /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-parent:""; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} h3 {mso-margin-top-alt:auto; margin-right:0cm; mso-margin-bottom-alt:auto; margin-left:0cm; mso-pagination:widow-orphan; mso-outline-level:3; font-size:13.5pt; font-family:"Times New Roman"; font-weight:bold;} p {mso-margin-top-alt:auto; margin-right:0cm; mso-margin-bottom-alt:auto; margin-left:0cm; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1 {size:595.3pt 841.9pt; margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; mso-header-margin:35.4pt; mso-footer-margin:35.4pt; mso-paper-source:0;} div.Section1 {page:Section1;} --> </style> <p style="margin: 0cm 0cm 0.0001pt; text-indent: 35.45pt; color: rgb(0, 0, 102); font-family: verdana;font-family:verdana;"><span style="color: rgb(255, 153, 0);font-size:180%;"><span style="font-weight: bold;"><span style="font-family:verdana;">E</span></span></span>ste causo aconteceu foi mesmo em Tabuí, ali na pensão da Vitalina, a única da cidade. Um vendedor, homem experiente da vida, mas, com muito sono atrasado, foi lá e a espelunca não tinha quarto vago.<span style="font-family:verdana;"><br /></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style="font-family:verdana;">- Dá um jeito, por favor, dona Vitalina, eu preciso dormir. Me arrume nem que seja uma cama, sá!</span></p><span style="font-family:verdana;"> </span><p style="margin: 0cm 0cm 0.0001pt; text-indent: 35.45pt; color: rgb(0, 0, 102); font-family:verdana;"><span style="font-family:verdana;">Vitalina pensa, pensa e, querendo ganhar uns mirréis a mais, responde:</span></p><span style="font-family:verdana;"> </span><p style="margin: 0cm 0cm 0.0001pt; font-family:verdana;"><span style="color:black;"><span style="color: rgb(0, 0, 102);"><span style="font-family:verdana;"> - Óia... Tenho um quarto com duas cama. Interessa? E lá tá hospedado um sujeito que me disse que gostaria de rachar as despesas com alguém. Só que tem que ele ronca demais da conta. Tanto, que os vizinhos já fizero recramação dizendo que não conseguem dormir.</span></span><span style="font-family:verdana;"> </span><span style="color: rgb(0, 0, 102);"><span style="font-family:verdana;"> </span></span></span></p><p style="margin: 0cm 0cm 0.0001pt; font-family:verdana;"><span style="color:black;"><span style="color: rgb(0, 0, 102);"><span style="font-family:verdana;">- Nenhum problema. Fico com o quarto, dona Vitalina! Eu quero dormir!</span></span><span style="font-family:verdana;"> </span><span style="color: rgb(0, 0, 102);"><span style="font-family:verdana;"> </span></span></span></p><p style="margin: 0cm 0cm 0.0001pt; font-family:verdana;"><span style="color:black;"><span style="color: rgb(0, 0, 102);"><span style="font-family:verdana;"> Ela leva o viajante pro quarto, acorda o roncador, apresenta-os um ao outro e eles vão dormir. </span></span></span></p><span style="font-family:verdana;"> </span><p style="margin: 0cm 0cm 0.0001pt; text-indent: 35.45pt; color: rgb(0, 0, 102); font-family: verdana;font-family:verdana;">No dia seguinte, o vendedor chega ao refeitório para tomar café e, contrariando as expectativas, está bem disposto, alegre e assobiando “encoste tua cabecinha no meu ombro e chora!...”. Vitalina, morta de curiosidade, pergunta:<span style="font-family:verdana;"><br /></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span>- E aí, deu pra dormi?<span style="font-family:verdana;"><br /></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span>- Dei nada, dona Vitalina! Dormi assim mesmo! Aliás, dormi foi demais da conta, sá!<span style="font-family:verdana;"><br /></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span>- Mas os roncos do homem num atrapaiaro?<span style="font-family:verdana;"><br /></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span>- Nada! Ele não roncou nem um minuto. Nadica de nada!<span style="font-family:verdana;"><br /></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span>- Nepussive, sô! Quecocefez?<span style="font-family:verdana;"><br /></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style=""><span style="font-family:verdana;"> </span></span><span style="font-family:verdana;">- Bom, foi simples, uai! O sujeito já dormia, mal entrei no quarto. Aí, a primeira coisa que fiz foi me aproximar da cama dele e beijar sua bunda dizendo: - "Boa noite, coisinha linda"... O sujeito passou a noite acordado, desconfiado, sentado na cama e me olhando assustado com o rabo do olho...</span></p><p face="verdana" style="margin: 0cm 0cm 0.0001pt; text-indent: 35.45pt; color: rgb(0, 0, 102);"><br /></p><p style="margin: 0cm 0cm 0.0001pt; text-indent: 35.45pt; color: rgb(0, 0, 102);font-family:verdana;"><span style="font-size:78%;"><span style="font-size:78%;">(Este causo foi, com a devida autorização, surrupiado e adaptado do</span><a href="http://loucurasedevaneios.blogspot.com/"><span style="font-size:85%;">http://loucurasedevaneios.blogspot.com/</span></a> <span style="font-size:78%;">)</span></span><br /></p> <p class="MsoNormal"><o:p> </o:p></p><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-2374501402515393770?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com5tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-49458453480045001372009-04-03T08:20:00.000-03:002009-04-03T08:23:02.450-03:00De Maníaco e de Louco...<span style="font-family:verdana;color:#330000;"> <strong><span style="font-size:180%;color:#ff6600;">N</span></strong>a pacata Santa Maria do Tabuí, onde nada acontecia, um dos seus habitantes resolveu virar maníaco. Mas não um maniacozinho qualquer não. Era maníaco de matar. Matar na base do cacete. Sua tara era contra os bêbados da cidade. Bêbado tretou, relou, tava no pau. Maníaco dava a paulada e esperava prazeroso a careta do quase defunto para dar risada. Mas tudo na moita, debaixo dum quieto. Crime perfeito.<br />Primeiro bêbado apagado, o maníaco encafuou-o no porão escuro da igreja do Padre Anacleto, que ficava bem perto do rio Sorongo. O segundo, mesma coisa, um dia depois. O terceiro também.<br />Foi aí que os bêbados da cidade, em reunião de sindicato, após descobrirem o sumiço dos três colegas, confabularam, confabularam e resolveram maneirar a mão dando um tempo à cachaça. A partir daquele dia Tabuí não tinha mais bêbado. Ninguém nem agüentava mais o cheiro da canjebrina. Davam até vômito se vissem, mesmo que fosse de longe, um litro da Providência, a preferida de todos.<br />Enquanto isso, o maníaco lá do começo da história, já com três defuntos armazenados, estava meio preocupado, - maníaco também tem suas preocupações -, sem saber o que fazer com tanto presunto. Mas como ele só era maníaco e não era bobo, arranjou uma solução fácil, fácil. Chamou Dejalma. O doido da cidade.<br />- Dejalma, tem uns bêbados ali. Vamo carregá eles e jogá no rio pra curarem a bebedeira?!... Vamo que depois te dô uns trocado!<br />Dejalma foi. Plena madrugada, pegou os defuntos, cada qual mais fedido que o outro e pinchou tudo no rio.<br />Pensando que a brincadeira continuava, voltou a procurar outro bêbado mas não achou mais nenhum. Ficou embaixo da escada da igreja esperando aparecer o home que prometera os trocados, conforme o combinado. Mas o maníaco tinha, bem misturadas numa lata, urina e fezes. Lá do alto da escada despejou toda aquela gororoba na cabeça do doido do Dejalma. Este, apavorado com a fedentina, caiu no mundo, sem nem olhar de onde vinha aquela chuva mais que de repente.<br />Quando a cidade achou os corpos dos três bêbados boiando no rio, foi um bafafá danado. Quem-foi, quem-não-foi, meu-Deus-do-céu e por aí adiante.<br />O delegado, sem nenhuma testemunha, não sabia a quem apelar. Até que a boataria chegou no ouvido do Dejalma.<br />- Sô delega! Otro dia eu pinchei treis bebo no rio pr'ês tomá banho!...<br />O maluco terminou a frase com uma risadona, daquelas de doido varrido. E o delegado, querendo mais informações, passa a especular o Dejalma de tudo quanto é forma, com todo tipo de questionamento. Até que perguntou:<br />- Que dia foi isso Dejalma?<br />O nosso simpático doido pensou, pensou, deu mais umas gaitadas, mas só conseguiu se lembrar de uma coisa. E simplesmente respondeu:<br />- Foi naquele dia que choveu merda! <br /> </span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-4945845348004500137?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com0tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-70798657797628496992009-03-24T21:37:00.002-03:002009-03-27T21:32:15.509-03:00Conversa de Banheiro<span style="font-family:verdana;color:#333300;"><strong><span style="font-size:180%;color:#cc0000;">Z</span></strong>aqueu pegou malinha e marmita com frango e farofa e se mandou para Belzonte. Carona em caminhão boiadeiro. Chegando à capital, procura a rodoviária para deixar a malinha, - pois que a matula já acabara -, a fim de sair pela cidade à procura de emprego. Sente umas coisas na barriga e calcula é efeito da matula. Resolve dar uma aliviada antes de se aventurar pelas ruas daquela cidade desprovida de matinho. O revertério aumenta até que ele acha um banheiro, onde entra afobado e suando frio, quase sem tempo de descer a calça. Assim que começa o serviço, ouve alguém perguntar:<br />- E aí, tudo bem?