tag:blogger.com,1999:blog-233424722009-07-17T00:28:06.651+01:00Auto-retratoMen on small islands should avoid the pursuit of happiness - Don deLilloSérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comBlogger885125tag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-90474289871294471612009-06-14T22:49:00.006+01:002009-06-14T22:57:29.217+01:00A revelação<div style="text-align: justify;">Andar em contraciclo e contra as modas obriga a uma férrea disciplina, e por isso leio <i>Budapeste</i>, de um Chico Buarque que nunca, nem como músico, me interessou por aí além. Agora que saiu <i>Leite Derramado<img src="http://www.blogger.com/img/blank.gif" alt="Itálico" border="0" class="gl_italic" /><span class="Apple-style-span" style="font-style: normal;">, descubro o tal assombro de que falam. Ah, mas músico sabe escrever? Mas celebridade pode escrever, se expressar em mais de um meio, e sempre de forma excelente? Parece que Chico Buarque pode, e </span>Budapeste</i> está a ser uma revelação que possivelmente vai fazer com que a férrea disciplina seja quebrada. Agora, não me peçam para ler <i>Montanha Mágica</i>, nesta nova tradução e tal e tal. Haja paciência. Espero encontrar Hans Castorp num futuro mais ou menos longínquo. Talvez quando finalmente traduzirem <i>Finnegan's Wake</i>, a impossibilidade em letra de forma.</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-9047428987129447161?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-76492745503662694652009-06-08T20:55:00.004+01:002009-06-08T21:25:27.019+01:00O espectáculo das eleições<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Si1zUhpzH-I/AAAAAAAAAeY/dsb77KN1B28/s1600-h/The+Circus.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 319px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Si1zUhpzH-I/AAAAAAAAAeY/dsb77KN1B28/s400/The+Circus.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5345055129226911714" /></a><div style="text-align: justify;">A impossibilidade de olharmos para qualquer acontecimento exterior de modo inocente torna inevitável a construção de uma narrativa. Mas quando entre nós e o mundo se interpõe uma barreira, o conhecimento passa a ser ilusório, puro engano dos sentidos. Se essa barreira, mais do que ser opaca, é um espelho que distorce a realidade, quanto daquilo que vemos é passível de ser real? <br /></div><div style="text-align: justify;">O problema não é aceitarmos a inevitabilidade desta verdade, mas saber até que ponto é mais útil não saber nada do que se passa fora dos limites daquilo que não controlamos. </div><div style="text-align: justify;">Olhando para a cobertura mediática da noite eleitoral, apercebemo-nos das narrativas que as televisões vão construindo. Da expectativa anterior às primeiras sondagens à boca da urna, prevendo um resultado num determinado sentido, até aos resultados definitivos, um longo caminho foi percorrido. Os comentadores, analistas, comendadores de serviço, debitaram quilómetros de opiniões, especulações, num festivo bombardeamento dos sentidos. Cada nova informação contribuía para que o espectador se afastasse mais da realidade. Dos erros das sondagens à surpresa da derrota, tudo parece ter sido preparado para que um grande espectáculo fosse assistido pelo maior número possível de pessoas. As marcas de uma obra de ficção estão à vista de todos: o suspense do fecho das urnas, os primeiros resultados, a expectativa sobre uma sondagem para as legislativas, os numerosos directos das sedes dos partidos com jornalistas ampliando os minutos de espera dos derrotados em marcação cerrada e mantendo a emissão numa euforia expectante enquanto os vencedores não entram. O mistério - políticos que abandonam as sedes partidárias -; o melodrama - políticos que choram no enfrentar das adversidades; a comédia - juventudes partidárias em encenadas celebrações; os diversos climaxes - o discurso de vitória, dedos no ar e punhos em riste, as pausas para que o público se manifeste. Indícios de uma grande espectáculo, do outro lado do ecrã, para uma audiência de milhões. As narrativas que daqui saem mostram as sedes dos partidos vencedores cheias e eufóricas e as salas vazias dos vencidos depois do esvaziar da festa. </div><div style="text-align: justify;">Depois de tudo ter terminado, resta aos jornalistas mais uma previsão, o preparar do terreno para a próxima perfomance do grande circo da política. Análises balofas, adivinhações, truques de ilusionismo que escondem derrotas, sobrevalorizações de resultados esperando mais vitórias.</div><div style="text-align: justify;">E nós, do lado de cá do espelho, o que poderemos fazer para além de aceitar a realidade que nos oferecem?</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-7649274550366269465?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-15837170957430370802009-06-05T20:18:00.007+01:002009-06-05T21:24:04.606+01:00Siri Hustvedt<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Silz4TpLVKI/AAAAAAAAAeQ/lrD431qXahE/s1600-h/siri_hustvedt.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 290px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Silz4TpLVKI/AAAAAAAAAeQ/lrD431qXahE/s400/siri_hustvedt.