tag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-28771592308172729892007-10-20T08:05:00.000+01:002007-10-20T10:14:00.655+01:00<a href="http://bp2.blogger.com/_KTpADYOb8i4/RxmnXis9KnI/AAAAAAAAABQ/f38szbJ2gco/s1600-h/134974524_28d30f43b1.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://bp2.blogger.com/_KTpADYOb8i4/RxmnXis9KnI/AAAAAAAAABQ/f38szbJ2gco/s320/134974524_28d30f43b1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5123310074004843122" /></a><br /><br /><br /><br /><span style="font-size:95%;"><span style="font-weight: bold;font-family:courier new;"><br />tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor</span><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-weight: bold;font-family:courier new;" ><br /><br /><br /><br /><span style="color: rgb(204, 0, 0);font-family:courier new;" >amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso</span><span style="font-family:courier new;"> e construo-me esta madrugada letra a letra. das palavras que para ti guardo não sei mesmo se qualquer uma delas faz sentido. não importa. há sempre qualquer outra coisa que espreita para nos levar.</span><br /><span style="font-family:courier new;">rói nas entranhas um fogo assim tão silente. não saber já dizer. não encontrar a palavra mais justa para dizer - e nos olhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">que baixo</span><br /><span style="font-family:courier new;">na tua presença</span><br /><span style="font-family:courier new;">há já outra outra cor. outra cor da minha dor.</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >não é a morte mais silente</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >que o dia sem ti</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >nem a noite imponente deslumbre maior</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >que o céu que dorme nos teus braços</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >nem o mar véu mais puro</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >que a tua pele nua</span><br /><br /><br /><br /><span style="font-family:courier new;">desculpa, mas tenho de te contar. hoje morreu a lúcia. a velha viúva da aldeia (e eu pensei em mim, pensei em ti, assim nesta distância que nunca acaba, nesta morte em vida) quando amanheceu, o corpo e o seu lugar ainda quente cheio das suas mãos, do seu cheiro de mulher velha, dos olhos que alongava sentada na cadeirinha à beira da janela, quando amanheceu, digo, vieram de lá de trás da serra os sobrinhos. trouxeram muitas outra mãos: vestiram-na, deitaram-na no caixão, o terço de latão e perolazinhas fingidas em duas voltas em redor das mãos cruzadas, os sapatos só calçados nas pontinhas dos pés, não cabem, são sapatos de há muitos anos. o cabelos com aquela mise-en-plis que sempre lhe conheci. os caracolinhos muitos fininhos dos rolos, a laca a cheirar a dias de festa. parecia uma menina.</span><br /><span style="font-family:courier new;">depois, levaram-na para a capela da vila. e quando voltaram, já depois de enterrada, entraram-lhe em casa, com pressa, a sobrinha a perguntar, onde é o contentor do lixo mais perto, e toda tarde foi um vaivém de carregos.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">um fartão de coisas boas no lixo, dizem aquelas<br />outras velhas sentadas no muro à beira da estrada. </span><br /><span style="font-family:courier new;">meio encolhidas. meio encolhidas já de saudade. a saudade<br />pode</span><span style="font-family:courier new;"> ser uma velhice encarquilhada.<br />o tempo quase arrependido. pode.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">depois, foram embora. sobra um papel colado na janelita da lúcia, vende-se, em letras mal desenhadas.</span><br /><span style="font-family:courier new;">mais à frente, toda a sua vida despejada na rua.os olhos<br />de toda a gente a desvelarem<br />os segredos. a mobília espanhola, negra com florinhas. comprada em badajoz. como é linda<br />meu amor, como é linda. as gavetas dos anos</span><br /><span style="font-family:courier new;">cheias desses bilhetinhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">que com a letra toda inclinada para o lado do coração<br />escrevia: uma só</span><br /><span style="font-family:courier new;">pergunta:</span><br /><span style="font-family:courier new;">então o amor é isto? os pratinhos de vidro colorido</span><br /><span style="font-family:courier new;">em borbotões nas beiras</span><br /><span style="font-family:courier new;">escaqueirados num caleidoscópio de dias.<br />os dias de festa<br />os dias de luto. quando morreu a mãe<br />quando o tempo apagou os natais<br />quando as páscoas viram<br />os seus dias encurtarem e lhe levaram<br />o tempo de homem. sentada à janela<br />como quem espera: ha pasado un caballero<br />- quién sabe por qué pasó!