<br />Zaqueu arregala o olho, olha para cima, olha pra baixo, olha de lado e, logicamente, não vê ninguém. Tava sozinho na “casinha”, com certeza. Mesmo assim, com medo do ridículo, mas para não parecer deseducado, responde inseguro um “tudo bem, uai...”.<br />- O que você tá fazendo agora?<br />O Zaqueu foi ficando sem jeito com a situação. Pensou e picisa perguntá? Calças arriadas, sentado no trono e tendo que responder a perguntas sabe-se lá de quem. Cruzcredo! Será que achara um conhecido por ali? Justo naquela hora, com o barro escorrendo feito água?... Mesmo assim, como era homem educado, responde “óia, tô aqui cagano agora e...”. O outro, apressadinho, nem espera pela resposta completa e casca outra pergunta:<br />- Ah é, é?... E a família, vai bem?<br />O revertério na barriga do Zaqueu tava dos mais complicados. A pergunta veio logo na hora em que ele se encolhia com a cólica enquanto, sem precisar força, o barro, farto, descia a jato, respingando água no traseiro. Fiofó ardia de quentura. Respondeu na marra “vai!”, junto com um gemido prolongado e choroso enquanto soletrava os versos de uma trovinha escrita a lápis, na porta do banheiro, bem à altura dos seus olhos cheios d’água: Sentado aqui neste trono, / Me dá uma tristeza profunda / Vendo a coisa bater na água / E a água bater-me na... canela.<br />E Zaqueu pensava “quem será esse home?... Será que é meu conhecido?... Será que tá me veno?...”. Mas logo veio a resposta às suas dúvidas. O indivíduo parece que tinha um alto-falante na boca. E disse bem alto:<br />- Olha, aqui ao meu lado tem um cara cagando que me responde a cada pergunta que te faço. Vou desligar, tá bom? Um abraço!<br />Zaqueu ainda não conhecia o tal do telefone celular, do qual pode se falar com o mundo, até quando se senta no trono.<br /></span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-7079865779762849699?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com6tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-87918827446817112162009-03-14T20:20:00.003-03:002009-03-14T20:32:35.126-03:00E o padre ficou no preju<span style="font-family:verdana;color:#333300;"> <strong><span style="font-size:180%;color:#cc0000;">P</span></strong>adre Anacleto tirou férias. Pro batizado do domingo, bispo mandou lá um padre itinerante, desses que não se adaptam a lugar nenhum e que, quando arrumam uma oportunidade de ganhar um trocado, não gostam de perdê-la.<br />Por outro lado, o Toinzin Sossego, quando achava jeito de economizar trocado, ganho com tanto suor, fincava pé, perigava perder sangue, mas não botava a mão na algibeira. Pois bem. Toinzin, a mulher, os padrinhos e madrinhas se mandaram pra cidade. Batizar o Galileu que andava mal das pernas.<br />- Carece batizá o minino, Sossego. Pode ficá pagão não!<br />Isso era Malvina, com medo do menino morrer antes da hora.<br />Padre cascou o batismo no Galileu em questão de segundos e encarou guloso os olhos do Sossego.<br />- São vinte reais, senhor Antonio! É o preço do batizado!<br />O Sossego quase ficou sem fôlego, depois de ter perdido as cores. Pensou em quatro dias de capina, no cabo da enxada, de sol a sol, a cinco reais o dia. Arrependeu-se de não ter tentado chegar a padre.<br />- Sô vigaro, é que tô meio desprivinido!...<br />- Veja aí, senhor Antonio, os seus compadres e comadres...<br />- Dá não padre, tão tudo pió do que eu...<br />Sossego já tava pensando eu vou ter que deixar o menino como garantia... O padre piscava miudinho, pensando, preocupado, em como garantir aquela grana no bolso.<br />- Mas o senhor não tem alguém na cidade, um parente, um amigo, a quem pedir emprestado? Ou alguém a quem eu possa mandar a conta?<br />- Óia, padre, tê, até que tenho. Duas parente, mas as duas disgarrada. S’extraviaro...<br />- Como? Extraviaram-se?<br />- É, padre. Uma virô prostitute e a ota virô freira. As duas tão aí. Uma no cabaré, só ganhano pro gasto e a outra no convento, sem tê o que gastá.<br />- Mas, senhor Antonio, extraviada? Sua irmã? Freira é esposa de Cristo, senhor Antonio!<br />- Ah, bão, padre! Intão, inda bem! Se ela é esposa de Cristo, tamo resorvido. O sinhô bota o batizado do Galileu na conta do meu cunhado, qui é seu chefe... Inté!</span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-8791882744681711216?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com5tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-15783201357646546382009-03-01T19:55:00.002-03:002009-03-01T20:16:45.052-03:00Traição à mineira<span style="color:#330099;">- <strong><span style="font-size:180%;color:#cc6600;">C</span></strong>arzeduardo, sua muié tá traino ocê, sô!<br />Foi assim que começou o papo do Toinzim com o amigo, cheio de dedos para dar a triste notícia. Carlos Eduardo engole em seco, dá uma respirada profunda e, como marido é o último a acreditar, duvida.<br />- Magina, sô! Ela é muié séria, num faz isso não!...<br />- Pois né não, sô! E sabe com quem é? É cu’Ocride... Seu cumpade. Cê sai pra trabaiá, ele chega, ela fecha a casa e os dois fica funzungano duas, treis hora!...<br />- Num pode, Toinzim, ela num tem corage prisso não!<br />- Pois tem, Carzeduardo! Fica de butuca quiocê vai vê a pocavergonha dos dois!<br />Aí o Carlos não teve outra solução a não ser montar guarda. Fez que foi, mas não foi e ficou dentro do guarda-roupa, de butuca, vendo o movimento pelo buraco da porta empenada.<br />- Ahhh, Toinzim! Cê nem magina cumé qui foi feia a coisa, sô! Que trem triste, nó!!! Niqui ele tirô a brusa dela, os peito caiu e apareceu a cabilera nos suvaco!... Tirô a carcinha carçona, caiu a barriga e a bunda dispencô. Tiro as meia, apareceu a cabilera das perna c’aquele monte de variz nas coxa... Toinzim, foi o maior vexame qu’ieu já passei, sô! Lá de den’do guarda-roupa, recurso foi tapá o zóio cu’as mão pra num vê mais aquelas coisa escandalosa... Ai, Toinzim, qui vergonha eu tô do cumpade Ocride, sô!!!...</span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-1578320135764654638?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com9tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-32845144850142705832009-03-01T19:26:00.002-03:002009-03-01T19:37:03.238-03:00Um político bem brasileiro<span style="color:#330033;"><strong><span style="font-size:180%;color:#993300;">G</span></strong>apito vivia no sertão de Tabuí. Roceiro mesmo. Escola passou longe. Mal conseguia juntar as letrinhas para formar algumas palavras. Trabalhador e teimoso com carestia da vida. Para quem perguntava se era da roça, vinha logo a resposta:<br />- "sô não, a roça é que é minha!" ou - "moro na roça não, moro ritirado dela umas vinte braça!".<br />E Gapito ia teimando, zunhando daqui e dali. Mãos calejadas, pele escurecida pelo sol, pés grossos e rachados facilitando a entrada de bicho de pé. Gapito adorava a coceirinha provocada pelo intrometido e deixava-o lá no pé se enchendo e coçando, e coçando...<br />Mas um dia Gapito desanima. Dava mais conta de viver da roça não. Era sofrimento demais trabalhar de sol a sol para ganhar uns minguados trocados enquanto lá no Tabuí os poucos que trabalhavam o faziam à sombra e sem muito esforço. Juntou a muquiça que tinha, a mulher, os três filhos, uns porquinhos magros e umas galinhas cambetas, uma cabra pra dar leite pros moleques, um cavalinho manqüeba, um punhado de milho, um saco de arroz, meio de feijão, uma dúzia de rapaduras e um litro de pinga. E se mandou pra Tabuí.<br />E não é que a vida ficou mais apertada? Negócio foi vender as galinhas. Escreveu uma plaquinha que pregou na porta do seu barraco: "VENDEM-SE GALINHAS". Povo entendeu o aviso. As galinhas foram todas passadas nos cobres. No aperto seguinte foi a vez dos porcos: "VENDO LINGISSA". A lingüiça do Gapito ficou famosa em Tabuí e foi através dela que ele começou a se tornar popular na cidade, ainda mais porque tinha a conversa solta. Falava mais do que o homem da cobra. Mas os porquinhos foram acabando e, logicamente, começou a faltar matéria-prima para fazer as suas famosas "lingissas". Negócio foi vender a cabra, juntar mais uns trocados e comprar uma charrete velha. Gapito era homem jeitoso. Logo logo arrumou a charrete que ficou como nova. Atrás dela escreveu: "CAROSSA DE ALUGEL". Daí pra frente não tinha quem não conhecesse o Gapito na cidade. Serviço pra sua "carossa de alugel" não faltava e ele sempre defendia um dinheirinho no final de cada dia. Todo mundo via o esforço dele e ele, embora pobre, passou a ser bem visto até pelos menos pobres. Ninguém olhava pra ele com o ar desconfiado e superioso mais não.