tag:blogger.com,1999:blog-21944824544673471062008-10-02T12:21:18.442+01:00deambulatórioblimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comBlogger13125tag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-40312998743115071302008-10-02T11:58:00.005+01:002008-10-02T12:21:18.463+01:0021. dentição incompleta<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://tbn0.google.com/images?q=tbn:5b49nM2n5_jzfM:http://i12.photobucket.com/albums/a245/fabiocarvalho/TheNativityPaulaRego.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 200px;" src="http://tbn0.google.com/images?q=tbn:5b49nM2n5_jzfM:http://i12.photobucket.com/albums/a245/fabiocarvalho/TheNativityPaulaRego.jpg" border="0" alt="" /></a><span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"><br /><br /></span><span class="Apple-style-span" style=" line-height: 22px; font-family:'Trebuchet MS';font-size:13px;"><h3 class="post-title entry-title" style="font-weight: bold; "><span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"><br /></span></h3><div class="post-header-line-1"></div><div class="post-body entry-content"><span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;"><br /><br /></span></div><div class="post-body entry-content"><span class="Apple-style-span" style="font-size: 16px;"><br /></span></div><div class="post-body entry-content"><span class="Apple-style-span" style="font-size: 16px;"><br /></span></div><div class="post-body entry-content"><span class="Apple-style-span" style="font-size: 16px;"><br /></span></div><div class="post-body entry-content"><span class="Apple-style-span" style="font-size: 16px;"><br /></span></div><div class="post-body entry-content"><span class="Apple-style-span" style="font-size: 16px;"><br /></span></div><div class="post-body entry-content"><span class="Apple-style-span" style="font-size: medium;">*o amor é tudo – excepto o que deveria ser * luísa monteiro<br /><br /><br />comíamos nêsperas maduras sentados no muro<br />ensolarados de tanto abismo lá em baixo<br />de tanto sol lá em cima de tanta doçura de frutos e de tantos dentes de morder frutos e línguas de chupar sumo de frutos maduros e tu<br />: à noite sonho com peixes e abismos de mar e ventres de mulher e brancuras de beijos de mulher e filhos peixe de ventres líquidos de mulher<br />mas<br />sabes, a noite tem pernas curtas como a mentira<br />a morte<br />vem sempre primeiro como uma manta de papa e dedos ásperos<br />o tempo nunca chega e é sempre como o sumo<br />a escorrer<br />às vezes doce<br />às vezes só maduro<br />e sobra sempre tudo que é a morte.<br />a minha canta-me<br />dorme meu menino de oiro e até parece dois olhos grandes e umas mamas de leite branco<br />quente quente, mas não é, não é,<br />e, sabes,<br />nunca fiz um filho<br />nunca nunca<br />fiz um filho<br /><br />e eu<br />: quando eu morrer quero ser cremada e soprada em cinza de ramo de nespereira maltratada. sabes<br />as nespereiras mais maltratadas<br />dão as nêsperas mais doces<br />e tu<br />:cuspo sempre caroços grandes grandes demais para a minha boca<br />e o céu da boca fica maltratado de tanta semente<br />assim<br />gorda<br />como palavras doces e inchadas à procura de nome<br /><br />dizes<br />: nunca nunca fiz um filho<br />ainda assim<br />sonho com mamas grandes de um leite branco<br />e abismos que são ventres líquidos de mulher<br />e têm dentro peixes com olhos<br />exactamente iguais aos meus. estranho<br />o nome de uma mãe<br />desenha-se na minha boca quando chupo desse leite<br />branco<br />e nado nesse ventre líquido ao lado dos peixes<br />com olhos exactamente iguais aos meus. mãe? sim?<br />nada, não é nada.