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5343929844034655394" /></a><div style="text-align: justify;">No outro dia sonhei encontrar Siri Hustvedt e Paul Auster. Não era realidade, e eu sabia (no sonho). Eu sabia que sonhava pertencer a um livro e os encontrava a meio de um enredo austeriano. Auster regressara da Noruega e trouxera com ele aquela mulher belíssima, provocando a admiração de todos os homens. Contudo, a confiança que uma mulher deslumbrante poderia trazer era estranha a Auster. Ele olhava em redor, procurando o espanto alheio ou a até mesmo a inveja, como se fosse possível a um homem invejar outro por uma conquista amorosa, por mais bonita que seja a mulher. Seria um homem crente de que uma mulher bonita é mais caprichosa, e portanto disposta a ser levada por um vento diferente de modo mais fácil? Ou era ele apenas um fraco representante da raça masculina, incapaz de reunir poder a partir de uma conquista? Eu queria acreditar na segunda hipótese, e por isso fui-me aproximando dos dois provido de uma fé desrespeitosa. Pensava seduzir aquela beldade pálida e imaginar-me num filme de Hitchcock. Nem a diferença de alturas iria deter os meus avanços. Auster fraquejava e afastava-se, acudia a uma solicitação de outro leitor ou fugia de mim, deixava-me avançar no terreno de batalha. Ainda faltava saber que táctica utilizaria na aproximação. Inclinava-me para uma aproximação directa - não sabia se a devoção seria suficiente para o interesse de alguém inacessível. Pensei em frases de engate, fracas, inertes - o amante dela era escritor. Pensei em usar a franqueza de um bruto - mas ela era demasiado inteligente para tal coisa. Seria então a inteligência a arma que me serviria. Aproximava-me, e Auster era apenas uma miragem, um vulto entre uma multidão de leitores que faziam o meu trabalho sujo, distraiam-no o suficiente para que eu pudesse dar a estocada final. Ela estava sentada e sentei-me ao lado. Sussurrei a minha deixa ao ouvido; foi a última coisa que fiz, antes de acordar.<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-1583717095743037080?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-57116796809249783882009-06-05T00:28:00.005+01:002009-06-05T01:23:59.000+01:00Kung Fu (David Carradine 1936-2009)<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SihZMInYWcI/AAAAAAAAAeI/2_ROAklO2w8/s1600-h/bill6.jpg"><div style="text-align: justify;"><br /></div><img style="text-align: justify;float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 560px; height: 384px; " src="http://3.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SihZMInYWcI/AAAAAAAAAeI/2_ROAklO2w8/s400/bill6.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5343619022881053122" /></a><div style="text-align: justify;">Há actores que valem mais pela presença do que pela técnica, pela adequação a uma personagem, ou pela composição de várias personagens próximas, construindo uma imagem que associamos de imediato a um corpo. Actores que não ganham Oscares (o pai dele, John, conseguiu um em <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">Vinhas da Ira</span>, de Ford)<span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "> </span> - mas deixam uma marca para a eternidade. É claro que David Carradine é um mito da minha infância. Na série <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;">Kung Fu</span>, o herói que vagueia pelo Oeste não cavalga nem usa um revólver - caminha e usa as mãos e os pés enquanto medita. O zen <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">cool</span> deverá ter sido a razão pela qual Tarantino escolheu Carradine para o papel de Bill; o corpo envelhecido, a crueldade controlada, a piedade; sobretudo, a voz, pausada, cava, uma dicção extraordinária. A presença é essa tranquilidade que o transporta na tela. Restará isso.<br /></div><div><div><br /></div></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-5711679680924978388?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-43728937682521676162009-06-03T22:29:00.006+01:002009-06-03T23:00:14.465+01:00A obscenidade dos comboios<div align="justify">Aquela última sequência da <em>Intriga Internacional, </em>de Hitchcock, quando vemos um comboio a entrar num túnel, imediatamente a seguir ao beijo de Cary Grant e Eva Marie Saint.<img src="http://alfacinha.weblog.com.pt/ficheiros/NN2small.jpg" /> Não mostrar dizendo tudo. É assim que funcionam os sonhos: sublimam a realidade e substituem-na por símbolos. Freud teria razão. Sonhar com comboios apenas pode ser o óbvio. </div><div align="justify">Limitemo-nos à vida acordada. O prazer de viajar de comboio associa-se aos mistérios de infância. Recordo que vivia a poucos quilómetros de distância da linha do Oeste, e havia certas noites, quando o silêncio dominava, em que o ruído dos comboios nocturnos se podia ouvir, longe. Convenhamos que, para um adolescente assombrado pela insónia, aquele som vago, de origem incerta, podia ser aterrador. Não acreditava que os comboios pudessem circular à noite. Era tão simples como isso. Mas assustava-me a sério. E punha em andamento a máquina da imaginação criando sonhos inquietos.