<br />Mas o nosso herói logo descobriu que o negócio de aluguel de carroça não era lá essas coisas não. Dia dava, dia não dava. E resolveu juntar a esse negócio um outro. Montou barbearia. Comprou tesoura, cadeira, um espelhinho e uma navalha e foi aprender na cabeça alheia cobrando barato. Logo mais uma plaquinha apareceu na frente do lote do Gapito: "FAÇUME DE BARBA, CURTUME DE CABELO E APARUME DE BIGODE". Pregado na parede da sua sala que funcionava como barbearia, uma frase toda colorida e enfeitada que ele encontrou num almanaque de capivarol: "Cana na roça dá pinga e pinga na cidade dá cana!" Isso era sempre um lembrete para ele e pra freguesia nunca exagerarem na hora de tirar a poeira da goela.<br />Um dia Gapito resolveu que ia melhorar mais ainda de vida. Já que era tão conhecido na cidade, tão popular, porque não tentar outra coisa? Decidiu ser vereador. Conversou uns amigos, uns conhecidos, aconselhou-se com padre Anacleto, pediu apoio do prefeito, fez uns discursos caprichados nalguns botecos, dobrou a língua fazendo outros nuns comícios e virou vereador. Um dos mais votados da cidade. Gapito tava cada vez mais vivo. Todo mundo gostava de conversar com ele, até para ouvir as pataquadas que falava e que ele, como vereador, nem se preocupava em corrigir. Falava como sempre falou na roça, sem nenhum ligamento para as regras da gramática.<br />Gapito descobriu que, estando na política, podia até largar um pouco sua "carossa de alugel" e sua barbearia. Ganhava o salariozinho de vereador e já tava bom demais. Melhorou mais ainda quando foi escolhido pela edilidade o presidente da Câmara Municipal. Era o máximo. Vendeu sua "carossa" e os "trens" da barbearia e deixou o poder subir à cabeça. Começou a descobrir maneiras de fazer tramóias e sempre entrava um dinheirinho a mais no bolso por meios reversos. Empregou na prefeitura a mulher, uns parentes e uns cabos eleitorais. Ele e o prefeito passaram a ser unha e carne. Deu um jeito de comprar, através da Câmara, um carro novinho, novinho e mandou fazer placa especial de cor preta: "PODER LESGISLATIVO MUNICIPAL - PRESIDENTE - Nº 1". E povinho de Tabuí, bom pagador de impostos, começou a falar mal de Gapito. Colegas edis também. E ele, como vingança, passou a deixar de fazer as reuniões semanais dos vereadores.<br />- Bobage, gente! Quarqué coisa eu resorvo! Riunião é perda de tempo! É mais mió a gente vê novela!<br />Apareceu um cabo eleitoral lá da roça. Queria emprego para a filha. Moça prendada, bonitinha, educada, mas muito vergonhosa.<br />- Dexa cumigo que eu resorvo. Pode ir embora, mas dexa a moça aqui.<br />Gapito levou a moça para casa. Passou a dar-lhe do bom e do melhor e a andar pra baixo e pra cima com ela no seu carrão novinho. Povinho passou a desconfiar daquela história. Todo mundo de butuca, esperando os acontecimentos. Mulher do Gapito não tirava a pulga de trás da orelha, mas não dava nenhum palpite. Só que passou a refugar o seu homem na cama. E o negócio passou a pegar mal mesmo foi quando ele quis empregar a moça no seu gabinete.<br />- Mas, nobre vereador, todo mundo tá falano mal, dizeno que tem treta aí, a moça não sabe fazê serviço de escritório...<br />- Antão tá bão! Bota ela como professora na escola da prefeitura!<br />- Mas, nobre vereador, a moça num sabe lê e nem escrevê! Cumé que faiz?<br />- Tá bão! Tá bão! Intão... Faz seguinte: aposenta a moça, dexa ela por minha conta e aí a gente resorve de um vez dois pobrema!<br />Foi por essa época que aconteceu outro fato curioso na vida do Gapito. Ele, depois de tanto ganhar um dinheirinho extra, resolveu melhorar sua casa. Virou um luxo a casa do homem. Na hora de pagar a conta, o seu secretário da Câmara foi fazer o cheque, já que Gapito não era muito chegado em escrever nesses documentos e em nenhum outro. Sessenta mil.<br />- Nobre vereador, sessenta é com esse ou com cê cedilha?<br />- E eu sei? Faz seguinte, pra num cumpricá as coisa, faz dois de trinta e tamo resorvido!<br />Nessa época também ele resolveu comprar um touro para dar de presente prum seu compadre fazendeiro. Touro do melhor, raçudo e metedor. Mandou o secretário dar jeito de pagar o bicho com verba da câmara ou da prefeitura.<br />- Mas, nobre vereador senhor Agapito em que rubrica devo colocar essa despesa? Não tem jeito não!<br />- Tem. Cê se vira! Eu te pago pra isso!<br />O secretário passa uns dias tentando descobrir onde esconder essa falcatrua e não consegue. Touro era muito difícil pagar com dinheiro do povo. Volta no chefe.<br />- Ó sô Gapito, tem jeito memo não, viu! O negócio do touro num tá dano pra iscondê. Até o prefeito tá assustado!<br />Gapito pensou, pensou... Craniou, craniou... E descobriu na hora uma solução:<br />- Já sei! E tá resorvido! Num quero sim e nem não! Bota o touro na conta da Secretaria do Tourismo e pronto! Tamo cunversado!<br />E a Câmara Municipal passava meses sem reunião. Foi aí que, depois de cinco meses e em meio a tantas maracutaias, o povo e os do outro lado pressionaram tanto que Gapito teve que marcar uma reunião. No dia certo tava todo mundo da vereança lá. Salão lotado de povo. Gapito doido para arrumar desculpa e acabar com a festa. Todo mundo tinha coisas de que acusar Gapito e o senhor prefeito mas ninguém queria ser o primeiro a falar. Silêncio sepulcral. Um vereador olhando pras paredes, outro pro teto, outros cochilando com um olho só, como se aquilo não fosse com eles. Aí Gapito aproveitou a deixa. Como se estivesse puto da vida, deu um murro na mesa, quase desmontando a coitada, e gritou do alto de sua autoridade:<br />- Óia aqui ô cambada de fedaputa! Riuni nóis riunói, parpitá qui é bão ceis num parpiteia, eu pego e sungo a sessão!<br />E sungou mesmo. Tabuí ia passar mais uma boa temporada sem reunião da edilidade.<br /> </span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-3284514485014270583?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com1tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-87580385234427548152009-02-15T16:43:00.002-03:002009-02-15T16:53:06.408-03:00Bate-papo no boteco<span style="color:#330099;"><strong><span style="font-size:180%;color:#993300;">O</span></strong>s dois mineiros, ambos chateados – não, chateados não! – putos da vida com suas mulheres, cada qual por motivos vários, se encontram no boteco do Vadico, no centro de Tabuí.<br />- Ó cumpade, muié é o bicho mais estranho que cunheço! Cê num acha que é mêsss?<br />- É, sô!... É mêsss!... Num gosta de pescá!...<br />- E num é que é? Num gosta de caçá!...<br />- Nem de futibor, uai!<br />- A pois, e num gosta tamém de contá piada!...<br />- Nem de tomá umas pinguinhas mode moiá a guela, né?<br />- Óia, cumpade, cê qué sabê? Se num tivesse aquele trem que nóis gosta, eu nem cumprimentava!</span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-8758038523442754815?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com10tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-31684877874583204082009-02-15T16:15:00.004-03:002009-02-15T17:34:15.554-03:00Podela... É o troço!<div align="left"><span style="color:#330033;"><strong><span style="font-size:180%;color:#cc0000;">E</span></strong>m Tabuí, certa ocasião, havia um armazenzim cujo dono, o seu Zé Biriba, se gabava de ter tudo, qualquer coisa que se pedia no balcão. Se não tinha, fazia questão de encomendar a qualquer custo, só para atender o cliente. Com isso, a fama do estabelecimento corria pela região e vinha gente de toda parte procurar coisas que não se achava nem na capital da emigê.<br />Sabendo disso, um paulista, daqueles bem folgados, que estava passando as férias pelas Minas, decidiu conhecer o tal Zé Biriba do armazém. Chegando lá, pediu uma coisa bem difícil, uma barra de direção para sua pick up importada. O Biriba foi lá no fundo, caçou, caçou e, passou nem dois minutos, voltou com a tal peça.<br />O paulista, espantado, pensou:<br />- Não é possível que esse cara tenha tudo aí, vou tirar um barato da cara dele. Voltou para o hotel e ficou a noite toda pensando em como iria pegar o cara da venda. Pensou bem e no outro dia foi até o armazém e pediu:<br />- O Zé, você tem podela?<br />- Ãhn! Podela?<br />O Zé Biriba olhou espantado, coçou a cabeça, craniou, craniou e falou pros seus botões: "Podela? Que diabo é isso? Nunca ouvi falá nesse troço... E agora? Se eu num atendo esse cara aí, todo metido, meu estabelecimento vai perder a fama e os criente vai sumir! Oquecofaço?”<br />Pensou mais um pouco, coçou a cabeça, suou frio, ficou desinquieto, foi lá fundo, voltou e disse ao paulista:<br />- Óia aqui, ó: tá em farta, mas vou encomendá e amanhã cedo o senhô passa aqui e pega. É dez o quilo.<br />O paulista, meio desconsertado com a resposta do Biriba, voltou pra pensão pensando: O que será que esse mineiro vai achar com esse nome?<br />O mineiro Biriba fez de tudo, ligou pros seus fornecedores lá de Bambuí, de Bel’Zonte e até de Tapiraí, mas ninguém fazia nem idéia do que seria aquele trem. Foi aí que veio aquela coisa no pensamento e ele percebeu que o paulista tava era de sacanagem. Decidiu dar o troco.