tag:blogger.com,1999:blog-344391332009-04-23T12:28:59.905-03:00PescotextoContos, Crônicas e Pescotextos de Augusto Malbouisson e Barbara KahanePescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.comBlogger37125tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-87828324718192226462009-03-19T09:20:00.013-03:002009-03-22T14:48:16.142-03:00The front page<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/ScZ48ItIBlI/AAAAAAAAAJQ/Vf9fm88eewQ/s1600-h/onda+nuvem+voc%C3%AA.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 316px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/ScZ48ItIBlI/AAAAAAAAAJQ/Vf9fm88eewQ/s400/onda+nuvem+voc%C3%AA.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5316069384681686610" /></a><br /><br />A Galinha, uma tira brizolista, zomba de Clara enquanto um rato luta luta livre bezuntado de calda de chocolate com três jovens baratas eriçadas.<br /><br />- Tá mexida, filha? Esse mundo te janta!<br />- Mexida uma ova! Me viro!<br />- Casca grossa, ela, né não, Cavalo? - aponta.<br />- É, coloca de volta na cela dos carecas, por desacato!<br />- Boa! ... E ... e, ó lá, nem responde ... Tá vendo? A cadela é uma daquelas que no cio lia o russo na cela. Tacabando com as cabeças de toda porra de preso que sai daqui! (Gargalha) hehe ... porra de preso que sai ... haha (cafunga o ar empinando a penosa nareba aflita e tremilicante como se bastasse apenas um ligeiro afrouxamento da atenção muscular para que a pequena catástrofe natural da flatulência ritmada mudasse a cadência da risada de porco que a Galinha, a tira, dava, e que o Cavalo, o tiro, dava também) e preso que ... cai ... haha - .... - e sai.<br />- A algema! Tira de mim! Cocoricó! - berra Clara.<br />- Solta ela, Cavalo! – geme Galinha.<br /><br />Na cagada da Galinha, Clara dá um coice em Cavalo, que cai de beiço na sobremesa das dolichoderus gibbosus. Mancha no carpete. Cortina. Mancha na cortina.<br /><br /><br />Anedota sem escolta<br /><br />De cima, Gata assiste à cena, pensa em pé, pensa em nada, nada como seu vestido flutua, e sozinha cambaleia no vai e vem de seus belos abdominais lesados e fáceis. Segurando a barra de ferro da varanda, sorrindo e olhando do seu P.O avançado para os rapazes abaixo, nos destroços da festa, sujos de pastinhas diversas e suados como espivitadas raparigas de um bordel de guerra que desfilam sem saber para a poderosa oficial na varanda entrecortada de faixas de luz no escuro.<br /><br /><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/ScZ5xEPt2xI/AAAAAAAAAJY/8xUNRsRnZ3Y/s1600-h/peter+sellers.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 306px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/ScZ5xEPt2xI/AAAAAAAAAJY/8xUNRsRnZ3Y/s400/peter+sellers.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5316070294017661714" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-8782832471819222646?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com1tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-6039594708587278962009-02-24T17:12:00.002-03:002009-02-24T17:16:37.449-03:00AS TORRES DA PRAÇATrês rapazes pedem a torre de chope dentro do shopping center. O sol castiga lá fora e a praça de alimentação bomba. A cada duas ou três mesas empilhadas de gente existe erguido esse espigão de líquido amarelo. Parece ser a nova sensação mudando sutilmente paisagem tão uniforme. Aqui não se fuma e o ar condicionado não dá vazão. Quem não bebe se atraca com um sanduíche gigante de uma famosa rede de fast food. E assim dois rapazes com suas bocas cheias de um Big Mega Super Plus com tudo dentro convivem em plena harmonia a dois palmos de distância de um casal e sua torre cheia da mais nova sensação do verão. O chope ali esquenta rápido e a economia de pedir a torre é de menos de três reais. O rosto do garçom entediado enchendo mais uma das torres numa serpentina do balcão do restaurante da minha frente não nega que ele prefere mil vezes ir e voltar com sua bandeja entregando um por um os chopes solicitados. E isso não tem absolutamente nada a ver com os trinta centavos que ele deixa de ganhar a cada sete minutos perdidos na enfadonha obrigação de encher a torre para mais uma mesa sedenta. <br /><br />Eu, também cheia de tédio, tenho que esperar. As ordens foram essas e há quatro dias fico uma média de quatro horas sentada numa das mesas dessa praça de alimentação sorvendo expressos e observando. Não sinto fome e tudo o que eu devorei até agora foram quatro livros. Acho que estou começando a levantar suspeitas, pois desde ontem os garçons me olham com olhos desconfiados. Eu só tomo café e observo entre um e outro capítulo que folheio dos velhos clássicos que eu trouxe comigo nessa minha missão. Às vezes saio para fumar um cigarro, mas sempre volto ao meu posto. Quando vejo que tomaram a minha mesa já de estimação e tão estrategicamente escolhida eu me irrito. Da última vez que isso aconteceu, coisa de duas horas atrás, a moça do quiosque do café percebeu e num ato de surpreendente e inesperada cumplicidade (será que ela sabe?) me serviu um expresso sem eu mesma solicitar. Tomei-o em pé assistindo as duas adolescentes sentadas na minha mesa que acabavam com seus sorvetes de baunilha na casquinha do fast food e riam risinhos frenéticos enquanto um jovem de jeans rasgados passava por elas. <br /><br />Agora, de volta ao meu lugar, observo que acabou de chegar numa alegre e descontraída mesa à minha frente uma torre de um tipo que eu ainda não havia tomado conhecimento. Uma torre cheia de um líquido negro. Imponente. O chope escuro, servido assim dessa maneira, me parece estranhamente sedutor. Um dos rapazes sentados na mesa pensa que meu olhar instigado é para ele e sorri maliciosamente. Cogito pedir um chope para mim, mas não sei se devo. O casal que vive na mesma situação que eu e que se sitiou na mesa oposta ao lado da praça de alimentação escolhido por mim é sempre muito comportado. Ninguém sabe o que nos trouxe aqui e eu sei que eu com meus hábitos de sorver expressos, devorar livros, sair para fumar cigarros e agora escrever autisticamente nesse bloco pautado levanto muito mais suspeitas do que o casal que ora divide um milk shake de morango, ora uma pizza portuguesa, ora bebe sucos de polpa congelada, ora lê o jornal local do dia, ora conversam sobre sei-lá-o-quê e ora até dividem o silêncio dos enamorados simulando olhares lânguidos um para o outro. Eu, por outro lado, estou sozinha nessa missão e tudo o que me resta enquanto Eles não chegam com as novas diretrizes é contar as torres de chope que desfilam na minha frente e observar o movimento tão uniforme e ainda assim bizarramente humano da praça de alimentação desse shopping center. Enquanto isso eu sorvo expressos e devoro clássicos como se fossem descartáveis, como tudo aparenta ser a minha volta neste exato momento. Com sorte uma indigestão me tira desse jogo.<br /><br />Barbara Kahane<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-603959470858727896?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-62222636196020908932009-02-06T19:00:00.025-03:002009-02-27T13:45:00.748-03:00Funciona mais ou menos assim<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/SYyzMbwc_gI/AAAAAAAAAGA/UOK488tjK_Y/s1600-h/uma+epidemia+de+imcompetencia+simp%C3%A1tica+e+tortura+pela+instabilidade.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/SYyzMbwc_gI/AAAAAAAAAGA/UOK488tjK_Y/s320/uma+epidemia+de+imcompetencia+simp%C3%A1tica+e+tortura+pela+instabilidade.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5299807887699017218" /></a><br /><br /><br /><br /><br />Seu hd trava, então você começa a procurar um técnico ou uma empresa competente que possa resgatar seus arquivos das trevas. Após uma pesquisa empenhada, você resolve apostar naquele site: “Garantimos recuperação total dos seus arquivos! Confie em quem tem experiência. Profissionalismo, sigilo (te chamam sorrateiramente de tarado), bom atendimento e atenção é nossa prioridade”.<br /><br />É lá, beleza! Você embrulha cuidadosamente seu hd, coloca na mochila, pega o ônibus, enfrenta engarrafamento, ri do bigode no cartaz publicitário, agüenta com trema o cheiro de cêcê da gorda que te espreme contra a janela, lembra do ano de trabalho perdido (só gente chata faz backup de tudo) e desce no coração de Copa.<br /><br />Uma simpatia a dona da loja. Quanto sorriso! Como é bom, é sempre um prazer ser bem tratado, ou simplesmente ser tratado como a situação exige. Quem escancara o bolso merece. “Claro, recuperaremos tudo, com certeza”. Tudo? “Tudo, os cento e oitenta e quatro gigas, sem problema, estamos acostumados.”<br /><br />Você chaga em casa e percebe que aquela pasta que você mais precisa para trabalhar não foi recuperada. Já é tarde, a empresa fechou às sete da noite e agora são dez, quando você acaba de abrir todos os dvds de backup e verifica que a tal pasta realmente não foi recuperada.<br /><br />Na manhã seguinte, quatro xícaras de café, a Letícia Sabatela a sorrir maravilhosamente no caderno cultural, algumas foto do Caetano (o globo e o jornal do brasil parecem precisar preencher uma cota semanal de caetano em suas páginas), e você está pronto, e devidamente preparado para manter a calma, e caso precise, recitar a lista de argumentos que você preparou na sua cabeça para que ninguém na loja deixe de reconhecer o erro, ou tenha a audácia de se esquivar da obrigação de terminar um serviço inacabado e caro. Você preparou uma dose fortíssima de culpa a ser entornada nos ouvidos da gerente caso ela te torre o saco com lorotas esfarrapadas. Orgulhosa e consciente dos serviços que oferece, e do que promete, e provavelmente fragilizada pela periclitância dos negócios, ela não nega, não nega mas também não fala, passa para um subalterno (quando um cliente está puto, começa a chamar as pessoas não pela função que exercem, mas pelo critério do <span style="font-style:italic;">você sabe com quem está falando</span>? Assim, chamamos técnicos de subalternos. Aderimos sem pensar à velha e boa hierarquia à la coronel. Ninguém respeita subalterno, ou pelo menos não como "respeita" - zoa, leia-se - aqueles que se encontram acima na hierárquia que Kryamos...). O subalterno se dá ao luxo de subir o tom de voz. Defende a incompetência com vulgaridade, tentando achar algum gancho de grosseria na sua voz para então justificar a "impossibilidade" de acabar o serviço. Petulante a defender os valores de sua pátria invertida e delirante.<br /><br />Provavelmente, na sua cabeça de cliente esculhambado, você vê a gerente tirar uma grande meleca verde petrificada do nariz enquanto balança a cabeça positivamente de maneira determinada, estimulando o seu funcionário a manter o tom duro na conversa. Frieza, frieza e paciência, você aprendeu isso depois de perder o espírito, como perderam o espirito o jeep e o jornalista do filme do kiarostami que você nem lembra o nome, de tão tenso que ficou com o descaramento verbal do gago subalterno, mas sabe que é algo com vento. Não, você não só pensa nos seus iates imaginários em Angra ou na sua casinha bucólica no campo da irrealidade, para onde deseja fugir e só sair quando a cidade rachar, você pensa também em resolver o problema o mais rápido possível, logo.<br /><br />Duas horas depois lá está você em Copa. A gerente, ontem de uma gentileza capaz de adocicar corações terroristas, vem andando atrás da porta de vidro com olhos orgulhosos e descontentes, arrastando-se com olheiras de lagarto morto e com uma franginha que nem te digo. Você não é bem vindo aqui, é o que diz o rosto. Olhar de quem se sente ultrajada! Só não explode quem vive das chibatadas do masoquismo. Quem é são, pira. E só os fantasmas se divertem.<br /><br />O mundo não é o que pensamos, como diria Drummond.<br /><br />Uma epidemia brasileira, a incompetência simpática.<br /><br /><br />Signifrito Figueiroa<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-6222263619602090893?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-36182245329958695672009-01-26T20:37:00.005-03:002009-01-26T21:31:42.646-03:00adeus avestruz<em>And if I seem to be afraid<br /> To live the life that I have made in song<br /> It's just that I've been losing so long.<br /> La la la la la, la la.<br /> (these days, nico)</em><br /><br /><br /><br />Não agüentava mais ler nas páginas dos livros a vida que deveria ter tido e nunca aconteceu. Era um desperdício tanta expectativa. Deveria fechar o apartamento repleto de livros e ir pra o rio das ostras abrir um bar e viver de pescar peixes. Abrir os livros por prazer, sem desejos de respostas. Sumir do mapa, aposentar o telefone. Não ter numero.<br /><br />O ponto alto de sua vida no último ano foi ficar sem celular por dois meses. Não poder ser achada. Odiava telefone.<br /><br />Não agüentava mais ouvir nos acordes das músicas a vida que deveria ter tido e nunca aconteceu. Era um desperdício tanta expectativa. Deveria se dedicar às aulas de violão e às revistas de banca de jornal que ensinam mal como tocar a legião urbana, e assim assimilar as três posições necessárias para fazer sua própria música. Diferente de tudo e foda-se se os outros iriam achar igual. Rimar amor com dor, amor com flor, amor com impossibilidade de ser feliz. Cantar no karaokê disputando um nove e meio eletrônico com os bêbados de pinga e fossa.<br /><br />O ponto alto de sua vida no último ano foi passar incólume, sem se interessar por ninguém. Desejava o mundo, e nada mais além disso.<br /><br />Não agüentava mais assistir nas seqüências de planos dos filmes a vida que deveria ter tido e nunca aconteceu. Deveria desistir dessa história de imaginar casos impossíveis com astros made in usa que povoavam os seus sonhos. Era melhor ir para rua e gritar pela carioca. Fingir que sua loucura é performática e com sorte ganhar uns trocados para pegar o metrô de volta. Não ter mais medo. Despedir-se da era dos desperdícios. Fingir que agora era para valer.<br /><br />O ponto alto de sua vida no último ano foram as horas no trânsito obrigando-a a observar. Os olhares tristes e exaustos dos solitários presos num ônibus lotado são sempre cheios de vida e medo. <br /><br /><br />Barbara Kahane<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-3618224532995869567?