</div><div align="justify">Agora, o comboio é um utilitário. Usado diariamente, perde o halo misterioso que tinha. As viagens de longa distância, no entanto, continuam<img src="http://www.blogger.com/img/blank.gif" alt="Itálico" border="0" class="gl_italic" /> a associar-se ao prazer, mas de outras coisas. Ler um livro numa viagem de Lisboa ao Porto, olhar a paisagem do Oeste, lembrar outros livros, como <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">O Crime no Expresso do Oriente</span>, passados em comboios. A razão do prazer: é como se fosse uma casa em movimento. Nós estamos lá parados, e já nos movemos. Sem darmos por isso, vamos de um ponto ao outro em pouco tempo. Paradoxos da relatividade. (Não nos podemos esquecer que o exemplo habitualmente utilizado para demonstrar a teoria da relatividade restrita tem a ver com andar de comboio. Porquê: a suspensão do tempo num comboio é quase palpável).</div><div align="justify">Lamento não ter feito o inter-rail, principalmente depois de ver o filme <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;">Antes do Amanhecer</span> e o rosto absolutamente belo de Julie Delpy.<img src="http://www.cannes-fest.com/1998/actu/fotos/delpy.JPG" /> Mas uma obra de arte é sempre uma possibilidade remota, e não há romantismo que possa salvar dessa miragem estatística que é conhecer alguém como Delpy numa viagem de comboio.</div><div align="justify">Entre lamentações e declínios, talvez já não acredite em interpretações psicológicas; em comboios e em tudo o resto. Mas o prazer continua a existir. Sublimado ou não.</div><div align="justify"><br /></div><div align="justify"><span class="Apple-style-span" style="font-size:small;">(Versão melhorada de um texto publicado no <a href="http://arquivosmortos.blogspot.com/">Arquivo Fantasma</a>)</span></div><div align="justify"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-4372893768252167616?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-57233447872253425452009-06-02T01:03:00.004+01:002009-06-02T01:08:05.970+01:00A ocupação dos dias<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SiRscw108PI/AAAAAAAAAd4/dKXwuA_JNUo/s1600-h/StampCollector.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 283px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SiRscw108PI/AAAAAAAAAd4/dKXwuA_JNUo/s400/StampCollector.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5342514299371057394" /></a><div style="text-align: justify;">A ocupação do tempo é uma coisa séria. Tão séria que desafio quem me vier falar em passatempo a um duelo nas minhas condições: que leve uma resma de palavras cruzadas, sopas de letras, selos e moedas, as suas armas, eu levarei as minhas, um ou dois filmes e alguns livros mais; ou apenas uma folha. Uma folha e uma caneta – dêem-me papel e tinta, e eu em troca oferecerei o mundo (se o mundo quisesse ser oferecido por mim). Não, não é de uma arrogância indesculpável eu achar que ocupo melhor o tempo a ler um livro do que a preencher quadradinhos com números, grelhas com cruzes e borrões; pode não ser melhor, mas é pelo menos mais estético (se até Oscar Wilde falou disso, é porque de ve ser). E mais do que baixar o nível, eu estou a levantar a moral dos filatelistas e numismatas que me lêem – amigos, o vosso passatempo é tão importante como o meu; ambos servem o mesmo propósito, ocupar o tempo. Esse sacana que ri nas minhas costas é assim mesmo: não é exclusivo, aceita ser cheio por qualquer um ou de qualquer coisa. O tempo é como um terreno vazio num município com presidente corrupto (e assim descrevo muito mais de metade das cidades do país), à espera do loteamento que virá. Pode acontecer que seja construído um belo edifício com fins culturais, uma obra de um arquitecto moderno de um ateliê nórdico, uma marca essencial na paisagem urbanística. Mas também pode suceder que seja construído um qualquer monolito de cimento para habitação social que depois é pintado de várias cores para disfarçar o puro horror da desarmonia geométrica. (Bem, não é uma boa comparação; quantas vezes acontece a primeira situação?) Seja como for, a ideia é essa: se do ponto de vista da utilidade do tempo, é tão inútil ler um livro como coleccionar bules de chá, por que razão escolher a primeira opção em detrimento da segunda? Ah, mas a culpa é da sociedade! A sociedade empurra alguns mortais para o abismo da pretensão, para o flagelo da Arte. E pior que um esteta consumado é um criador que julga que, ao escrever, está a enganar o tempo; não há força alguma que consiga transformar a natureza do tempo, que é ser uma espécie de espaço em aberto – não é contradição nem jogo de palavras; se pensar bem, chegará à conclusão que recordar o que passou depende apenas de um movimento (imaginário) no ar, um estender de mão milagroso. Ainda hoje lamento não ter avançado muito na colecção de selos iniciada aos treze anos. Aquela caixa cheia de papel e tinta de algum modo sorri para mim, lá longe no tempo (vêem?) A ocupação do tempo é uma coisa séria, e por isso se tivesse continuado (sem terminar, o coleccionador nunca dá por terminada a sua obra) eu seria alguém acima de qualquer suspeita, não o pretendente a um trono vazio na minha família: aquele que recusou a seriedade da vida e trocou-a pela Arte. Perdi-me.<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-5723344787225342545?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-31926475573387558072009-06-01T19:40:00.004+01:002009-06-01T19:54:28.992+01:00Ontem como hoje<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SiQjxtL8DOI/AAAAAAAAAdw/63qoiR6H6FU/s1600-h/tom-joad.