<br />No almoço daquele dia, o Zé comeu uma bruta feijoada. À noite não deu outra. Foi ao banheiro e prrrrrrrruhhhh. Fez aquele trem enorme e fedorento. Pegou o troço com uma pazinha e botou no forno por umas 3 horas até que virasse uma pedra bem dura. Aí, colocou tudo na maquininha de moer carne, embalou e deixou em cima do balcão com a devida identificação.<br />No dia seguinte chega o paulista todo imponente, com um sorriso no rosto e, já esboçando um ar de vitória, disse:<br />- Conseguiu encontrar minha encomenda?<br />- Craro, uai!... - Disse o mineiro, mostrando o saquinho no balcão.<br />O paulista então pediu:<br />- Quero quilo e meio!<br />- Tão aqui, sô! É quinze mango!<br />Então, o paulista, curioso, pegou um bocado do pó com dois dedos e experimentou uma pitada. Pediu uma colher, encheu e mandou ver, tentando descobrir o que era aquilo com aquele gosto estranho.<br />- Mas isto aqui é bosta!<br />O Zé Biriba riu amarelo e disse:<br />- Não! É não, sô! Isso é o pó dela.<br /></span><br /><span style="font-size:78%;">(Este causo foi, com a devida autorização, surrupiado e adaptado do</span> <a href="http://loucurasedevaneios.blogspot.com/"><span style="font-size:85%;">http://loucurasedevaneios.blogspot.com/</span></a> <span style="font-size:78%;">)</span></div><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-3168487787458320408?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-80943027399449659092009-02-12T10:10:00.002-02:002009-02-12T10:15:25.489-02:00Mulher pelada não compra pinga<span style="font-family:verdana;color:#003333;"><strong><span style="font-size:180%;color:#cc6600;">E</span></strong>sta aconteceu ali bem perto da casa amarela que é onde moram as três mulheres “de vida fácil” de Tabuí. Foi no boteco do Zé Mineiro. Chega uma mulher nua e pede cachaça.<br />O Zé, com medo de a sua cara-metade ver aquela encrenca, fica aturdido e espantado, mas, mesmo assim, debruça-se sobre os caixotes que serviam de balcão e observa a visitante, prestando muita atenção nos detalhes.<br />Aí a mulher pede mais cachaça. Ele, outra vez, debruça-se sobre os caixotes, meio na dúvida, cheio de pontos de interrogação.<br />- Cê nunca viu muié pelada não, é?<br />- Uai, sá!... Já vi sim, senhora!<br />- Intão pra quê qui tá assustado?<br />- É qui eu tô quereno é sabê dondé quiocê vai tirá o dinheiro pra me pagá as pinga, uai!</span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-8094302739944965909?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com9tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-1803745858420155112009-02-03T22:00:00.004-02:002009-02-03T23:19:54.203-02:00Documento trocado<span style="font-family:verdana;color:#003333;"><span style="font-size:180%;color:#ff6600;"><strong><a href="http://4.bp.blogspot.com/_8pu-W950VvM/SYjd6R4EqCI/AAAAAAAAAkc/CLnCkcLl7Ek/s1600-h/ling%C3%BCi%C3%A7a2.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5298728954902128674" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 62px; CURSOR: hand; HEIGHT: 85px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_8pu-W950VvM/SYjd6R4EqCI/AAAAAAAAAkc/CLnCkcLl7Ek/s200/ling%C3%BCi%C3%A7a2.jpg" border="0" /></a>C</strong></span><span style="color:#003333;">irino tinha a fama de ser o maior pé inchado de Tabuí. Bebia para esquecer que bebia. Mas, como era um bom papo, fazia muitos amigos nas suas noites de bebedeira. Dizem que a dupla Cirino e Aruerinha foi a mais famosa na história boêmia da cidade. Os dois conversavam e bebiam muito, cantavam bem e até arranhavam um violão. Numa tarde de sábado, Cirino, como sabia que teria uma noite longa pela frente, passou no açougue Vaca Profana e comprou dois palmos de lingüiça e enfiou aquilo no bolso. Encontrou o Aruerinha e foram encher a cara. Naquela noite ajudaram a fechar vários botecos e biroscas.<br />Quando não tinham mais aonde ir, resolveram fazer serenata. Cantaram Acorda Amor na casa paroquial, o Hino Nacional na prefeitura, O Ébrio na casa do Pandiá e assim por diante. Chega certa hora, dá no Cirino uma vontade louca de verter água.<br />- Ô Aruerinha, hic! Segura aí o meu violão!<br />E Cirino encosta-se a um poste sem luz e faz os preparativos para o serviço. Só que – detalhe - o bolso, aquele onde ele tinha colocado a lingüiça, estava furado. E Cirino, no lugar de pegar o dito-cujo, pegou a lingüiça e se aliviou demoradamente. Mesmo tonto, notou que a calça ficara toda molhada. Solução foi chamar o amigo e falar com preocupação:<br />- Corre aqui, Aruerinha. Tem pobrema. Hic! Acho que meu saco tá furado!<br />Aruerinha colocou com dificuldade os dois violões no chão, acendeu com muito custo um isqueiro e foi examinar o documento de Cirino. Olhou, olhou e deu seu veredito, falando enrolado:<br />- Ó, Cirino, hic, hic! Negoço é que tem uma paia amarrada na ponta dele. Como ocê forçô muito pra uriná, a urina vortô e derramô pelo ladrão. Acho que num tem gravidade não, hic! Ele só tá é muito vermeio!...</span><a name="quem"></a><span style="color:#003333;"> Hic, hic!!!</span></span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-180374585842015511?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com10tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-38795427533820879222009-01-30T11:39:00.001-02:002009-01-30T11:41:16.318-02:00A pesca no Sorongo<span style="color:#663333;"><span style="font-family:verdana;"><strong><span style="font-size:180%;color:#ff9900;">D</span></strong>itão e Toinzin saem de Tabuí no meio da tarde pra pescar no Sorongo. Antes de montarem cada um na sua bicicleta – que lá eles chamam de “magrela” - resolvem conferir a trenheira que tão levando.<br />- Uai, cumpade Toinzin, pra mode quê ocê tá levano duas capanga?<br />- Uai, cumpade Ditão, é que tô levano uma piguinha aí, sô! Tá bem amoitada, junto cuns papel, mode ficá bem iscundida!...<br />- Mas, cumpadi, nóis num tinha cumbinado num bebê mais nas nossas pescaria? É pirigoso dimais da conta, uai!<br />- Mas, sô! Óia aqui, ó: e vai que aparece uma cobra e pica a gente, heim! Já pensô nisso? E qual é o remédio mais mió pra disinfetamento de mordidura de cobra? Cê num sabe que é pinga, cumpade Ditão?<br />- Sei, mas e o quico?<br />- O quico? O quico é que nóis disinfeta com a pinga e toma umas talagada pra num sinti muita dô, uai!<br />- Ah, bão, cumpade Toinzin! Cê pensô bem, sô! E na ôta capanga, quequitem?<br />- Uai, cumpade Tonhão, é uma jararaca! Pode num tê cobra no disgramado do Sorongo hoje, né? </span></span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-3879542753382087922?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-65979008068258627082009-01-24T11:17:00.001-02:002009-01-24T11:30:16.681-02:00A Mulher Que Queria Ser Viúva<span style="font-family:verdana;color:#330000;"> <strong><span style="font-size:180%;color:#6600cc;">P</span></strong>refeito de Tabuí resolve construir um galpão para abrigar a feira da cidade. Contrata dois pedreiros e um servente e manda executarem o empreendimento. Já quase no final da obra, estão lá os três tirando as estacas que seguravam a laje quando o servente, o Raimundo Capeta, tem uma puta dor de barriga e corre pra privada lá no fundo do terreno. Os dois pedreiros continuam sua tarefa mas nem bem terminam de tirar o escoramento, o teto vem abaixo. Morrem os dois amassados pela laje mal feita.<br />Prefeito fica apertado. Medo de processo, de indenizações, etc. e tal. Resolve agradar às famílias dos mortos. Decreta luto no município por três dias e eleva os pedreiros à condição de heróis da cidade. Uma semana depois manda celebrar missa e convida o povo à Câmara Municipal para as condecorações “post mortem”. Faz discurso. Promete salário vitalício às viúvas , estudo e material escolar de graça para os filhos e até um tal de plano de saúde.<br />Povinho todo fica satisfeito com o prefeito e houve mulher que queria estar na pele daquelas viúvas. Até que a mulher do Raimundo Capeta não agüenta tanto sufocamento e solta o verbo enquanto tasca um beliscão na barriga do marido:<br />- E ocê, heim? Tinha que tá cagano naquela hora?<br /> </span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-6597900806825862708?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com9tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-87435680678389317232009-01-22T23:04:00.000-02:002009-01-22T23:05:48.366-02:00Perdido no Mundo<span style="font-family:verdana;color:#333300;"> <strong><span style="font-size:180%;color:#cc0000;">A</span></strong>ruerinha era doido por feijoada. Andava léguas e léguas quando corria notícia de uma, principalmente se fosse boca livre. Foi por isso que saiu de madrugada para a Fazenda Boi Atolado onde haveria entrega de folia de Reis. Na hora do almoço o sol tava de rachar. Mas Aruerinha não perdoou. Comeu cinco pratadas da sua comida predileta e tomou umas boas talagadas da água que passarinho não bebe. Tudo de graça. E caiu no mundo com a pança cheia. Queria chegar em casa, lá no Tabuí, antes de escurecer.