tag:blogger.com,1999:blog-34440056176410602532009-06-11T04:43:16.872-03:00Escritor bom é escritor mortoÀs vezes penso que ainda nascerão bons escritores, novamente, pelo mundo afora. Mas, infelizmente, ao que parece, cada fornada entregue pelas maternidades tem vindo pior que a outra...
Por esta razão, somente leio escritores que já morreram - há, pelo menos, cem anos. São os melhores.Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.comBlogger13125tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-71989357386891677322009-06-11T04:38:00.003-03:002009-06-11T04:43:16.879-03:00Despertar<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/SjC1hFByUMI/AAAAAAAAAKE/fdjVdDxueWk/s1600-h/despertar.jpg"><img style="cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/SjC1hFByUMI/AAAAAAAAAKE/fdjVdDxueWk/s320/despertar.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5345972337578758338" border="0" /></a><br /><span style="text-decoration: underline;"><br /></span>Só depois lembrei do hospital. Bem depois. E foi lembrança rápida, embora daquelas intensas, que trazem consigo os aromas e também as dores. Mas isto foi bem depois.<br /><div style="text-align: justify;">Primeiro veio a lembrança daquela manhã. Ventava alto, lá pelas copas das árvores. No chão, nada se movia. Manhã amena, coisa de abril ou maio, talvez. E o silêncio.<br />A folhagem <em>verde-nova </em>brilhando antes do céu, azul puríssimo, sideral, bem ali acima do <em>Campinho</em> – um terreno abandonado onde despejavam o lixo.<br />E a mosca. Foi ela, quase parada em seu vôo, brilhando <em>verde-metálica</em>, quem me despertou. Olhei o céu e vi o vento, nas folhas largas da amendoeira grande. E alto, altíssimo, o azul. Então foi que senti: estou acordado.<br />Mas agora me chamam e preciso ir. Talvez seja minha mãe. Tenho de ir e viver a vida. Afinal, ainda não completei três anos de idade, dois e pouco, parece.<br />Se cada despertar é um milagre, uma ressurreição, o primeiro deles, o despertar da consciência, é uma ressurreição de fato. E deixa a maior de todas as lembranças. Vive-se sessenta, noventa e poucos anos. Ou dez. Uns acham pouco, outros demasiado… Momentos de quase glória e de ruína; lembranças, esquecimentos… E o mais de tudo, absurdamente, – aquilo que volta sem ser chamado – é, quase sempre, um momento que parece estúpido, insignificante em si.<br />O menino cresceu, vingou como a erva daninha num pasto – que apesar de cortada, arrancada, ninguém extingue toda. E resistindo aos cortes, nos pés, no coração, viveu. Varou o <em>mundo-largo</em> – mas também cumpriu as longas e penosas sentenças do tédio. Não há escolha. Nenhuma. Acontece.<br />Outra vez despertei. Já não era um menino. Pelo contrário, um homem velho e doente. Exausto.<br />Me lembro que era noite e que era tarde. O hospital, os cheiros. O peito me doía forte. E, por causa da dor, a visão me turvara em névoa espessa. Ainda assim não pude deixar de notar uma criança pequena, que tinha os cabelos empapados em sangue, partir pouco depois de ter sido colocada ao meu lado, numa espécie de maca.<br />Não sei o tempo e o lugar. Isto não tem importância. Não havia luz elétrica e a penumbra virava escuridão em alguns pontos daquilo que parecia ser um quarto antigo. A dor, ela própria, foi me aliviando, colocando-me num estado de quase insensibilidade física. Mas o pensamento pulsava; o medo foi se transformando numa espécie de indiferença. À minha volta havia uma movimentação apressada de pessoas sem rosto. Depois, um cantinho da sala, onde a treva era mais densa, foi crescendo, se aproximando de mim e espalhou-se – até tomar tudo. Então acho que foi aí que esqueci de mim.<br />Somente fui me lembrar, novamente, sob a amendoeira grande – encantado com as cores daquela <em>mosca metálica</em> que brilhava ao Sol.<br />Não tive sonhos e de outras coisas não lembro. A Morte não explica nada.</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-7198935738689167732?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-69482737234025235892009-06-09T11:36:00.019-03:002009-06-10T11:42:21.895-03:00Tirando a razão, de Platão...<div style="text-align: justify;"><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Si51FXx82EI/AAAAAAAAAJs/z5FNiNZUFS0/s1600-h/MacD.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 211px; height: 261px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Si51FXx82EI/AAAAAAAAAJs/z5FNiNZUFS0/s320/MacD.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5345338542878677058" border="0" /></a><o:smarttagtype namespaceuri="urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" name="PersonName"></o:smarttagtype><!--[if gte mso 9]><xml> <w:worddocument> <w:view>Normal</w:View> <w:zoom>0</w:Zoom> <w:hyphenationzone>21</w:HyphenationZone> <w:punctuationkerning/> <w:validateagainstschemas/> <w:saveifxmlinvalid>false</w:SaveIfXMLInvalid> <w:ignoremixedcontent>false</w:IgnoreMixedContent> <w:alwaysshowplaceholdertext>false</w:AlwaysShowPlaceholderText> <w:compatibility> <w:breakwrappedtables/> <w:snaptogridincell/> <w:wraptextwithpunct/> <w:useasianbreakrules/> <w:dontgrowautofit/> </w:Compatibility> <w:browserlevel>MicrosoftInternetExplorer4</w:BrowserLevel> </w:WordDocument> </xml><![endif]--><!--[if gte mso 9]><xml> <w:latentstyles deflockedstate="false" latentstylecount="156"> </w:LatentStyles> </xml><![endif]--><!--[if !mso]><object classid="clsid:38481807-CA0E-42D2-BF39-B33AF135CC4D" id="ieooui"></object> <style> st1\:*{behavior:url(#ieooui) } </style> <![endif]--><style> <!-- /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-parent:""; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1 {size:612.0pt 792.0pt; margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; mso-header-margin:36.0pt; mso-footer-margin:36.0pt; mso-paper-source:0;} div.Section1 {page:Section1;} --> </style><!--[if gte mso 10]> <style> /* Style Definitions */ table.MsoNormalTable {mso-style-name:"Tabela normal"; mso-tstyle-rowband-size:0; mso-tstyle-colband-size:0; mso-style-noshow:yes; mso-style-parent:""; mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; mso-para-margin:0cm; mso-para-margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:10.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-ansi-language:#0400; mso-fareast-language:#0400; mso-bidi-language:#0400;} </style> <![endif]--><span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;">“A opinião da maioria quanto ao conhecimento é que ele não é algo poderoso, capaz de controlar e governar um homem; eles não vêem deste modo em absoluto, mas julgam que frequentemente um homem que possui conhecimento é governado não por este, mas por alguma outra coisa: em um caso a paixão, em outro o prazer, em outro a dor, às vezes a luxúria, muito comumente o medo; eles só vêem o conhecimento como um escravo que é arrastado para lá e para cá por quem o possui.</span></span><br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;">Então, você tem uma opinião semelhante com respeito ao conhecimento ou pensa que ele é algo excelente, que pode governar um homem e que, se alguém souber o que é bom ou mau, jamais será conquistado por coisa alguma de modo a agir de outra maneira que não a ditada pelo conhecimento?</span></span> <span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;">De fato, a inteligência é salva-guarda suficiente para um homem?” Platão, (século IV A.C)</span></span><br /></div><br /><div style="text-align: justify;">Não foram poucas as grandes inteligências assoladas e vencidas pela miséria. Todo o tipo de misérias, as mais mesquinhas possíveis, em casos tristemente incontáveis. Às vezes somos mesmo levados a pensar que o conhecimento, o amor e a dedicação ao pensamento, trazem em seu próprio bojo a marca da desgraça – e da solidão.<br /><br />Então, a inteligência não <span style="font-weight: bold;">serve</span> para nada?<br /><br />Ora, se pretendermos entender o motivo pelo qual, por exemplo, Luís de Camões morreu em estado de indigência completa, Dostoiévski viveu uma vida infelicíssima e jogou tanto, contra si mesmo, Miguel de Cervantes apodreceu no cárcere, Fernando Pessoa e Lima Barreto beberam até cair - e morrer - e tantos outros homens grandes aparentemente não souberam utilizar suas inteligências privilegiadas em proveito próprio, deixemos, desde já, o verbo transitivo indireto, <span style="font-weight: bold;">servir</span>, de lado.<br /><br />Aliás, se quisermos aqui fazer um pequeno tratado sobre a sensatez, a temperança, a prudência, a abastança, falemos sobre comerciantes ricos ou funcionários palacianos bem colocados. Eles existem há milênios, como os sábios.