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 321px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SiQjxtL8DOI/AAAAAAAAAdw/63qoiR6H6FU/s400/tom-joad.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5342434394818481378" /></a><div style="text-align: justify;">«Foi um "danado da terra" nas <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">Vinhas da Ira</span> de Ford-Steinbeck, no papel de Tom Joad. Aprendia com a família e com John Carradine o que era ser humilhado e ofendido. E, no fim, largava os seus para ir lutar por quantos vira serem injustamente expoliados. É noite e a mãe (fabulosa Jane Darwell) acorda ouvindo-o sair. Das razões dessa levada fala Fonda no mais comprometido e menos demagógico de quantos discursos semelhantes ouvimos em cinema. E diz que <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">"enquanto polícias baterem", "enquanto houver gente com fome", "enquanto houver crianças que riem e acreditam"</span>, <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">"I'll be there"</span>. Se quem não viu <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">Grapes of Wrath</span> pensar que é um fadinho, vá vê-lo e depois venha-me contar. John Ford era um conservador, Henry Fonda um liberal. Mas nenhum crente progressista, nenhum neo-realista italiano conseguiu jamais metade da verdade e metade da força. Saímos do filme com a certeza de que "<span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">we will be there</span>" também, "<span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">seeing his face in some nice place</span>". Nesse papel, estão as raízes perdidas das indomináveis convicções.»<br /></div><div><br /></div><div>João Bénard da Costa, em <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;">Muito Lá de Casa</span>, ed. Assírio & Alvim</div><div><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-3192647557338755807?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-91362905503831654912009-05-29T19:30:00.005+01:002009-05-31T23:25:12.042+01:00Quando a luz se apaga e o filme se inicia<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SiAqRsQjLpI/AAAAAAAAAdg/W2zzcvpFdAk/s1600-h/ch02pa7.png"><img style="text-align: justify;float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 400px; height: 218px; " src="http://4.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SiAqRsQjLpI/AAAAAAAAAdg/W2zzcvpFdAk/s400/ch02pa7.png" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5341315641488125586" /></a><span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"><div style="text-align: justify;"><span class="Apple-style-span" style="font-style: normal; "><span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">Cada um o seu cinema</span>, mais do que uma homenagem ao cinema, é uma dedicatória a Cannes e um elogio da política de autores. A quantidade de filmes de produção europeia que são citados nas curtas é esclarecedora: contam-se 6 ou 7 de Godard, alguns de Truffaut, Dreyer, Fellini, Mastroianni (na belíssima evocação de Theo Angelopoulos) e Lars von Trier (numa narcisística e irónica citação do próprio); sucedem-se frases famosas da história do cinema, e na curta de Angelopoulos Jeanne Moreau limita-se (mais do que isso, eu sei, muito mais do que isso) a repetir (a repetição é sempre diferente) as suas linhas em <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">A Noite</span>, de Antonioni. As sombras projectam-se no rosto dos espectadores e constroem uma breve história do cinema europeu dos últimos quarenta anos - pelo menos aquele que Cannes acarinhou e tornou dogma da cinefilia. Agora que saiu um livro sobre os novos <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">snobs</span> cinéfilos, os novos que preferem Tarantino a Truffaut, Argento a Antonioni, sabe bem ir ver este poema de amor ao acto de ver um filme, ficar maravilhado. Até que o último cinema do mundo seja encerrado e as ruínas conquistem o seu domínio - como se vê na comovente curta de Hou Hsiao-hsien, a indeseja premonição de todos os cineastas e cinéfilos, o seu pior pesadelo.</span><br /></div></span><div style="text-align: justify;"><span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline;"><br /></span></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-9136290550383165491?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-4295035813908917612009-05-21T12:58:00.007+01:002009-05-21T16:29:08.159+01:00João Bénard da Costa (1935-2009)<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/ShVHeiPD-vI/AAAAAAAAAdY/Exsot_TEHYA/s1600-h/GhostMrsMuir.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 286px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/ShVHeiPD-vI/AAAAAAAAAdY/Exsot_TEHYA/s400/GhostMrsMuir.