<br /><br />eu<br />:sei que a<br />minha morte tem a minha cara e o nome que<br />não me dei e a minha própria boca cheia até ao céu de palavras<br />doces<br />inchadas de todos os nomes<br />excepto os que deveria ter<br />por exemplo<br />:amor.<br />que é quase tudo<br />excepto o que poderia ser.<br /><br /><br />primeiro:<br />está frio. e é noite. está tanto frio que me doem as letras nas articulações entre parte de<br />uma palavra e<br />outra.<br />frenéticas de dedos e pensamentos mancham a noite. a fingir de dia. o meu gato também finge<br />cloacas à noite<br />em equilíbrio sobre os muros de paredes estreitinhas<br />corre e não corre<br />e dá-se em fodas tão fingidas como estas palavras<br /><br />(invento-me. e sobra-me sempre tudo)<br /><br />para afugentar a pretidão da noite<br />a pretidão<br /><br />o olho do cu do meu gato é um enorme vazadouro de pretidões e ele importa-se lá<br />foder<br />é para nós<br />que não somos gatos e temos cloacas ou olhos de cu<br />e medo da morte.<br />neste janeiro em março<br />oiço-lhe um longo miado.<br />enrabada na noite<br />a morte que dele espreita sai com passinhos leves<br />não faz um filho<br />não<br />não precisa.<br />a herança de um gato é sempre a própria morte<br />simples<br />branca de leite e quente quente. pequenina.<br />a minha<br />não. a minha morte é enorme como dois olhos vazadouros de palavras sem nome. e peixes com bocas cheias de palavras tão sem nome como as minhas. por exemplo<br />: o tempo do tempo todo<br />escorre-me dos dedos<br />como as nêsperas em sumo nos escorrem<br />sentados<br />ensolarados e<br />cheios de abismos com mães por dentro<br /><br />mãe?<br />sim?<br />nada, não é nada<br /><br />segundo:<br />o mar. ecoa contra as arribas desta terra<br />aqui<br />e dá-se em orgasmos de sal que se colam às janelas da nossa casa corredor. contemplo<br />esse som colado ao vidro e sei que é por causa do sal<br />suor cuspo lágrimas tudo<br />de tudo<br />que o vento é maresia<br />: sinto o meu ventre como maré de mar<br />que vai e<br />vem. em ondas de tempo salgado e luas e sóis e ainda outras e mais luas e<br />outros e mais<br />sóis. o meu sexo incha e dá-se<br />em águas salgadas<br />e em palavras que me escorrem pelos dedos como filhos<br />peixes maduros<br />de olhos exactamente iguais aos meus<br /><br />mas<br />nunca nunca fiz uma palavra que fosse um filho teu maduro<br />ainda<br />de doce e nome por dizer<br /><br />e do amor sobra-me sempre tudo – excepto o que deveria escrever<br /><br />por exemplo: tenho todo o tempo para te dar<br />e<br /><br />se escrevo é para inventar esse abismo em que<br />as águas da minha morte se separam.<br />por cima um céu de boca a escorrer sumo<br />por baixo um imenso olho em que a terra se abre<br />como um ventre líquido de mulher<br />com mães por dentro<br />e<br />a morte é apenas mais uma parideira<br />da minha noite noite e da minha noite dia<br /><br /><br />caminho por cima das águas e os dedos<br />gritos prolongados de gaivotas<br />são apenas asas curvas e ponteagudas que furam a própria pretidão<br /><br />mãe?<br />sim?<br />nada, não é nada<br /><br />terceiro:<br />sabes que usa uma espécie de cola que mantem os dentes falsos na boca<br />para quando falar mentir<br />com todos os dentes que tem no céu<br />da boca?