<br />Só que Aruerinha, com aquele calor todo, suando em bicas, foi sentindo um empanzinamento, umas tonteiras, uma ruindade danada e teve que parar na sombra fresquinha duma pindaíba. Foi vindo aquela zonzeira estranha e o homem caiu no sono enquanto a feijoada seguia seu curso nas entranhas do Arueira.<br />Lá pelas tantas ele acorda. Tonto, deslocado no mundo, com os gases da feijoada fazendo efeito no intestino e pressionando o cérebro. Sem entender o que estava acontecendo, Aruerinha apela para um pessoal que estava passando e que também vinha da festa:<br />- Gente! Quem co sô? Oncotô? Poncovô?</span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-8743568067838931723?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-29974382211876450452009-01-17T11:42:00.002-02:002009-01-17T13:52:04.668-02:00Tem trololó na bitaca do Cirilo<div><span style="font-family:verdana;color:#333300;"><strong><span style="font-size:180%;color:#cc0000;"> B</span></strong>em no pé da serra do Urubu, onde o rio Sorongo é um fiozito <a href="http://1.bp.blogspot.com/_8pu-W950VvM/SXHkRLgJwbI/AAAAAAAAAhc/3HDgU6nhm9Q/s1600-h/Bambu.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5292262020933599666" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 92px; CURSOR: hand; HEIGHT: 123px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_8pu-W950VvM/SXHkRLgJwbI/AAAAAAAAAhc/3HDgU6nhm9Q/s200/Bambu.jpg" border="0" /></a>d’água, tem a estrada do Sapo, mais conhecida como Sapolândia. Numa curva, onde bambu era mato, ficava a venda do Cirilo. Na parede, um cartaz da Providência, a melhor cachaça da região, onde se lia, em bom Português: “cana na roça, dá pinga e pinga na cidade, dá cana”. Umas prateleiras de pranchões de sucupira recebiam a mercadoria mais miúda, empilhada com traquejo pela dona Rita. Lá no fundo, dois barris, cheios de querosene, - o combustível da roça -, e a balança pra pesar capado.<br />A maior atração da bitaca do Cirilo não era pinga não. Era a sinuca. Para caber a mesa grandona, o comerciante teve que espichar o cômodo da venda. E lá ficava ele, comandando a sinuca e vendendo rapadura pra um, pão sovado pra outro, prato esmaltado prum terceiro, pedaço de fumo para um quarto, enquanto enricava pegando um trocado daqui e outro dali, anotando tudo num caderninho onde tava escrito “dever de casa” e “Brasil, um país que vai pra frente”, dado por um programa do governo.<br />Chegava tardinha, antes do sol sumir, começava a juntar gente. Vizinhos, vaqueiros, peões, amigos, roceiros de tudo quanto é naipe, terminavam sua labuta diária e vinham bater ponto na venda do Cirilo. Uns para rezar o terço na igrejinha ao lado, comandados pela dona Rita, mas a maioria vinha era para jogar sinuca mesmo. Um Deus-nos-acuda. Prosório, risadas e a gritaria chegavam a atrapalhar as orações da turma da igrejinha. Naquela noite, o Tonico Vergina é quem ia puxar o terço. Brincando, conversando, fofocando, se ajoelharam, falando mal da vida alheia, se armaram do rosário e ficaram a postos para fazer o nome do Pai. Mas da cabeça do Tonico Vergina, não saia aquela moda de viola durante noites e noites tocada na vitrola do Cirilo, até afundar os sulcos do bolachão. A música começava com o refrão “Seriema do Mato Grosso, seu canto triste, me faz chorar...”. O nosso puxador de terço passava dias a pedaços de noite com esse refrão na cabeça. Foi por isso que, ao puxar o nome do Pai, no lugar de dizer as palavras de costume, o que saiu foi o refrão da moda de viola “çariema do Mato Grosso...”, enquanto se persignava. Aí o terço virou bagunça. As risadas não puderam ser contidas, nem com os psius e ameaças da dona Rita. O Tonico não sabia onde meter a cara e se persignava repetindo “perdão, meu Deus”, “perdão, meu Deus...”!<br />Terminada a reza, o povo começava a ralear, ficando só o pessoal da sinuca, revezando até a madrugada, enquanto o Cirilo, cansado e com sono, maldizia entre dentes “um dia indaacabo com a disgraça dessa sinuca. A merreca de lucro que ela me dá num há de fazê farta...”.<br />Naquela noite só ficaram os mais amigos do Cirilo. Resolveram aprontar. Esqueci de dizer que Cirilo era homem sistemático e brabo. Andava com faca na cintura e, enfiado num saco de farinha de mandioca, um revólver pronto para eventualidades, além de uma garrucha enferrujada, carregada, misturada com as lingüiças, penduradas no varal. Mais de 10 da noite, tarde demais da conta pro povo da roça, o Cirilo, como sempre, reclamando pros seus botões, se ajeitava em cima duns sacos de farinha, milho e açúcar, tirava as botinas espalhadeiras de chulé, e puxava o ronco, enquanto a turma continuava a jogatina. Quando viram que ele dormia a sono solto, apagaram o lampião e continuaram, no escuro, a fazer barulho, com bolas e tacos, conversando, rindo, soltando piadas. Até que um aprontou um escarcéu, borrifou cachaça em cima do dorminhoco e gritou ô Cirilo. O homem acordou, meio tonto, e, sem ver nada, naquela escuridão, foi logo perguntando, com a mão já segurando a peixeira:<br />- O quê? Oncotô?... O quê que foi, gente?<br />- Aí a moça procê atendê, Cirilo!<br />- Moça? Que moça, home?<br />- Aí no barcão, uai!<br />- No barcão? Num vejo nada, sô!<br />- Credo! Parece que tá cego! Tá inventano moda, home de Deus?<br />- Gente, num tô veno nada não! Devera! Juro por Deus! – gritou agoniado.<br />Da turma, uns riram, segurando-se, espremendo-se. Um deles, mais gaiato, todo romântico, falou:<br />- Cê num tá veno a lua lá fora, Cirilo? Tão bonita!...<br />Aí o vendeiro se desesperou mesmo.<br />- Gente! Tô cego!... Meu Deus do céu! Que será de mim e dos meus fio!?... Ô vida!...<br />Aí o povo não agüentou mais tanto estancamento. Foi risada pra todo lado, até que um desavisado resolveu acender um pito. Não deu outra. Cirilo descobriu a tramóia e o cacete comeu solto. Quando achou um isqueiro e acendeu o lampião, até encontrar a garrucha no meio da lingüiça, não tinha mais ninguém na venda. Todo mundo chispara, conhecendo a brabeza do homem.<br />Aquela foi um dia, em que a bitaca do Cirilo fechou antes da meia noite e ele pôde, após tanto tempo, no aconchego dos lençóis, chamar a dona Rita para um tête a tête, depois da raiva passada.</span></div><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-2997438221187645045?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com2tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-39055468724844024112009-01-17T11:35:00.002-02:002009-01-17T11:40:59.354-02:00Histórias do povinho de DeusFesta em Tabuí. Dia da padroeira Santana. Povão cotovelo com cotovelo na praça, frente da matriz. Todo mundo olhando prum lado só, chegando a ficar na ponta dos pés, ver se via na estradinha única da chegada e da saída algum sinal de poeira. Esperando senhor bispo dar os ares de sua graça na visita anual. Poerinha que vez ou outra aparecia na curva da estrada provocava frejo danado. Cada qual queria ser o primeiro a beijar a mão do homem santo, chegado de Deus. Vários alarmes falsos. Vários é... Vários não é...<br />Depois de tempão danado, povão suando suor grudento misturado com poeira, fedendo mais que subaco de aleijado, crianças berrando de fome, de calor e de agonia da espera, eis que apareceu uma poeirinha mais avantajada. Uma manchinha cada vez crescendo mais. É o homem!... É não!... É!... Não é!... Era.<br />Duas horas e um punhado de minutos de atraso e lá vem chegando a chimbica do homem santo, íntimo do Padre Eterno. Chimbica mesmo. Um fordinho que já naquela época, parecia peça de museu. Senhor bispo tinha perdido a cor avermelhada do rosto e o branco dos poucos cabelos que circulavam a careca. Todo bazé. Poeira quissó. Vinha sentado no banco de trás da chimbica, balançando as banhas, mãos cruzadas sobre a pança, dedos polegares circulando um sobre o outro pra cá e pra lá... Cara de poucos amigos, suando por tudo quanto é poro debaixo daquela negra batina também bazé de poeira. Olhinhos pequenininhos demonstrando sono, mas vermelhos e melecados de tanta poeira.<br />Assim que o chofer parou a chimbica no meio do povaréu e correu do outro lado para abrir a porta pro patrão bispo descer, o povão, aplaudindo e gritando vivas para o recém-chegado, abafou o homem de vez. Cada qual querendo tocar no homem santo, beijar-lhe a mão, dar-lhe tapinha nas costas. Enquanto o chofer guardava-lhe as retaguardas, ele discretamente empurrava um, beliscava outro, pisava no pé de outra, emitia comentários depreciativos pra mais outra, limpava na batina empoeirada as costas da mão melecada de beijos, e nome feio não parava de sair daquela boca de louvar a Deus. Povão mais afoito descobriu que o homem não estava para brincadeira não. Estava era a fim de brigar com quem lhe atravessasse o caminho. Arredamento geral.<br />Padre Anacleto leva a autoridade conterrânea à casa paroquial para um santo banho e um almocinho rápido onde ele trucidou só um prato de macarronada, um frango assado com farofa e meia panela de couve com angu antes de correr pra igreja. Mais de três horas de atraso para começar missa com casamento, crisma e batizado.