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5338251523229219570" /></a><div style="text-align: justify;">Quem ama o seu trabalho arrisca-se a ser o melhor no que faz; mais ainda se o que fizer for a paixão de uma vida. Para João Bénard da Costa, passar os dias na Cinemateca era viver - dizia-o em entrevistas - ver filmes era viver, falar sobre cinema era viver. Ter tido um homem como ele a dirigir uma instituição como a Cinemateca foi um golpe de sorte, um acto divino, uma excepção à mediocridade reinante. Gerações de cinéfilos devem-lhe muito, quase tudo; realizadores, críticos, nós que o lemos e que, em maior ou menor grau, adoramos os filmes que ele adorava. A superlatividade não era apenas um pormenor, uma <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">boutade<img src="http://www.blogger.com/img/blank.gif" alt="Itálico" border="0" class="gl_italic" /><span class="Apple-style-span" style="font-style: normal; ">, era um método, uma forma de encarar o cinema: cada filme era o melhor, o grande filme, a obra perfeita, o mais belo. Não havia exclusividade na paixão de Bénard da Costa; ele amava os filmes como um mulherengo ama as mulheres: cada um era uma revelação, uma epifania. E como sabemos disto: através do que ele escrevia. É que, para além do trabalho de programador, inatacável, conseguia escrever sobre cinema como ninguém, em estilo e em conteúdo. </span></span><br /></div><div style="text-align: justify;">A dúvida que há uns anos correu por aí, sobre cargos públicos e outras inutilidades do género, mostrou a ingratidão de um país. Já sabemos que a unanimidade é uma utopia, mas a injustiça em relação a alguém como ele é sempre incompreensível. A única sombra que resta é aquela que é projectada na sala de cinema; arte de fantasmas, o cinema resistirá ao seu desaparecimento. Talvez isso suceda em consequência do esforço de uma vida; devemos a Bénard da Costa parte do que é o cinema em Portugal. </div><div style="text-align: justify;">Quando estivermos sentados na penumbra, pensemos na sua sombra. E no amor que ele tinha aos filmes; talvez assim nos aproximemos um pouco mais da outra sombra, a que se projecta na tela. Talvez.</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-429503581390891761?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-236070531593420712009-05-17T01:19:00.001+01:002009-05-17T01:20:59.263+01:00<div><br /></div><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Sg9YRVHw4fI/AAAAAAAAAdQ/byM3EhM9M40/s1600-h/DSC01029.JPG"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Sg9YRVHw4fI/AAAAAAAAAdQ/byM3EhM9M40/s400/DSC01029.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5336581138208055794" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-23607053159342071?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-65159661520621197712009-05-14T19:50:00.008+01:002009-05-15T00:09:47.004+01:00Qualidades (1)<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SgxuX6APZqI/AAAAAAAAAdI/Z6Sa1sRJ6HY/s1600-h/Wanderer-above-the-Mists-Friedrich.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 315px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SgxuX6APZqI/AAAAAAAAAdI/Z6Sa1sRJ6HY/s400/Wanderer-above-the-Mists-Friedrich.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5335761015513507490" /></a><div style="text-align: justify;">O tema preferido do poeta é quase sempre ele próprio. Ou, se quisermos, o tema que mais se repete em toda a poesia é o poema em si, a razão de sua existência, o lugar no mundo, sobretudo o esplendor da sua importância. Em todo o livro de poesia publicado existe uma "arte poética"; o que isto quer dizer? Poderíamos pensar que este questionamento é compreensível, salutar; mas no fundo o que leva o poeta a reflectir sobre o que está a escrever - o acto da escrita, no presente, é um permanente ziguezague, e não consigo pensar em caminho mais ínvio do que o da auto-reflexividade - é a dúvida. A dúvida, mortal, sobre a validade do texto, sobre o domínio da técnica, sobre a coerência dos temas, sobre a qualidade, a "qualidade" que o poeta deve ter. O problema é que esta dúvida, intrinsecamente litarária, soma-se à maldita dúvida existencial. Já não bastava ao poema sofrer com o mundo, como ainda tem de sofrer com as inseguranças do poeta. É portanto avisado esquecermos aquela coisa romântica do carácter sublime da poesia, a forma literária mais perfeita; a poesia vive da fragilidade, da fraqueza; a pós-modernidade provou como ela é obsoleta. E o poeta, esse ser que recebe o sopro directamente de Deus, é uma espécie em vias de extinção. Por isso, pergunta, o que é isto que eu faço? Poesia é a anti-matéria por excelência, uma inutilidade num mundo marcado pela s<img src="http://www.blogger.com/img/blank.gif" alt="Itálico" border="0" class="gl_italic" />upremacia do utilitarismo e da técnica. O poeta pode sempre escolher a via <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">new-age</span>: não podendo provar como é necessário ao mundo, mantém-se à margem dele, cultivando a distância e curtindo o ressentimento dos abnegados. Mas até esta margem é ilusória; o presente integrou as franjas da sociedade no seu corpo, não há lugar para poetas malditos. E os poetas que se dizem malditos podem dar-se ao luxo de fingir: os prazeres da burguesia são sempre uma boa desculpa para escrever poesia.<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;">Mas alegremo-nos: as discussões sobre o vazio são sempre as que melhor nos conseguem esclarecer sobre a natureza humana. A "arte poética", brilhante e solipsista, é a prova da inutilidade da poesia. Mas como poderemos nós destruir o que é simplesmente belo?</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-6515966152062119771?