tag:blogger.com,1999:blog-29087476.post-42290808825790408792008-07-02T13:40:00.010+01:002008-07-02T14:03:43.698+01:00Guiné 63/74 - P3015: Os nossos regressos (4): Dois anos perdidos naquela terra, quente, húmida e vermelha...(Torcato Mendonça)<a href="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/SGt7JFQo46I/AAAAAAAAMB4/fCiBfw5Yb6k/s1600-h/Fundao_Torcato_Mendonca_27Jan07_LG_DSC02041.JPG"><span style="font-size:85%;"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5218399989199856546" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/SGt7JFQo46I/AAAAAAAAMB4/fCiBfw5Yb6k/s200/Fundao_Torcato_Mendonca_27Jan07_LG_DSC02041.JPG" border="0" /></span></a><span style="font-size:85%;"> Meus Caros Camaradas,<br /><br /></span><br /><span style="font-size:85%;">antes que o texto tenha destino de império, sem reler atentamente segue ciberespaço fora…mais rápido do que o Uíge, mais curto do que o previsto. Menos intimista, menos agressivo… em resumo, suave…em português suave…o regresso dos guerreiros ou os restos do império.</span><br /><span style="font-size:85%;"></span><br /><span style="font-size:85%;">Cuidado, muito cuidado. Só fala assim quem lá foi, sentiu a vida a ir e vir, o cheiro doce da morte, a violência do "assalto", o incómodo do "toque" físico e o sobressalto do pesadelo de visão ou sono interrompido…ou chorou de raiva ou dor pelo camarada desfeito, ali na terra estendido...caramba porquê???!!!<br /><br />Envio tri-abraços fortes e até,<br /><br /><strong>Torcato Mendonça</strong><br />Apartado 43,<br />6230-909 Fundão<br />torcatomendonca@gmail.com</span><br />__________<br /><br /><strong><span style="font-size:130%;"></span></strong><br /><strong><span style="font-size:130%;">O REGRESSO</span></strong><br /><br />Dia ansiosamente esperado.<br /><br />Tinha vindo, dias antes, para Bissau. Juntamente com o comando e a "secretaria" fora o último Grupo a sair de Mansambo.<br /><br />O Uíge chegou, com mais um carregamento de militares, dois ou três dias antes do dia da partida deles.<br />Ficou afastado, entre o cais e a ilha. Era namorado da marginal, por quem ia embarcar num desejo de rápida penetração em cópula que tardava.<br /><br />Finalmente o dia chegou. Amanheceu diferente, menos quente, mais mexido, com corridas, ordens rápidas, formatura, desfile com fanfarra e discursos dispensáveis. Depois acalmou mais com a curta viagem em coluna auto até ao cais. Esperava-se e desesperava-se.<br /><br />Vinha a comandar a Companhia e não sabia se embarcava ou não. Ficara na Comissão Liquidatária, juntamente com dois sargentos e um amanuense. Um alferes estava no hospital, outro tinha menos um mês de comissão e esperava ordem de embarque, ainda o outro tinha chegado cerca de um mês antes, juntamente com um sargento, para preparar a chegada. Restava um, ele!<br />Podia, e devia, ser substituído pelo capitão com quase um ano de comissão a cumprir. Desejo de todos; ele, porque partia já, os sargentos e mesmo o capitão porque eram profissionais. A guerra terminara e já não precisavam dele. Além disso “aquilo” convinha ser tratado por profissionais. Eles lá sabiam porquê…estavam na terceira comissão. Profissionais! Pedido feito e negado. Reformulado e nem sim nem não, ”nim”, ou mais um sim. Esperava agora, ainda, arriscava e desesperava, Tentava manter a calma que aqueles anos lhe ensinaram. Mas, voltar a aturar burocratas…antes o mato.<br /><br /><strong>À hora aprazada começa o embarque</strong>.<br /><br />Tudo pronto. O Uíge zarpa, lentamente, ao encontro da barra do Geba e do Atlântico. Viagem de seis dias ou sete até ao seu País e á ponte…a ponte!<br />Ficou no convés, via Bissau a afastar-se e pensava: vou ou ainda me mandam regressar? Aos poucos a terra afasta-se e ali fica, procurando respostas para tantas dúvidas. Será que regresso a esta terra ou vou para a vida civil; continuo a estudar ou vou fazer o quê; militar ou civil? Logo se vê…logo se vê…<br /><br />Dois anos perdidos naquela terra, quente, húmida e vermelha. Dois anos da sua vida ali ficaram, os seus verdes anos, a que se juntavam mais dois. Estava com quase vinte e cinco. Não, acabara de fazer vinte e cinco. E agora?<br /><br /><br /><a href="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/SGt6vmfvQZI/AAAAAAAAMBw/27wLI9gHCts/s1600-h/TorcatoM_CART_2339_FFIII_33.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5218399551444959634" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/SGt6vmfvQZI/AAAAAAAAMBw/27wLI9gHCts/s200/TorcatoM_CART_2339_FFIII_33.jpg" border="0" /></a><br /><br />Vinha mais adulto, mais velho, mais cicatrizes físicas e mentais ou de alma. Gaita onde estará a alma? Ontem ou hoje procura-a e não sabe. Talvez se tivesse uma ou soubesse onde estava a sua fosse mais fácil. Sentia vir diferente. Amarrotado pela vida passada naqueles dois anos, onde não fora ele, sendo, onde tanto vira, sentira de mau e menos mau. Onde sentira até onde pode ir a solidariedade e a camaradagem dos homens em gestos abnegados ou até onde, esses mesmos homens podem ir em bestialidade e violência. E ele era diferente? Claro que não! E agora? Por agora, ali estava no final da tarde, encostado, a um poste no convés do barco tal qual fizera, aquando da partida, dois anos antes no Ana Mafalda.