<br />Igreja era um bafo só. Poeira, sovaqueira, xixi azedo, tudo contribuindo mais para o mau humor do bispo. Povinho de Deus tão apertadinho que nem podia olhar de lado. Se alguém tirasse o pé do lugar estava condenado a ver a cerimônia num pé só.<br />Três horas e meia de atraso começa a reza do senhor bispo.<br />- Dominus vobiscum!<br />- Articum ispritutu ô!...<br />Povinho maneiro danado de poliglota o de Tabuí. Respondia ao bispo na ponta da língua, como se entendesse tudo.<br />Chega a hora do casamento. Noivos e noivas, ansiosos que acabasse tudo aquilo a fim de chegar mais depressa na hora do vamos ver coisas. O senhor bispo começa umas instruções misturando língua pátria dele com dialeto do povinho de Tabuí. Sotaque brabo daquele santo homem das estranjas.<br />- Minha gente... benvenuti tuti vocês qüi nesta casa, a casa de Dio, onde tuti il mondo tranca a língua e não fala do vizinho. Aqui ninguém mete o pau no vizinho, nem in frente nem in trás. Aqui se ora...<br />E vai por aí a fora.<br />Chegando ao primeiro casal - logicamente aquele era um casamento comunitário - o bispo avisa pra noivinha espevitada, distraída, sonhando com o que ainda não aconteceu:<br />- Dona moça ripita comigo tudo qui voi parlare!...<br />- Sinhô?!...<br />- Parla comigo, va bene?<br />- Nhor?...<br />- Fala com eu, sua surda!<br />- Nhor sim!...<br />- Diga: Eu...<br />- O sinhô!...<br />- Sinhô não, sua burra!...<br />O homem tava ficando nervoso outra vez, todo vermelhão.<br />- Comicemos de novo novamente, porcamiseria! Diga: Eu...<br />- Eu... soltou a moça toda insegura.<br />- Ti recebo, meu amor!<br />- Tirei sebo, meu amô!...<br />- Ma che! Num é tirei sebo não, sua mula! É ti recebo! Parla, sua antona!...<br />Noivo nem sabia onde colocar a cara vendo todo mundo olhando pra sua imaculada noivinha. Toda vermelhinha, já com cara de inaugurada. Os outros casais num treme-treme danado, vontade de dar no pé, arrependidos de estarem ali para serem compromissados pela autoridade. E o casamento continua por aí a fora, com altos e baixos.<br />Aí chega a hora do sermão. Senhor bispo esquece um pouco a raiva de estar no meio do cheiro daquele povinho e resolve dar uns conselhos depois de ter lido uns pedaços da santa Bíblia.<br />- Minha gente!... Meu povo!... Triste do homem que vai per il camino da perdiçon...<br />Zé Brole fica com a pulga atrás da orelha e cutuca no Gerardantonha cochichando no ouvido:<br />- Ih sô! Escuta o home! Veja só o que o santidade tá ensinando!<br />- Meus irmãos!... O homo que vai per il camino da perdiçon por livre vontade está condenado al fogo eterno. Il camino da perdiçon é sempre il mais facile, il mais prazeroso, il mais curto... Mas é o que leva mais depressa a il fogo dos quintos dos infernos! Meus irmons! Sigam o camino mais longo, que exige mais sacrifícios, mas que leva à salvaçon. Fujam do caminho da perdiçon!...<br />Zé Brole e Gerardantonha cutucam um no outro, pegam cada qual seu chapéu, ficam de pé, indecisos, sem saber se vão ou se ficam. E quem estava por perto não pôde deixar de ouvir o primeiro perguntar pro segundo:<br />- Cê entedeu o mesmo que eu entendi? E agora, sô? Cumé que a gente vai pra casa?... Cumé que a gente vai pra Perdição? Ou a gente nem vai mais?<br />Negócio é que o senhor bispo, por desconhecer a geografia da região, ignorava que no sertão de Tabuí tem uma roça muito movimentada chamada Perdição.<div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-3905546872484402411?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-11532148635655864282008-12-30T16:41:00.003-02:002008-12-30T16:49:37.835-02:00Aos visitantes do Tabuí e seus Causos<div align="center"><span style="font-size:130%;color:#009900;">Que o ano de 2009 traga a cada um muitos motivos de alegria, muitos mais do que os deste ano que está terminando. Vamos fazer com que tristeza e chateação que, com certeza, virão, sejam superadas pelos alegrias que cada um terá.</span></div><div align="center"><span style="font-size:130%;color:#009900;">Da minha parte continuarei em Tabuí narrando uns causos que só acontecem por aqui, com este <em>povim danado de arteiro</em>.</span></div><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-1153214863565586428?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com4tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-83571589410396151772008-12-20T20:02:00.001-02:002008-12-20T20:19:07.009-02:00Um conto de Natal<span style="font-family:verdana;color:#003333;"><span style="font-size:180%;color:#33cc00;"><strong>A</strong></span> mulher ia, estrada a fora, no carrão importado. Asfalto novinho e pretinho. Chovia. De repente o estouro e o desequilíbrio do carro que sai catando cascalho da beira do barranco. Bate aqui, bate ali, até que pára, depois de entrar por uma estrada esburacada, de chão.Depois do susto, a mulher chora. Nervosa e trêmula, desce e vai ver o estrago. Um amassado aqui, outro ali, nada muito grave, a não ser o pneu estourado. Olha para baixo, olha para cima da estradinha. Ninguém aparece. Noite chegando. Bem que tenta trocar o pneu, mesmo tomando chuva. Força pouca. Traquejo nenhum. Desiste. O desespero toma conta dela, que entra no carro e se entrega ao pranto chorando mágoas passadas. Aí, lá da baixada, aparece o vulto. Um homem a cavalo. Vem chegando e vê que algo estranho acontecera com o carro. Pára. Desce calmamente do cavalo e bate no vidro. </span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">A mulher, remoendo medo e esperança, encara o homem. Alto, moreno, barba por fazer, roupa suja, mãos cheias de vincos provocados pelos calos... Ela abre apenas uma fresta no vidro.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Pode abri, moça! Carece tê medo não! A senhora qué ajuda? A mulher abanou a cabeça dizendo que sim.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Ondé que fica o pneu? </span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">Ela fez sinal que era lá atrás, no porta-malas, e acionou o botão. O homem pega o pneu, acha chave e macaco e começa a fazer a troca, adivinhando tudo, por não entender nada. Homem acostumado com cavalo e roça não entende muito dessas máquinas não. Foi por isso que o macaco, mal colocado, escapou, sujigando a mão esquerda dele contra uma pedra, fazendo-a sangrar. A mulher teve dó e, pesarosa, abriu a porta.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Tome aqui um lenço de papel! Limpe o sangue da mão!</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Não, moça! Podexá! </span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">E passou a mão na calça suja, limpando-a do sangue teimoso, dispensando o lenço de papel cor-de-rosa.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Moça! Pode entrá no carro! Fica aqui não! Tá choveno e tá frio! Lá dentro tá quentinho! Vai pra lá!...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">Foi aí que ela observou que o homem estava todo ensopado pela chuva e, conseqüentemente, tremia de frio. Ela entra no carro, abre um pouco mais o vidro e começa a procurar assunto.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Como é seu nome?</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- É Tarcísio, moça!</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- O senhor mora onde?</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- É bem perto onde moro, meia légua daqui! A mulher ficou sem saber se era longe ou perto. Observou o tempo, cada vez mais escuro. Noite chegando e a fome também.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Sou da capital, senhor Tarcísio! Resolvi viajar sozinha. Nunca tinha feito isso. Meu marido deixei lá... Nós brigamos... A mulher parou de falar. Tomada repentinamente pela emoção, os soluços tomaram-lhe as palavras. Vez por outra ela se acalmava, sua dor doía menos e continuava o seu desabafo. Parece que precisava contar para alguém a sua história. Foi assim que Tarcísio ficou sabendo que o marido tinha muito dinheiro e muitas posses. E Tarcísio viu que ele tinha também uma mulher muito bonita. E ficou sabendo que não eram felizes. O marido vivia mais fora de casa do que dentro, envolvido com negócios, com os amigos e com as amantes. E foram as amantes o principal motivo da briga, desta vez. Tarcísio só ouvia, até que terminou de trocar o pneu. A mulher convidou-o para entrar no carro. Queria conversar mais.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Não, moça, posso não! Tô sujo e intanguido de frio. Tenho que ir embora. A noite já chegô e minha mulher me espera!...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Sua mulher, senhor Tarcísio? O senhor é casado?</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Sim, moça! E muito bem casado, com a graça de Deus! E óia só como é o mundo. Enquanto a senhora foge do seu marido eu vô pra junto da minha mulher... Tem duas semanas que a gente tá longe um do outro... Tô morreno de saudades!... Eu tava trabalhando...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- O senhor faz o quê, senhor Tarcísio?