<br /><br />Tudo nos leva a crer que o surgimento de uma mente privilegiada é um fenômeno fortuito, inato e absolutamente natural. Entenda-se por natural a premissa de que, por mais que possa ser tentado, não é possível criar um gênio, propositadamente, nos bancos universitários, por exemplo.<br /><br />Por motivos pouco conhecidos, mas bastante observados, a humanidade parece ter sido composta, desde tempos imemoriais, por um percentual razoável de pessoas possuidoras de inteligência mediana, uma quantidade ínfima de mentes brilhantes e um bloco majoritário de pessoas que, mesmo quando têm à sua disposição todo um arsenal educacional, ou, ainda, se tivessem, não ultrapassariam o limite daquilo que poderíamos chamar <span style="font-style: italic;">sofrível</span>.<br /><br />Não se trata de <span style="font-style: italic;">darwinismo social</span>, nem há <span style="font-style: italic;">crenças malthusianas</span> da parte deste escriba, que não crê em nada. São observações colhidas na história da humanidade – e também nas ruas, no meu tempo.<br /><br />Não é vedado ao terceiro grupo de intelectos, aquele que denominei ilustrativamente de <span style="font-style: italic;">sofrível,</span> o enriquecimento monetário, por exemplo, ou o progresso relativamente tranquilo numa carreira acadêmica qualquer. Por outro lado, parece não haver registro algum de uma ascensão sequer de um <span style="font-style: italic;">sofrível</span> ao patamar imediatamente acima, o <span style="font-style: italic;">intermediário</span>, assim como, por seu turno, ser improvável ao extremo que um <span style="font-style: italic;">mediano</span> alcance por qualquer meio ou forma o primeiro dos patamares, aquele das mentes brilhantes.<br /><br /><span style="font-style: italic;">Determinismo</span>? Não creio. Talvez, sim, <span style="font-style: italic;">"observismo"</span>...<br /><br />Eu penso que homens brilhantes não costumam ser práticos. E que não agem assim de forma deliberada. Há um componente de sonho, de distanciamento do comezinho, que costuma fazer parte da mentalidade de homens que possuem um intelecto privilegiado. Algumas vezes esse componente pode adquirir proporções catastróficas, como ocorreu a Oscar Wilde e a Charles Baudelaire - somente para dar dois exemplos significativos, dentre centanas.<br /><br />Certa vez, lendo uma boa biografia de Isaac Newton, escrita por um homem para quem a ciência não era coisa estranha, surpreendi-me bastante ao constatar que esse autor atribuía, em diversos trechos da obra, às práticas alquímicas de Newton uma fraqueza, um obscurantismo, um ranço de seu tempo. E dizia ainda ser quase inconcebível o fato de que um homem possuidor de tamanho brilhantismo pudesse deixar conviver em si mesmo ciência pura e alquimia...<br /><br />Ora, talvez Newton tenha feito suas descobertas – que considero as mais importantes na história da ciência – justamente por ter sido um praticante da alquimia.<br /><br />Porque o alquimista, o antigo, o clássico alquimista, aquele que chegou a queimar a mobília e as traves do teto para alimentar a chama do forno do conhecimento, era o cientista e mais o seu sonho, somados. Foi com eles que começou aquilo que hoje conhecemos como Ciência.<br /><br />Quanto à citação de Platão, com a qual iniciei estas linhas, não acho que ele tenha acertado – e, muito menos, errado. Platão não fez nenhuma assertiva. Somente perguntas.<br /><br />Platão não sabia as respostas... Talvez, justamente por isto, tenha sido Platão.<br /><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-6948273723402523589?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-86223419535465621962009-06-02T20:32:00.012-03:002009-06-03T04:30:18.726-03:00Na base do beijinho, véi, não vai!<div style="text-align: justify;"><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/SiW2zrv0juI/AAAAAAAAAJc/-TpMpor8L6U/s1600-h/Beijinho.gif"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 246px; height: 196px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/SiW2zrv0juI/AAAAAAAAAJc/-TpMpor8L6U/s320/Beijinho.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5342877531977846498" border="0" /></a>Andamos agora assistindo, novamente, a uma novela mexicana de terceira (e última) categoria: o parto da <span style="font-style: italic;">CPI da Petrobrás</span>. Puxa daqui, acochambra ali... Será que essa companhia petrolífera, uma mina de ouro, está mesmo servindo como uma espécie de carteira, bolsa, porta-notas privado do PT? Sim. É claro que sim.<br /><br />Aqui mesmo, pertinho de casa, na Rua do Senado, Rio de Janeiro, a empreiteira <span style="font-weight: bold;">WTorre</span> estava construindo três grandes prédios, no último dos terrenos espaçosos disponíveis no Centro, para serem alugados à Petrobrás. Era uma faina louca: máquinas pesadas, trabalhando 24/7. Dormir, ou mesmo manter as janelas abertas, nem pensar. A Petrobrás tinha pressa, dizia-se, e a WTorre medo: o contrato previa multas severas por atrasos na construção de mais este palácio (três blocos de 18 andares na superfície e mais cinco no subsolo, cada um deles).<br /><br />Ora, quem diria, quando começaram, há pouco, as primeiras denúncias de irregularidades nos cofres da Petrobrás (eufemismo para o mais puro, simples e deslavado ato de roubar), a WTorre imobilizou-se - de forma completa, absoluta, nas cercanias de minha residência. Hoje, passados 30 ou 40 dias do começo das denúncias, não há um carrinho de mão que seja da WTorre no local. A obra foi paralizada, completamente. Restou um lago, de uns 20 metros de profundidade, que está infestando a vizinhança com nuvens de mosquitos, mesmo agora, quando a temperatura anda em baixa.<br /><br />Dizem, as más línguas, as péssimas línguas, ou seja, <span style="font-style: italic;">as minhas</span>, que a Petrobrás estava custeando integralmente as obras - e que depois, alugaria à WTorre o conjunto de prédios - note bem: seria inquilina da WTorre, ela, ela mesma, a Petrobrás, a do dinheiro... Assim até eu próprio seria também empreiteiro, não é mesmo?!<br /><br />Neste ajuste, tão simpático à WTorre, será que não rolariam uns milhõezinhos para a campanha eleitoral do próximo ano? Ou, mesmo, possivelmente, muito possivelmente aliás, também para a compra de apartamentos, gravatas, CD de pagode, bebidas finas (que seriam tomadas de uma só talagada), depósitos em paraísos bancários (para os dias difíceis...)?<br /><br />E é justamente por esta - e muitas outras mais -, que sempre fui favorável ao aprisionamento, julgamento e posterior enforcamento em praça pública de todo aquele que, em exercício de qualquer cargo público, tenha errr... <i>desviado</i> quantia igual ou superior a cinco mil reais.<br /><br />A quem <span style="font-style: italic;">desviou</span> menos, a chibata - também em praça pública.<br /><br />Essas idéias, já as defendo não é de hoje. Desde a época do hipopotâmico Delfin Neto já as defendia eu, tanto em privado quanto em público - ou seja, em botecos, esquinas e casas de amigos.<br /><br />Finalmente, para que a ninguém seja imputada com razão e justiça a peja de a mim chamar equivocadamente de <i>sanguinário genérico</i>, incluo também em meu <i>Painel dos Condenados</i>, a foto do Sr. Itamar Franco, O Burro.<br /><br />Vai, Brasil!</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-8622341953546562196?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-30845247849550486212009-05-26T04:07:00.017-03:002009-05-26T04:37:18.401-03:00O verão do Alarga<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShuaNath6-I/AAAAAAAAAJU/V-rsCavmP1s/s1600-h/Tel.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 160px; height: 136px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShuaNath6-I/AAAAAAAAAJU/V-rsCavmP1s/s320/Tel.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5340031338477120482" border="0" /></a>Morávamos numa Copacabana quase bucólica. Os anos da década de 1960 corriam, ridentes, felizes. A família era grande, muitos primos e primas; avós morando bem próximos da gente, nos enchendo de coisas gostosas e de amor.<br /><br /><div style="text-align: justify;">Todos se visitavam mutuamente. Minha mãe, avó e tias iam à missa na capela do Sacre Coeur, na Rua Tonelero, onde estudavam nossas irmãs e primas, bem em frente à nossa casa.<br /><br />Mamãe, muito religiosa, sempre assumiu o controle da curva hormonal de nossas empregadas domésticas. E isto bem no alvorecer da liberação sexual...<br /><br />Em nossa casa tínhamos uma moça, bem bonitinha. Começou a se interessar por um rapaz que trabalhava na vizinhança. Mamãe logo tratou de puxar-lhe a folha corrida. E o que veio não foi bom.