<br /><br />a dentição incompleta e por cada falsa<br />verdade um pensamento é arrancado à terra límbica que são os céus todos líquidos de uma mulher por dentro. acorda, vá, o veludo listrado de esperma vermelho<br />do sofá<br />grita em mãos e em bocas: que será que acontece ao tempo todo ao tempo<br />de tudo<br />quando já não temos dentes de morder e deixar que o sumo escorra<br />pelos cantos da boca cloaca mundo todo? é assim<br /><br />a minha boca como o tempo todo esvazia-se e fica só um céu por cima e águas que já não se separam<br />e onde o branco branco<br />quente<br />é o teu e me escorre em não palavras em não nomes<br />e o tudo que é<br />excepto o que deveria ser<br /><br /><br />anda<br />vamos lagartear ao sol e deixar é cair uma parte de nós<br />essa que é tudo o que deveria exactamente ser<br />como cometa lagartixa e<br />rir<br />que a cauda de uma lagartixa cresce ainda que arrancada<br />quem me dera que o amor fosse assim, digo<br />pois, dizes,<br />um tempo esperma vermelho<br />de mãos e bocas<br />caudas cometas de lagartixa e miados<br />de gritar e foder a morte<br /><br /><br />quarto:<br />meu homem, diz lá<br />se te comer do pão com a boca toda e te beber<br />três vezes do vinho<br />com a boca de dentes toda<br />achas que vou direita ao céu da boca do teu amor?<br />sei lá,<br />depois de sonhares abismos as águas entram pelos olhos<br />e desatam-se em palavras sem nome<br />e nunca mais o amor é assim uma espuma como a do mar<br />leve<br />leve<br />tão leve que em tempos certos até pode voar<br /><br />achas que o amor que é tudo<br />e mais essa palavra sem nome<br />pode voar-me por dentro?<br />não, o amor é tudo excepto essas asas nos pés. tem pés de chumbo e<br />puxa-te para uma pretidão tão preta que nem a ti<br />própria reconheces. não se dá em nomes<br />não conhece o teu rosto. anda por lá<br />meio às cegas e de vez<br />em quando<br />desata-se na tua língua<br />desfaz-se na tua pele como outrora a espuma de mar<br />e<br />tu cais lá dentro e é como um ventre fecundo<br />sempre a parir dias sempre a parir noites e<br />depois nunca mais caminhas a não ser agarrado a esse chão<br />voas, se calhar voas, mas é rente, sempre rente<br />à cova que os teus pés marcam<br />porque é assim como morrer<br />só que antes do tempo<br />antes do tempo todo do tempo<br /><br />olha, uma cauda de lagartixa a caminhar sozinha.<br />é.<br /><br /><br />último:<br />estou só<br />com o meu gato de cloaca fingida estou só<br />e está frio e doem-me as articulações entre um pensamento<br />e uma palavra sem nome. doem-me as carnes em que os pensamentos à procura de nome<br />se dão em palavras e dói-me o meu sexo<br />inchado de tanto pensamento.<br /><br />a avó dizia: veste a cinta, menina, aperta as carnes<br />e eu:<br />as minhas carnes crescem no exacto ponto em que a minha cona ainda ratinha de pelo penugem<br />deixa ver as entranhas do meu tempo<br />as minhas carnes é uma nêspera ensolarada e abismada<br />de sumo a escorrer pelos cantos da boca céu<br />e a sobrar em filhos de palavras sem nome<br />e filhos de homem<br />que não é o meu<br /><br /><br />chego-me ao meu homem de cheiro a meu homem e quase<br />sinto o cheiro do meu futuro tempo. mordo-lhe na boca um nome<br />para esta palavra sem nome.<br />o seu sangue tinge-me a noite e<br />separa os abismos do tempo. o meu ventre<br />líquido de todas as mulheres<br />dá-se em espuma<br />sim<br />leve<br />leve com sapatinhos de cristal que até podem fazer voar<br />e eu<br />digo vem<br />faz-me o amor em letras de carne<br />e dá-me<br />um nome porque<br /><br /><br />está frio. frio de orvalho que pinga não pinga nos beirais da nossa casa corredor e penso que tenho para aí oito anos e de pernas nuas e saia rodada sinto um lagarto descer pela roda ó i ó ai e não sou a carolina<br />mas estou do lado de cá do muro de parede estreitinha e os meus irmãos a gritarem<br />anda lá ó cagarolas ovo podre<br /><br />oito infinito<br />par de olhos que espreitam a minha ratinha de pelo penugem e um fiozinho de sangue que é todo o tempo que havia nesse tempo<br />e não menstruo<br />sou uma menina que não corre e está em frente a um muro de parede estreitinha e alta<br />muito alta<br /><br />gotas de minúsculo sangue caem nos abismos da cloaca terra e<br />o futuro é o meu sexo amadurecido como uma nêspera maltratada<br />(são sementes pequeninas, meu senhor, são sementes)<br />e com a boca cheia cuspo dias e cuspo noites<br />sementes de pretidão tão preta e tão pesada como cobertores de papa<br /><br />o meu sexo não tem nome. mas poderia até ser gato.