</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Trabaio na roça, moça! Planto arroz, milho e feijão. No meio planto abóbora, quiabo, melancia... Na beirada planto batata doce, inhame e mandioca... Dá pra despesa!...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">A mulher entendeu que Tarcísio tinha pressa. Queria ir ver sua amada. Era noite de Natal.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Por que o senhor não deixa seu cavalo aí e vem comigo? Levo-o onde o senhor quiser!</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Não, moça! Depois do Natal, vorto pra a roça. E é nesse cavalinho que eu vou. Se ele ficá aqui, arrisco perdê o bichim...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Senhor Tarcísio, quero pagar pelo que o senhor me fez. Quanto lhe devo?</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Quanto deve? Nada não, moça! Não fiz isso por dinheiro!</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Mas, senhor Tarcísio, empatei mais de uma hora da sua vida! Se não fosse o senhor, eu estaria aqui, correndo risco de vida... Além do mais, o senhor até machucou a mão! Pode dizer o preço que eu pago!</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Não, moça! A senhora não tem que pagá nada! A gente, quando faz o bem, não deve pedir nada em troca. Só deve querer que o bem continue sendo feito, sem parar! É assim que penso, moça! A mulher tirou cinco notas de cem reais e ia entregá-las ao Tarcísio. Ele já tinha montado no cavalo.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Óia, moça! Faz o seguinte: se eu lhe fiz bem e a senhora gostô, passe o bem para a frente! Faça outra pessoa feliz! E tocou o cavalo, sumindo noite a dentro. Os olhos da mulher voltaram a ficar cheios de lágrimas. Não mais de tristeza. De emoção. Ela descobriu, ali naquele canto de mundo, vinda de um matuto sem estudos, de quem tivera medo no início, a maior lição de vida. Passar o bem para a frente...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Ah, se todo mundo fizesse assim!...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">E ligou o carro. Entrou no asfalto, disposta a achar um lugar onde comer alguma coisa. Rodou pouco e encontrou uma lanchonete de beira de estrada. Entrou e foi para uma mesa, com um monte de olhos de machos presos nela. Mulher tão distinta e tão bonita num lugar desses!... Uma garçonete veio atendê-la. Ela pensou: o que haverá de menos sujo por aqui? Um refrigerante talvez. E para comer? Uma fruta, decerto...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Quero um guaraná! Que fruta vocês têm?</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Fruta? É...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Sim, fruta! Já é tarde para comer outra coisa. Prefiro fruta!</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Olha, moça, aqui não tem fruta. Se a senhora esperar um pouquinho, tenho umas bananas. Moro bem ali, no fundo da lanchonete...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Isto! Isto mesmo que eu quero! Você busca para mim? Bananas com guaraná!...</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">A garçonete esboçou um sorriso simpático e foi atrás do pedido. Trouxe o guaraná e saiu para buscar as bananas. Aí foi que a mulher viu que a mocinha tinha certa dificuldade para andar. Andava devagar. Observou bem e descobriu o motivo. Gravidez. A garçonete deveria estar lá pelo oitavo mês de gravidez. Usava um vestido simples, coberto por um avental que disfarçava o tamanho da barriga. No rosto, um sorriso meigo e cativante era gentilmente distribuído a todos os que lhe dirigiam a palavra. A mulher ficou comovida observando a garçonete, cansada e grávida, naquela noite de Natal, atendendo com um sorriso a quantos lhe procuravam. Pensou que dificuldade teria na vida essa pobre moça para ter que se submeter, já no final da gravidez, a um trabalho desses. Perdeu até a fome. Quando a garçonete voltou, encontrou na mesa, debaixo do copo, ainda com um resto de guaraná, cinco notas de cem reais. E um bilhete, num lenço de papel cor-de-rosa: "Obrigada pelo atendimento. Fique com esse dinheiro. É uma ajuda para o seu bebê que está chegando. Seja feliz e faça outras pessoas felizes. Passe a felicidade para frente!" A platéia que, atenta, observava o que acontecia naquela mesa, saiu do suspense quando a moça abriu-se num sorriso largo. E, aos poucos, cada um foi procurando seu canto, sempre recebendo da futura mãe uma boa noite e um feliz Natal. A garçonete cria mentalmente inúmeros planos do que fazer com aquele dinheiro chegado em tão boa hora, quando mais necessitava, estando o filho por nascer. Enquanto isso, começa a cuidar dos tantos copos e pratos e talheres que ainda tem para recolher e lavar e enxugar... Mas para completar seu presente, o patrão também assumira o espírito natalino.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Deixe o trabalho para amanhã. Vá dormir. Feliz Natal!O quarto da moça era nos fundos da lanchonete. Ela sai feliz, sorrindo, sentindo-se leve, embora com tanto peso na barriga. Abre a porta devagarzinho, para não fazer barulho. Toma um banho e vai para a cama, pensando no dinheiro e no bilhete que a mulher deixara. Aquela mulher tivera uma inspiração divina para saber o quanto ela e o marido precisavam daquele dinheiro. Com os raios da luz que entra pela janela, olha embevecida para o rosto do marido. Moreno, barba por fazer. A mão esquerda, fora do cobertor, com um ferimento recente.A garçonete beija-o docemente e diz, num sussurro:</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Tudo vai ficar bem. Obrigada por me fazer feliz, meu amor! Eu te amo, Tarcísio!...</span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-8357158941039615177?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com13tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-51201681802635125962008-12-17T15:13:00.003-02:002008-12-20T19:59:15.420-02:00Natal e Ano NovoAos meus leitores, votos de um Natal de paz e carinho junto aos familiares e que 2009 seja melhor do que este ano. Tomara!<br /><br />Estou colocando hoje o meu Conto de Natal para ajudar a quem queira entrar no clima de festas de fim de ano. Leiam e façam seus comentários, por favor.<div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-5120168180263512596?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com6tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-74738323415312716482008-12-13T22:26:00.003-02:002008-12-13T22:32:34.507-02:00A Paixão de Cristo<span style="font-family:verdana;color:#003333;"><span style="font-size:180%;color:#ff0000;"><strong>L</strong></span>á em Tabuí se não houver encenação na Semana Santa, tem briga. É tradição. Tem que ter a encenação pro povo ver, chorar e se arrepender dos pecados. Os fiéis vêem de tudo quanto é canto para prestar sua homenagem ao Filho de Deus, colocar suas orações em dia e contar alguns pecados pro padre Anacleto, quando possível. Naquele ano o vigário resolveu convidar para fazer o papel de Cristo o Pedro Bode, conhecido de todos não pela fé, mas pelo gosto à Providência, a pinguinha da terra. Pedro foi confabular com o amigo Manuel:</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Óia, Manel! O padre acho que achou ieu com cara de santo, viu?</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">-É não, Pedro! É quiocê tem memo a cara de Cristo, cuessa barbicha e esse oio de peixe morto... Aí a encenação fica mais verdadeira, né?Este o papo dos dois amigos de golo no boteco conhecido como Copo Sujo, do Vadico. Ensaio que é bom, o Pedro Bode perdeu todos. Mas padre Anacleto não desistia nunca do artista convidado e de uma possível alma arrependida. Queria porque queria o Pedro e ponto final.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Manel, vamo faze o seguinte: eu vô mas ocê tem que í tamém.</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Í ondé, sô?</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Ieu vô sê Cristo, se ocê arranjá um papel tamém, uai!Mesmo golados, conseguiram arrumar com o padre Anacleto que o Manuel fosse um dos soldados que acompanhariam o Filho de Deus na subida ao Monte das Oliveiras. Manuel tentou escapulir de tudo quanto é jeito, mas não deu. Teve que apoiar o amigo.Às quinze horas da sexta-feira santa, tá o povão se acotovelando na praça da matriz, onde providenciaram um “Monte das Oliveiras”. Os dois amigos, morrendo de vergonha, totalmente sóbrios - já que os botecos estavam fechados - não conseguem entender como entraram naquela encalacrada. Silêncio total na praça. Pedro Bode já está crucificado e o soldado Manuel ao pé da cruz, suando frio e com dó do companheiro, com vontade de pedir-lhe perdão até pelos maus pensamentos. Foi aí que Manuel lembrou que, por dentro da cueca, tinha uma garrafinha de pinga para dar coragem. Deu um jeito de, sem que ninguém visse, escondendo atrás de um ou de outro, tomar um gole da cangebrina. Mas e o Pedro, - pensou ele -, cumé que faço para dar uma força prele?Foi nessa hora que Jesus Cristo, aliás, Pedro Bode, pediu água:</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Tenho sede!