<br /><br />Que era um pândego, que já havia desencaminhado moças, que frequentava os botecos da Miguel Lemos... Tratou de mover uma guerra de vida ou morte contra o rapaz. Este donzel, tão apaixonado, pelo que constou na avaliação de Mamãe, já estava quase conseguindo tudo o que queria...<br /><br />Minha mãe não era de perder guerras. E assim foi. Tanto fez que conseguiu voltar com o juízo à cabeça da mocinha. E o casal separou-se a tempo de manter puríssimo o bom nome da família nacional.<br /><br />Três horas da madrugada na Rua Tonelero. O telefone toca e a sua campainha mecânica é tão forte que chega a estremecer os vidros da cristaleira da sala.<br /><br />Era o único modelo de aparelho telefônico existente na época, distribuído pela CTB (Companhia Telefônica Brasileira) aos seus assinantes. Este bisavô de todos os aparelhos telefônicos, não possuía nenhum mecanismo que lhe desligasse ou diminuísse o volume da campainha.<br /><br />Preto e pesadíssimo, numa necessidade, a retirada do fone do <span style="font-style: italic;">gancho </span>para evitar-se incômodos era o mesmo que uma sentença de morte assinada contra a linha: ficava sem sinal de discagem e isto podia durar dias - ou até semanas, quando não, meses... Melhor não.<br /><br />- "Quem fala?! (Papai ou Mamãe, em transe de sono)<br /><br />- "Aqui é o Alarga!"<br /><br />- "Alarga? Mas que Alarga?!!"<br /><br />- "O Alarga Cu, é claro! Não lembra de mim?!"<br /><br />Isto durou todo um verão. Foi o Verão do Alarga. O nosso aparelho telefônico ia dormir embrulhado em vários cobertores grossos, o que não adiantava nada.<br /><br />O Alarga trabalhava numa padaria do bairro e levantava-se bem cedo, para fazer o pão.<br /><br />- "Mamãe, será que o Alarga Cu vai ligar esta noite?"<br /><br />- "Psiuuuu! Não fale isto, meu anjo, é muito feio!"<br /><br />Isto era o meu irmão menorzinho, de uns quatro anos de idade. Ou uma priminha, que estivesse dormindo lá em casa...<br /><br />Adorávamos o Alarga, porque não gostávamos de dormir. Sempre arranjávamos um jeito de começar uma brincadeira. E acordar de madrugada era uma coisa inusitada, fantástica...<br /><br />- "Dorme, meu amor..."<br /><br />- "Mamãe, eu gosto do Alarga. Isto é pecado?"<br /><br />- "Dorme, filhinho, psiuuu!"<br /><br />E assim, o Alarga passou a fazer parte da vida de todos nós e das nossas lembranças... Acho que, no fundo, era um grande sujeito. E que aquilo era mesmo o tal do amor...</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-3084524784955048621?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-74669403037718845032009-05-26T03:53:00.011-03:002009-05-27T23:45:19.852-03:00Literatura brasileira - uma crítica de peito aberto<div style="text-align: justify;"><div style="text-align: justify;"><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShuSPMJfHHI/AAAAAAAAAIs/tJprAuKxDT0/s1600-h/Academia.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 174px; height: 131px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShuSPMJfHHI/AAAAAAAAAIs/tJprAuKxDT0/s320/Academia.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5340022572834561138" border="0" /></a>Alguém precisa dizer: o rei está nu.<br /><br />Nu e bastantemente mal lavado, sua altíssima majestade.<br /><br />Direi eu, mesmo me expondo ao apedrejamento.<br /><br /><br />Literatura brasileira? Qual? Pelos meus cálculos de leitor criterioso, o último autor grande que tivemos foi o quase desconhecido e desprezado José Cândido de Carvalho.<br /></div><br />Desconhecido e desprezado por quem deveria conhecê-lo - o leitor. Porque, de uma maneira geral, o que esse autor maravilhoso - de um livro só - fez foi colocar o seu boi na sombra. Sempre, é claro, sob o patrocínio de boas amizades governamentais. Isto estraga qualquer um, principalmente quando se trata de um artista. Está, ou estava - nem sei se ainda vive - na ABL, estragando-se de mistura com os papeleiros e carimbadores que compõem aquela agremiação.<br /><br />Se digo que José Cândido de Carvalho é autor de um livro só - <em>O Coronel e o Lobisomem</em> - obra que além de belíssima foi um marco e deu uma reviravolta boa mas infelizmente passageira em nossas tristes, desinspiradas e raquíticas obras publicadas -, é justamente porque <em>"Olha pro céu, Frederico!"</em>, publicado alguns anos depois, é um péssimo livro e fez o enterro do autor. E, atenção: eu disse tristes, desinspiradas e raquíticas obras publicadas e não tristes, desinspiradas e raquíticas letras brasileiras. Porque deve haver muita coisa boa, apodrecendo em gavetas de autores sem padrinhos.<br /><br />E, por falar em <em>O Coronel e o Lobisomem</em>, vale aqui sublinhar que Dias Gomes chupou, descarada e vergonhosamente, todo o linguajar e mesmo personagens com roupa e tudo da obra mencionada, para criar o seu Odorico Paraguaçú e ir fazer sucesso na televisão. Qualquer um que tenha conhecido os dois - livro e novela televisiva - constatará o plágio descarado. Aliás, o que esperar dessa gente que escreve para a TV?<br /><br />No mais, nada. A não ser gasto inútil de papel e tinta. Quem sabe distinguir entre um livro que possui valor - pequeno, médio ou grande - e que permanecerá após o desaparecimento das pessoas e instituições que lhe dão sustentação, e aqueles que não têm valor nenhum, saberá que, por exemplo, os livros escritos por João Ubaldo Ribeiro não ficarão.<br /><br />Um misto de fazedor de livros e de cronista de si mesmo, sendo, na minha opinião, um homem extremamente desinteressante, João Ubaldo não passou de <em>"O Sargento Getúlio"</em>, bom livro por sinal. Foi o que bastou para que a projeção alcançada - e as benesses aceitas - transformassem-no num escritor capenga, embora incensado pelos não poucos amigos.<br /><br />Isto sem contar que escarrou na cara de todos os seus leitores, nas <em>"Páginas Amarelas"</em> da Revista Veja, onde eu li, estarrecido, a avaliação que João Ubaldo Ribeiro fez do leitor brasileiro, inclusive tripudiando aqueles que não entenderam - ou não identificaram - que as cenas iniciais de <em>"Viva o Povo Brasileiro"</em> são uma paródia de luta entre deuses da mitologia grega, transposta para o <em>"baianês"</em>. Eu entendi. E larguei este livro lá pela metade, muito antes de ler a tal entrevista, simplesmente por tratar-se de uma obra onde as narrativa dá voltas e mais voltas, como um cão procurando a própria cauda, sem achar, nada, é claro.<br /><br />Falando em incenso e em amigos, enquanto escrevo essas mal traçadas, fui ao Google confirmar se o nome do livro era mesmo <em>"pro céu Frederico!"</em> ou <em>"para o céu Frederico!"</em>. Primeiro resultado alcançado: um artigo <em>chapa-branca</em>, escrito por Carlos Heitor Cony, no site da Academia Brasileira de Letras, dizendo que esse livro é <em>"um grandessíssimo romance"</em>. Perdoável. Coisas de compadres. Mas não é verdade. É mentira. E da grossa.<br /><br />Carlos Heitor Cony, autor de inúmeros livros, nenhum deles prestável, foi um apaniguado do Sr. Adolfo Bloch, seu patrão, durante toda vida. Não podia dar mesmo em boa coisa. Um autor precisa de independência, liberdade. E de obstáculos. Um grande autor, um autor imortal, é sempre um solitário e, na maioria das vezes, tem sido um desvalido. Péssimo isto! A miséria não é um bom pré-requisito à glória, mas, por outro lado, o excesso de graxa causado pelos apadrinhamentos parece ser um fator determinante entre fulgurar ou fazer figuração. Escritor não pode ter carteira assinada e nem ser funcionário de nada e nem de ninguém.<br /><br />O meu grito é dado em favor dos jovens talentos brasileiros.<br />Por que fui eu encontrar, nas bibliotecas públicas dos mais profundos confins canadenses, a <em>"obra completa"</em> do Sr. José Sarney? Como foram parar lá <em>"Saraminda"</em> e <em>"Marimbondos de Fogo"</em>, distribuídos com a máxima fartura pelas incontáveis <em>librarys branchs</em> daquele país - onde morei e trabalhei por cinco anos consecutivos? Talento? Universalidade? Ou favorecimento ilícito? Quem pagou pelas veleidades literárias, pela vaidade do <em>"autor"</em> José Ribamar Sarney, ex-presidente da república e acadêmico impudico? Por que não encontrei nenhum outro autor brasileiro naquelas incontáveis bibliotecas?<br /><br />O título era mesmo <em>"pro céu, Frederico!"</em>. Mas o autor, infelizmente, desviou seu olhos dali, cravando-o em outras tristes plagas... </div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-7466940303771884503?