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-69173368899656300542008-12-02T03:08:00.009-03:002008-12-09T01:39:44.296-03:00Spa de letras<a href="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/STTRBTkihrI/AAAAAAAAAFQ/tIvWQ9qC9gU/s1600-h/7.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 250px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/STTRBTkihrI/AAAAAAAAAFQ/tIvWQ9qC9gU/s320/7.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5275070883921299122" /></a><br /><br />Relatório do Capitão o_ técnico interino<br /><br />Se o objetivo daquela rapaziada era realmente vencer a competição de remo interalfabética sem nunca nenhum deles ter sequer remado ou navegado ou velejado ou nadado ou exposto algum dado que nos ajudasse a esclarecer algo ao invés de pastarmos, a primeira coisa a se fazer era acabar com o tráfico de bombons incomuns e salgadinhos de blugares que suas mães insistiam em armar na surdina. Mimando os filhinflados, eles nunca deixariam de chafurdar naquele spatafúrdio em Guarulhos. <br /><br />Signifrito Figueiroa<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-6917336889965630054?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-22692981561136130412008-11-27T16:38:00.001-03:002008-11-27T17:28:57.246-03:00EU TE OLHAVA ENQUANTO DESAPARECIASSentada na escada da entrada Presidente Vargas do Centro Cultural Banco do Brasil deixo o sol quente bater no meu rosto. A sensação é boa<br /><br />À minha esquerda, um caminhão da Cavalaria da Polícia Militar despeja cavalos na rua para as festividades do dia do Zumbi. Duas senhoras brancas vestem atrás de mim tons elegantes de vermelho e curtem o feriado fumando cigarros e jogando conversa fora. Elas comentam sobre os cavalos na Presidente Vargas. Elas seguram sacolas elegantes da Livraria da Travessa. Agora pouco, lá dentro, paquerei um livro de entrevistas com o Woody Allen que não posso comprar. Se eu deixasse de beber nos bares por apenas uma semana eu poderia comprar o livro, mas sofro de uma tremenda falta de força de vontade e, por isso, ficarei por um tempo sem muito saber o que Woody Allen poderia ter para me contar que já não está em cada um de seus filmes que eu tanto prezo e aprecio. <br /><br />A força da vontade que me falta. Estou, eu, simplesmente sentada na porta do Centro Cultural do Banco do Brasil deixando o sol bater no meu rosto com cavalos à minha esquerda e duas senhoras elegantemente vestidas de vermelho fumando seus cigarros atrás de mim.<br /><br />O cheiro dos cigarros das senhoras está muito presente. Mais presente do que o cheiro de pipoca do pipoqueiro à minha frente; mais presente que o cheiro forte de cavalos à minha esquerda.<br /><br /><a href="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/SS8CQq6G24I/AAAAAAAAAFA/DFrN1dMF32Q/s1600-h/tom_waits.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 240px; height: 320px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/SS8CQq6G24I/AAAAAAAAAFA/DFrN1dMF32Q/s320/tom_waits.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5273436174093310850" /></a><br /><br /><br />Os sinos da Candelária tocam as cinco horas que chegam. Não tenho fome, nem sede, nem sono. Tenho é uma tremenda falta de força de vontade.<br /><br />A polícia montada vira a Primeiro de Março chamando a atenção de todos os presentes. Agora não existem mais cavalos à esquerda, mas à minha direita um grupo sonoro de crianças sai do Centro Cultural do Banco do Brasil em algazarra. O barulho me incomoda, mas falta força de vontade para sair daqui. <br /><br />As mulheres elegantes já fumaram seus cigarros e não estão mais atrás de mim. Não sei contabilizar se isso faz muito ou pouco tempo. O cheiro do cigarro, no entanto, permanece. São outros fumantes que refugiam-se como lagartos no sol quente para fumar em paz.<br /><br />As crianças ainda gritam e me pego pensando em um homem com voz de uísque. Faço a memória do caos de sua música embalando sua voz rouca sobrepor à gritaria aguda e desafinada dos cabritos em berros agudos.<br /><br />Tenho pensado muito em Tom Waits. Na foto dele que uso como pano de fundo no meu computador do escritório ele fuma belamente e a fumaça estática do seu trago sempre parece que vai me invadir; saindo da tela para realidade. <br /><br />Esse cheiro intermitente de cigarro na porta do Centro Cultural do Banco do Brasil me lembra a foto do Tom Waits. Talvez, essa seja a real razão de eu não ter vontade nenhuma de sair daqui, apesar de não existir nenhum motivo para ficar ainda mais.<br /><br />Não que eu me entretenha ao lembrar todo o sufoco que sofri no escritório nas últimas semanas, mas o jeito cool em branco e preto e o bolso de sua camisa de botão cheio de um maço cheio de cigarros que ele fuma e joga a fumaça estática na minha direção que parece que vai sair e me tragar, me acalma inexplicavelmente nos momentos de maiores tensão.<br /><br />Eu pego, finalmente, um cigarro na porta do Centro Cultural Banco do Brasil e o acendo enquanto penso em Tom Waits. Sempre no escritório, quando eu desligo meu computador, eu fumo um cigarro. O último cigarro do dia com Tom Waits. Eu trago o cigarro e espero o computador desligar. Eu trago o cigarro e olho Tom Waits enquanto ele desaparece.<br /><br />Hoje não vi Tom Waits porque estou aqui. O tempo está virando consideravelmente e os cavalos voltaram à Presidente Vargas. O cheiro do cigarro permanece e agora o meu ajuda a sustentar esse cheiro presente. Eu penso em Tom Waits e não tenho vontade de nada. Queria que alguém estivesse me olhando até eu finalmente desaparecer.<br /><br />Barbara Kahane<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-2269298156113613041?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-49359688216828714082008-08-17T20:17:00.000-03:002008-08-17T20:24:54.690-03:00DA MAÇONARIA DOS RESSENTIDOS*I – Confissão de um membro honorário.<br /><br />Esse meu problema de só conseguir falar palavras que não representam em significado nada do que eu realmente estou sentindo está prestes a me colocar, pela segunda e definitiva vez, em seríssimos apuros. Agora percebo que por toda minha vida me dediquei a construção de uma armadilha para mim mesmo e num transe louco e hipnótico rumo agora em direção ao perigo com a consciência plena do meu destino, mas ao mesmo tempo impedido por uma força maior de recuar. Como aquela lâmpada azul que fazem os mosquitos voarem para a morte em sua direção. Eu sou o mosquito e as palavras que se formam na minha boca me traindo ininterruptamente é a luz azul que tenho absoluta certeza finalmente acabará comigo. Os dias continuarão passando, mas eu terei que, pela primeira vez, conviver com a consolidação de meu maior fracasso até o fim de minha fatídica existência. <br /><br />As palavras escritas acima me denunciam como um mentiroso de marca maior. Mas talvez não seja nada disso. Talvez não seja tão grave, talvez seja muito pior. Atesto minha incapacidade com o manuseio de palavras e minha absurda falta de talento em conseguir me fazer entender pelos outros alertando ao leitor que não existe recompensa na insistência de leitura dessas confusas linhas a não ser a resignação de que o tempo, ao contrário do que o senso comum diz, não vale absolutamente nada. Afirmo de antemão, portanto, que o poder que minhas palavras tortas tem de provocar outros não afetarão, com absoluta certeza, àqueles que agora se dedicam sem nenhuma pretensão de estímulo didático, informativo ou intelectual a essa leitura. Dedico, portanto, essa tentativa de me explicar aos desapegados, que não me excomungarão pelo tempo perdido com a apreciação desse texto. Desde já também me eximo de qualquer culpa. Já avisei que possuo um discurso deveras duvidoso. Que nada do que eu digo deveria ser escrito, e que o reverso da sentença é real. Nada do que eu escrevo deverá algum dia ser repetido em voz alta. Principalmente para aqueles que dizem me conhecer muito bem. O eu aqui apresentado será tão outro, tão irreconhecível, que se o que eu estou aqui prestes a relatar for reproduzido em voz alta em uma roda de algum evento social ou ao pé do ouvido no leito da intimidade, a fama de mentiroso e vil será do reprodutor da notícia, do mensageiro, e não de mim que tenho perfeito conhecimento da fama que sustento aos olhos daqueles que me prezam e que, para minha profunda infelicidade, são milhares.<br /><br />Já enganei muita gente e me arrependo. Isso não quer dizer que irei parar. Minha intenção aqui não é pedir absorção de nenhum dos meus pecados. O circo que eu criei é maior do que eu e sempre foi. Aprendi a forjar o que eu sinto muito cedo. Nem posso dizer que aprendi ser assim, que foi um ensinamento ou a conseqüência de alguma decepção que sofri ainda muito jovem. Para mim essa maneira de agir, de ser, sempre foi a única maneira. Quando percebi que existiam outras alternativas mais comuns e menos dolorosas no comportar social era tarde demais e uma vida falsa já estava erguida a minha volta com alicerces sólidos e firmes. Minhas palavras nunca foram trêmulas e minha confiança encenada fez com que eu me tornasse esse homem de aço, esse super homem que nunca se reconheceu como tal de frente ao espelho. <br /><br />Isso me faz pensar na vaidade que homens como eu possuem. No apavonamento de colegas que estufam o peito e se aplumam ao reconhecimento mais nefasto de seu brilhantismo. Eles parecem tão felizes e ainda assim nunca estão satisfeitos. Nunca quis isso para mim e ironicamente foi assim que eu me criei. Meus elogios valem algum dinheiro, minhas críticas valem ainda mais. Sou um homem rico vivendo num mundo patético que dá louros a cretinices como as minhas, e isso não é a pior coisa que poderia ter acontecido comigo, apesar de me provocar desesperos noturnos madrugada sim madrugada não. <br /><br />O que eu estou querendo dizer é que o buraco é muito mais embaixo. Minha fortuna talvez seja apenas um indício de que eu sou esperto e sei trabalhar bem com as adversidades. Mas meu sofrimento real está em outro lugar e sempre esteve. Acostumei-me a dizer que amava a quem só me despertou desprezo e disse que nada sentia àquela única criatura que um dia pareceu chegar perto de conseguir legitimamente me despir, me descobrir, me libertar. Neguei o que eu era para a pessoa que conseguiu realmente me enxergar sem disfarces. Fantasiei-me ainda mais, me camuflei entre os desprezíveis e depois de obter quase fracassos nas minhas inexplicáveis tentativas de não me revelar a quem depositava uma incrível fé nos meus sentimentos mais íntimos e irreveláveis, apelei para humilhação pública. Coloquei-a em seu devido lugar na frente de todos quando sempre soube que ela estava muito acima de mim e que se o mundo fosse justo eu que teria que lutar para estar ao lado dela. Fi-la acreditar que tudo o que eu dizia era, então, verdade, e durante anos achei que ela tinha desistido de mim e migrado para uma vida perfeita, simples e feliz com outro qualquer. Que soubesse dizer-lhe o quanto ela era bonita, especial e única, mesmo que para ele ela fosse apenas conveniente e ele se visse obrigado a forjar inverdades para se proteger (o quê eu não duvido, incontáveis são aqueles que sofrem dos mesmos males que os meus). <br /><br />Passaram-se anos e pouco me importa a coleção de mentiras, de exageros, de vilanias, de sonsices, de manipulações que elaborei aos olhos e ouvidos do mundo na tentativa de passar os dias sem sofrimento da única maneira que eu sei, fabricando falsas verdades aos carentes de opinião. Mas ela voltou e tudo está diferente. Ela quer me ver, ela quer se encontrar comigo. Ela me telefonou e foi de uma doçura tão intensa, como se voltássemos no tempo e o que eu fiz a ela num passado longínquo, mas não tão remoto, nunca tivesse acontecido. Marcou um encontro e agora me encontro já há meia hora sentado no meu carro de luxo estacionado numa rua deserta sem coragem de sair. Não sei se ela está sendo sincera ou se finalmente aprendeu o meu jogo e me conduz rumo ao precipício em sede de vingança. De uma maneira ou de outra tudo o que eu mais quero é encontrá-la e dizer que se algum dia existiu alguém que estava certo era ela. Que ela é a única que me conheceu, que me enxergou, que me viu. Mesmo que ela risse e me botasse no meu lugar, seria uma humilhação doce e libertadora. Basta eu falar o que eu sinto. É simples. É impossível. Sei que meus passos me levarão a pior das forcas e meu talento em manipular as palavras de um jeito que todos admiram e eu desprezo fará com que eu a perca para sempre. Irão me restar aqueles que me idolatram e que eu exterminaria da face da terra se tivesse os poderes divinos que finjo achar que mereço para não transparecer meu medo absoluto de existir do jeito que eu sou e ninguém nunca soube, a não ser você, persistente leitor, que chega agora a última linha desse enfadonho testemunho e que vive em nenhum lugar além da minha imaginação.<br /><br />Barbara Kahane<br /><br /><br /><br />*título retirado de verso da música anilina john de augusto malbouisson.<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-4935968821682871408?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-68343670770669416152008-07-17T13:05:00.006-03:002008-08-10T18:37:36.150-03:00O Cara de acaso<a href="http://bp3.blogger.com/_rzAtQ0JH1hA/SH9ugnVQ7vI/AAAAAAAAAD0/Ux_kT1sq4QA/s1600-h/colibri.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://bp3.blogger.com/_rzAtQ0JH1hA/SH9ugnVQ7vI/AAAAAAAAAD0/Ux_kT1sq4QA/s320/colibri.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5224015599366106866" /></a><br /><br /><br />O Cara de acaso avança silencioso, estende a mão, quer bocejar mas esquece que é um ser desbocado. Descola devagar os cílios úmidos de Aurora enquanto seu melro policromático desenrola uma cortina de gorjeio onírico para que ele possa despreocupado se vestir com as imagens recolhidas dos olhos negros da pequena. Aurora se espreguiça, boceja uma brisa nos campos. Já estava pronta para tomar seu café da manhã atrás das montanhas quando reconheceu o canto do pássaro do Cara de acaso ecoando no sudeste. E pensou: Puta que o pariu! Que massada! Esse Cara de acaso insiste em roubar o caderno onírico do meu jornal mental! E assim sai Aurora pelo dia à caça do acaso. Desistiu, como sempre, lá pelas cinco e tanto. No dia em que o melro morrer, Aurora deixará de comer fora e ficará sonolenta como gosta atrás da linha das montanhas, e os dias passarão a ser como o humor dos contemporâneos esquizóides, angustiados, sem grana, putos, mas contando piadas e fazendo amor: claro/ escuro / claro / escuro / claro / escuro<br /><br />A.M<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-6834367077066941615?