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-37443990017088503812009-05-12T22:28:00.004+01:002009-05-13T01:02:24.248+01:00Comboios<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SgoNPtGQVBI/AAAAAAAAAc4/8SR513Pkhy0/s1600-h/DSC00010.JPG"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SgoNPtGQVBI/AAAAAAAAAc4/8SR513Pkhy0/s400/DSC00010.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5335091272028804114" /></a><div style="text-align: justify;">O tempo que demora uma viagem de comboio tem de servir exactamente para terminar o livro que andamos a ler; nem mais, nem menos. Deve-se por isso controlar o número de páginas antes, ler até ao ponto em que sabemos restar apenas o fim de história que irá preencher o tempo de duração da viagem - sesta incluida, cabeça encostada à janela luzindo de gordura, saliva ameaçando cair a qualquer momento.<br /></div><div style="text-align: justify;">Um cálculo errado pode arruinar o prazer; se lemos demasiado rápido, corremos o risco de o livro chegar ao fim duas estações antes. O horror! O que fazer até sairmos? Olhar pela janela, quando a noite acabou de cair? Espreitar os olhos da passageira fugidia que se sentou dois lugares à frente, só para poder observar de longe o observador? Nada parece certo; acabámos de sair de um território desconhecido, o aborrecimento do dia-a-dia não pode ser uma hipótese.</div><div style="text-align: justify;">Mas pior é se, ao ser anunciada a estação em que devemos sair, ainda faltarem umas quantas páginas (demais) para acabar; a pressa, o pânico, a tentação de saltar linhas, parágrafos inteiros. Não vamos lá, e depois? Em casa? Teremos de esperar até que a calma doméstica permita algum tempo para retomar o que deixámos a meio, perto, muito perto da meta? Mas não será a mesma coisa. O intervalo é fatal; enquanto percorremos o caminho de casa, as personagens esvaem-se, em sangue, literal e figurativamente, desaparecem do nosso horizonte. E quando voltamos a pegar no livro, nem elas nem nós somos os mesmos. Imperdoável.</div><div style="text-align: justify;">A duração, a flexibilidade da leitura, o movimento acampanhando o ritmo das palavras. Tudo se compõe no fim, no momento imediatamente anterior a uma voz soar: próxima estação...</div><div><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-3744399001708850381?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-61688110662302123092009-05-06T01:33:00.001+01:002009-05-06T01:36:45.171+01:00<div><br /></div><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SgDbNWyt9bI/AAAAAAAAAcw/nv995v4E9lQ/s1600-h/050409+075.JPG"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SgDbNWyt9bI/AAAAAAAAAcw/nv995v4E9lQ/s400/050409+075.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5332502981309756850" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-6168811066230212309?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-35967727564670214742009-05-05T00:38:00.005+01:002009-05-06T01:32:35.819+01:00Vasco Granja (1925-2009)<div><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/KJJW7EF5aVk&hl=pt-br&fs=1"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/KJJW7EF5aVk&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /></div><div><br /></div><div style="text-align: justify;">Cresci a ver os programas de animação apresentados por Vasco Granja; os Looney Tunes, os desenhos de leste (onde é que era a Checoslováquia? como poderia conhecer esse país que apenas existia porque um apresentador de um programa de televisão me falava dele?), o Bugs Bunny, claro, e o Beep-Beep e o Coiote, provavelmente o meu preferido; marcou-me tanto que, há uns anos, encontrei Vasco Granja por acaso no King e quase o abracei, em emocionado agradecimento (acabei por não o fazer).<br /></div><div style="text-align: justify;">Havia um desenho animado canadiano - ganhara um prémio qualquer que me é impossível de precisar - que me marcou bastante, ao ponto de 25 anos depois ainda me lembrar dele: uma fileira interminável de homens numa planície; todos iguais, andando um passo em frente de tanto em tanto tempo; todos iguais, excepto um, que tudo fazia para evitar dar esse passo em frente quando chegava a sua vez. Avanço até ao fim: à beira de um precipício, percebe-se que o passo em frente desemboca no vazio de uma queda. Quando chega a vez do homem, ele tudo faz para evitar cair. Mas cai.</div><div style="text-align: justify;">Para sempre, Vasco Granja.</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-3596772756467021474?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-17401003463169380852009-05-05T00:13:00.002+01:002009-05-06T01:37:03.986+01:00<div><br /></div><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Sf9229gtCMI/AAAAAAAAAco/tpd_TNIarK0/s1600-h/050409+077.JPG"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Sf9229gtCMI/AAAAAAAAAco/tpd_TNIarK0/s400/050409+077.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5332111170426702018" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-1740100346316938085?