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-78247008780958866582009-05-26T03:09:00.014-03:002009-05-26T03:47:48.316-03:00Dona Umbelina, Educadora<div style="text-align: justify;"><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShuIYGnM9WI/AAAAAAAAAIk/-1Z5NaWrMi8/s1600-h/escola-noturna.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 227px; height: 151px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShuIYGnM9WI/AAAAAAAAAIk/-1Z5NaWrMi8/s320/escola-noturna.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5340011730851132770" border="0" /></a><br />O brusco fim da infância calhou para mim em 1972. Dezesseis anos de idade. Tempo de mudanças grandes. O curso ginasial, uma vez terminado, pôs fim também a algumas outras coisas.<br /><br /><br /><br />Nesta época, o nome da escola querida mudou de Colégio Estadual D. Pedro I para Marechal João Batista de Matos. Descobriu-se que havia um colégio homônimo, mais antigo, em algum bairro distante. E... vá lá que algum aluno fosse dar com o costado no Dom Pedro errado... Por outro lado, D. Pedro I já havia sido homenageado o bastante. Azar ou sorte, isto não foi tudo.<br /><br />Tempo de trabalhar durante o dia e estudar à noite. E de procurar ajudar minha mãe, deslocando-me do subúrbio do Rio para o distante Centro. Trabalhar, firmemente, como contínuo num banco – e daí voltar ao nosso bairro, cansado, já noite, e ir diretamente às aulas no segundo-grau, sem antes jantar.<br /><br />Uma novidade, estudar à noite. Não usar uniforme. Acabaram-se as exigências: a intolerância com matérias mal estudadas e com notas não alcançadas. Enfim, seria muito fácil, dali em diante, cumprir apenas o prazo dos três anos, concluir o curso... e adeus estudos!<br /><br />Difícil estudar, quando se chega cansado... A maioria desistia, naquela época. Hoje, nem tentam - parece... A vida de trabalhador, uma vez começada, seria para sempre - até o fim da vida. E poderia ser (quase sempre era) o começo de uma espécie de escravidão: dolorosa, definitiva.<br /><br />Curta infância... “Deixai, ó vós que entrais, todas as esperanças!” Éramos pobres.<br /><br />Logo nas primeiras noites de aulas, ouvi soar uma voz forte, alta, de mulher, em pontos diferentes do colégio - de três andares e com dois pátios grandes. Às vezes pareciam verdadeiros gritos. Logo fiquei sabendo: era a nossa diretora, dona Umbelina.<br /><br />Filha do falecido marechal João Batista de Matos, o único homem negro a chegar a tal posto nas Forças Armadas, tinha ela lá os seus quarenta e poucos anos e era gordinha, socada nos seus um metro e sessenta, talvez menos. Tive um pouco de medo: repreensões?<br /><br />Tímido, levei algum tempo até criar coragem suficiente para me aproximar de algumas das rodas que se formavam em torno de dona Umbelina. Com o passar do tempo, dos anos, os círculos – no pátio externo, nos corredores, numa quadra esportiva, enfim, onde calhasse –, permaneciam formados e cerrados, durante horas. Discutia-se ali. De tudo.<br /><br />Disse que chegávamos cansados. Quase todos trabalhavam durante o dia. Também tínhamos alguma fome – num curso noturno, não havia a obrigatoriedade da merenda escolar. Tudo ali seria fator de desestímulo. O cansaço e a fome cumprem bem o seu mister. Mas havia dona Umbelina... Vamos, então, a ela.<br /><br />Dona Umbelina era uma oradora inata, inspirada, siderada no amor que tinha pelo conhecimento, pelas coisas do espírito. E era dona de uma cultura vasta, respeitável e espalhada em leque. Entrar numa roda em que dona Umbelina discorria – sobre literatura, filosofia, música, o que fosse – equivalia, com toda certeza, a várias aulas bem recebidas.<br /><br />Houve, algumas vezes, ocorrências bem pouco comuns...<br /><br /><em>- Dona Umbelina, será que a senhora poderia falar um pouquinho mais baixo?</em><br /><br />Isto era o professor de matemática, pondo a cabeça do lado de fora da janela do segundo andar, bem acima de onde ocorria um daqueles encontros. E ela, como uma criança flagrada em arte, se apressava em mover-nos dali para um outro ponto do pátio. Porque falar baixo não era o seu forte.<br /><br />Ela não era diretora de ficar em gabinete. Hoje, passados tantos anos, eu me pergunto se dona Umbelina era assim por ser inquieta, brilhante, ou se havia também, mais que tudo, a intenção de manter acordado, incendiado, aquele bando de jovens cansados - e que estava a poucos passos do abismo do embrutecimento.<br /><br />E acho mesmo quer era proposital. Se não fosse, como explicar sua entrada intempestiva numa sala onde se dava, por exemplo, uma aula de física, os braços cheios de sacos de papel com lanches que ela arranjava não sei onde e nem como, e, entre uma pilhéria e outra, entre uma gargalhada e um afago, declamar com um sentimento que jamais tornei a ver em nenhum outro declamador:<br /><br />Má que tu foste - me negaste aquela<br />última dança que eu pedi, no entanto<br />eu lá fiquei pelo salão a um canto<br />debruçado sozinho na janela...<br /><br />E magoado, a te olhar, vi-te tão bela<br />nos braços de outro - que chorei, e o pranto<br />secava em minhas faces por encanto<br />como se fossem lágrimas de vela...<br /><br />De que serve chorar - pensei - de nada<br />vale mostrar aquela que adoramos<br />a dor que temos na alma sepultada...<br /><br />E me pus a dançar... Brinquei... Sorri...<br />E os dois sorrimos... nós dois brincamos...<br />Mas tu sofreste!... E eu - quanto sofri!...*<br /><br />Durante anos procurei por este poema. Dona Umbelina atingiu-me no coração, profundo. E, pela vida afora, buscando o verso <span style="font-style: italic;">“negaste-me uma dança...”</span>, sem encontrar, custei a me dar conta do quanto eu devia a esta mulher. Do quanto seria bom se eu pudesse encontrá-la novamente para perguntar:<br /><br /><span style="font-style: italic;">“Dona Umbelina, isto hoje me parece coisa de Castro Alves ou mesmo de Olavo Bilac... mas... não está lá... A senhora poderia me dizer?... E poderia declamar novamente?”</span><br /><br />E, desta maneira, descobri que não mais conseguiria viver sem estudar e sem ler. Estudo todos os dias, até hoje, passado já que estou de minha primeira metade de século... E creio não cabulado nem mesmo uminha que seja, das aulas da vida, depois de Dona Umbelina.<br /><br /><strong style="font-weight: normal; font-style: italic;">À professora Umbelina Santana de Mattos, diretora do Colégio Estadual Marechal João Baptista de Matos – 1970/78, oferece o ex-aluno, em dívida de gratidão eterna.</strong><br /><br /><strong style="font-weight: normal; font-style: italic;">*"Má" Poema de J. G . de Araujo Jorge do livro "Meu Céu Interior" - 1934)</strong></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-7824700878095886658?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-91928381167835362352009-05-26T02:24:00.013-03:002009-05-26T02:57:05.998-03:00Uma crônica de passagem...<div style="text-align: justify;"><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Sht9RN8wMsI/AAAAAAAAAIc/TWFjIJ4qPs0/s1600-h/rosas.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 228px; height: 171px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Sht9RN8wMsI/AAAAAAAAAIc/TWFjIJ4qPs0/s320/rosas.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5339999517933580994" border="0" /></a>Outra vez, quem me morreu foi a vizinha de cima.<br />Era uma senhora bondosa que cuidava de um casal de filhos, quase quarentões. Boa gente, todos eles.<br />Sendo vizinhos, há mais de vinte anos, mesmo assim o meu conhecimento com essa família era apenas de cumprimentar, no elevador.<br /><br />Nunca frequentamos as casas uns dos outros. Coisas de cidade grande. Pena. De qualquer maneira, não pude deixar de sentir esta morte - que ocorreu exatamente em cima de minha cabeça.<br /><br />Estava lá a dona <span style="font-style: italic;">D</span>, cumprindo algumas tarefas leves de começo de noite quando, subitamente, na cozinha, desmaiou e foi encontrada pela filha - a primeira a regressar a casa - , ainda com um pano de pratos nas mãos.<br /><br />Fui chamado, pela primeira vez em tantos anos: um toque na campainha. Fiz o que pude e levei dona <span style="font-style: italic;">D</span> nos braços até o carro e, dali, ao hospital.<br /><br />Dois dias depois fui avisado de que ela havia nos deixado. Foi uma morte que nem todos têm a sorte de encontrar, um bilhete premiado - daqueles que a gente pede para receber, mas teme não ser atendido: nenhuma dor; não tornou a despertar e, finalmente, partiu.