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-17823841093320302442008-06-10T13:39:00.007-03:002008-06-10T14:45:18.112-03:00Sopa de Dúvida<a href="http://4.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/SE62Q6As7jI/AAAAAAAAADE/gYMTx7uw2R0/s1600-h/j%C3%B3ia.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/SE62Q6As7jI/AAAAAAAAADE/gYMTx7uw2R0/s320/j%C3%B3ia.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5210302220480605746" /></a><br /><br />Ela vive pendurada ao Postan, sofre de inversão térmica contagiosa, aderiu à anti-ginástica por indicação de uma amiga, à reflexologia por intuição, à estimulação russa e ao rivotril para o mundo virar jegue dócil e oferecer suas rédeas de espuma. Tem tendinite, bursite, fascite plantar, esporão de calcâneo e precisa de um tratamento por ondas de choque. Ele vai sucumbir de disciplina em cinco dias se não parar de achar que amanhã já é ontem.<br /><br />Pausa <br /><br /><object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-2e40b67e32b089f3" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="movie" value="http://www.blogger.com/img/videoplayer.swf?videoUrl=http%3A%2F%2Fvp.video.google.com%2Fvideodownload%3Fversion%3D0%26secureurl%3DqAAAAO3T1daHheEeH3ZcEQIwEb_HLosxYnMOgp9DYxNq0ICKV-SPrJ66bRTLfrOEuzzTyhP9J3q1aJCbJfi1Cq0lzDvJJiEelicXBDgCyymUeHqq4nBdHuAOAvBJwcqQbgK_tJuswfj_VZx0c1UdTwXVqZI1L99DRgH9KyUn3qs6f1lWRBS3X6vcdDuf4ejeTCD8NDdi1-pTGou7_uJ2peyqaxLGLiBH9wpBan1GtlRpRUZI%26sigh%3D_4woowwGGaf1fZSG0HLlmQmJ-vU%26begin%3D0%26len%3D86400000%26docid%3D0&amp;nogvlm=1&amp;thumbnailUrl=http%3A%2F%2Fvideo.google.com%2FThumbnailServer2%3Fapp%3Dblogger%26contentid%3D2e40b67e32b089f3%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw320%26sigh%3D0yYglJ33XiB2cNX-KZRJME4pKgI&amp;messagesUrl=video.google.com%2FFlashUiStrings.xlb%3Fframe%3Dflashstrings%26hl%3Den"><param name="bgcolor" value="#FFFFFF"><embed width="320" height="266" src="http://www.blogger.com/img/videoplayer.swf?videoUrl=http%3A%2F%2Fvp.video.google.com%2Fvideodownload%3Fversion%3D0%26secureurl%3DqAAAAO3T1daHheEeH3ZcEQIwEb_HLosxYnMOgp9DYxNq0ICKV-SPrJ66bRTLfrOEuzzTyhP9J3q1aJCbJfi1Cq0lzDvJJiEelicXBDgCyymUeHqq4nBdHuAOAvBJwcqQbgK_tJuswfj_VZx0c1UdTwXVqZI1L99DRgH9KyUn3qs6f1lWRBS3X6vcdDuf4ejeTCD8NDdi1-pTGou7_uJ2peyqaxLGLiBH9wpBan1GtlRpRUZI%26sigh%3D_4woowwGGaf1fZSG0HLlmQmJ-vU%26begin%3D0%26len%3D86400000%26docid%3D0&amp;nogvlm=1&amp;thumbnailUrl=http%3A%2F%2Fvideo.google.com%2FThumbnailServer2%3Fapp%3Dblogger%26contentid%3D2e40b67e32b089f3%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw320%26sigh%3D0yYglJ33XiB2cNX-KZRJME4pKgI&amp;messagesUrl=video.google.com%2FFlashUiStrings.xlb%3Fframe%3Dflashstrings%26hl%3Den" type="application/x-shockwave-flash"></embed></object><br /><br /><br />Dentro de instantes ofereceremos nosso serviço de bordo.<br /><br />Pratos indicados para ambos: <br /><br /><strong>Sopa de dúvida</strong> <br /><br />Deixe a posta de dúvida descansando no pátio entre dois dias e quinze drinks. Descasque a aurora, corte o precipitado de tu é fera em cubos e misture os dois numa cumbuca repleta de louva-deuses bombas carregados de anedotas e frases de efeito nas antenas. Separe as antenas. Bata tudo no liquidificador de inversão térmica feminina e dê um tibum na praia mais próxima. Visualize as Cagarras se possível. Prenda o ar da praia na boca e volte correndo para casa. (Respire pelo nariz, peça pão de mímica). Sopre o ar nos dois lados da dúvida, decore com as antenas e pense se vale a pena servir e arriscar uma sistite.<br /><br />Ela acha melhor frango, ele também.<br />- Será que eles tiram a cebola se eu pedir?<br />- Se não tirarem eu a tiro.<br /><br />Ela não riu, ele sim, tanto que achou que era a chance de entretê-la e cativá-la (cativá-la, apesar do que quer dizer, tem um som que parece querer dizer outra coisa que não sei, talvez relacionado à uma etapa da feitura de um licor de batatas... se algum leitor tiver sugestões que se adaptem melhor ao campo semântico aéreo sente à vontade) contando anedotas das antenas dos louva-deuses:<br /><br />O otorrino era um velho antipático e babão. Atendia ao telefone resmungando, abria a porta desabafando um “Pois não?” amargo. Comigo, era sempre assim. Porém, naquele dia, enquanto eu esperava para fazer uma lavagem de ouvido, ele estava carinhosamente atendendo um moça de voz meiga do Espírito Santo. A sala de espera, sem portas, só com as dobradiças enferrujadas à mostra, era ao lado da sala de consulta. Uma espécie de ouvidoria das queixas e hipocondrias latentes dos pacientes que ofereceriam ouvidos e gargantas às cataratas de baba do velhinho......<br />....................................................................................................... Aí a menina disse: Mas papai, se o dinheiro ficar na poupança tanto tempo ele vai apodrecer!” ... Filhinha, hoje é dia de sopa de dúvida?<br /><br />A.M<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-1782384109332030244?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-34180711181354233612008-05-13T19:47:00.004-03:002008-05-13T20:21:39.924-03:00A AUTOCOMISERAÇÃO DE JOÃO S<em>Não tentes consolar o desgraçado<br />Que chora amargamente a sorte má.<br />Se o tiraste por fim do seu estado<br />Que outra consolação lhe restará?<br />(Do Pranto, Mário Quintana)</em><br /><br /><br /><br />Possivelmente acho essa vida uma merda. Não tenho certeza, mas os indícios ficam cada vez mais fortes conforme os anos passam e eu cada vez mais velho e infeliz. Alimento um profundo desprezo pelos outros. Por qualquer um. À primeira manifestação interpretei esse sentimento como pena e durante muito tempo acreditei que eu sentia uma enorme pena pela humanidade. Hoje vejo que não. Aquilo que sinto pelos outros, por qualquer um, é desprezo.<br /><br />Nessa maldita festa de fim de ano do escritório eu tenho a nítida certeza que posso morrer a qualquer minuto. Uma certeza absoluta. Quando cheguei nesse restaurante a quilo fétido fechado pela empresa para essa absurda comemoração, meu coração se encheu do mais profundo desprezo por toda a humanidade e desde então essa sensação de morte me acompanha nos cantos à meia luz dessas ridículas iluminações de néon. As luzes frias alternadamente acesas junto às decorações de enfeites de papel crepom verde e vermelho que tomou todo expediente das secretárias em alvoroço pela tarde na distinta responsabilidade de ornar o salão, simplesmente me embrulham o estômago e eu sinto que se não acabar vomitando na cara de alguém meu coração irá parar. De uma maneira ou outra estou pronto para, ainda que involuntariamente, acabar com essa festa despropositada e ridícula que esse bando de pessoas armou e eu aqui me obrigo aturar.<br /><br />Garçons de uniformes amassados perambulam pelo salão com bandejas repletas de cerveja. Os patrões prometeram cerveja à vontade e parece que o trato, pelo menos nessa primeira hora, está sendo cumprido. Pego um copo e sem surpresa constato que a cerveja está quente. Os patrões hora nenhuma se comprometeram oferecer a cerveja prometida gelada, portanto pego o meu copo com um simulado sorriso de gratificação e me sento num canto escuro numa das poucas mesas ainda não ocupadas por ninguém. Espero que aqui eu seja tão apagado como faço questão de ser no escritório e ninguém note a minha presença se sentindo no dever natalino de tentar me fazer interagir. Prefiro esse canto escuro com a minha cerveja quente e o meu poder de observação melancólica desprezando cada indivíduo que cruza o meu olhar.<br /><br />Ontem Renata olhou nos meus olhos e me disse que tinha certeza que eu nunca tomei uma decisão certa na vida. Durante todos esses anos em que estamos juntos ela decididamente nunca viu isso acontecer e pelo histórico que eu apresento através da minha relação com família, trabalho e amigos, ela chegou à conclusão irrefutável que eu nunca, jamais, em qualquer dia da minha existência fui capaz de tomar uma decisão que valesse à pena. Minhas escolhas, segundo Renata, são sempre as piores. Acho que ela tem razão porque naquele momento em que ela acabou de proferir essas considerações eu escolhi não esmurrá-la na cara, escolhi não abandonar o apartamento batendo a porta ferozmente rumo à noite escura. Ao invés disso eu não fiz absolutamente nada. Ou melhor, eu escolhi abrir a porra de uma lata de cerveja quente e choca e me sentei no sofá sem deixar sair um pio da minha boca. Renata então começou a gritar, espernear até finalmente sair ela pela noite escura. Renata não me viu chorando. Renata bateu a porta rumo à noite escura e quem ficou no sofá chorando como uma mulherzinha fui eu.<br /> <br />Renata é muito ponderada e sempre tem razão. Foi assim desde o dia em que a conheci. Todos os amigos de Renata a procuram porque ela é a voz da razão. Suas opiniões são sempre levadas seriamente em consideração e normalmente seus conselhos são seguidos à risca por aqueles que a rodeiam. Eu respeito essa característica de Renata tentando sempre esconder a minha irritabilidade quando ela cheia de pompa e orgulho define uma verdade como uma doutrina a ser seguida pelos seres inferiores que tem a graça de seu convívio. Eu me irrito com Renata, mas me reconheço também como um ser inferior perto das certezas dela, portanto se ela me disse que tem certeza que eu nunca fui capaz de tomar uma decisão certeira na vida, ela possivelmente tem razão. Por mais que eu despreze hoje em dia Renata e esse seu pseudodom que nada mais é do que um poder perverso de controlar as pessoas, ela tem razão e eu nunca tomei uma decisão certa na vida.<br /><br />Existiria alguma escolha não feita por mim que me levasse efetivamente a uma vida que não essa? Existiria algum lugar ou tempo no mundo ou espaço em que eu não sentisse esse profundo desprezo pelos outros e essa maldita pena de mim? Tenho muita raiva porque não tenho dinheiro, mas eu seria um homem sem raiva se o tivesse em demasia? Tenho uma raiva descontrolada de Renata por ela nunca ter podido me dar filhos, mas eu teria menos raiva se os tivesse? E se essa onda de desprezo se aplicasse também a eles não seria mais um motivo de sofrimento para mim? Mais uma razão para eu me sentir patético ao ver que existe da minha parte desprezo em relação a eles? E ainda pior, se eu os enxergasse como meus espelhos e sentisse pena de suas condições? Que tipo de indivíduo se torna uma criança criada sob os lhos penosos do pai? Talvez minha única decisão certa na vida tenha sido escolher permanecer com Renata todos esses anos mesmo sem ela poder me dar filhos, já que raiva eu sei que sentiria de qualquer uma que se propusesse dormir e acordar comigo. É uma condição irremediável e pelo menos as certeza de Renata me guiam, ainda que eu não entenda o caminho e despreze profundamente a direção.<br /><br />Possivelmente acho a vida uma merda, e tem piorado. Sinto culpa quando me escapole um sorriso sincero ou quando acho graça genuína de algo que não seja alguma pilhéria maldosa contra alguém. Uma culpa que me consome porque imediatamente ao instante do alívio vem à lembrança o desprezo que eu sinto ininterruptamente. O desprezo que é maior do que tudo com exceção dessa pena profunda que eu sinto de mim.<br /><br />Ontem Renata bateu a porta e desde então só faço beber cerveja quente. Começou ontem no sofá enquanto eu chorava sozinho a falta das irritantes certezas de Renata e agora num canto escuro desse restaurante tétrico sinto que está longe de acabar. O garçom é o único que me nota e me serve de mais um copo. Coloco dez reais no bolso de seu paletó para que as coisas permaneçam assim nesse quilo de quinta e suas luzes de néon. Não venho aqui há três meses quando achei uma lesma nojenta no meu alface. O velho gerente não me cobrou o prato, mas se sentiu no direito de cobrar pela coca. Eu escolhi não vomitar na cara dele e fui embora para nunca mais voltar. Os patrões prometeram cerveja a festa inteira e eu agora estou aqui, de volta, sentindo um profundo desprezo por eles, pelos meus colegas, por esses garçons obrigados a servir cerveja quente, pelo gerente velho que bajula os patrões fingindo depositar gelo filtrado em seus copos de uísque, e por qualquer um que se atreva passar diante dos meus olhos. Possivelmente acho essa vida uma merda e neste restaurante desprezível eu sinto que posso morrer. Tenho a leve impressão que Renata nunca mais voltará.<br /><br />BARBARA KAHANE<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-3418071118135423361?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com6tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-84457201492925879722008-03-30T12:39:00.018-03:002008-04-01T01:52:23.374-03:00Leitornitorrinco<a href="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/R--0hCWwnlI/AAAAAAAAACE/6JPgGa-Ee78/s1600-h/um+leitor+t%C3%A3o3+.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/R--0hCWwnlI/AAAAAAAAACE/6JPgGa-Ee78/s320/um+leitor+t%C3%A3o3+.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5183560175787744850" /></a><br /><br /><br /><br /><br />Insólito sim foi quando lá pelas tantas, após ter salvado o ânimo da baleia de sono que ataca no café, de ter atolado a fé na vida no ócio rançoso das três da tarde, de ver o entusiasmo como um teco teco desgovernado raspando as poças de marasmo tépido que meus vizinhos de mesa tomavam com adoçante, de ter acompanhado o mal humor da moça da biblioteca sumindo ao celular, eu sentia às cinco da tarde a concentração vagar como um turista desatarefado num vasto lago de subterfúgios do estudo, onde o som metálico das gavetas se abrindo vinha na verdade das gaivotas de Hugo Pratt deitadas na estante ao lado, cujos olhos na capa, como os meus na cara, eram dois pontos pretos a cambalear entre as rachaduras da infiltração, urubus retorcidos do céu descascado, e o papel bege da página povoada de verbetes obsoletos do Grande Tratado dos Seres, que eu lia para a prova. <br /><br />Depois de numa retomada de fôlego alcançar a parte em que se elucidava a ética do ornitorrinco fêmea, mais precisamente na oitava linha do terceiro parágrafo da página 3467 do Tomo 3, eis que um final de frase inusitado dá as caras: “... e para tal, a fêmea nunca deixará de esquecer o guarda-chuva na toca.”