-<br />y se ha llevado la plaza<br />con su torre y su balcón,<br />con su balcón y su dama,<br />su dama y su blanca flor: os versos decorados<br />e inscritos num bilhetinho,<br />como são lindos, meu amor, como são<br />lindos.<br />agora já não. manchados com a gordura<br />de fritos<br />o lixo dos outros a manchar o antonio<br />machado. o lixo dos dias<br />a manchar o seu homem<br />a sua torre<br />a sua branca flor. a roupa de enxoval<br />ainda por estrear,</span><br /><span style="font-family:courier new;">devassada na boca dos cães, a baba<br />dos cães como sangue de parto,<br />a baba dos cães como suor de corpos que ali não<br />se deitaram. as rendas<br />os intermináveis biquinhos de renda<br />para arrematar as toalhas. os retalhos.<br /><br />a vida toda em retalhos coloridos. uns tão escuros<br />outra os gritos coloridos<br />do amor em pé, espreitando quando<br />ela lavava os cabelos. nunca cortes<br />esse cabelo, lúcia, nunca,<br />a arca de pés<br />e cantos em latão amarelo. as roupas de casa. a casa<br />toda em roupas. a casa toda em roupas<br />macias<br />cheirando a alfazema e maçãs verdes.<br /></span><br /><span style="font-family:courier new;">este é o cheiro para a nossa filha, diz a lúcia,</span><br /><span style="font-family:courier new;">mas a filha não vem. nem ela nem ninguém. </span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">o psiché meio manco:<br />o rapaz dos correios de nelas</span><br /><span style="font-family:courier new;">no sépia desbotado da moldura<br />do fotógrafo de cidade<br />- há tantos tantos demasiados anos -<br /></span><span style="font-family:courier new;">o vestido domingueiro e o serviço de copos</span><br /><span style="font-family:courier new;">comprado às prestações ao vendedor de enciclopédias<br /><br /></span><span style="font-family:courier new;">esvoaçam os lençóis da noite em que se deitaram juntos</span><br /><span style="font-family:courier new;"> o bordado no cabeção: amizade<br />um - a - todo intrincado de florinhas<br />e folhas. a primavera do amor<br />na primavera do corpo.<br /></span><span style="font-family:courier new;"> </span><br /><span style="font-family:courier new;">um homem de uma mulher pode ocupar toda a casa</span><br /><span style="font-family:courier new;">sem nunca o saber. em todas as coisas que uma casa</span><br /><span style="font-family:courier new;">pode ter</span><br /><span style="font-family:courier new;">uma mulher pode refazer a cada dia</span><br /><span style="font-family:courier new;">o seu homem</span><br /><span style="font-family:courier new;">e deitá-lo</span><br /><span style="font-family:courier new;">sentá-lo</span><br /><span style="font-family:courier new;">aninhá-lo entre as sertãs e os pratos da loiça de viana</span><br /><span style="font-family:courier new;">entre as linhas de coser e </span><br /><span style="font-family:courier new;">as cortininhas de chita que o tempo</span><br /><span style="font-family:courier new;">embolorece. há um homem</span><br /><span style="font-family:courier new;">a dormir nesta cama</span><br /><span style="font-family:courier new;">muito depois de o homem</span><br /><span style="font-family:courier new;">partir. </span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">senhores, nem a roupa quiseram, dizem as velhas sentadas<br />encolhidas</span><br /><span style="font-family:courier new;">encolhidas. as palavras cheias de rugas<br />os olhos aguados. cataratas do tempo<br />desaguando em espanto. senhores,<br />nem a roupa do corpo quiseram guardar.<br /></span><br /><span style="font-family:courier new;">baixo os olhos. quando a minha morte vier</span><br /><span style="font-family:courier new;">que venha escandalosa</span><br /><span style="font-family:courier new;">repentina</span><br /><span style="font-family:courier new;">e me roube a memória dessa frase </span><br /><span style="font-family:courier new;">toda inclinada </span><br /><span style="font-family:courier new;">para o lado do coração: então o amor</span><br /><span style="font-family:courier new;">é isto?<br /><br />não quero saber nem mais uma palavra.<br />nem mais uma.<br /></span><br /><span style="font-family:courier new;">que é feito do rapaz dos correios em nelas<br />dos beijos de olhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">dos sorrisos de mãos</span><br /><span style="font-family:courier new;">e do amor escorrendo pelas pernas: quando passou</span><br /><span style="font-family:courier new;">os pirinéus</span><br /><span style="font-family:courier new;">o amor era essa palavra<br /></span><span style="font-family:courier new;">roubada nas escadas</span><br /><span style="font-family:courier new;">do prédio<br />o ventre espantado<br /></span><span style="font-family:courier new;">um calor crescente e a água da boca.