<br /><br />Pobres de nós, os vivos. Em menor ou em muito maior escala, todos nós, os envolvidos, sofremos com essa morte. Não costumo aceitar convites para ir a festas e nem a todos esses apetrechos sociais corriqueiros, como formaturas e casamentos, por exemplo. Mas não costumo deixar de ir prestar minha última e silenciosa homenagem àqueles com quem travei algum tipo de conhecimento - e que partiram adiante de mim.<br /><br />E é sempre doloroso, porque sinto muita comiseração pelos que ficam.<br /><br />Lá fomos nós, os vizinhos, todos juntos, no rumo do <span style="font-style: italic;">S. João Batista</span>: oito apartamentos, oito famílias representadas. E juntos, talvez tenhamos nos amparado mutuamente diante desta surpresa, sempre renovada, que é a morte.<br /><br />Lá estava a dona <span style="font-style: italic;">D</span>. Serena, rodeada de pessoas - umas que a amavam tanto! - e outras que simpatizavam mudamente com ela, como era o meu caso.<br /><br />Nas duas horas que estive ali, antes do sepultamento, percorri corredores e capelas, gastando o tempo e, discretamente, observando desfechos alheios, de pessoas desconhecidas.<br /><br />Havia um homem que não tinha quem o velasse. Ninguém. Estranhamente, o seu féretro estava coberto por uma bandeira do Flamengo, um time de futebol de massas... E ninguém.<br /><br />Quem terá sido este homem? Teria afastado de si as pessoas em seus últimos anos de vida? Ou foi abandonado por elas? E por quê? De qualquer maneira, ali, morto, nada mais o inquietava. Eu sim, vivo, fazia-me essas perguntas e procurava, ainda ali, naquele local de morte, um sentido, algum sentido para a vida. Mas é tão difícil...<br /><br />É interessante uma pequena cidade mortuária: ruas principais, arborizadas, urbanizadas, cheias de estátuas e de jazigos luxuosos... E uma periferia, um arrabalde, sem adornos notáveis e parcamente cuidada. Sempre os vivos, os vivos, que enterram os mortos - que, por sua vez, devem achar risíveis, no mínimo, estes...<br /><br />Nenhum morto haveria de ter esta espécie de preocupação, se pudesse ainda tê-la. Ou melhor: se tivesse ainda que ter qualquer espécie de preocupação mesquinha...<br /><br />Pobres de nós, sim, os vivos.<br /><br />Findava o domingo. Entregamos o corpo de dona <span style="font-style: italic;">D</span> de volta ao pó e voltávamos, em silêncio pesado, todos. Não pude deixar de quebrar este silêncio:<br /><br />- <span style="font-style: italic;">No meu, não faltem</span>.<br /><br />Senti que, de alguma maneira, as respirações se normalizavam.<br /><br />Perto do portão de saída, talvez por ser domingo, véspera de segunda, como disse o Poeta, havia um caminhão coletor de lixo na maior atividade. Recolhia uma grande pilha de caixões apodrecidos, carcomidos pelo tempo e pela terra, alças e frisos desprendendo-se.<br /><br />Me pareceu o fim do fim. Uma cena aviltante. Abria-se espaço ali. Isto sempre deve ter sido feito - mas a gente nunca pensa nessas coisas...<br /><br />Talvez tenham escolhido o fim da tarde de domingo porque a vida, de alguma maneira, recomeça na segunda-feira...<br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-9192838116783536235?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-59088754564253750342009-05-26T01:03:00.006-03:002009-05-26T01:10:01.169-03:00Roadstar<div style="text-align: justify;"><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShtrBRoFyoI/AAAAAAAAAIQ/uHrNcle3gP4/s1600-h/mi%C3%BAra-r%C3%A1dio.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 161px; height: 200px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShtrBRoFyoI/AAAAAAAAAIQ/uHrNcle3gP4/s320/mi%C3%BAra-r%C3%A1dio.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5339979452833450626" border="0" /></a>Naquela manhã de segunda-feira havia um pequeno e animado ajuntamento na sala do quinto andar dos escritórios do Banco. Era gente que costumava madrugar no trabalho.<br /><br />- Rapaz, o Joca...<br /><br />Quem ia chegando e era inteirado da brincadeira, invariavelmente ria, às gargalhadas.<br /><br /><br /><br />- Se lá em casa eu falasse em comprar um carro esporte, conversível ainda por cima... minha mulher me matava, só por causa da idéia...<br /><br />- Ela sabe o marido que tem...<br /><br />- Ná! Meu nome está limpo. Mas, sentir vontade de ter um <em>Miúra</em>... ou um <em>Puma</em>... lá em casa, nem pensar! Seria levantar suspeitas sobre mim...<br /><br />O grupo ia aumentando, conforme outros chegavam ao escritório. Estavam num canto da sala, perto de uma muralha de arquivos - e só havia homens. Tinha lá uma mesinha. Nela, numa pequena gaveta, oculto, um toca-fitas, encaixável, de bandeja - um <em>Roadstar</em>.<br /><br />- Não condeno! Ninguém é de ferro... Mas também não precisava dar essa de puritano, de quietão, como o Joca sempre pareceu ser...<br /><br />- Vocês arranjam cada uma... como foi que aprontaram essa?<br /><br />- Foi só coincidência. E um nadinha de burrice... Um Miúra Targa vermelho, chama muito à atenção...<br /><br />Um, que havia acabado de chegar e de saber da história perguntou:<br /><br />- Mas, afinal, quem foi que pegou?<br /><br />- Rapaz... fui eu. Mas, você sabe, eu sou solteiro... Cheguei ao estacionamento do motel e, bem ao lado da suíte que me calhou... o Miúra vermelho do Joca. Todo mundo conhece... Ele vai às nossas partidas de futebol, de Miúra, às festas, de Miúra... Nem todo mundo pode ter um. E a placa a gente já sabe de cor...<br /><br />- Se um vigia do motel te flagrasse numa brincadeiras dessas... e chamasse a Polícia...<br /><br />- Que nada... Aquilo é um lugar calmo, todo cercado, protegido. Não se vê quase ninguém. Foi tranquilo, a capota estava recolhida, para facilitar...<br /><br />Risadas. Vinha chegando mais um, farejando novidades.<br /><br />- E você vai devolver na frente de todo mundo?<br /><br />- Mas claro que não! O Joca é gente boa, afinal... Devolvo para ele, discretamente... Melhor, vou enfiar na primeira gaveta da mesa dele. E a gente fica de longe, observando a surpresa...<br /><br />Mais risadas. Então o pequeno grupo acaba se contendo, com esforço, porque a porta abre e Joca vem chegando para trabalhar...<br /><br />- Morreu alguém?<br /><br />- Não, mas quase. O teu Vasco perdeu, de novo!<br /><br />- Enquanto aquele técnico burro não sair...<br /><br />- Um <em>caixa</em>, na última sexta-feira, apostou o bigode. Eu vi. Perdeu. Quero vê-lo hoje...<br /><br />- Para mim também foi uma droga. Me roubaram o toca-fitas do carro.<br /><br />- Cidade violenta...<br /><br />- Eu sempre tiro da bandeja. Carrego pela alça ou coloco na maleta, se estiver de maleta. Mas a minha esposa, num minutinho que estacionou em frente à casa da mãe, esqueceu... e levaram!<br /><br />Silêncio. Constrangimento. Talvez mesmo uma ou outra expressão de dor.<br /><br /><br />No horário de almoço, o escritório estava quase deserto.<br /><br />- Vai devolver, vai contar?<br /><br />- Não sei, acho que não tenho coragem. Entrega isto por mim.<br /><br />- Desculpe, meu velho, não fui eu quem tirou...<br /><br />- Mas... o que eu faço? Sinceramente...<br /><br />- Escolhe. Faz dele um marido infeliz, ou de você mesmo um novo bom ladrão...</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-5908875456425375034?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-81835595953722030492009-05-26T00:55:00.012-03:002009-05-26T01:02:13.679-03:00Muita alma em flor, foi estragada pelo professor...<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Shto0PScqnI/AAAAAAAAAII/L6sa2sw_JQI/s1600-h/Garotinha2.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 168px; height: 193px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Shto0PScqnI/AAAAAAAAAII/L6sa2sw_JQI/s320/Garotinha2.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5339977029844249202" border="0" /></a>Estive hoje à tarde nuns sebos. Vinha de volta da casa de um amigo - onde ganhei um livro, um abraço e o autógrafo do dono da casa.<br /><div style="text-align: justify;"><br />Vinha eu feliz, mas poderia ter sido melhor...<br />Não foi nada que me desse muito alento: mais um livro publicado às custas do autor - que anda com dificuldades em distribuí-lo, às duzias e em consignação, pelas livrarias.<br /><br />Mas, eu estava nos sebos... Bem, andar pelos sebos é progama dos melhores que conheço.<br /><br />Encontrei num deles <em>"O Bobo"</em>, do ultra-romântico <em>Alexandre Herculano</em>, autor que não é dos meus favoritos - mas cuja obra completa é obrigatória àqueles que, como eu, procuram compreender e melhor amar a literatura portuguesa, mãe adulterina da brasileira.<br />Grande surpresa numa etiqueta colorida, colada na contracapa:<br /><br /><em>"Ganhei este livro da FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do International Board on Books for Young Peoples - IBBY - IV Salão do Livro Para Crianças e Jovens". Editora Ática - Segunda Edição.