<br /><br />Seguia-se a esta inacreditável revelação sobre os hábitos da senhora ornitorrinca uma nota de rodapé, que, pensei, esclareceria o caso. Mas, para coroar minha incredulidade, quando lá chego, leio: “BANHO”...BANHO!. Do banho saía uma seta mal traçada em caneta bic, um fantasma de seta que definhava pelo pé da página até morrer em outro comentário, escrito por ninguém mais ninguém menos do que alguém entre os milhares de leitores que já haviam freqüentado a biblioteca desde 1975, ano da incorporação do Grande Tratado ao acervo: <br /><br />TOMO CHUVA <br />FICO NEVE <br />CÂNDIDO<br /><br />E foi um toró na poça descascada do meu turista desatento. E foi um avião estraçalhando as gaivotas de café morno retorcido quando li, depois do “O” final de Cândido, entre parenteses : “ver apêndice 9”.<br /><br />Lá vou eu para o apêndice 9, mais precisamente para a página 10476, cujo título já não me surpreenderia: “Cândido, assinatura ou luar tão?”. Cito apenas um trecho para dar idéia da fria em que eu me metia: “Talvez, assim como omitira o um banho de da primeira linha e o fico branca como da segunda, o comentarista tenha também omitido o oh luar tão da última.”<br /><br />A.M<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-8445720149292587972?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com4tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-89024750799231847162008-03-18T18:59:00.002-03:002008-03-19T20:08:11.949-03:00PRESSENTIMENTOHoje, estatelada na cama já quase às duas da tarde, Clarice chorava. Era um estômago que doía, que ardia, que queimava. Eram lágrimas de todas as dores do mundo. O estômago acima de tudo. O estômago acima da cabeça. O estômago acima do coração. O estômago acima da vida. <br /><br />Clarice não se lembrava como havia chegado em casa na madrugada anterior mas lembrava-se de ter saído vestindo a saia florida comprada para ocasiões especiais em três prestações ainda não quitadas. A saia que hoje, às duas da tarde, Clarice via amarrotada jogada no chão no canto do quarto. O estômago ardendo como o inferno na cama e a saia especial suja e amarrotada no chão.<br /><br />Ontem, quando Clarice tirou a saia pendurada em um cabide do armário, tinha a estranha sensação de que aquele seria um dia especial. Sem nenhuma razão específica, Clarice acordou pensando na saia e isso lhe soou como presságio a ser respeitado. Clarice usaria a saia e algo especial e inesperado aconteceria. Hoje, Clarice chorava.<br /><br />Como ontem era para ser o dia, Clarice também não economizou no perfume. Era um perfume caro e Clarice só usava-o em dias especiais. Já que havia tirado a saia do armário, não existia motivo para economizar no perfume. Para se usar aquela saia, tinha-se que estar com um certo cheiro e o cheiro certo vinha engarrafado para ocasiões como esta em uma garrafa cara que jazia no aparador do banheiro. <br /><br />Quando saiu de casa, Clarice já sabia que daria as mesmas aulas particulares para seis adolescentes temerosos de reprovação, como toda sexta feira nos últimos oito anos ela fazia sempre que o terceiro bimestre das aulas iniciavam. Os anos passavam mas as sextas feiras eram sempre as mesmas, com as tardes dedicadas às aulas para engrossar o orçamento do mês. Aulas para os mesmos adolescentes que mudavam um pouco de feições e de nomes mas sustentavam os mesmos gostos, as mesmas manias, o mesmo jeito tempestuoso e mimado, os mesmos ídolos, o mesmo cheiro da puberdade, os mesmos rostos maltratados por espinhas, as mesmas mães com seus cheques gordos. <br /><br />Quando saiu de casa, Clarice também já havia recebido ligações e torpedos confirmando a mesma cerveja de sexta feira no boteco em que ela e um grupo de amigos freqüentavam há dez anos. Era um boteco na Lapa que era o mesmo boteco desde que a Lapa às sextas feiras não era freqüentada muito por ninguém e Clarice ainda era uma estudante do curso de História. A Lapa encheu e o boteco sofreu reformas no banheiro e no uniforme do garçom Marcos que apesar das cores diferentes do avental ao longo dos anos não perdia o hábito de reservar a mesma mesa no canto da pequena varanda para o grupo que toda semana se reunia lá. Clarice sabia que encontraria, sentados quase sempre na mesma disposição, a Marta, a Teresa, a Estela, a Joana, o Paulo, o David, o Bento, o João e os Pedros (Drummond e Xavier). Esse era o mesmo grupo de sempre e mesmo que a comunicação tivesse evoluído ao longo do tempo com o surgimento de torpedos e scraps a tradição continuava a mesma. Aquela sexta feira não seria diferente, mas Clarice sentia que o dia não era um dia como outro qualquer e assim saiu de casa com a saia ainda não quitada inteiramente e o perfume caríssimo e economizado a cada gota.<br /><br />Hoje a saia está amarrotada no chão do quarto e a garrafa jaz um tiquinho mais vazia no aparador do banheiro. O estômago dói e a memória não a deixa lembrar muito bem de como chegou em casa. Talvez Teresa tenha-lhe dado uma carona, talvez Xavier tenha se aproveitado e a deixado na porta de casa roubando-lhe um beijo na portaria. Clarice teria declinado com educação ou retrucado com um tapa? Clarice teria aceitado e o chamado para subir? Pelo cheiro do seu quarto Clarice sabia que havia dormido sozinha. O cheiro do quarto quando Xavier insistia subir era completamente diferente. O cheiro do Xavier provocava dores no estômago em Clarice mas ela imaginava que esse não era o motivo da agonia de hoje. <br /><br />Clarice se lembrava que aceitara um generoso gole do conhaque de Xavier quando viu que nada especial aconteceria de fato. Já era uma da manhã e tecnicamente o dia acabara e nada acontecera. Clarice se lembrava de sentir que não tinha certeza de nada. Clarice se lembrava de se sentir profundamente decepcionada com a sorte do dia. Clarice se lembrava de olhar Xavier e perceber que talvez seu nariz não era tão torto e suas piadas não eram tão ruins. Nem essa sensação era novidade e Clarice se lamentava de nunca ter conseguido aprender que quando ela começava a olhar Xavier dessa maneira era hora de parar e dar fim ao dia. Clarice se lembrava de não querer dar fim ao dia, de querer se prender a ele, de querer ter o poder de parar o relógio, de pensar que a esperança é a última que morre e nada acontece por acaso. Mas já passava da uma da manhã, cada vez mais já passava da uma da manhã, e nada novo e surpreendente acontecia a não ser o nariz de Xavier que ficava cada vez menos torto e as piadas de Xavier que pareciam cada vez melhores.<br /><br />Clarice se lembrava de ter pensado por um segundo que usar a saia e o perfume para Xavier era um grande desperdício. Talvez Clarice tenha se levantado nessa hora e pego um táxi. Talvez Clarice tenha chegado em casa sozinha e acordado agora com essa dor no estômago. Essa dor de estômago em conseqüência de um dia em que nada acontecera. Um desperdício de dor de estômago. Talvez essa dor, sim, tenha sido obra do acaso. Quando ontem saiu de casa com a saia especial, Clarice não imaginava que hoje estaria assim.<br /><br />Clarice, estatelada na cama já quase às duas da tarde, chorava e sua saia, abandonada como um trapo velho no canto do quarto, parecia agora ter as flores murchas. Dentro de cinco dias venceria a última prestação.<br /><br />BARBARA KAHANE<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-8902475079923184716?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com3tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-75413793440572814172008-02-26T03:52:00.006-03:002009-02-16T17:13:02.294-03:00Auto-remodelagem, desordem e progresso<a href="http://3.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/R8R0mJ9gSuI/AAAAAAAAABs/AMCPrg1a6B8/s1600-h/IMG_6897.JPG"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/R8R0mJ9gSuI/AAAAAAAAABs/AMCPrg1a6B8/s320/IMG_6897.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5171386470985911010" /></a><br /><br />Encontrei esta carta dentro de uma garrafa de Miolo, boiando na piscina da cachoeira da trilha da Pedra da Gávea. <br /><br />"Com o calor da subida, o corpo perde consistência. Fenômeno que traz possibilidades pouco exploradas pelos suantes e suantas de ancas depiladas de hoje, excessivamente preocupados em estancar a fonte de suor que escorre da testa usando a mão como toalha, quando poderiam espertamente aproveitar a progressiva maleabilidade da carne para pressionar o rosto com as pontas dos dedos. Ao invés de usá-los para apontar, sedentos, garrafas d'água que brotam das mochilas alheias ou despenhadeiros que lembram coisas ou revelam paisagens ou causam impressões proustianas entre as moças, os trilheiros poderiam desfrutar das avantages trazidas pela auto-remodelagem, como quem curte uma estimulação russa. Esta técnica, desenvolvida pelos intraterrinos, seres que habitam o interior da Pedra da Gávea, consiste em remodelar o rosto à imagem de alguma formação rochosa que se assemelhe a um. Evitarei os detalhes do passo a passo, que é simples, bastando concentrar-se na imagem da pedra escolhida e cavar dois buracos na região ocular, como se esta fosse feita de barro informe. Depois é preciso apenas esperar alguns instantes à sombra. De volta ao sol, basta piscar as pálpebras algumas vezes para passarmos a ver a vista através dos olhos do rosto na pedra. A pedra vista no alto da foto que coloco nesta garrafa é a preferida entre os intraterrinos mais saidinhos. Lá, à noite, costumam pousar cardumes de naves, e os intraterrinos que estiverem experienciando uma estadia de remodelagem nela são agraciados com uma delirante massagem em suas careca e ombros, quando desembarcam os extraterrestres com suas pequenas patas gelatinosas e frias. <br /><br />Quem nos revelou estes segredos foi Verne, um intraterrino gente fina que auxilia os humanos na escalada da Carrasqueira.<br /><br />Vendo a empatia de Verne junto aos humanos, Jules, um intraterrino cisudo e desconfiado que não vê com bons olhos a aproximação entre seu povo e os incautos baderneiros que perturbam a paz da encosta, ajoelhou-se na ramagem, e com voz altiva mezzo delirante disse: <br /><br />ãÅÎÙ ÎÁ ÒÁÓÓÙÌËÉ <br />íÏÓË×Á - ÒÕÂ. ÉÌÉ íÏÓË×Á ÀÒ. <br />ÒÕÂ. ÉÌÉ ó-ðÅÔÅÒÂÕÒÇ - ÒÕÂ. <br />ÉÌÉ òÏÓÓÉÑ - ÒÕÂ. ÉÌÉ õËÒÁÉÎÁ - ÒÕÂ. <br />ÉÌÉ ëÁÚÁÈÓÔÁÎ - ÒÕÂ. ÉÌÉ âÁÛËÏÒÔÏÓÔÁÎ - <br />ÒÕÂ. ÉÌÉáÍÅÒÉËÁ - ÒÕÂ. ÉÌÉ çÅÒÍÁÎÉÑ - ÒÕÂ. ÉÌÉ <br /><br />O que Verne, visivelmente emocionado, prontamente traduziu: <br /><br />"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso." <br /><br />Verne declamava procurando em nossos olhos a aceitação, num carioquês penoso e emocionantemente esforçado, cerrando as sombrancelhas verdes como se a clareza da linguagem fosse um suco de lembranças extraido do brilho de suas retinas chorosas. Gesticulava tão enfaticamente suas pequenas garras, remexendo sem reparar sua calda escamosa pra cima e pra baixo a cada sílaba destacada, que pensei se tratar de uma questão de vida ou morte ele ver a comoção estampada em nossas caras. Mas a essa altura a lambança da desordem já reinava... alguns urinavam no mato, outros estranhavam a tradução de Verne durar o triplo do tempo do discurso original proferido por Jules. Outros, impacientes, confabulavam cervejas na Barra ao fim do dia. Um casal de intelectuais alcoolizados balbuciava a denûncia de que as palavras eram todas tiradas de um texto manjado de um tal de Wagner Banjamin (ou algo assim). Eu já não via muito bem entre a cortina de suor salgado que pendia dos meus cilios, nem escutava por conta das cigarras alucinadas ao redor, e o resto do grupo não prestara atenção em xongas, mais preocupados em enxugar suas testas em chamas naquele calor da porra.<br /><br />Quanto a mim, espero que faça bastante calor quando meu ônibus atravessar o Corte do Cantagalo. O grupo acaba de me encontrar. Quem por acaso encontrar esta carta que escreva outra”<br /><br />Signifrito Figueiroa<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-7541379344057281417?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com3tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-35533731195787122182008-02-11T18:48:00.001-03:002008-03-19T20:06:05.821-03:00MINHA PLANTA SUICIDAMinha planta mais querida se matou. Entendo o absurdo que a junção dessas palavras formando uma frase transmite como significado, mas essa é a mais pura verdade. A minha mais amada e mimada planta se matou. Isso já aconteceu há alguns dias, mas uma saudade lacinante me mortifica conforme o tempo vai passando. Um pouco de culpa também. Eu acho que minha planta mais querida se matou por ciúmes. Ciúmes de uma outra planta que vive aqui em casa mas não é minha. Como o dono dessa outra planta presta muito pouco cuidado a ela, eu me prontifiquei a tomar as rédeas. Ela estava quase morta, um caso perdido, quando comecei a cuidar dela com todo esmero do mundo. Água todo dia, sol nas horas certas. Em poucos dias a planta desacreditada começou a esboçar melhoras. Foi exatamente nesse momento que a minha planta mais querida se matou, pulando da janela de meu apartamento e se espatifando no chão dois andares abaixo.<br /><br />Tenho certeza que foi suicídio. Tenho certeza que ela não agüentou todos os cuidados que eu estava proporcionando à outra e se atirou pela janela. Talvez ela esperasse ser resgatada e replantada em outro vaso. Talvez ela não esperasse que o zelador do prédio não tivesse mais a posse das chaves do apartamento vazio da onde ela caiu. Talvez ela só quisesse me dar um susto. Mas o que acabou acontecendo é que ela morreu. Eu não consegui socorrê-la a tempo. O zelador me prometeu que o proprietário visitaria o apartamento naquela semana e isso já faz quase mês. Minha planta mais querida se matou. Não há nada que eu possa fazer para reverter isso.