<br />ou ter o teu. de homem com cheiro a meu homem<br /><br />deste outro lado do muro imagino até que posso ter oito anos e corro pelo muro em equilíbrio atrás dos meus irmãos<br />anda lá cagarolas o último a chegar é um ovo podre<br />e as pernas nuas e não uma saia mas um lagarto a comer<br />me<br />o sangue e não menstruo é apenas um joelho esfolado<br />ou uma ferida de tempo no tempo<br />ou um futuro de filhos a escorrerem<br />entre as pernas e<br /><br />Mãe?<br />Sim?<br />Nada, não é nada<br /><br />o meu homem cheira a meu homem e dorme ao meu lado<br />nesta pretidão da noite com roncos brancos de mar<br />e sangue e sal e cuspo e esperma de onda<br />de onda<br />do meu ventre abismo saem peixes de olhos<br />exactamente iguais ao dele<br />só que os dele estão escondidos atrás do sono<br />e nada, não é nada<br />apenas o tempo a roer<br />me<br />por dentro dos teus olhos que não vejo<br />das tuas mãos que estão enconchadas entre as tuas mamas<br />pequeninas<br />fingidas como mamas de mulher<br />mãe<br />o meu homem que imagino ser a minha mãe<br />e dar-me a beber o leite quente das suas mamas fingidas e colo<br />de mulher.<br />mas não. o sono dorme-o.<br /><br />e eu<br />: não tens útero para tanto filho,<br />não tens.<br /><br />e caminhas com os sapatos de chumbo<br />do amor<br /><br />essa palavra sem nome<br />escreve-se torto pelas linhas a direito do<br />meu corpo<br /><br />acorda<br />:quando eu morrer quero-me cinza no tronco<br />de uma nespereira<br />a mais maltratada e doce nespereira<br />depois<br />come dos frutos e cospe-me<br />em caroços<br />não sementes<br />não sementes<br />ao sol<br />ao sol<br /><br /><br />e anda lá, vem<br />amar-me ainda assim<br />ainda que na maior pretidão<br />a boca cheia até ao céu<br />dos abismos de peixes olhos<br />com o tempo a espreitar por entre a morte<br />e essa noite de muro de parede alta e estreitinha<br />:do lado de cá é o amor que é quase tudo-excepto o que deveria ser<br />:do lado de cá são os meus quinze anos<br />e menstruo<br />:do lado de cá o tempo todo que havia de haver nesse tempo todo e<br /><br />finalmente<br />não parir-te um filho<br />antes<br />apertar-te entre as carnes do meu próprio nome<br /><br />dizes<br />:perfilhar-te<br /><br />que é tudo o que deveria ser. o amor.</span><br /></div></span>blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-14234375030466564882008-06-08T08:05:00.002+01:002008-06-08T08:08:31.897+01:00desmemória descritiva em sete andamentos(para o jorge)<br /><br /><br /><br />1<br />ambicionar<br />o poder vegetal<br />de respirar<br />o que não precisas<br /><br />:do tubérculo inchado<br />ser-te o cálice que permanece<br />e te bebe o orvalho<br />e o tempo<br />e o tempo<br /><br />(da nomenclatura: vero,<br />de verdadeiro)<br /><br /><br />2<br />ser da arte<br />uma via para a extinção<br /><br /><br />3<br />dizer das coisas o formato:<br />único<br />nos pontos finais<br />invisível apenas<br />o nome<br />saber de cor<br />a morada<br />gastar as horas como quem as desconhece<br />trazer o corpo<br />num lugar estranho<br />à própria vida<br />e ainda assim<br />persistir<br /><br />.nem começo<br />:nem fim<br /><br />no ventre arredondado<br />da palavra<br />amor<br />as cambiantes nostalgias do som<br /><br />o infinito.