</em><br /><br />Detalhe desnecessário: livro virgem, ao custo de 2 reais, no chão do velho sebo, como lixo...<br /><br />O que esperar de educadores, pessoas adultas, cuja falta de sensibilidade, de tirocínio, os fazem pensar que uma criança possa compreender ou gostar de uma escrita enviesada, rebuscada e repleta de arcaísmos, como acontece em toda a obra de Herculano? Querem espantar definitivamente as crianças de perto dos livros? Pois se eu, leitor calejado por décadas, leio Herculano aos trancos e barrancos, voltando e remontando sentenças inúmeras vezes para poder compreender o autor! Não é à toa que tão pouca gente gosta de livros no Brasil.<br /><br />Desde a infância estamos sempre sitiados por todas as formas e maneiras possíveis de incentivos ao desamor literário. Os que mais incentivam o afastamento definitivo entre um jovem e aquilo que poderia vir a ser seu maior alento - livros! - são os próprios professores e, principalmente, os <em>“planejadores”</em> do sistema de ensino - cuja visão desfocada e deslocada produz uma espécie de esquizofrenia paranóide, que os impede de discernir entre o seu gosto pessoal e aquilo que uma criança poderia vir a gostar, ou odiar.<br /><br />Ah... Durante o chá, na casa de meu amigo, fui olhado como um morfético tarado, porque comentei que José de Alencar é péssimo autor para ser adotado como leitura obrigatória nas escolas; que índio arrancando palmeira na base do abraço é mais um daqueles cacoetes helenísticos intragáveis de Alencar - que renomeou Hércules como Peri e que, no entanto, se esqueceu de trocar a história; que As Minas de Prata é de fazer mesmo uma criança sentir repugnância por qualquer coisa que lá esteja entre duas capas; que a primeira impressão é a que fica...<br /><br />Fazer o quê, se não gostaram? Fui me meter entre os doutos da literatura brasileira... entre os fazedores de livros virgens...</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-8183559595372203049?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-50118690174091736002009-05-26T00:45:00.012-03:002009-05-26T00:54:29.885-03:00José Lírio, o Liroca<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShtmEmTBZ5I/AAAAAAAAAIA/phKt5Nnjg5g/s1600-h/%C3%89rico+Ver%C3%ADssimo.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 176px; height: 168px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShtmEmTBZ5I/AAAAAAAAAIA/phKt5Nnjg5g/s320/%C3%89rico+Ver%C3%ADssimo.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5339974012363696018" border="0" /></a>Liroca é peão de estância, pau para toda obra, seja varando terras em busca de rês desgarrada, ou fazendo pequenos serviços para seu patrão, Licurgo Cambará. É um homem já maduro, índio velho. E macho.<br /><br /><div style="text-align: justify;">Já lutou em mais de uma revolução - no chapéu, a fita, com a bravata inscrita: <em>"Pelear é o meu prazer"</em>.<br /><br />Mas Liroca tem medo. Muito medo. E ninguém sabe disso. Ele mesmo não quer saber, não pode aceitar a própria covardia. É como se fosse um corpo estranho, habitando a sua alma. Tudo em seu sistema reage, no sentido de expulsar o intruso infame, o medo.<br /><br />E justamente por isso, é sempre o primeiro a se apresentar, quando a situação política está prestes a desaguar em entrevero de sangue. E não são poucas as ocasiões, naquele Sul do final do século XIX, em que transita José Lírio, o Liroca. Mas a primeira batalha é sempre contra si mesmo.<br /><br />- <em>"Eita mundo velho sem porteira!”</em> E vai Liroca tratar de arrancar da alma o medo, na base do relho.<br /><br />Quis o destino que, na noite de São João de 1895, coubesse a José Lírio o turno de tocaia, na torre da igreja, bem defronte ao Sobrado dos Cambarás, onde Liroca sempre fora agregado e serviçal.<br />Seu patrão havia se rebelado contra o Partido e entricheirara-se no velho Sobrado, fazendo dele uma pequena república imóvel, contra os Federalistas, aos quais José Lírio, por mágoa, manteve-se fiel.<br /><br />Licurgo, o chefe da família, sitiada há semanas, lutava contra a sede que devorava todos em sua casa - estando o poço tão próximo à porta de entrada! -, e o desespero de ver sua mulher em trabalho de parto. Mas render-se, jamais!<br /><br />A sede e a necessidade de alguma água para lavar seu filho, que está prestes a nascer, acabam fazendo Licurgo Cambará ir tentar a sorte, munido de um balde, algumas dezenas de passos adiante da porta de entrada do Sobrado.<br /><br />Liroca está atento, embora seja noite alta. Tem todo o tempo, já que Licurgo não se humilharia ao ponto de esgueirar-se ou, impensável, correr.<br /><br />Dentro do Sobrado sitiado está também Maria Valéria, irmã de Licurgo e matriarca solteirona da família. É o grande amor, sem esperanças, da vida do peão José Lírio.<br /><br />Ambos já estão a madurar, Maria Valéria e Liroca. Mas o amor persiste, sem ser correspondido ou sequer suspeitado por ela, - no coração dele. E o atirador, angustiado na torre do sino, trava mais uma luta consigo mesmo.<br /><br />Ele acompanha o seu alvo fácil - e chega a fazer <em>“pei!”</em>, baixinho, com os lábios. Mas não dá no gatilho de seu <em>Comblain</em>...<br /><br />Licurgo Cambará então colhe do poço um balde dágua e regressa, incólume e sem pressa, ao Sobrado.<br /><br />De alguma forma, aquele peão, analfabeto, pensa e sente. Muito mais até que os caudilhos, que os poderosos, que os doutores formados em França...<br /><br />Aqueles que mandam nele, José Lírio, o Liroca.<br /></div><br /><strong>José Lírio, o Liroca - Personagem de</strong><br /><strong>O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo</strong><br /><em>Trilogia:</em><br /><em>O Arquipélago</em><br /><em>O Continente</em><br /><em>O Retrato</em><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-5011869017409173600?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-86259727316373529362009-05-26T00:38:00.007-03:002009-05-26T00:43:33.022-03:00Exílio<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Shtk1prxA6I/AAAAAAAAAH4/HEnjF7lkYrY/s1600-h/estranho.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 320px; height: 289px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Shtk1prxA6I/AAAAAAAAAH4/HEnjF7lkYrY/s320/estranho.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5339972656063120290" border="0" /></a><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Varando o céu noturno,<br />À costa as costas dei<br />E às areias que ficavam<br />Inocentes, cálidas, ringentes,<br />Nem um olhar de adeus eu dei...<br /><br />O Norte tem outro céu<br />E não conheço essa Lua,<br />Gelada, frígida e inversa.<br />E já não quero ser eu...<br />Que parto de mim, assim.<br /><br />Do povo da minha terra,<br />Que roto, grita e gargalha<br />Reinando por quatro dias<br />Escravo aviltado, o resto,<br />Só mágoas nas malas levo.<br /><br />Estrela Polar me ilumina!<br />Já não tenho tanta vida...<br />Dá-me a luz de teu silêncio<br />Na bruma dos teus ares<br />E alguma lã no telhado...<br /><br />Vejo a praça, a macieira,<br />Carregada de vermelho:<br />Que não tenta a ninguém.<br />Castelos que são escolas<br />E escolas que são castelos...<br /><br />Também as Quatro Estações<br />Marcadas e separadas<br />Que os anos vão estendendo<br />Lentos e sem surpresas<br />Pelas janelas fechadas.<br /><br />Ó Norte quase imutável,<br />Domado e civilizado<br />Onde o tempo passa igual<br />O tanto que já me deste,<br />Já nem lembras, te repetes!<br /><br />Seria muito o desejar<br />Do meu vizinho um abraço<br />Num cão que passa o afago<br />(Cujo dono não conheço)<br />E que me gela a alma no olhar...<br /><br />Por que há tantas bandeiras?<br />Por que são tristes os negros?<br />Que nem sabem o que é sambar...<br />E comem de um pão tão triste<br />Farto, abundante e sem sal...<br /><br />Vai, pede emprestado ao Brasil<br />Não haverá aqui corações,<br />Sem medo de junto estar<br />De ser rei e de mendigar?<br />Pois não dá tudo no mesmo?!<br /><br />Vou voltar à minha terra<br />Meu berço tórrido de amor<a href="http://www.grandesautores.com.br/component/option,com_mycontent/Itemid,6/id,18690/task,view/#" class="tt"><span class="tooltipbubble"><span class="middle"></span><span class="bottom"></span></span></a>,<br />Daqui não levo saudades<br />E volto para onde tenho<br />Pelas esquinas imãos...<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-8625972731637352936?