<br /><br />O mais irônico é que dois ou três dias antes dela dar o salto fatal eu havia lhe prestado uma pequena homenagem em um texto em forma de roteiro que sonho um dia filmar. Nele uma plantinha é dada ao protagonista por uma namorada, que vem terminar o relacionamento com o personagem logo depois. A vida desse protagonista está, como um todo, completamente desestruturada e ele deposita sua fé e disponibilidade de amar na planta. No final ele foge da vida viajando de ônibus levando só uma mala e ela. Bem, guardadas as proporções, a minha história com a minha planta mais querida possuía algumas semelhanças com o que contei no roteiro. Quando eu a ganhei eu nem prestei muita atenção, ela era apenas três folhas mirradas em volta de um pequeno caule. Nessa época minha casa não tinha planta nenhuma, não era uma coisa que eu achava que me fazia falta apesar de quase toda visita que chegasse notar a ausência de vida no apartamento. E aí ganhei esse projeto de planta e de primeira não senti diferença nenhuma. Mas aos poucos fui me afeiçoando à bichinha e pouco tempo depois quando me vi novamente com um coração empedrado e sem dinheiro, sem trabalho, sem perspectivas, sem ambições, sem vontades, acabei achando na planta uma boa muleta para me ancorar. E era surpreendente o quanto ela respondia. Em poucos meses suas folhas se multiplicaram e do único e mirrado caule foram brotando ramificações que cresciam e viravam mais folhas. Melhorei um pouco da cabeça, consegui um trabalho que não era a coisa mais emocionante do mundo mas me sustentou por alguns meses. Também redescobri a minha meta e a planta dividiu comigo cada um dos meus pequenos sucessos. A última vez em que contei, ela já possuía quarenta e cinco folhas em seu corpo. Em menos de um ano ela multiplicou quinze vezes o seu tamanho original. Por conta desse meu indisfarçável interesse acabei ganhando outras plantas de outras pessoas. Umas morreram logo, outras se adaptaram ao entender que existia em casa uma preferida. <br /><br />Isso tudo até o dia em que eu me simpatizei pela planta moribunda, a única da casa que não me pertencia, e tomei para mim a responsabilidade de cuidar dela, de fazer ela sobreviver. Ela vivia na janela ao lado do lugar que a minha planta mais querida habitava e conforme os dias iam passando eu depositava uma dose de carinho e atenção equivalente a que a mais querida recebeu ao longo de um ano. Contou o fato de mais uma vez eu estar sem trabalho, sem dinheiro, sem esperanças. Contou o fato de mais uma vez meu coração ter virado pedra. Vi, de novo, na fragilidade dessa nova planta, um desafio para me distrair das minhas próprias angústias. Não achei, de maneira alguma, que esse meu ato impensado fosse causar tamanha comoção na outra. O primeiro sinal, que fui incapaz de interpretar como insatisfação, foi que algumas de suas folhas novas começaram a nascer roxas. Até hoje não sei o que isso significa no mundo da botânica mas agora interpreto esse acontecimento como uma primeira manifestação de sua insatisfação. Fui incapaz de perceber que minha planta ficava roxa era de raiva, de ciúmes. Raiva de eu fazer pouco caso dela depois de tudo o que passamos, raiva de eu ter me afeiçoado a uma outra planta que nem era minha. <br /><br />Confesso que não contive meu entusiasmo quando um dia, após voltar para casa, notei que da terra da planta moribunda saia um outro broto, aparentemente saudável. Quase chorei de emoção e gargalhei alto, para todas as paredes ouvirem. Nesse dia acabei tendo que sair de casa novamente. Dormi fora. Ao entrar no dia seguinte no meu apartamento e olhar para janela notei um lugar vazio que não deveria estar lá. Nem assim concluí o óbvio. Cheguei a achar que eu estava maluca e que de repente eu havia colocado a minha planta mais querida para dentro antes de sair e simplesmente não lembrava. Mas antes de me embestar pela casa a procura da minha planta a ficha caiu. Corri à janela e olhei para baixo. Lá estava ela com suas quarenta e cinco folhas espatifadas no chão. Aliás nem sei dizer se ela pulou para morte com quarenta e cinco folhas, pois para falar a verdade há algumas semanas não olhava para ela com o devido cuidado. Desesperadamente bati na casa do zelador e ele, apesar de ter se sensibilizado com a minha história, disse que não poderia fazer nada pois as chaves do apartamento vazio do térreo não estavam mais sob os seus cuidados. Voltei para casa com dor no coração. Até hoje tento acreditar que foi um acidente. Culpa de um vento forte, quem sabe. Eu sei que talvez a coisa mais sensata é culpar o vento. Que planta não se suicida. Mas sei também que naquela noite não ventou. Me lembro inclusive do calor que senti. Me lembro de rezar por um ventinho aonde estava dormindo e de não ser atendida por nenhum deus. Tenho certeza que ela saltou. Parece um absurdo mas ando perdendo minha capacidade de me abismar com as coisas inexplicáveis da vida. Minha planta mais querida se matou e eu sei que apesar de já possuir uma outra para amar, nenhuma planta poderá um dia substituir a minha planta mais querida, minha eterna primeira plantinha.<br /><br />BARBARA KAHANE<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-3553373119578712218?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com4tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-23395568306177175372008-01-10T00:42:00.000-03:002008-01-10T00:45:00.997-03:00ESSES SEUS OLHOS MEUSSoube o que ela iria me dizer muito antes das palavras serem expelidas por sua boca como pequenas granadas em minha direção. Acho que essa foi a razão da minha reação de total falta de surpresa após o veredicto me ser notificado, deixando-a por conseqüência embasbacada e puta por contrariar a sua expectativa de como eu iria me sentir quando ela começasse a dizer suas últimas ponderações. <br /><br />Eu nunca lhe disse que era dona de olhos que traiam sempre as suas tentativas de dissimulação. No momento em que descobri essa sua, digamos, fraqueza, optei por me calar, já que desconfiava que essa sua característica um dia me poderia ser útil. Então, quando ela entrou no salão e me viu solitário no meio das mesas lotadas, eu soube por seu olhar recém pousado sobre mim qual seria meu verdadeiro destino. E por mais que, já à mesa, ela disfarçasse com palavras ao vento na tentativa de me ludibriar ao sugerir a carne de porco para a nossa refeição, eu sabia que não era ela tentando ser gentil. Por detrás das palavras doces existia o desejo de me fazer um mal. Sua delicadeza não passava mais do que isca para me pescar pela boca, mas quem acabou boquiaberta, no final das contas, foi mesmo ela.<br /><br />Ela achou que me tratando com suavidade eu acabaria interpretando, antes mesmo dela me dizer, seu comportamento como perdão, que, diga-se de passagem, eu nunca pedi. Mas ela certamente não contava que eu sabia ler os seus olhos e que eles sempre deduravam quando de alguma forma ela tentava me ou se trair. Independente de tudo o que aconteceu, eu sempre soube que seus olhos eram meus. E era assim que eu sempre saia na frente, pois me parece que apesar de seus olhos fazerem parte do seu corpo ela nunca suspeitou que era eu quem podia decifrá-los melhor. Pode parecer estranho, mas quando seu olhar cruzava o meu eu podia adivinhar exatamente o que ela estava tramando e qual o tom de suas próximas palavras. Devo mesmo concluir que o encantamento dela por mim se deu por causa desse meu talento de interpretar todos os seus desejos e vontades apenas mirando por um único segundo os seus grandes olhos. E quando eu ficava quando ela me dizia que poderia ir, quando eu ia quando ela me falava que se eu quisesse poderia ficar, quando eu a abraçava e acariciava os seus cabelos após ela se vangloriar de o quanto era independente ou quando eu soltava suas mãos e sussurrava “pula” quando em noites desesperadas ela esperneava que não iria conseguir, se fiz cada uma dessas coisas contrariando o que suas palavras me diziam e obtive êxito absoluto foi porque sempre soube o que seus olhos queriam dizer. <br /><br />Nossos incontáveis mal entendidos e conseqüentes brigas sempre que tentávamos falar ao telefone é a prova disso que estou tentando dizer. Sua voz sempre firme me fazia crer que as palavras que eu ouvia pelo fone significavam exatamente aquilo o que elas deveriam ser. Mas com ela a coisa nem sempre era assim e sem seus olhos para me guiar em nossas conversas, eu era apenas um menino perdido num país estrangeiro Agora eu sei como nunca a entendi plenamente. Sem as pistas de seus olhos brilhantes me fitando antes de qualquer sentença eu nunca consegui me comunicar com ela. Ela sem seus olhos, para mim, era absolutamente ninguém. Ou pior, um ser alienígena desprovido de qualquer possibilidade de contato e integração.<br /><br />Então, quando hoje ela entrou por aquele salão lotado, bastou uma rápida olhada em direção dos seus olhos que passeavam por todas as direções do ambiente a minha procura para eu compreender o que estava por vir. Esses mesmos olhos que contrariando os ais, uis e te amos daquela noite de dois, três meses atrás, me disseram, numa rápida espiadela que lhe escapou quando ela fazia nua o trajeto da cama para o banheiro que a verdade de verdade era que eu já a havia perdido; e que o ardor de instantes antes era para outro que não eu. Depois, esses olhos choraram, mesmo transparecendo alegria indisfarçável, quando eu menti dizendo que existiu uma Ana. Ela retrucou com palavras duras e magoadas que não sabia se poderia mais me amar enquanto seus olhos gargalhavam. Ela me pediu um tempo para pensar e avaliar a situação quando seus olhos se regozijavam diante a possibilidade de libertação de mim. <br /><br />Por isso quando eles entraram no salão eu vi que vieram prontos para dizer adeus. Prontos para nunca mais terem que me ver novamente. Então, quando ela se sentou e começou a me bajular ensaiando em tom agudo e doce velhas brincadeiras de nós dois, eu soube que o que ela queria era somente me ferir. Mas não existiu surpresa, e quando ela me disse, diante à xícara de café suja de batom e esperando que eu abrisse a conta e me prontificasse a pagá-la inteiramente, que o casamento estava cancelado, eu apenas joguei duas notas de cem sobre a mesa, me levantei, beijei sua cabeça e disse adeus no tom mais casual e sem afetação possível. E quando já chegando à porta do restaurante resolvi dar uma olhadela rápida para trás, percebi em sua expressão que ela acabara de reconhecer os grandes traidores que viviam com ela há vinte e sete anos. Os olhos humilhados diante a boca aberta em espanto. Ela agora sofria de verdade e, nesse único e derradeiro momento, não houve um músculo de seu rosto que eu fui incapaz de entender.<br /><br />Barbara Kahane<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-2339556830617717537?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com3tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-73594804198608963212007-11-29T02:58:00.001-03:002007-12-09T10:24:46.143-03:00O mau humor, a televisão e uma garganta que dói como nuncaMinha garganta dói como nunca. As teclas empoeiradas desse computador que não uso faz três meses vão deixando as pontas dos meus dedos pretas conforme eu escolho as letras que compõem essas sentenças. Tomo chá de limão, mel e alho que uma amiga fez para mim. Hoje eu consegui levantar mas minha garganta dói como nunca. Voltei para casa depois de três meses. Voltei cheia de vontades. Encontrei um quarto empoeirado, uma geladeira vazia e as mesmas roupas sujas ainda num saco plástico. Dormi depois de duas cervejas e nunca mais consegui levantar. Febre, dores, tremores. Dizem por aí que é uma virose e que muitas mulheres andaram a pegando. Três dias de cama até concordar em começar a tomar anti-inflamatório. Esperei a dipirona não fazer efeito, o paracetamol não fazer efeito até abrir mão para o anti-inflamatório que me tirou finalmente da cama. Ele e o chá de alho, limão e mel feito por uma amiga. Mas minha garganta dói como nunca e agora meu estomago começou a arder.<br /><br /><br />Assisti bastante televisão esses dias. Nada que prestasse. Todas as séries idiotas e os reality shows piores ainda. Entorpeci a cabeça já que o corpo não conseguia levantar. Cheguei a pegar alguns livros na estante mas meus braços estavam cansados demais e conforme eu ardia, as letras sambavam na página, misturando toda a história. Dediquei-me a tv arduamente. Não conseguia prestar atenção nela por mais de uma hora mas as vozes dos personagens terríveis de cada seriado me faziam companhia. Tem bastante porcaria na tv; tem umas porcarias que realmente são constrangedoras, mas as piores porcarias são as que eu efetivamente gosto. Tem também as coisas boas como uma série que eu gosto especialmente, ao ponto de adorar. Na verdade não é uma série inteira e sim um personagem específico que me seduziu e às vezes me pego em momentos do dia pensando nele. Queria que fosse possível conhece-lo. Queria que fosse possível conhecer alguém como Dr. House. Queria ter um pouquinho da capacidade dele de odiar o mundo sem culpa. Tenho inveja de House e de sua perna manca que na verdade não passa de uma muleta para ele poder fazer as coisas que faz. Queria ter uma muleta como uma perna manca e poder, assim, odiar os outros sem culpa. Mas como eu só tenho uma dor de garganta que hoje dói como nunca não posso me dar o luxo de odiar ninguém.<br /><br /><br />House agora reprisa todos os dias. Nesses dias de convalescença vejo e revejo os episódios. Até sonhei que o que eu tenho era uma doença raríssima e ele iria me diagnosticar. Fiquei esperando e ele não apareceu. Acordei molhada de suor, fedendo e ainda com muita febre. Tudo isso no meu quarto empoeirado. Na realidade, depois do sonho, só existia o meu quarto vazio e sujo. House, o doutor odioso, nunca apareceu para mim. Acordei com febre, sozinha, e uma garganta que eu achava que doía mas não era nada perto do que estou sentindo hoje. Hoje minha garganta dói como nunca.