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-40826434254896726752009-05-04T20:36:00.007+01:002009-05-04T23:40:35.909+01:00Distant Voices, Still Lives<div><span class="Apple-style-span" style=" white-space: pre; font-family:Arial;font-size:10px;"><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/aJNC-AZ2IYw&hl=pt-br&fs=1"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/aJNC-AZ2IYw&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></span><br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;"><span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;">Distant Voices, Still Lives</span> é um daqueles filmes (um díptico, para sermos exactos) que parecem esperar pelo momento em que os descobrimos; uma surpresa, um deslumbramento imediato, levando-nos a pensar por que razão ainda não tinha chegado a nós. Ou então a série de acasos é ilusória - todo o bem que dizem desta obra simplesmente passara até agora despercebido.<br /></div><div style="text-align: justify;">Um filme sobre a memória - e não são todos? A imagem cinematográfica captura o presente, mas como recuperar um passado que nenhuma imagem guardou? A reinvenção é a única possibilidade. O filme é um longo sonho sobre uma vida que o realizador, Terence Davies, imagina ter vivido. Liverpoool nos anos 60, os lampejos de realismo britânico, a biografia que tece o fio narrativo - pretextos para uma tentativa de reconstrução de um mundo em perda; recuperar as ruínas. Um sonho, insisto, e quando a câmara, em lento travelling da direita para a esquerda, abandona o presente, não é apenas o espaço que fica vazio, também o tempo; o olhar de Davies foca-se numa ausência, num vazio, e no seu lugar apenas sombras restam. </div><div style="text-align: justify;">O cinema permite que o tempo se detenha na sua voracidade; a fragmentação da memória é como um conjunto de estilhaços disparado em várias direcções (a fabulosa cena do vidro a partir-se é essencial) e no final apenas podemos esperar que o tempo se reorganize respeitando uma ordem afectiva - a casa, a luz, as canções, as histórias, território repovoado, intervalos desordenadamente preenchidos.</div><div style="text-align: justify;">Deve ser esta a imobilidade fulminante de que falava António Ramos Rosa.</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-4082643425489672675?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-23377736695307878142009-04-30T01:17:00.001+01:002009-05-06T01:37:23.711+01:00<div><br /></div><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Sfju09QI_lI/AAAAAAAAAcg/pNCsYvWHDBY/s1600-h/050409+076.JPG"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/Sfju09QI_lI/AAAAAAAAAcg/pNCsYvWHDBY/s400/050409+076.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5330272752555851346" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-2337773669530787814?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-84530909385573585202009-04-25T12:40:00.001+01:002009-04-25T12:41:33.027+01:00Sempre<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SfL25oMgjLI/AAAAAAAAAcY/vw36Tvj3yPM/s1600-h/25Abril11.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 295px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SfL25oMgjLI/AAAAAAAAAcY/vw36Tvj3yPM/s400/25Abril11.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5328592779035577522" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-8453090938557358520?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-37220312682956770082009-04-25T01:14:00.004+01:002009-04-25T12:36:52.400+01:00Kelly Reilly<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SfJWIw_FQMI/AAAAAAAAAcQ/UQo91nZuMWU/s1600-h/kelly-reilly.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 281px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SfJWIw_FQMI/AAAAAAAAAcQ/UQo91nZuMWU/s400/kelly-reilly.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5328416017721147586" /></a><div style="text-align: justify;">Kelly Reilly deve ter um péssimo agente, julgando pelo trabalho que fez a seguir a <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; ">Bonecas Russas</span>, de Cédric Kaplish. Como tornar um filme mediano, uma produção tipicamente francesa, bem-comportada, em algo memorável? Convidar esta inglesa de 31 anos para o papel de mulher da vida de um homem - e entenda-se que, neste caso, a expressão se opõe a outra, a mulher dos sonhos de um homem. Reilly não é especialmente bela, não é essencialmente elegante, mas é uma actriz espantosa. De qualquer modo, nenhuma mulher desdenharia ser dona do azul daqueles olhos; e os lábios desenham no rosto qualquer coisa de essencial, inadiável. <br /></div><div style="text-align: justify;">O mérito do filme vai todo para o director de casting que escolheu Reilly para ideal romântico (contrariado, oh ingratidão) de Romain Duris. O seu a seu dono.</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;">Queremos Reilly em Hollywood, rapidamente e em força; Keira Knightley, quem é?</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-3722031268295677008?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-80367912683124845722009-04-23T17:45:00.001+01:002009-05-06T01:37:37.399+01:00<div><br /></div><a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SfCbaK1ttDI/AAAAAAAAAcI/rtrCuxZNBwI/s1600-h/050409+072.JPG"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SfCbaK1ttDI/AAAAAAAAAcI/rtrCuxZNBwI/s400/050409+072.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5327929233067848754" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-8036791268312484572?