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-37485103171671489302009-05-26T00:17:00.009-03:002009-05-26T00:44:06.704-03:00Literatura em agonia<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShtgKqN7QTI/AAAAAAAAAHM/xdivQLtdJgM/s1600-h/Biblio.jpg"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 320px; height: 165px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/ShtgKqN7QTI/AAAAAAAAAHM/xdivQLtdJgM/s320/Biblio.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5339967519425511730" border="0" /></a><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><div style="text-align: justify;">Ah... Dia de ir à biblioteca! Devolver os livros e, principalmente, pegar outros...<br /><br />Não posso dizer que não usufruo nada do Estado. Usufruo-lhe, como posso, a <em>Biblioteca Estadual Celso Kelly - Av. Presidente Vargas, 1.261, Centro, Rio de Janeiro.</em><br /><br />Não é nada, não é nada, lá existe uma edição completa das<em> "Memórias de Giácomo Casanova de Seingalt Escritas Por Ele Mesmo"</em> , em 10 volumes que estão em bom estado. Há também alguns livros desgarrados de uma coleção das obras de <em>Camilo Castelo Branco</em>, edição recente, portuguesa, em excelente encadernação.<br /><br />Em meio a alguns milhares de livros que jamais deveriam ter sido escritos - e muito menos publicados -, pode-se encontrar algumas poucas obras excelentes como, por exemplo, os relatos completos de <em>Spix e Martius</em> - que são pura aventura, escritos numa linguagem científica, mas, ainda assim, acessível a qualquer mortal. Alguns livros dos melhores autores russos, além de uma quantidade razoável de boas biografias.<br /><br />Entra-se, quando está em funcionamento, por um funil que há na portaria e onde foram cravadas duas roletas - de ônibus mesmo: uma para entrada e outra para saída. Não há sinalização e ambas giram em ambos os sentidos. Se você, ao chegar, escolher a da direita, não haverá o menor problema: estará já dentro. Se escolher a da esquerda, idem. Mas se o guarda, por acaso, estiver em seu posto e você houver <em>"entrado errado"</em>, ele lhe pedirá para sair e depois entrar novamente, pela roleta certa. Entra-se pela roleta da direita e sai-se pela da esquerda, anote aí porque não há nenhuma placa ensinando isto.<br /><br />Escreveu não leu, não abre. São <em>"pontos facultativos"</em> surreais, dias feriados estranhíssimos e, principalmente, ele, o fantástico <em>"Sistema"</em>. Vamos abrir um parágrafo para o Sistema, porque ele merece!<br /><br />O Sistema são cinco PC velhos - três para utilização dos funcionários no registro de empréstimos, cadastros e devoluções - e dois outros para consulta do acervo, pelo público. Os três primeiros, quando têm lá as suas indisposições, paralizam completamente o serviço de empréstimo de livros. Nessas ocasiões, não raras, o leitor é recebido por uma quase exultante servidora pública, postada no limiar da porta de vidro que dá acesso ao acervo. Não se pode sequer entrar no reduto - e ela avisa: <em>"Hoje, só devolução: assine aqui e coloque o livro neste caixote!"</em> Se o infeliz usuário do serviço pergunta a data de normalização do Sistema recebe, invariavelmente, a resposta: <em>"Semana que vem deve voltar... O rapaz que conserta..."</em><br /><br />O Sistema é tão fantástico que até já está merecendo outro parágrafo. E olha que merece mesmo! Nele, existe um pequeno menu, à esquerda da tela do PC, e dois campos <em>(box)</em> para a inserção do título ou autor a ser pesquisado, à direita. Antes de tascar lá, por exemplo, <em>"Gabriel Garcia Marquez"</em>, é fundamental fazer a escolha correta no menu: <em>filme, slides, monografia, mapas... </em>(tudo coisa que não existe ali!) e... onde estará a opção <strong><em>"livro"</em></strong>?<br />Vai-se então ao balcão, fazer a pergunta à funcionária - que nunca é a mesma... Estou certo de que vem gente de <em>"Saneamento Básico"</em>, <em>"Sinalização e Trânsito"</em>, <em>"Parques e Jardins"</em>... emprestados (e eu já ia escrevendo <em>empestados</em>!) Sabe-se lá que outras repartições públicas emprestam funcionários à <em>Cultura</em>... Mas, para honra da casa, há, geralmente presente, lá no fundo, uma senhora idosa - que parece conhecer melhor o serviço. Foi desta senhora que eu ouvi a frase quase indignada: <em>"Livro é material não projetável, é claro!"</em><br /><br />Não posso dizer que não gosto do Sistema. Pelo contrário, já estive a ponto de dar um beijo e um abraço no PC das consultas. E olhe que eu falo mesmo com objetos aparentemente inanimados (como, por exemplo, bebedouros que nunca vertem água, sanitários sem descargas, elevadores com todos os botões indicativos dos andares <em>desnumerados</em>...)<br />Eu havia feito a seguinte pesquisa: <em>"Miguel Torga"</em>. Resultado: zero! Vagando pelos escuríssimos corredores de estantes, com minha indispensável lanterna de quatro pilhas, encontrei nada menos que nove livros de Miguel Torga, organizados e colocados no local correto, justiça seja feita! Na saída eu disse para o Sistema: <em>"Grande piadista! Sempre me proporcionando as mais agradáveis surpresas... Malandrão!! Isto é um humorista inato!"</em><br /><br />Que felicidade! Mas isto não foi hoje. Já faz tempo. Agora eu somente cumprimento, de longe, o velho e chalaceiro PC, o pândego terminal do Sistema.<br /><br />O local é um pouco perigoso e já vou dizer porquê. Mas, onde encontrar alguns livros maravilhosos, fora de catálogo, sem esperanças de reedição, senão num lugar onde quase ninguém os lê e estão tão bem guardados (relegados por falta de leitores)? Há goteiras em profusão quando chove. Mas, como Deus é literato, elas, as gotas, geralmente caem sobre os <em>best-sellers</em> ou corredores vazios. Problemas mais sérios são os furtos.<br /><br />Parece - é o que dizem os guardas, quando perguntados - que alguns dos estudantes da <em>rede pública</em>, talvez os mesmos que assustam e mantêm sob intimidação permanente seus professores dentro das próprias salas de aulas, cometem ali o furto de livros. Muitos livros. Para vender. Também há a proximidade da <em>Central do Brasil</em>, um antro. Então há um sistema de segurança tosco.<br /><br />Há escaninhos onde devem ser deixadas bolsas, sacolas ou qualquer tipo de objeto onde possa ser ocultado um livro. Deixa-se então, sob a guarda de um desconhecido - que varia de semana a semana e que não possui nenhuma identificação visível -, tudo o que não seja o livro a ser devolvido.<br />Recebe-se, deste incógnito, um retângulo de papelão numerado a mão, com uma <em>pilot</em>, para o resgate dos pertences pessoais, na saída.<br /><br />Há sazões, ciclos, mas eles são aleatórios - dependendo da maré de rapinagem. Antes, era um fortão que examinava o livro e a papeleta de empréstimo. Este <em>"um fortão"</em> também muda amiúde. Somente o que não muda é o fato de que esse policiamento, quando feito, é centrado mais nos humores do vigilante do que na confrontação entre o recibo de empréstimo e o livro que o suspeito está tentando retirar dali. Fica óbvio que custa a esses homens fazer as duas leituras: título do livro e título constante da ficha de saída!<br /><br />Hoje estive lá. <em>Quinta-feira, 9 de agosto de 2007</em>. Levei a lanterna com as pilhas recarregáveis, na carga máxima. Eu tinha um propósito, já que tenho o hábito de sempre duvidar de mim mesmo... Não é nada seguro confiar em si...<br /><br />Examinei, pela enésima vez, os escuros mas bem sortidos corredores onde dormem os livros de autores brasileiros. Livro a livro, a maioria meus velhos e decepcionantes conhecidos. Quase todas as lombadas examinadas, muitas <em>orelhas</em> lidas... E nada! Sem novidades promissoras. O que há de novo é frustrante. Mas não foi de todo inútil a minha busca...<br /><br />Descobri ali, nessa garimpagem, um erro meu. Na resposta aos comentários feitos por um leitor sobre um texto que eu havia escrito, <em>"A Estupidez Letrada"</em>, atribuí a autoria de <em>"Os Tambores de São Luis"</em> a <em>Antonio Callado</em>, quando, justiça seja feita, de novo, quem fez enrubescer de pudor um negro retinto africano foi <em>Josué Montello</em>, neste que é considerado o seu <em>"melhor romance"</em>. Vai aqui o <em>mea-culpa</em> de um imbecil, eu, que faço confusões entre gêmeos e ainda mais se eles forem siameses! Já explico, calma...<br /><br /><em>Celso Kelly</em>, que dá nome à biblioteca, foi diretor geral do <em>Departamento Nacional de Ensino do Ministéiro da Educação</em>, desde o começo da Ditadura Militar que nos assolou. Foi ele o responsável pela criação da primeira <em>"grade-curricular"</em> do primeiro <em>Curso de Comunicação Social</em>, após presidir a <em>Associação Brasileira de Imprensa</em> (cuja carteira de <em>Jornalista, Categoria Sócio-Militante, número 3287</em>, a minha, eu rasguei em quatro no final dos anos 80, depois de cansar de reclamar com o venerandíssimo <em>Dr. Barbosa Lima Sobrinho</em> para que parasse de utilizar o dinheiro de nossas contribuições na propaganda eleitoral que o eternizava na Presidência!).