<br /><br /><br />Passei três meses trabalhando fora daqui e continuei pagando a moça que arruma a minha casa uma vez a cada quinze dias mas ela simplesmente abstraiu a existência do meu quarto durante minha ausência. Enquanto eu estava longe de casa, a moça que limpa uma vez a cada quinze dias resolveu achar que meu quarto também não estivesse. Ao retornar encontrei uma casa relativamente limpa e meu quarto afundado em poeira. Caí doente no dia seguinte e agora as pontas dos meus dedos vão ficando cada vez mas pretos enquanto eu escrevo e o desconforto na garganta piora cada vez que respiro. Na verdade estou aqui, nesse quarto, somente porque o computador se encontra no meio dessa sujeira. Nesses dias tenho ficado muito na sala que é o melhor cômodo da casa por estar relativamente limpa e possuir ventilador, além da tv a cabo ligada em uma porrada de canais inúteis mas que me fizeram companhia nesses dias reclusos. <br /><br /><br />Nem só de porcarias vive a tv por mais que eu prefira elas para me fazer companhia. Agora mesmo, por exemplo, está passando Jules et Jim no TV5 mas eu preferi vir para cá, o quarto empoeirado com computador empoeirado. Me pareceu insuportável a idéia de rever Jules et Jim agora. Eu com essa dor de garganta que dói como nunca vendo um filme legitimamente bom; e depois? Ficar sozinha com minha dor? Não dividir a experiência com ninguém? Eu não tenho problema algum em ver bons filmes sozinha. Muitas vezes acho, inclusive, essa a melhor opção para se assistir bons filmes. Mas estou a três dias sozinha. Sem falar. Sem querer falar por causa dessa dor. Minha mãe me liga, minha amiga vem fazer sopa e chá, meu primo se certifica se eu preciso de alguma coisa da padaria ou da farmácia antes de sair para o trabalho. Mas eu simplesmente não consigo desenvolver uma conversa. Falta de força. Falta, também, de um pouco de vontade. Vontade mesmo só de chegar a hora do dia de ver a reprise de House e sentir inveja dessa personagem de odiar as pessoas impunemente. Rever Jules et Jim para mim hoje não serve. Iria me dar vontade de falar e eu agora não quero e nem preciso dessa vontade. A televisão pelos próximos dois dias, possivelmente, tem que me manter sem vontade de falar. Calada. Muda. Para isso é que servem as séries idiotas e os reality shows piores ainda. Para isso que serve o dr. House e a minha crescente inveja em conseguir odiar indiscriminadamente. Paliativos para minha virose e essa dor de garganta que agora, depois das pontas dos dedos pretas, e do resto de chá de alho, limão e mel frio na caneca de cerâmica brinde assinante Net, ainda dói como nunca.<br /><br />Barbara Kahane<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-7359480419860896321?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com1tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-49356439927996870762007-11-18T17:02:00.000-03:002007-12-05T22:11:17.449-03:00Apresentando: Mariana KaufmanA espera foi longa, meus caros, mas não à toa. Estivemos empenhados, nesses meses de silêncio, em aproveitar nossas férias em Xongas, onde conseguimos nos dedicar ao estudo do trágico na gargalhada do sósia do Zacharias, à análise dos olhos dos gatos de grade do Jockey ao fim da feira, e à outras amenidades que massageiam têmporas cansadas. Como vocês podem imaginar, Barbara e eu, sozinhos, nunca daríamos conta de tamanha empreitada. Ainda mais quando um fato inesperado veio embaralhar tempestuosamente os dados de nossas pesquisas. De fato, quando o xampu de barbatana apareceu no mercado, os olhos dos gatos mudaram de cor, e a peruca do Zacharias nunca mais foi a mesma, o que causou um impacto de dimensões ainda não conhecidas sobre sua gargalhada holística. <br /><br />Certo dia, numa tarde em que chafurdávamos na estagnação de uma redação fictícia, recebemos via sedex um pequeno envelope branco. Dentro dele estava o que precisávamos para reativar a engrenagem da equipe pescotexto, para destravar a pesada máquina da espera: Uma pérola lunar escrita por Mariana Kaufman: Os olhos da Medusa<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-4935643992799687076?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com1tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-89487730002969774782007-11-18T15:50:00.000-03:002007-11-18T17:02:01.577-03:00os olhos da medusaE o príncipe que estava destinado a salvar a princesa “e viverem felizes para sempre” encontrou a medusa em seu caminho e, em seus olhos brancos, cor de nada, se perdeu.<br /><br />Nunca tinha visto nada assim antes, nem os castelos de outros mundos, nem os deuses de sua terra, nada, nem ninguém, se assemelhava àquele olhar.<br /><br />Eram olhos negros e grandes e no meio, no lugar da pupila, havia um pequeno círculo branco. Eram minúsculas bolinhas, como a ponta de um funil, e tinham o poder de sugar tudo o quanto era vida útil que lhe fitavam.<br /><br />Eram olhos que não viam, não ouviam, nada, era o nada, e ao mesmo tempo, tudo ao mesmo tempo. Era o vazio pronto a preencher-se, mas também, era infinito e cabia tudo ali.<br /><br />Percebeu de longe aqueles olhos e sentiu uma vontade imensa de esquecer-se, de esquecer de tudo, do caminho, da princesa. Sentiu uma vontade óbvia de perder-se. Sem nem perceber, só queria olhar naquele branco, tão branco como nada, como nem ele, nem ninguém, jamais havia visto.<br /><br />Naquele branco pôde ver tudo, era o branco, a mistura do infinito, não identificava nada, mas sabia que ali, avistava o mundo todo.<br /><br />Sentiu um conforto único, era de outro, não se pertencia, e o que existia ali, naquele momento, não eram princesas e monstros, reis e rainhas, amor, ódio, guerra e paz, nada disso mais fazia sentido. O que existia ali era um enorme vazio, um universo inexistente por trás daqueles olhos.<br /><br />De repente, sentiu-se cachoeira, sentiu que toda a água, os rios, afluentes e sub-afluentes de seu corpo desaguavam para dentro daqueles pequenos orifícios brancos.<br /><br />Foi ficando fraco, mas não percebia, pois a lentidão de todo o seu corpo provocava uma calma agradável. Ficou duro, e também não se deu conta, pois nem queria se mexer, queria aproveitar o sono que sentia e ficar ali, paradinho, bem quietinho.<br /><br />Virou pedra. Também não viu.<br /><br />O que sentiu foi o sono infinito. Ali dentro do seu corpo duro, rígido, seco e imóvel pôde dormir. O sono dos séculos.<br /><br />Até hoje, o príncipe dorme no quentinho do seu corpo de pedra e a princesa, já faz muito tempo, superou o trauma da espera abandonada e casou-se com o dragão.<br /><br />Mariana Kaufman<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-8948773000296977478?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-83230888648008445682007-07-23T01:28:00.000-03:002007-07-28T19:42:13.470-03:00Mergulho<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/RqQu8G8gC2I/AAAAAAAAABA/wyNkHDoCZMg/s1600-h/t%C3%BAnel+1.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/RqQu8G8gC2I/AAAAAAAAABA/wyNkHDoCZMg/s320/t%C3%BAnel+1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5090245089026902882" /></a><br /> <br /><br /><br />Reencontrei a caixinha marroquina num pequeno antiquário em Copacabana, escondida entre estrelas de porcelana, estatuetas de ninfas e luminárias sessentistas de cúpulas policromáticas. De um canto escuro da saleta saía uma fumaça, que flanava pelo ar num proceder ondulante, alisando as jubas dos leões de jacarandá, atravessando molduras vazias encostadas nos móveis, espalhando cheiro quente de cravo no ar. Ao aproximar-se de uma das ninfas, a fumaça, como que atônita diante de uma epifania do caminho, transformou-se numa admirável miniatura de vórtice, cujo olho, notei, adentrava o buraco de fechadura da caixa. <br />Como no encontro entre duas correntes marítimas de temperaturas conflitantes, entrelaçadas num hipnótico rodopio aquático que desce rumo a alguma Atlântida festiva onde fornicam peixes, eu, num redemoinho de espanto e entusiasmo, curvei-me pasmado para apreciar o espetáculo insólito. Deteve-me logo o tema da tampa, paisagem com duas palmeiras ligeiramente inclinadas em primeiro plano e um vale de pequenas colinas ao fundo. Orla do Rio: as cabeleiras daquelas palmeiras talhadas fariam sombras na tarde ensolarada de Copa, as colinas inflariam esbranquiçadas e seriam as Ilhas Cagarras avistadas do Arpoador.<br />Arrastadas até a linha do horizonte pelo mesmo vento que violento desenterra guarda-sóis e que brando conduz a neblina até o calçadão em noites de outono, as colinas deixavam atrás de si um abismo coberto de mar envernizado, ocre, vazio de veleiros, transatlânticos, sem rastro de escunas, espumas, ondas. Um mar repleto de fauna imaginária, convidativo.<br />Talvez fosse o cravo alucinógeno, pois além de ver a caixa como a Terra, com suas placas tectônicas de madeira incrivelmente separadas pela atividade eólica, a cada inspiração eu acreditava mais e mais estar ouvindo sons que embalam um semi-sonho na canga: o cochicho das rodinhas, o chiado da maré quase alcançando o pé, brados estapafúrdios de vendedores ziguezagueantes, o ronco das motobombas das duchas e dos monomotores no céu. E para minha surpresa, ao pressionar a janela do ouvido percebi que, como se na areia eu estivesse, a freqüência do som agravava, som de tudo aparecendo sonífero. Cessei de pressionar, e então ouço um derradeiro “Alô água! Alô mate!” antes de ser engolido por um fabuloso e infundado caixote, com o qual não me importaria, caso viesse ao fim de um bem sucedido jacaré kamikaze. Ergui-me, enchi meus pulmões de maresia que dissipa remorsos e mergulhei na conveniente melancolia das tardes turvas no mirante do Leme, quando, aéreo, vejo leveza nos canhões do Comando Militar na outra ponta da praia e cogito ser um pescador ocasional, usando meu boné de banco falido e minha camiseta regata carcomida, com meu maltratado baldinho bege cheio de iscas de sardinha ao meu lado, minhas gírias do métier marinho na boca, minhas latinhas de cerveja na sacola térmica, entretido na brisa oceânica, assobiando canções. <br />Nada como minha fantástica realidade financeira para murchar meu desvario. Eu talvez nunca comprasse a tal caixinha, eu que havia visto nela, desde o primeiro encontro (uma topada num belo exemplar, anos atrás, quando vagava em outro antiquário à procura de um baú), um continente mágico, metamorfoseando conteúdos mil em tesouros atemporais. <br />Eu flutuava anacrônico no vapor de incenso, em meio às antiguidades, ao largo do trânsito infernal, apreciando o desfile dos terráqueos no aquário que era a praça coberta da galeria: o cardume de caixas do Pão de Açúcar com seus rabos de cavalo a balançarem feito ponpons de hipotéticas hipocampetes, o pivete despistando o tira com a destreza de uma enguia aflita, a escada espiral feito fóssil de concha de nautilo. Foi quando vi Amanda, lá fora, admirando-me como se eu fosse um curioso peixe ornamental abrindo e fechando a boca, coçando meu queixo de escamas. Acenei. Ela acenou e riu. <br /><br />Andamos até a rua. Calor dos infernos. Peço um açaí na lanchonete:<br /><br />- Me vê um açaí no copo, pra viagem!<br />- É com tampa?<br />- Não, não precisa...<br />- Então não é pra viagem!<br /><br />Mas, transbordando de pedidos, a garçonete esquecera de fazer jus à sua interessante colocação, e me entregara o copo com tampa e canudo, como se fosse um suco. Destampei, e por minha vez, desatento às lixeiras laranja que passavam, andei com a tampa e o canudo entre os dedos. Amanda estava agitada, parecia a palmeira solitária da cobertura de um edifício no Leme, que, não sei por que cargas d´água, me comove, quando a vejo, da rua, feito uma anêmona do mar à mercê das correntes, descabelando-se ao vento. Tinha desmanchado com o Rubens: “Era um pra cada lado e o marasmo no meio”, disse. Pensei no tempo que afasta a graça de uma gíria batida, enquanto meu açaí derretia no copo de plástico. Conversamos à beira mar, ora futuristas felizes, ora empurrados pela pesada mão dos fatos para um lamentável caldo de reclames. E quando, para descontrair, eu lhe contava já ter visto três saltos de arraia na Barra, coisa que ninguém acreditava, um ultraleve sobrevoou o mar, levando uma faixa com estas palavras em fundo branco: “Amanda, eu te amo! Volta. Rubens.” Ela riu, eu ri e anoiteceu. <br />Na manhã seguinte, volto ao antiquário, à procura da caixinha. Dentro dela, uma fotografia em preto e branco: equipado com pés de pato e óculos de mergulho, um jovem exibia na palma da mão uma admirável concha espiralada. Na boca, um sorriso desangustiado. Ao longe, o Rio de Janeiro, e no canto da foto, uma data: 1969. No verso, algumas anotações em caligrafia impecável. Cocei meu queixo ao ler:<br /><br />Reencontrei a concha nos escuros corais<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-8323088864800844568?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-46503267730731670382007-06-15T14:23:00.000-03:002007-06-15T14:25:05.488-03:00O SONHO EM QUE DEAN MARTIN CANTOU NA LAGOAEstou no carro com Luciana, Marcella, Maria Clara e Monique. Conversamos sobre a possibilidade de entrevistar Dean Martin para nosso filme. O carro sacoleja e eu me preocupo em não derramar a cerveja da latinha cheia que seguro numa das mãos. Por mais que eu beba a lata permanece cheia até a boca e eu mal consigo me concentrar na conversa sobre a possível entrevista que almejamos conseguir para nosso documentário porque a cada sacolejada que o carro dá nas intermitentes curvas, eu temo pelo acento do carro e pelos vestidos floridos de Marcella e Luciana que sentam cada uma num dos meus lados no banco detrás.<br /><br /> No meio da Lagoa Rodrigo de Freitas está prostrada à deriva a gigante árvore de Natal do Bradesco. Nos perguntamos o que aquela árvore ainda faz ali, já que é véspera dos dias dos namorados. Alguém explica que leu não sei aonde que os custos para tirá-la da Lagoa iriam ser tão altos que esse ano haviam resolvido apenas apaga-la no dia de Reis. O prefeito da cidade, por aqueles dias, havia dado a ordem de reacender a monstruosa árvore em boas vindas a Dean Martin, o que eu acho ser de uma cafonice grotesca. Conforme o carro contorna a Lagoa ainda me admiro de não ter percebido antes aquela árvore ali, mesmo que apagada. Ela é um verdadeiro monstro vermelho e rosa, cheia de corações piscantes. Mesmo de dia sem as milhares de luzes acesas a árvore certamente chama atenção, mas essa é a primeira vez que eu noto a permanência dela na Lagoa depois das festas de fim de ano, o que me faz ficar assustada com a minha desatenção até esse dia de junho em que a árvore volta a se acender,e só assim se fazer reparada por mim, para receber o cantor internacional.