<br /><br />o infinito e mais dois<br /><br /><br />4<br />existir na intermitência<br />das nossas mortes<br />:perfilhar-te<br />e dar-te beijos<br />que alimentem<br />-me<br /><br /><br />5<br />invejo quem fala<br />e é ouvido<br /><br /><br />6<br />negar um cristo de chumbo<br />a partir-me os ossos de cada vez<br />que abocanho o dia<br />os braços erguidos<br />os crivos no olhar<br />abba<br />abba<br />e a cada palavra sangrar um minuto<br />meu<br />:estar só<br />absolutamente<br />tão só<br />três vezes tão só<br /><br /><br />7<br />deitar-me na tua noite<br />humm gastar do húmido bafo<br />a tua palavra<br />eu<br />ser da medida entre o teu olhar<br />e a tua mão<br />o nome<br />o próprio e mensurável nome<br />do teu sangue<br /><br />:sim<br />e essa ambígua morada para lá do corpoblimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-89182161744481476952008-04-25T09:43:00.001+01:002008-04-25T09:45:03.026+01:00eu lembro-meblimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-82026310017504021652008-03-19T23:37:00.010Z2008-03-20T07:31:01.194Zdos dias anteriores<a href="http://bp3.blogger.com/_KTpADYOb8i4/R-IPUgrRCSI/AAAAAAAAABg/_TBouGHcmBs/s1600-h/chagall-marc-les-amoureaux-2400581.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5179719366472698146" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_KTpADYOb8i4/R-IPUgrRCSI/AAAAAAAAABg/_TBouGHcmBs/s400/chagall-marc-les-amoureaux-2400581.jpg" border="0" /></a><br /><br /><div align="left"><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left"></div><div align="left">estas palavras viajam sem âncoras´<br />crescendo a despropósito<br />entre o céu da boca e a boca do corpo<br />digo<br />:estes são os dias do meu amado<br />o seu tempo desflora-me espesso como o ar<br />que a manhã lambeu na terra<br /><br /><br />no ventre terroso do seu corpo<br />onde por assim ser<br />começa o seu nome corpóreo<br />uma árvore de mil frutos<br />se intromete entre a língua e as mãos<br /><br />:digo mil frutos e a minha boca não nega<br />o seu sabor de mel<br />- que ventos e chuva nos lavem da face da terra<br />e ainda assim o meu amado se erguerá<br />e com ele o seu e o meu tempo-<br /><br />e nos seus olhos<br />nessas fronteiras de vidro onde<br />tantas<br />tantas vezes<br />espreito a eternidade<br />duas asas me esperam e me hão-de elevar<br />pelos céus<br /><br />o meu amado viaja comigo e eu com ele<br />entre este e outro tempo e<br />entre este e outro tempo eu e o meu amado<br />permanecemos </div><br /><br /><span style="font-size:78%;">(para ti, primavera em mim)</span><br /><span style="font-size:78%;"><br />marc chagall, les amoureaux</span>blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-34565770859436191782008-03-01T08:17:00.002Z2008-03-01T08:32:27.654Zao amante in(di)visível“nem todo o corpo é carne”*,não<br />ó subtil incandescência dos olhos<br />rasto da luz coada por entre os dedos<br />palavra<br />-nome que se segrega como suores<br />minúscula e húmida de cor<br />soprada ao de leve pelos lábios<br /><br />não é carne<br />os recessos sinuosos da memória<br />os lugares de mim onde a língua<br />percorrendo-te ávida<br />sobra nos lugares de ti. carne não é<br />o desfolho do teu tempo<br />nos quentes concâvos do meu<br />ou os dias que aí repousam<br />acantonados entre uma morte<br />e outra por vir<br /><br /><br />suspeito que mesmo a flor<br />tremenda<br />do meu ventre<br />rebentando agora cálida à tua beira<br />não é essa carne viva e pulsante como astro<br />mas uma qualquer outra história<br />de invisíveis<br />e indivisíveis enredos<br />mãos bocas fios e abismos com peixes dentro<br />onde marés e olhos<br />desvendam no mar os rios e<br />os ardores do sol<br />sabem<br />inevitavelmente<br />ao luar que aí morre<br /><br />: não carne,<br />não<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><span style="font-size:78%;">*david mourão ferreira</span>blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-46466863364046611912008-02-27T06:03:00.005Z2008-02-27T06:27:41.504Zcartas para o exíliodir-se-ia que a noite vem e me traz com ela<br />até ti<br />até às horas em que se me despertam estas palavras<br /><br />escrevo-te sentada no silêncio profundo desta aldeia.