<br /><br /><br /><br /><strong>Memórias</strong><br /><br />Regrediu no tempo e, em velocidade superior á da luz passaram aqueles dois anos pela sua mente. O embarque, a viagem, Cabo Verde e Bissau na chegada sentindo o calor e a humidade a subirem, a encharcarem o corpo e a saírem em água e toxinas por todos os poros.<br />Parecia ter passado tanto tempo e só foram dois anos. A ida para o primeiro aquartelamento no Leste, Fá Mandinga. O sentir aqueles cheiros, as gentes, os sons da mata, a rápida habituação a uma terra tão diferente.<br />Treino operacional no Xime, nomadizações, emboscadas e seguranças a Mato Cão, a primeira operação com assalto e destruição a Galo Corubal. Recordava esses dois anos cheios de tanto e para quê? Sofreram na Companhia, fora os militares africanos, oito mortos, dezenas de feridos e alguns com gravidade. Tantos, demasiado sofrimento imposto aqueles homens, quase ainda meninos na partida, hoje endurecidos por dentro e por fora. Continuava pensando e vendo a terra já longe, a noite a chegar e preferiu descer ao camarote.<br /><br />O Comandante das tropas embarcadas era o Tenente-coronel Pimentel Bastos, seu antigo comandante em Bambadinca.<br />Viagem a decorrer normalmente até uma madrugada, talvez não longe das Canárias, quando o mar se enfureceu e as vagas cresceram. Abanava o Uíge e roncava com a hélice a sair da água. Desceu ao porão. Lá estavam os soldados amontoados entre malas, vómitos e um cheiro de arrepiar. Os escravos do século XX sofram que a Pátria vos agradece. Subiu e sentia já a mudança, a revolta a subir.<br />Continuaram a viagem. Finalmente o jantar de despedida. Iam desembarcar no outro dia. Comeu e muito mais bebeu até sentir o álcool a tomar conta dele.<br />Dormiu pouco e em sobressalto. Todos madrugaram ainda sem Lisboa á vista.<br />Pouco depois aí estava ela, a capital do império a esboroar-se, e, antes dela, a Ponte… a Ponte. Finalmente a ponte e a concretização do seu sonho - passar dor debaixo da dita - passou, mão esquerda a acariciar o estômago e a direita a saudar a montanha de aço e o sorriso a afugentar os últimos vapores de álcool.<br /><br />Ficaram ao largo. Depois lentamente a acostagem à Rocha de Conde de Óbidos. A saída ordenada, a fuga para junto das famílias. Nova despedida, mais um parvo desfile e embarque em autocarros até Évora.<br />Dia longo, burocracias resolvidas já com a noite avançada. No dia seguinte mais burocracias, almoço no Fialho e regresso ao quartel. Ultimas assinaturas, despedida do Comandante Coronel Branco do 1904 de Bambadinca e virou civil. E agora? E agora?<br />Falou com um telefonista, pediu-lhe para lhe encontrar um táxi para corrida de cerca de quatrocentos quilómetros e esperou.<br />Já de noite chegou a casa. Finalmente.<br /><br /><strong>E agora?</strong><br /><br />Tratou, desesperadamente, de se habituar a ser civil. Tentou esquecer mas ia e vinha em tormento, em saudade, em algo que, ingenuamente pensou definitivamente ter desaparecido. Mas o som do heli, o foguete, a voz mais alta, o copo a virar copos…sabe lá.<br />Hoje tem memórias, continua com incertezas, recorda datas que o marcaram, gentes que gostou ou detestou.<br /><br />Ficou diferente. Melhor, pior? Diferente…<br /><br />A sua vida civil. Bem sai fora deste contexto…<br />__________<br /><br /><span style="font-size:85%;">Adaptação e substítulos: vb</span><br /><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-size:85%;">(1) Torcato Mendonça, ex-Alf Mil CArt 2339, </span><a href="http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/guine_guerracolonial14_mapa_Xime.html"><span style="font-size:85%;">Mansambo</span></a><span style="font-size:85%;">, 1968/69</span><br /><span style="font-size:85%;"></span><br /><span style="font-size:85%;">(2) Vd. artigos de:</span><br /><span style="font-size:85%;"></span><br /><span style="font-size:85%;">1 de Julho de 2008 > </span><a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/07/guin-6374-p3012-os-nossos-regressos-3.html"><span style="font-size:85%;">Guiné 63/74 - P3012: Os nossos regressos (3): Ficámos a ver Lisboa do navio (José Teixeira)</span></a><span style="font-size:85%;"> </span><br /><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-size:85%;">1 Julho > </span><a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/07/guin-6374-p3007-os-nossos-regressos-2.html"><span style="font-size:85%;">Guiné 63/74 - P3007: Os nossos regressos (2): Finalmente, cheguei, estou vivo, não se assustem, sou eu, o Joaquim (J. Mexia Alves)</span></a><span style="font-size:85%;"> </span><br /><span style="font-size:85%;"></span><br /><span style="font-size:85%;">26 de Junho de 2008 > </span><a href="http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/06/lisboa-dois-anos-depois.html"><span style="font-size:85%;">Guiné 63/74 - P2987: Os nossos regressos (1): Lisboa, dois anos depois (Virgínio Briote)</span></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29087476-4229080882579040879?l=blogueforanadaevaotres.blogspot.com'/></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551lgraca@clix.pt0