<br /><br /> Resolvemos parar num estacionamento em que o flanelinha banguela ajuda a Clara estacionar o carro com movimentos bruscos das mãos. Alguém fala em tomar um trago num daqueles restaurantes quiosques metidos a hype da Lagoa. Estou ansiosa para chegar perto do palco mas o relógio mostra que ainda falta um tanto para a hora do início do espetáculo, então concordo de bom grado beber um chope antes de ir ver Dean Martin cantar.<br /><br /> Fazemos o nosso pedido, mas uma garçonete magricela usando um avental preto insiste para que tomemos margueritas. Ela é muito eloqüente e nos convence. Esse é o dia da marguerita no bar e o preço dela está mais barato que o chope. Pedimos uma rodada de margueritas. A cerveja da minha lata já está quente e choca, mas por mais que eu de longos goles o liquido no recipiente de alumínio parece nunca diminuir. Peço para um garçom magricelo com pinta de asmático levar minha lata, mas ele me aconselha a deixá-la na mesa, pois o restaurante está em falta de cinzeiros. <br /><br /> As margueritas chegam em copos enormes e com guardas chuvas de papel azuis mergulhados em cada um dos drinks. Começamos a rir tanto que mal conseguimos provar nossas bebidas. Um maitre magricelo e de longos bigodes vem saber o que está acontecendo e se desculpa de maneira deveras submissa em nome da garçonete eloqüente. Dizemos que não tem problema, que está tudo ótimo e que estamos apenas felizes, pois iremos assistir Dean Martin cantar. O maitre de longos bigodes abre os olhos espantado e sai de maneira apressada puxando o garçom de porte asmático em direção ao balcão do bar. Dali a pouco os dois voltam. O garçom que parece ser asmático segura de maneira imponente uma bandeja redonda. Em cima da bandeja eu reconheço um uísque caríssimo, mas não consigo me lembrar o nome dele e o título no rótulo se apresenta com letras um tanto embaçadas. O maitre nos oferece o uísque como cortesia. Ele diz que se vamos ver o Dean Martin cantar temos que estar na mesma sintonia do cantor. O maitre com longos bigodes nos confidencia que ele próprio foi o responsável em abastecer o camarim de Dino com quatro caixas daquele néctar dos deuses. Nós brindamos e bebemos, mas Marcella faz cara feia para seu scotch, pois ela odeia uísque. Penso em chamar o Daniel por meu celular para vir beber o drink da Marcella, pois tenho medo que o maitre de longos bigodes pense que nós estamos fazendo desfeita à sua cortesia.<br /><br />Pego meu celular na minha bolsa e peço licença da mesa para procurar um canto mais silencioso para efetuar a ligação. Aperto a letra d na agenda do meu celular e o nome de Daniel aparece no visor. Clico send e quando coloco o telefone no ouvido a ligação já esta sendo realizada. O telefone de Daniel toca duas vezes antes de alguém atender. A voz bêbada do outro lado da linha não é a do Daniel. Pergunto quem fala e a voz do outro lado da linha não fala nada que faça sentido. Finalmente reconheço a voz de André, que continua balbuciando sentenças sem nenhum significado. O lugar que ele está é muito barulhento e a ligação corta um pouco. André começa a falar coerentemente e sua primeira pergunta é onde diabos eu me encontro. André me pergunta por que ainda não cheguei ao show do Dean Martin. Reconheço, então, o barulho que vem do outro lado da linha. É a voz de Dino cantando! Me emputeço porque o show claramente já começou e eu estou num bar cheio de atendentes magricelos que nos enfiam margueritas goela abaixo. André diz para eu me apressar, pois o show está muito vazio e eles estão em um lugar ótimo. Da onde eles estão eles podem pedir suas músicas favoritas a Dean Martin e o cantor atende todos os pedidos. André ainda diz que Dino encerrará o show cantando parabéns para ele. Me lembro que me esqueci de parabenizar André por seu aniversário assim que reconheci sua voz no telefone e sinto culpa. <br /><br />Corro para mesa a fim de apressar as meninas. O maitre de longos bigodes está sentado em meu lugar, abraçado a garrafa do uísque caríssimo. Ele se encontra bêbado e minhas amigas se divertem com suas histórias sem sentido. Aviso que o show começou, mas nenhuma delas acredita em mim. Peço para que todos façam silêncio, talvez dali possamos ouvir alguma coisa do show e eu possa provar que o espetáculo efetivamente se iniciou. Fazemos silêncio e aos poucos o som de uma canção cantada por Dean Martin invade o lugar. Faço cara de “não disse?” e começo a correr em direção ao som. Luciana. Marcella, Maria Clara e Monique me seguem. Depois de um caminho escuro chegamos às costas de um outro quiosque. O som de Dino cantando parece vir dali, o que eu acho deveras improvável apesar da evidencia sonora que nos leva aquele outro bar à beira da Lagoa. <br /><br /> Entramos no bar e eu percebo que quem canta é um velho hippie sentado num banco em cima de um pequeno tablado. O velho hippie tem longos cabelos grisalhos, óculos escuros, camiseta tingida caseiramente e jaqueta jeans surrada de modelo sessentista. Fico impressionada com a semelhança do timbre da voz dele com a de Dino. Mas a imagem do velho hippie não condiz nada com o gênero de música que ele insiste em cantar. Penso que como os acontecimentos que sucedem nessa noite são de peculiaridade ímpar, corre o risco de chegarmos ao palco e encontrarmos Dean Martin cantando como Joni Mitchell, Paul Simon, Donovan ou algo que o valha. Me divirto alguns segundos nesse devaneio e quando dou por mim estou sozinha no restaurante acompanhada somente de meu sorriso bobo na cara. Minhas amigas sumiram, o velho hippie também sumiu.<br /><br /><br />Meu telefone começa a tocar. Pesco-o na minha bolsa e olho o visor para saber quem é antes de atender. O visor indica que é o Augusto e eu atendo. Augusto me pergunta onde eu estou ao que respondo que estou à horas tentando chegar ao show do Dean Martin, mas que tenho medo do show já ter terminado. Augusto me pergunta se eu tenho certeza se o show que eu pretendo chegar é mesmo do Dean Martin, pois ele acha que o cantor está morto a pelo menos meia década. Quando ele questiona a sobrevivência de Dino eu me lembro que Dean Martin realmente está morto e começo a rir. Me admira como ele morto conseguiu enganar tanta gente. Dean Martin é mesmo demais, nem Frank Sinatra havia pensado algo assim antes. Depois de conversamos sobre a genialidade do último ato de Dino, Augusto me diz que na verdade a razão do telefonema é a sua constatação que faz tempo que nenhum de nós posta uma mísera linha no pescotexto. Falo para Augusto que vou para casa nesse momento acabar de escrever uma crônica supimpa que venho trabalhando nos últimos dias, mas é mentira. Na minha cabeça não tem nada, nada, nada, nada, nada, nada,<br /><br /><br />B.K<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-4650326773073167038?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com1tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-28139396123026786952007-05-30T01:08:00.003-03:002007-10-12T21:56:46.284-03:00Precauções diante de uma prostituta santaÀs margens do Posto Ipiranga chovia uma chuva nem fina nem grossa, irritante feito chiado em fita k7 a ser transcrita por um estagiário mal pago numa tarde ensolarada. Dois frentistas já desuniformizados aguardavam o céu cessar seu pranto de araque. De boné e sobretudo creme, os dois conversavam sobre o trajeto dos ônibus no subúrbio. Altas discordâncias: “esse buteco não fica nessa rota, eu sei porque já fui lá e morri mil vezes esperando essa porra de 232”. <br /><br />Nosso personagem atravessa a avenida, mas não sem antes ser premiado em contra-plongée com uma senhora ducha de água da poça, executada com perfeição por um Gol azul escuro e prateado, lhe pareceu, enquanto sua boca lançava uma praga esfumaçante que atravessava as gotas apressadas para espatifarem-se na ciclovia.<br /><br />Não nos acabe aqui indagar porque raios o cara da mala preta e casaco de lã preto, com gotículas desequilibrando-se nas pontas felpudas, apareceu naquele instante todo molhado atravessando a rua, se dirigindo ao posto, passando ao lado dos frentistas. Ou cabe, se assim quiserem, pois afinal de contas ele é um personagem de preto, a cor do suspense, afirmariam alguns, dispostos a teorizar o luto. <br /><br />O fato é que ele tinha mais de um real no bolso, não sabemos se todos em moeda nem se guardados para entornar litros de café expresso em postos de conveniência. Parou em frente à máquina, apertou o botão do cappuccino, esperou, ajeitou o cabelo esboçando um assobio sombrio, pegou o copinho e pôs-se a bebericar. Eu já havia tomado um daqueles pouco antes e sabia que aquela beiçada cautelosa e demorada não se devia à temperatura do café, que já saía morno da máquina. Matava o tempo. <br /><br />E lá estava eu a estudar o sujeito de preto com mala preta assassinando friamente o tempo e tomando seu cappuccino morno quando me entra pela porta automática uma cinquentona serelepe com uma sapatilha dourada na mão direita, e a outra no pé esquerdo. Bem, isso foi o que primeiro chamou minha atenção, mas como em anúncios de lingerie, nos quais nosso olhar adequa-se rapidamente ao percurso sexo-rosto-rosto-sexo, e como o primeiro ítem não seria realmente uma meta para meus olhos diante da senhora encasacada, subi-lhe os olhos pela saia estranha e violeta, passei pelo casacão peludo chegando-lhe aos óculos escuros. Logo os deixei de lado, pois pendentes, não escondiam os olhos azuis, nus, puro mar agitado de delírio, que se esbugalharam em sincronia com a boca:<br /><br />- Não quero a bunda da Carla Perez! Eu deteeesto favelado! Tenho nojo!! Ouviram???...NOJO!!<br /><br />E então nossa personagem semi-descalça, agora indiscutível protagonista, espalma a mão violentamente no balcão e joga uma nota de R$ 100. A outra sandália já estava na mão do segurança do posto, que pelo sorriso de telespectador dominical diante do programa humorístico preferido, conhecia bem o enredo, e a seguia, com a mão no seu ombro, anunciando num tom gaiato aos amigos: “Ela quer um cigarro e o resto em cerveja...” Ela era como Gena Rowlands em Opening Night, todos a esperavam, ela era o show, sem ela não haveria espetáculo. E ela continuava, espalhafatosa, para alegria dos funcionários: <br /><br />- Eu moro sozinha numa cobertura fantástica aqui do lado, ganho quinhentos mil por mês!!! Faço o que quiser!!! E vocês?? Não sou que nem essa loira bunduda!!! Detesto favelado!!!<br /><br /><br />Do lado de fora, saía o camarada da mala preta, observado pelos dois frentistas, que a esta altura já discutiam como eram construídas as espaçonaves e quando finalmente chegaria a hora dos fiéis irem pro espaço. Desviando um pouco o curso da conversa, um deles comentou:<br /><br /><br /><br />- E esse aí, entrou de preto, saiu de preto e voltou pra chuva...<br /><br /><br />Aparício Modesto<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-2813939612302678695?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com0tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-74141852521717293092007-04-19T00:51:00.000-03:002007-04-19T00:54:16.503-03:00ESTELA E AS UNHAS ESCARLATESEstela gostava de pintar suas unhas das mãos e dos pés de vermelho. Toda vez que saia do salão de beleza se sentia mais bela. Estela não tinha cuidados especiais com seus cabelos. Aparava-os três a quatro vezes ao ano, quando achava necessário. Não pintava e não fazia nenhum desses tratamentos, hidratações ou escovas que viraram coqueluche nos últimos anos. Freqüentava o salão de beleza unicamente com a finalidade de pintar suas unhas dos pés e das mãos. Sempre de vermelho.<br /><br />Toda sexta feira quando saia do salão de beleza, fumava um cigarro e tomava um café num café bem freqüentado do bairro de Ipanema. Estela só bebia café nesse café às sextas feiras porque quando saia do salão de beleza com suas unhas vermelhas se sentia mais bela, tão bela que se achava capaz de ganhar o mundo e, para Estela, o primeiro passo para se ganhar o mundo era tomando um café num desses cafés bem freqüentados do bairro de Ipanema.<br /><br />Estela achava lindo fumar cigarros de filtro amarelo, principalmente Marlboro caixa. Quando Estela se sentava à mesa da varanda de um desses cafés bem freqüentados do bairro de Ipanema, enfiava a mão em sua bolsa em forma de saco e dali pescava um box de cigarros de filtro amarelo. Ao retirar a mão do saco se deliciava com a imagem de suas mãos brancas de neve segurando a caixinha branca e vermelha do cigarro. Metodicamente abria a caixa, tirava um cigarro e acendia-o. Estela degustava o cigarro sem tirar os olhos de suas mãos e de seus dedos. Estudava cada movimento seu. A maneira como segurava o cigarro, a ponta do filtro amarelo entre seus dedos indicador e maior de todos. As unhas gritando escarlates na proximidade do filtro. A fumaça em desenhos coreografados dissipando-se no ar. Era então nesse momento que Estela se transportava e de repente aquelas mãos não eram mais as mãos de Estela em Ipanema. Estela não era mais Estela.<br /><br />Quando, às sextas feiras, saia do salão de beleza e sentava num desses cafés de Ipanema para ganhar o mundo e fumar um cigarro admirando suas mãos brancas de neve em contraste com as unhas vermelho escarlate, Estela se transportava para um outro lugar. Um lugar que só existia em sua cabeça. Uma junção de retalhos de imagens, sons e descrições de filmes, gravuras, fotos e musica que ela ouvia desde pequena e da qual ela gostava muito de pensar e chamar de Paris.<br /><br />Às sextas-feiras Estela saia do salão de beleza se sentindo mais bela com suas unhas vermelhas e num café bem freqüentado do bairro de Ipanema acabava parando em Paris.<br /><br />O lugar na cabeça de Estela toda sexta-feira não era muito bem Paris. Estela nunca havia estado em Paris, nem em nenhum outro lugar da Europa. Apenas conheceu a Disney ainda bem pequena e esteve em Buenos Aires quando completou seus quinze anos. O resto do mundo só conhecia de filmes vistos em algum cinema do grupo Estação ou em casa, em dvds alugados na Cavídeo depois de meia noite. A Paris de Estela estava em salas de cinema do bairro de Botafogo, em prateleiras de uma locadora no Humaitá e nos devaneios de Estela diante à xícara de expresso às sextas feiras em Ipanema.