<br /><br />Pois bem, Celso Kelly esteve na <em>ABI</em>, muito antes de mim, é claro, e não cheguei a conhecê-lo. Morreu quando eu ainda era uma criança de 10 anos de idade. Mas, vejamos algumas sutis ligações...<br /><br />Josué Montello viveu uma vida <em>chapa-branca</em> longuíssima: <em>Diretor Vitalício da Biblioteca Nacional</em> e idem, idem, do <em>Serviço Nacional de Teatro,</em> foi amigo de <em>Juscelino</em> e de todos aqueles que o sucederam, sem exceções. Era amigo de quem estivesse no poder, não importando se o sucessor matou ou não o seu antecessor. Assim fez até findar seus dias, em 2006. Compadre, vizinho, conterrâneo, <em>cupincha</em> e colega de <em>Academia Brasileira de Letras</em> de Antonio Callado, quem lê um já tem o outro lido!<br /><br />Por sua vez, <em>Ana Arruda Callado</em>, esposa de Antonio, chegou ao patamar de <em>Diretora "Professora Doutora" do Departamento de Comunicação Social da UERJ</em>, de onde, ao que se saiba, jamais saiu um jornalista sequer de expressão.<br /><br />E assim vai caminhando a <em>Cultura</em> e a <em>Literatura</em> no Brasil. Dentro do canil de um pequenino grupo de compadres, que não larga o osso e, por outro lado, não produz nada que possa ser considerado significativo (<em>maus hábitos</em> que causam malefícios incalculáveis às letras pátrias - já que abiscoitam sinecuras, prêmios literários <em>combinados</em>, vantagens diversas e honras literárias risíveis), pouco ou mesmo nada ficando à disposição de alguns talentos verdadeiros que florescem e fenescem nas sarjetas do desconhecimento e do desamparo total.<br /><br /><em>Marina Colasanti</em> e <em>Affonso Romano de Sant'Anna</em>, familiarmente, marido e mulher, abocanharam também não poucas tenças e benesses dentro deste pequeno círculo de apaniguados. E no entanto o povo não os lê, e nem lerá jamais. Nem mesmo o brasileiro razoavelmente letrado liga a mínima para esses dois. Então por que tantos cargos, representações e viagens patrocinadas pelo Governo?!<br /><br />Não são poucos os casos - mas o grupo dos <em>varrões assinalados </em>é bem restrito. Sempre os mesmos. Aqueles que exercem esse péssimo vício - associar um trabalho de criação a garantias permanentes, graças aos bons ofícios de amigos bem colocados -, vêm sufocando o surgimento de novos escritores e comprometendo a sobrevivência da literatura brasileira. Por tudo isto, pela existência de uma <em>arte-funcionária-pública</em>, de um pequeno grupo de artistas <em>consagrados pelos amigos</em>, foi que deu no deu a nossa paupérrima literatura.<br /><br />Um dos maiores autores brasileiros, <em>Graciliano Ramos</em>, sempre procurou contribuir com a Cultura e com melhoramentos gerais em nosso país. Porém, um após outro, foi abdicando de cargos públicos - mesmo aquele em que foi eleito pelo voto popular, Prefeito de Palmeira dos Índios - AL -, por discordar do que via e querer fazer mudanças que contrariavam os vícios dos políticos profissionais. Destino certo: cadeia! Este, que eu me lembre, foi o único escritor brasileiro de renome que não se deslambeu diante do poder e do dinheiro palaciano.<br /><br />E, para que não se diga que não falei de nenhuma flor, <em>Elio Gaspari</em>, o maior nome das letras brasileiras atuais (mesmo não sendo um autor de ficção), nem mesmo nasceu no Brasil, mas sim em Nápoles, infelizmente... Escreveu a sua obra notabilíssima com o apoio conseguido fora do Brasil, uma bolsa fornecida pelo <em>Wilson Center for International Scholars</em>.<br /><br />Gaspari escreveu sobre a história recente do Brasil. Por que razão não foi patrocinado por nós? Talvez seja porque o Governo esteja sempre com os cofres da Cultura vazios. A gente entra em qualquer biblioteca nos EUA, no Canadá, nos principais países da Europa, e elas estão abarrotadas de livros de José Sarney, Antonio Callado, Zélia Gattai, Marina Colassanti. Tudo editado, impresso, distribuído, empurrado mesmo, sob o patrocínio do Governo do Brasil.<br /><br />Pena é que eles também não tenham contratado pessoas para lê-los: estão às moscas, intocados.<br /><br />O <em>chapabranquismo</em> destrói, avilta e empobrece a obra de qualquer artista. A condição estável, sossegada, de <em>servidor público</em> (jardim propício ao florescimento do descaso, do escárnio e da fatídica <em>doença da fartura excessiva,</em> que um autor não pode contrair), é, além do mais, uma ofensa a quem lhes paga o salário - através de impostos recolhidos compulsoriamente.<br /><br /><strong>Nota:</strong> Desde novembro de 2008 a Biblioteca Estadual Celso Kelly está fechada para reformas. Indaguei a respeito, antes do fechamento, e mostraram-me o projeto arquitetônico das reformas. Aquilo que era um tugúrio mal iluminado irá se transformar em uma biblioteca germânica, ou, temo, pior ainda, de estilo suíço (<em>chocolate suíço</em>).<br />Cafeterias, ar condicionado central, muito paisagismo, <em>lounges</em> (quiçá com lareiras!), auditórios, heliponto... Indo além e perguntando sobre a previsão de conclusão das obras fui informado que elas estariam concluídas <em>"daqui a uns dois ou três anos..."</em> ...e se o acervo iria finalmente ser acrescido... <em>"isto não faz parte do projeto e nem do orçamento, isto já é outra coisa..."</em><br />Temo que esta biblioteca jamais volte a abrir suas portas. A verba, esta sim, deverá evaporar, como ocorreu com os recursos oriundos do exterior para o <em>"Projeto de Despoluição da Baía da Guanabara"</em>, tragados que foram pelo lodo, não da baía, mas por aquele existente nos bolsos dos nossos políticos.<br />É uma pena. Onde encontrar, em regime de empréstimo (tente ler os dez volumes de Casanova nas cadeiras da Biblioteca Nacional... a gente quer é livro emprestado, para ler em casa!), obras que não têm a menor chance de serem reeditadas, por não possuírem o apelo comercial banal que agora é regra no meio editorial?</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-3748510317167148930?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-3444005617641060253.post-70391564388615487242009-05-26T00:13:00.004-03:002009-05-26T00:28:49.586-03:00É o fim...<div style="text-align: justify;"><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Shtepy8BSSI/AAAAAAAAAHE/FkEvPRcYn5k/s1600-h/coiso.gif"><img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 181px; height: 181px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_px-h6LIPMuo/Shtepy8BSSI/AAAAAAAAAHE/FkEvPRcYn5k/s320/coiso.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5339965855319017762" border="0" /></a>Em um dia, que não está distante, todos nós seremos artistas. Todos. Absolutamente todos, sem uma única exceção.<br /><br />A partir deste fatídico dia, não haverá mais platéias, ouvintes, leitores, compradores de revistas eróticas, torcidas, nada!<br /><br /><br /><br />- <i>"O gostosão aê tem cinco minutinhos para ver o meu ensaio erótico insinuante?"</i><br />- <i>"Desculpe, amô, estou atolado no libreto do meu pagode-ópera... Vai segurando aê essa dúzia de entradas..."</i><br /><br />Os cientistas mais sérios já nomearam o fenômeno de <i>"Entertainment Apocalypse"</i>. Bem, pelo menos eu, que passei 13 anos pesquisando e acabo de formular todas as equações desta lei, chamo assim.<br />E, peço, não vá algum idiota traduzir isto como <i>"Armagedon Divertido"</i>, sim?<br /><br />Assim como Einstein, bem, não digo corrigiu - porque isto seria um crime bábaro -, mas, acrescentou coisas às descobertas formidáveis de Newton, eu, por minha vez, faço o mesmo com Andy Warhol.<br />E digo: Será pior, muito pior. Não serão apenas 15 minutos de fama - ou 5 de celebridade. A coisa veio para ficar, é permanente.<br /><br />- <i>"Moço, poderia ler o meu livro, pelamordedeus?"</i><br />- <i>"E você pensa o quê? Que sou um vagabundo? E a seleção de futebol que estou treinando"?!</i><br /><br />Será uma espécie de <i>"Comunismo Cultural"</i> - onde o maior dos sacrilégios contra o partido será o camarada tentar um anonimato egoísta.<br /><br />Quando isto acabar de acontecer - sim, porque já começou -, será o fim da Arte, da forma como nós a conhecemos.</div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3444005617641060253-7039156438861548724?l=escritorbomtamorto.blogspot.com'/></div>Fernando A. A. Soareshttp://www.blogger.com/profile/14508082419426196981noreply@blogger.com2