<br />por vezes ponho-me à escuta e quase sinto o mar<br />rugente e frio<br />lá ao fundo. penso<br />que farás<br />:dormes, certamente,<br />mão com mão, embalado num sonho,<br />oxalá lindo, lindo<br /><br />assim quereria.<br /><br /><br />são tão altas as paredes da noite<br />tão habitadas pela estranheza de existirmos. tanta é a insónia<br />que me visita para me deixar este travo de amargor<br />esta suspeição de que para lá de todo o mundo<br />existe qualquer outra coisa<br />de que nem sei a cor<br />nem o sabor<br /><br />(tento recuperar o meu corpo<br />a morna quietude do meu corpo<br />e acontece-me despertar<br />sempre e cada vez mais)<br /><br /><br /><br />- há qualquer coisa de antigo neste estar aqui<br />a esta hora despropositada e perdida<br />a tentar alinhavar uma carta-<br /><br /><br />(o tempo que nos engole os dias e<br />o tempo que nos regurgita em solidão à luz do sol)<br /><br />dias a dias a roda incessante das horas nos rouba<br />o sonho feliz. provavelmente<br />é um certo vazio que se instala entre os ossos e<br />a cor do olhar. perco-me tantas vezes quando<br />vigio o outro lado do mundo<br />perante o imenso das águas<br />de que quase sinto o rugido<br />aqui<br />sentada no silêncio da aldeia e digo<br />:então a vida é isto?<br /><br />a gente entrega assim<br />tantas vezes<br /><br />demasiadas vezes<br /><br />um corpo<br />a outro<br />corpo<br /><br />na esperança que ele o devolva roído de<br />ossos e tristezas e no<br />final<br />os dias são a hora exacta dos olhos no momento em que uma dor<br />qualquer<br />maior que a hora toda<br />se interpõe entre<br />mim<br />e<br />ti<br /><br />(carregamos todos demasiados segredos<br />dores inconfessáveis e antigas<br />carreiros sinuosos por onde as lágrimas calam<br />e secam)<br /><br />sei: há esse quotidiano de mãos<br />que se afundam na distância<br />e beijos por dar<br />sempre por dar<br />:há essa fronteira de vidro<br />inquebrantável fronteira de vidro e casas de onde semeamos estas palavras<br />como segredos<br />(:quanto<br />que de nós resta<br />depois da morte sussurrada<br />depois da morte<br />da doce morte<br />que assoma em cor<br />ao teu rosto<br />em água à tua boca<br />e se faz e desfaz<br />entre pernas e lençóis e vida<br />- uma pequena morte que reclamamos como nossa<br />um pedaço de ressurreição<br />possivelmente uma terra de renovadas boas-novas<br /><br />-sei)<br /><br /><br /><br />a verdade é que uma andorinha nunca basta<br />para toda a primavera<br />e como poderíamos então<br />crescermo-nos como outras terras<br />um no outro?<br /><br />(temo ter-te já dito demasiado)<br /><br />o que na verdade acontece é tangível apenas<br />no pensamento<br /><br /><br />sobra sempre um olhar<br />que vigia o frio rugido em que os dias<br />como o mar<br />se estendem para lá<br />sempre para lá<br />sempre<br />para lá<br /><br /><br /><br />(tenho-te <a href="http://oexiliodoimaginario.blogspot.com/">comigo</a></span><br />nesta hora<br />pequena)blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-45116469543261525102008-01-15T16:36:00.000Z2008-01-15T16:47:33.032Z<a href="http://bp2.blogger.com/_KTpADYOb8i4/R4zhKfxzuuI/AAAAAAAAABY/OohM4jdDmbw/s1600-h/381098454_04a42953e6[1].jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5155743243877726946" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_KTpADYOb8i4/R4zhKfxzuuI/AAAAAAAAABY/OohM4jdDmbw/s400/381098454_04a42953e6%5B1%5D.jpg" border="0" /></a><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><p> </p><p> </p><p> </p><p>quem