<br /><br />Estela chamava o lugar de seus pensamentos de Paris porque tinha indiscutível preferência pelos filmes franceses e achava o idioma muito elegante, apesar de não entender nem falar uma palavra da língua. Estela gostava de filmes ambientados na cidade, mas se derretia mesmo pelas fitas protagonizadas por Alain Delon ou por Belmondo. Achava as duas estrelas, cada um a sua maneira, símbolos perfeitos de um homem ideal. Quando pintava suas unhas de vermelho, gostava de pensar que era também uma estrela e que vivia em par romântico com seus astros favoritos dentro de filmes que ela se gabava de ter visto mais de vinte vezes como About de Souffle e Plein Soleil (Estela recusava-se a chamar seus filmes favoritos pelo título traduzido. Quando alguém lhe perguntava sobre Acossado ou O Céu por Testemunha, fazia cara de desentendida até simular compreensão e referir-se ao filme pelo título original, sempre se desculpando, em falsa modéstia, por desconhecer o nome dado em português).<br />Estela se sentia mais bela às sextas-feiras, mas conforme os dias da semana iam passando uma tristeza de dar dó se apoderava dela. Nos fins de semana Estela só saia de chinelinhos ou sandálias bem abertas a fim de expor seus pezinhos de unhas vermelhas. Já havia, inclusive, arranjado um namorado que tinha fissura por seus dedinhos escarlates separados pelas tirinhas de suas chinelas praianas. Mas o namorado não era nenhum Alain Delon e Estela logo se cansou daquela adoração exagerada aos seus pezinhos. Estela dispensou o namorado andando por três semanas consecutivas com um velho all star e despindo os pés somente em seu quarto para o deleite dos múltiplos olhos azuis de M. Delon estampados pelas quatro paredes. Assim que o namorado chato por seus pés parou de ligar, voltou a desfilar aos fins de semana com suas sandálias abertas apesar de sua alegria sempre ter data para acabar.<br /><br />Conforme os dias da semana iam passando, Estela ia substituindo seus chinelinhos por sapatos mais fechados. Quando chegavam as quintas feiras, só ia trabalhar de tênis e com uma enorme vergonha das mãos brancas de neve. Quando chegavam as quintas feiras, recusava-se a fumar cigarros em público e fazer devaneios. Quando chegavam as quintas feiras, era uma mulher mais triste.<br /><br />Mas as sextas feiras também sempre chegavam e mesmo que não fosse encontrar ninguém e soubesse que iria passar o fim de semana trancada sozinha em casa, Estela pintava suas unhas de vermelho. Sempre para ela e para o Michel Poiccard que a esperava em close na parede de seu quarto com um cigarro na boca e um olhar marotamente romântico. Michel Poiccard sabia admirar as unhas escarlates de Estela e era para ele e para o Ripley de Delon e para tantos outros sonhos que começavam no café bem freqüentado do bairro de Ipanema que Estela entrava toda sexta feira no mesmo salão de beleza e saía se sentindo mais bela com suas unhas vermelhas.<br /><br />Se aquele aumento saísse Estela poderia pintar as unhas duas vezes por semana. Ela mal podia esperar para não ter mais as quintas feiras de melancolia quando escondia suas unhas já sem brilho, e às vezes até mesmo descascando, de seus amigos e de seus amantes de papel em close na parede de seu quarto.<br /><br /><br />B.K<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-7414185252171729309?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com3tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-44332499206501608182007-04-14T02:28:00.000-03:002007-04-17T15:43:13.292-03:00Sonhos facultativos de uma aula em véspera<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/RiBnnPIHovI/AAAAAAAAAAo/nfUbywidj6g/s1600-h/snork+1.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/RiBnnPIHovI/AAAAAAAAAAo/nfUbywidj6g/s320/snork+1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5053152705682842354" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-4433249920650160818?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com1tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-27105635684856296692007-03-25T16:09:00.000-03:002007-04-02T20:29:59.561-03:00As Superstições, As Palavras e A Morte.Quantos artifícios supersticiosos preciso arranjar para conseguir voltar a escrever? Estou agora diante do caderno da sorte de capa vermelha que me traz inspiração mesmo que depois o trabalho tenha que ser o dobro quando eu for catar milhos diante do monitor do computador.<br /><br />Uso também uma caneta da sorte que dias desses furtei da cabeceira do meu primo Bernardo. Bernardo divide comigo o espaço e as despesas do apartamento que eu habito e às vezes eu roubo canetas da sorte de sua mesa de cabeceira. Ele nunca reclamou.<br /><br />A caneta da vez tem os seguintes dizeres: Sportv é campeão. Seguro a caneta de uma maneira que enquanto eu escrevo só consigo ler os dizeres “É campeão”. Finjo que isso é importantíssimo para mim e para o processo de minha escrita como se a caneta incentivasse o surgimento das palavras que formarão o texto que será campeão. Um texto campeão, que diabos poderá ser isso? Será um sinal para eu me esforçar a falar sobre o mar? Eu nunca escrevi sobre o mar e eu faço, nesse momento, uma aposta comigo mesma que se eu conseguir até o fim do texto incluir o mar de alguma forma eu juro, juro, juro, por minha caneta da sorte, que a usarei no meu caderno de capa vermelha para escrever o conto do concurso do jornal O Globo.<br /><br />De alguns dias para cá voltei a ouvir sistematicamente Leonard Cohen. Coincidiu com a época que eu redescobri uns outros textos meus que precisavam ser revisados e reescritos e, ao som de Leonard Cohen, eu consegui entrar no processo de cabeça. Leonard Cohen, portanto, é o meu cantor da sorte da vez. Coloco Suzanne e uma avalanche de palavras sai da ponta da minha caneta da sorte. Cohen me dá coragem para as próximas linhas.<br /><br />Escrever é, sobretudo, um ato de coragem e nesses momentos é reconfortante estar munida de amuletos que dão sorte para o prosseguimento da aventura que é escolher palavras para inventar coisas que precisam ser ditas sem nem bem se saber o porquê. É preciso também ter classe, mas classe não é uma questão de sorte.<br /> <br />Existem pessoas que envelhecem e perdem a classe. Tenho impressão que isso aconteceu com Leonard Cohen. Suas composições não são mais as mesmas e ele parece ter enferrujado. É duro tirar classe de ferrugem e meu medo é um dia descobrir que eu nasci enferrujada. Para isso coleciono amuletos e finjo que Leonard Cohen está morto. Existe tanta gente no mundo que envelheceu e enferrujou que eu tenho ate dó. Por isso jaz na minha cabeça um cemitério imaginário para me fazer feliz e poder imaginar as pessoas vivas somente até o momento em que deveriam ter parado.<br /><br />Dias atrás li uma entrevista com Paulo Mendes Campos para o Pasquim. Queria muito que o Paulo Mendes Campos estivesse vivo. Se ele estivesse vivo talvez enterrá-lo-ia em meu cemitério imaginário, mas como eu queria que ele não tivesse morrido aqui no mundo real! Quando Sabino escreveu Zélia, uma Paixão eu o enterrei no cemitério da minha cabeça. Eu era muito nova, mas já me mostrava uma fã fervorosa, principalmente do Menino no Espelho... em certa época de minha vida soube trechos de có. Minha família, como qualquer outra família de classe média, passou o pão que o diabo amassou com o Collor. Quando Sabino lançou a biografia sobre a Zélia, portanto, preferi fingir que ele havia morrido. Ele, talvez, tenha sido o morto número um de meu cemitério imaginário. Mas nada disso impediu que eu me debulhasse em lágrimas quando, há alguns anos, Sabino morreu de verdade. <br /><br />É duro ter que viver num mundo onde Paulo Mendes Campos está morto de verdade porque olhar o mundo pelas crônicas dele faz tudo ficar mais bonito. Uma beleza agridoce, é verdade, mas ainda sim uma beleza rara nos olhos dos vivos nos dias atuais.<br /><br />Nessa entrevista dada ao Pasquim ele relata a sua experiência com LSD. Ele fala que o LSD tem o poder de liberar o anjo e o demônio de uma pessoa, mas como ele vivia as suas vinte e quatro horas de cada dia de sua vida acompanhado pelo demônio, quando tomava LSD só sentia a companhia do anjo e ficava bem. <br /><br />O que me faz lembrar da mesa de bar de ontem onde um amigo contava suas andanças recentes por Frisco e toda a áurea cultural presente na cidade. Ele falou dos ecos de Leary e todos os hippies e principalmente dos ecos beatnicks impregnadas em trechos da cidade. Como uma rua visitada por ele chamada Kerouac’s Alley onde trechos da poesia do escritor de On The Road se espalhamavam pelas calçadas. Fiquei um tempo pensando na imagem de alguém pisando nas palavras de Kerouac e cheguei à conclusão que isso por si só é de uma poesia imensa.<br /><br />Kerouac está morto de verdade enquanto algumas de suas frases deitam-se nas calçadas de sua querida Frisco. É quase como se ele estivesse vivo. Mesmo assim, não me parece mal morrer aos quarenta e seis anos quando se produziu tudo o que ele produziu. <br /><br />Neal Cassady morreu cedo demais. Ginsberg e Burroughs sobreviveram um tanto mais, mas realmente acho que para eles não deve ter valido muito a pena. Viveram mais, mas nada me faz crer que eles não tenham morrido muito mais desiludidos diante de todos os absurdos que somos obrigados a vivenciar por termos conseguido sobreviver à passagem do século, por termos chegado ao futuro. Quem não enferrujou, hoje nasce enferrujado (triste legado de minha geração).<br /><br />Voltando a Paulo Mendes Campos e sua entrevista ao Pasquim, ele também explica porque abandonou a poesia. Segundo o cronista ele não tinha tempo de escrever poesia e não acreditava mais em escrever poesias. Ele não acreditava porque ele tinha que ganhar a vida (leia-se dinheiro para pagar comida e teto para si e sua família) e, portanto, não podia abandonar as suas crônicas, adaptações infantis e traduções para trabalhar dias numa única poesia. Diante das agruras diárias poesia era perda de tempo E mesmo assim ele morreu cedo demais. E mesmo assim vejo um mundo mais bonito quando leio as crônicas dele.<br /><br />Eu não sei bem com quantos anos o escritor faleceu, mas acho que mesmo assim não existiria tempo o suficiente para bastá-lo. Mesmo que ele acabasse sendo obrigado a escrever algo como “PT e Virtude” para ganhar a vida e eu por conta disso fosse obrigada a sepultá-lo no meu mundo de mentirinha; tenho certeza que acabaria chorando um mar de lágrimas no dia de sua morte simplesmente por perder alguém capaz de escrever as seguintes linhas: <span style="font-style:italic;">Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros, uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinha, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões. *</span><br /><br />(se essa rua fosse minha eu mandava ladrilhar com palavras de Paulinho para meu amor passar)<br /><br />Por fim, diante dessas palavras desisto de minha crônica antes mesmo de começá-la e vou tentando me lembrar de cuidar das minhas três caixas de humor. Abro agora a maior de todas para esboçar a moral da historia.<br />(finalização à la Millor, que está vivo aqui e acolá e que graças a Deus é a prova que certas pessoas nascem com proteção anti-ferrugem)<br /><br />Moral da história: POETA BOM É POETA MORTO. <br /><br /><br /><br />*TRECHO DA CRONICA PARA MARIA DA GRAÇA PUBLICADA NO LIVRO O COLONISTA DO MORRO PELA LIVRARIA JOS É OLYMPO EDITORA.<br /><br /><br />B.K<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-2710563568485629669?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com2tag:blogger.com,1999:blog-34439133.post-88891534023234017832007-03-10T14:27:00.000-03:002007-03-27T01:54:04.464-03:00Borat 1 - nada sobre o filme<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/RfMoqFDFnjI/AAAAAAAAAAY/PJmacN46ZP8/s1600-h/tea+time.jpg"><img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_rzAtQ0JH1hA/RfMoqFDFnjI/AAAAAAAAAAY/PJmacN46ZP8/s320/tea+time.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5040417111332462130" /></a><br /><br /><br />E se algum zé-oreba vier falar que o tal do Borat conquista leva um sonoro pescotapa de abalar lóbulos. Não é maldade, meus escassos pescoreaders, é, digamos, apenas um toque, uma louvável preocupação com o próximo virtual. Dizem até que entre os suiços, ao plaft do pescotapa costuma seguir-se um demorado abraço de encharcar costeletas e suiças. Nem todos são dignos de pescotapas. Borat é um que não o é, Borat é um suino sem graça, e por querer ser suino sem o ser, chegando só no quase lá da lama, merece só a prima do pescotapa, a puxada no bogode grouchiano, como a tal mulher na letra de Noel merece uma tijolada na testa. Não é sério, nem violência, é pra ler musicado com Can, ou com cancan, ou ao som da camaleon dance de Zelig. Olho ao redor, meu eu de gosto grotesco ronca no sofá do sétimo sono, então não há perigo, ninguém elogiará Borat aqui, garanto...Mas vamos e venhamos (10 pontos para quem identificou a expressão rodriguiana e menos 10 pontos para quem cafundiu "expressão rodriguiana" com "leitmotiv wagneriano" - bom que assim ninguém sai perdendo - e um bônus, valendo meio valium, pra passar pra próxima semana vivo, pra quem tiver balançado a cabeça em sinal de reprovação ao menos 904986732 vezes até aqui, lendo isto: ), o tal Borat não convence, e esse "panz" (essa gíria bomba em sampa, e eu a emprego aqui como uma irmã anã da carioca "parada") de cutucar com a vara curta do absurdo o american way of life é moleza, manjado, é como cantarolar os tais dos the beatles. Dá-lhe toleima! Mas eis que aquele que cochilava abre um olho de leve. Ei-lo que levanta....<br /><br />Tudo bem, eu e meu eu de gosto grotesco conversamos. Sou todo ouvidos quando um exemplar vivo dos <span style="font-style:italic;">Grotescus Glutoneacius</span> acorda e gagueja relativismos antropológicos feito blocos de cropólitos achados. Ele, além de reprovar as gordurinhas achadas no texto, me arrotou gutural se eu ri no filme. Sim, eu ri, respondo, não direto, nem direito, e se rir fosse sinônimo de recepção calorosa, então não haveria solução para o aquecimento global, estariamos todos fritos, e aí nem as diplomáticas lágrimas suiças salvariam.<br /><br /><br />: ), o<br /><br />Augusto Malbouisson<div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/34439133-8889153402323401783?l=pescotexto.blogspot.com'/></div>Pescotextohttp://www.blogger.com/profile/09023283137173509122noreply@blogger.com1