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-21312095908007682582009-04-21T00:31:00.006+01:002009-04-21T01:01:03.904+01:00Ballard<div><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/tztl6ZEjrw4&hl=pt-br&fs=1"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/tztl6ZEjrw4&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><br /><br /></div><div style="text-align: justify;">O fascínio da criança presa no campo de prisioneiros, durante a Segunda Guerra Mundial, não é muito distinto do desejo de James Ballard quando colocado perante os limites da sua Humanidade. Os dois filmes que adaptaram romances de Ballard, <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;">O Império do Sol</span> e <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;">Crash</span> (há uma longa-metragem realizada por Solveig Nordlund a partir de um fabuloso conto, <span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;">Aparelho Voador a Baixa Altitude</span>), evidenciam as semelhanças temáticas da fonte onde bebem e as diferenças que se relacionam com o universo de Spielberg e Cronenberg. A infância como período de descoberta e provação de Spielberg e a idade adulta enquanto tempo de transgressão e derrota; os aviões dos Kamikazes japoneses (a violência espreita) que sobrevoam o miúdo (Christian Bale), prodígio da modernidade, são imagem de uma idade de ouro da tecnologia, quando esta serve o Homem e o deslumbra, produto de uma superior inteligência; por outro lado, as viaturas que espelham o desejo de uma transcendência dos limites do corpo, os carros dançando entre si, chocando, em ambiente urbano, representam o fascínio infantil levado a um extremo hiperrealista. A prótese de Rosanna Arquette, objecto fétiche do olhar extremista de Holly Hunter, é uma hipótese de um ser que ultrapassa os limites do humano; a criança que sonha ver as brilhantes máquinas voadoras (a infância será sempre um sonho, ainda que seja na realidade um duro pesadelo) torna-se um cínico descrente, preso de um desejo que perdeu a sua pureza: a passagem para a idade adulta não será muito mais que isto.<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-2131209590800768258?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-1850880518809450032009-04-19T20:34:00.006+01:002009-04-19T20:40:45.002+01:00J. G. Ballard (1930-2009)<object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/EABNmYzKVXA&hl=pt-br&fs=1"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/EABNmYzKVXA&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object><div><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-185088051880945003?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-5828812825141582912009-04-18T00:42:00.006+01:002009-04-18T01:02:14.182+01:00À prova de morte<div style="text-align: justify;">Contrario Steiner - a ver se acordo o <a href="http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/">Francisco</a> - e afirmo: temos sempre novos começos. Parece que este blogue entrou em pousio. Que assim seja; apenas lhe dou o que ele pede, e nunca me deixou mal.<br /></div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;">(Não sei por que razão agora falo com o blogue; talvez seja por, dizem, ser um diário, ou lá o que é)</div><div style="text-align: justify;"><br /></div><div style="text-align: justify;">Foram-se os links, e o ar continua a ser respirável; dá vontade de colar aqui um vídeo:</div><div><br /></div><div><span class="Apple-style-span" style=" white-space: pre; font-family:Arial;font-size:10px;"><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/-9WIxeh6l6c&hl=pt-br&fs=1"><param name="allowFullScreen" value="true"><param name="allowscriptaccess" value="always"><embed src="http://www.youtube.com/v/-9WIxeh6l6c&hl=pt-br&fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></span><br /></div><div><br /></div><div>Boa noite a todas.</div><div><br /></div><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-582881282514158291?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-52943158608836849872009-04-15T23:49:00.003+01:002009-04-23T17:47:42.943+01:00<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SeZks8aqXVI/AAAAAAAAAcA/oaaREA2VVGc/s1600-h/050409+073.JPG"><img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:left;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SeZks8aqXVI/AAAAAAAAAcA/oaaREA2VVGc/s400/050409+073.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5325054332707167570" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-5294315860883684987?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-23342472.post-11827536602477612412009-04-14T00:17:00.002+01:002009-04-15T22:37:32.394+01:00<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SePIRVm1eCI/AAAAAAAAAb4/WJx6AHzGIig/s1600-h/050409+069.JPG"><img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_dJQshLgH650/SePIRVm1eCI/AAAAAAAAAb4/WJx6AHzGIig/s400/050409+069.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5324319384665421858" /></a><div class="blogger-post-footer"><img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/23342472-1182753660247761241?l=retrato-auto.blogspot.com'/></div>Sérgio Lavoshttp://www.blogger.com/profile/04103057566384100599noreply@blogger.com