nos parte deixa para trás um rasto de coisas por nomear. dizemos </p><p>este é o rio em que te miravas a tarde alongando-se para lá da ponte e o chápe-chápe das ondinhas suaves criando um caminho por onde os pássaros desciam e vinham beber o entardecer e o silêncio. quem nos parte deixa para trás todas as outras coisas do mundo por nomear. dizemos</p><p>aqui pensámos nos dar as mãos e os abraços </p><p>aqui nos falámos das pequenas tristezas e olha aquela é a cor exacta dos teus olhos. quem nos parte habita depois os lugares </p><p>longe longe</p><p>em que a memória concebe outras histórias e os nomes se instalam em nós</p><p>devagarzinho e muito devagarinho nos enxugamos de tanta água </p><p> </p><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />(foto do jorge, extensamadrugada.blogspot.com) (para ti, claro)blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-7758256778138645232007-12-14T19:35:00.000Z2007-12-14T19:39:19.859Zdécimo primeiro mandamento (aditamento de natal)<div align="center"></div><div align="center"></div><div align="center"></div><div align="center"></div><div align="center"></div><div align="center"></div><div align="center"></div><div align="center"></div><div align="center"></div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;"></span> </div><div align="center"> </div><div align="center"><span style="font-size:130%;">não cobiçarás o crédito alheio</span></div>blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-28771592308172729892007-10-20T08:05:00.000+01:002007-10-20T10:14:00.655+01:00<a href="http://bp2.blogger.com/_KTpADYOb8i4/RxmnXis9KnI/AAAAAAAAABQ/f38szbJ2gco/s1600-h/134974524_28d30f43b1.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://bp2.blogger.com/_KTpADYOb8i4/RxmnXis9KnI/AAAAAAAAABQ/f38szbJ2gco/s320/134974524_28d30f43b1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5123310074004843122" /></a><br /><br /><br /><br /><span style="font-size:95%;"><span style="font-weight: bold;font-family:courier new;"><br />tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor</span><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-weight: bold;font-family:courier new;" ><br /><br /><br /><br /><span style="color: rgb(204, 0, 0);font-family:courier new;" >amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso</span><span style="font-family:courier new;"> e construo-me esta madrugada letra a letra. das palavras que para ti guardo não sei mesmo se qualquer uma delas faz sentido. não importa. há sempre qualquer outra coisa que espreita para nos levar.</span><br /><span style="font-family:courier new;">rói nas entranhas um fogo assim tão silente. não saber já dizer. não encontrar a palavra mais justa para dizer - e nos olhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">que baixo</span><br /><span style="font-family:courier new;">na tua presença</span><br /><span style="font-family:courier new;">há já outra outra cor. outra cor da minha dor.</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >não é a morte mais silente</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >que o dia sem ti</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >nem a noite imponente deslumbre maior</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >que o céu que dorme nos teus braços</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >nem o mar véu mais puro</span><br /><span style="color: rgb(51, 0, 51); font-weight: bold;font-family:courier new;" >que a tua pele nua</span><br /><br /><br /><br /><span style="font-family:courier new;">desculpa, mas tenho de te contar. hoje morreu a lúcia. a velha viúva da aldeia (e eu pensei