</span><br /><span style="font-family:courier new;">a mãe dormia e embalava nos braços</span><br /><span style="font-family:courier new;">uma menina. ainda ela</span><br /><span style="font-family:courier new;">ainda ele</span><br /><span style="font-family:courier new;">e um amor todo inclinado para o lado do coração.</span><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;font-family:courier new;" > é sempre daqui que nascemos</span><br /><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;font-family:courier new;" >para o mundo</span><br /><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;font-family:courier new;" >sempre os olhos abertos inúteis</span><br /><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;font-family:courier new;" >quase cegos</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">e é sempre aqui que nos morremos</span><br /><span style="font-family:courier new;">com os sons a deslizarem lentamente da boca</span><br /><span style="font-family:courier new;">uma casa aos pés guardando toda a existência</span><br /><span style="font-family:courier new;">o amor que se fez </span><br /><span style="font-family:courier new;">o amor que nos viajou por dentro do corpo.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">é sempre assim que nos morremos:</span><br /><span style="font-family:courier new;">olhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">abertos</span><br /><span style="font-family:courier new;">quase inúteis: cegos somos já</span><br /><span style="font-family:courier new;">a todo o mundo. quando vier a minha morte</span><br /><span style="font-family:courier new;">quero-me assim</span><br /><span style="font-family:courier new;">muda olhos vazados</span><br /><span style="font-family:courier new;">escondendo entre os ossos esse mistério</span><br /><span style="font-family:courier new;">do lado coração e</span><br /><span style="font-family:courier new;">todos os momentos em que me viajei por dentro. e de ti.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">o silêncio todo do mundo</span><br /><span style="font-family:courier new;">entre as mãos</span><br /><span style="font-family:courier new;">cruzadas no peito</span><br /><span style="font-family:courier new;">um terço de perolazinhas de fingir</span><br /><span style="font-family:courier new;">o latão da nossa senhora de fátima </span><br /><span style="font-family:courier new;">os sapatos na pontinha dos pés</span><br /><span style="font-family:courier new;">e uma roupa por estrear: assim quero também eu</span><br /><span style="font-family:courier new;">receber a minha morte: menina</span><br /><span style="font-family:courier new;">de olhos cegos</span><br /><span style="font-family:courier new;">e a pureza de um coração</span><br /><span style="font-family:courier new;">inclinado no corpo</span><br /><span style="font-family:courier new;">para o lado em que o mundo</span><br /><span style="font-family:courier new;">não venha acordar-me.: então</span><br /><span style="font-family:courier new;">o amor</span><br /><span style="font-family:courier new;">é isto?</span><br /><br /><br /><span style="font-weight: bold; color: rgb(102, 51, 102);font-family:courier new;font-size:78%;" >(talvez muito de ti viva em mim</span><span style="font-size:78%;"><br /></span><span style="font-weight: bold; color: rgb(102, 51, 102);font-family:courier new;font-size:78%;" >assim nesta clausura em que me</span><span style="font-size:78%;"><br /></span><span style="font-weight: bold; color: rgb(102, 51, 102);font-family:courier new;font-size:78%;" >defino quando fecho os olhos e</span><span style="font-size:78%;"><br /></span><span style="font-weight: bold; color: rgb(102, 51, 102);font-family:courier new;" ><span style="font-size:78%;">um cheiro a mofo me inebria<br /><br />chiu...)<br /></span><br /><br /></span><span style="font-family:courier new;">o amor morte</span><br /><span style="font-family:courier new;">branca</span><br /><span style="font-family:courier new;">de perolazinhas fingidas</span><br /><span style="font-family:courier new;">latão de nossa senhora</span><br /><span style="font-family:courier new;">a sossegar duas mãos cruzadas</span><br /><span style="font-family:courier new;">no lado mais inclinado.<br /><br /><br /><br /><br />título do capinador de palavras, chico buarque, o <span style="color: rgb(255, 0, 0);">al berto</span> sempre em flor, as palavras de lilazes e a foto do <a href="http://extensamadrugada.blogspot.com/"><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;">jorge</span></a> </span>blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.com13