</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">O soldado Manuel não esperou segundo pedido. Pegou a esponja onde devia colocar água para representar o fel e despejou nela tudo o que restava na garrafinha e, com a lança, forçou-a contra a boca de Cristo. As beatas choravam, crianças arregalavam os olhos, pecadores se prostravam, etc. e tal, e o povão revoltado com a maldade do soldado, tamanha a realidade da encenação. Qual não foi a surpresa de todos quando toda a cidade ouviu pelo serviço de alto falante o Jesus, que parecia quase desfalecido, em alto brado:</span><br /><span style="font-family:verdana;color:#003333;">- Manel, ô Manel! Mais fel, Manel!!!... </span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-7473832341531271648?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com3tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-73445977467079903372008-11-29T20:18:00.001-02:002008-11-29T20:20:30.910-02:00Onde foi parar a peteca da noiva?<span style="font-family:verdana;color:#333399;"> <strong><span style="font-size:180%;color:#cc0000;">U</span></strong>m dia Bentão arranjou namorada. Gente de fora, pois que as da terra, se sérias fossem, dele fugiam. Não que fosse feio ou desarranjado. Não. Bentão até que era ajeitado, andava bem arrumado, trabalhava muito... Mas por que as moças de Tabuí não olhavam para ele com olhos de amor?<br />- Bentão é invicioneiro – dizia o povo.<br />E como o povo não inventa, só aumenta e quando o povo fala ou é, ou foi, ou será, o moço – dizia-se - era responsável por um monte de moças mal encaminhadas da cidade. Saiam um dia ou uma noite com ele, caiam na boca do povo, pois Bentão contava pra todo mundo muito mais do que não fez, mas disse que fez, do que o que fez. Aí passavam a ser olhadas com olhos tortos, as amigas se retraiam, as mães seguravam suas donzelas, apareciam conversas atravessadas e o diz-que-diz só aumentando. Por isso o cartaz de Bentão foi chegando a zero, com o moço ficando mais sujo que puleiro de pato. A ele, então, só sobravam as moças de fora, quando aparecia alguma na cidade e se engraçava pro seu lado. Foi quando surgiu a Manoela. Uma fortona, que não chegava a ser gorda, e compridona, bem maior que o Bentão. Loira, bela feição, bem vestida, moça pra lá de boa. Ia ser professora do grupo escolar. Gente fina e intelectual achou Bentão bonito e resolveu jogar um piscado pro lado dele, sem conhecer a fama do rapaz.<br />À piscadela, bem captada, Bentão já soltou aos quatro ventos:<br />- A professora tá apaixonada por mim e qué marcá encontro.<br />Após a conversa do primeiro encontro, à noitinha, no domingo, em plena praça, no banco do “Vaca Profana – o açougue dos amigos”, Bentão ficou apaixonado pela professora. Aí emudeceu, sufocando aquela boca fofoqueira.<br />- Minha boca é um túmbalo. Conto nada não, uai...<br />Ninguém imaginava que a paixão, quando chegasse, poria mudo o moço. Os amigos provocavam e nada. Até o dia em que Bentão apareceu de olho roxo e namoro terminado. A turma queria porque queria saber o motivo do quiprocó de qualquer jeito. Depois de insistência de vários dias, ele não agüentou e, sufocado, soltou o verbo.<br />- Eu tava jogando peteca com a minha noiva, no dia em que nós foi com as professora do grupo escolar fazer piquenique na fazenda do prefeito...<br />- Sim. E aí, Bentão?<br />- Aí todo mundo resolveu jogá peteca tamém. Apareceu peteca de tudo quanto é cor. E entre uma petecada e outra, eu mais minha noiva era um amasso aqui, outro ali, um beijinho pra cá, outro pra lá, e o negócio só ficando danado de bão. Eu, doido pra mexer na documentação da minha noiva, mas com medo de avançar demais da conta, só falei bem, vamo enchê a barriga de bebê hoje? Ela ficou toda sem jeito e, com aquela força que Deus deu, tascou um tapa tão forte na peteca, que a coisa foi cair lá no meio das vacas do prefeito...<br />- Marrapá, vai peidá n'água, vai! Até agora cê num falô do oio roxo, sô!<br />- Aí, menino, põe sentido, a gente procuramo aqui, procuramo ali e a peteca sumiu. Isalou. Veio mais gente ajudá. Era peteca de estimação, a da Manoela. Daí a pouco, todo o corpo docente do grupo escolar tava atrás da peteca de pena roxa da Manoela.<br />- A não, sô! Larga mão disso! Até agora cê tá enrolano a gente, home!<br />- Não, moço! Pêra aí, uai! De repente, olho pro traseiro duma vaca, uma holandesa bem fortona, peitaria arrastando pelo chão, e quem eu vejo, presa entre o rabo da dita-cuja e sua perseguida? Isso mesmo, a petequinha da Manoela tava debaixo do rabo da vaca do prefeito, bem escondidinha e apertadinha. Aí é que deu merda. Foi azá demais da conta, sô! Eu só fiz perguntar, com toda inocência do mundo, enquanto segurava o rabo da vaca, levantano o danado, pra mode sortá a peteca da minha Manoela daquele sufoco:<br />-Amô, essa aí é paricida com a sua, não é não?<br /> </span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-7344597746707990337?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com6tag:blogger.com,1999:blog-4009074886325791533.post-32350099219205785972008-11-22T22:05:00.001-02:002008-11-22T22:07:52.946-02:00Tabuí pega em armas para salvar o Chile<span style="font-family:verdana;color:#339999;"><strong><span style="font-size:180%;color:#996633;">É</span></strong>poca de revolução no Chile. As notícias que chegavam pela televisão e pelo rádio eram nada animadoras. Pelos jornais idem. Allende estava sendo massacrado e suas forças debandando. Foi quando começou a reação em Tabuí. Aristeu, Cozinho, Xulapa e Delei, no boteco, tomavam umas e outras e quase choraram ao ver uma gravação em que o Allende fazia um manifesto à nação. Aí resolveram que eram comunistas e que iriam ajudar o companheiro Allende.<br />- Gente, isso num pode tá aconteceno! Tadim do home!...<br />- É memo, Xulapa! O quecagente faiz?<br />O Cozinho que, pela aparência, era o menos bêbado dos quatro, arremata:<br />- Acho mais mió a gente i socorrê o home, gente!<br />- Mas, como, Cozinho? Esse país fica lá onde o vento incosta o cisco, sô!<br />- A gente vamo no jipe do Delei, uai!<br />Arranjaram duas espingardas de carregar pela boca, uma garrucha e um revólver, emprestados - os dois últimos sem munição - e nem foram em casa para as despedidas da famiage. Só deixaram recado no bar dizendo que iam salvar o companheiro lá no Chile. E se mandaram de jipe, das alterosas da Emigê rumo aos Andes, para enfrentar o exército chileno e resgatar o Allende, já encurralado no palácio presidencial.<br />Rodaram bem umas duas léguas, com o jipe engasgando nas subidas, derramando óleo e com os pneus carecas, até que chegaram no Abacaxi e contaram pro Fiíco o motivo da viagem. Ganharam mais um companheiro que ainda chamou o Manqüeba, - grande caçador de tico-tico com espingarda de chumbinho -, para colaborar na perigosa missão e aumentar o poder de fogo do grupo.<br />- Confofô, ieu vô... - disse o Manqüeba, arrematando - e tem golo?<br />Quase escurecendo, resolveram, antes da partida para a guerra, como ninguém era de ferro e aproveitando a sugestão do Manqüeba, fazer uma despedida no bar do Bigode. Juntaram duas mesas e vai o Bigode descer cerveja e cachaça e a fritar frango e lambari que os seis entornavam e comiam num piscar d'olhos. Beberam tanto que, tarde da noite, nem conseguiram sair do bar. Aterrissaram por ali, bem trancados pelo Bigode com medo de lhe passarem a perna e preocupado porque não havia ainda recebido a conta.<br />Quando acordam pelo meio da manhã, com ressaca braba e gosto de guarda-chuva velho na boca, demoram a entender o que faziam naquele lugar estranho. Aí lembram da missão, com desânimo... Vão pra beira de um rádio Semp e ouvem que o Allende havia se suicidado, segundo a versão oficial.<br />- Pronto, gente! Meu Deus do céu! Acabô nossa viage! O home morreu porque a gente ficamo fazeno hora e num cheguemo a tempo... Mardita bebida! - choramingou o Delei, com enjôo e a cabeça estalando de dor.<br />- Ô disgraça! E ieu, doido pra sê herói, quinem o Lampião, sô! Agora num vai dá mais... – constatou o Aristeu.<br />Os quatro voltaram pra Tabuí a pé, - gastando meio dia de caminhada -, frustrados, revoltados, tristes e chorosos, convencidos de que, não fosse a festa de despedida, chegariam a tempo de salvar o companheiro Allende e não teriam ficado sem a condução, pois que tiveram que deixar o jipe do Delei como garantia de que um dia pagariam a conta do Bigode.<br />- Mardito Bigode! Além de num intendê de patriotismo, comete a desumanidade de deixá a gente a pé!... – Reclamava o Xulapa, enquanto mancava, estrada a fora.<br /><br /> </span><div class="blogger-post-footer">Se você gostou, volte outras vezes.<img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4009074886325791533-3235009921920578597?l=tabui.blogspot.com'/></div>Eurico de Andradehttp://www.blogger.com/profile/02466058489914925328eurico2005@gmail.com20