em mim, pensei em ti, assim nesta distância que nunca acaba, nesta morte em vida) quando amanheceu, o corpo e o seu lugar ainda quente cheio das suas mãos, do seu cheiro de mulher velha, dos olhos que alongava sentada na cadeirinha à beira da janela, quando amanheceu, digo, vieram de lá de trás da serra os sobrinhos. trouxeram muitas outra mãos: vestiram-na, deitaram-na no caixão, o terço de latão e perolazinhas fingidas em duas voltas em redor das mãos cruzadas, os sapatos só calçados nas pontinhas dos pés, não cabem, são sapatos de há muitos anos. o cabelos com aquela mise-en-plis que sempre lhe conheci. os caracolinhos muitos fininhos dos rolos, a laca a cheirar a dias de festa. parecia uma menina.</span><br /><span style="font-family:courier new;">depois, levaram-na para a capela da vila. e quando voltaram, já depois de enterrada, entraram-lhe em casa, com pressa, a sobrinha a perguntar, onde é o contentor do lixo mais perto, e toda tarde foi um vaivém de carregos.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">um fartão de coisas boas no lixo, dizem aquelas<br />outras velhas sentadas no muro à beira da estrada. </span><br /><span style="font-family:courier new;">meio encolhidas. meio encolhidas já de saudade. a saudade<br />pode</span><span style="font-family:courier new;"> ser uma velhice encarquilhada.<br />o tempo quase arrependido. pode.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">depois, foram embora. sobra um papel colado na janelita da lúcia, vende-se, em letras mal desenhadas.</span><br /><span style="font-family:courier new;">mais à frente, toda a sua vida despejada na rua.os olhos<br />de toda a gente a desvelarem<br />os segredos. a mobília espanhola, negra com florinhas. comprada em badajoz. como é linda<br />meu amor, como é linda. as gavetas dos anos</span><br /><span style="font-family:courier new;">cheias desses bilhetinhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">que com a letra toda inclinada para o lado do coração<br />escrevia: uma só</span><br /><span style="font-family:courier new;">pergunta:</span><br /><span style="font-family:courier new;">então o amor é isto? os pratinhos de vidro colorido</span><br /><span style="font-family:courier new;">em borbotões nas beiras</span><br /><span style="font-family:courier new;">escaqueirados num caleidoscópio de dias.<br />os dias de festa<br />os dias de luto. quando morreu a mãe<br />quando o tempo apagou os natais<br />quando as páscoas viram<br />os seus dias encurtarem e lhe levaram<br />o tempo de homem. sentada à janela<br />como quem espera: ha pasado un caballero<br />- quién sabe por qué pasó!-<br />y se ha llevado la plaza<br />con su torre y su balcón,<br />con su balcón y su dama,<br />su dama y su blanca flor: os versos decorados<br />e inscritos num bilhetinho,<br />como são lindos, meu amor, como são<br />lindos.<br />agora já não. manchados com a gordura<br />de fritos<br />o lixo dos outros a manchar o antonio<br />machado. o lixo dos dias<br />a manchar o seu homem<br />a sua torre<br />a sua branca flor. a roupa de enxoval<br />ainda por estrear,</span><br /><span style="font-family:courier new;">devassada na boca dos cães, a baba<br />dos cães como sangue de parto,<br />a baba dos cães como suor de corpos que ali não<br />se deitaram. as rendas<br />os intermináveis biquinhos de renda<br />para arrematar as toalhas. os retalhos.<br /><br />a vida toda em retalhos coloridos. uns tão escuros<br />outra os gritos coloridos<br />do amor em pé, espreitando quando<br />ela lavava os cabelos. nunca cortes<br />esse cabelo, lúcia, nunca,<br />a arca de pés<br />e cantos em latão amarelo. as roupas de casa. a casa<br />toda em roupas. a casa toda em roupas<br />macias<br />cheirando a alfazema e maçãs verdes.<br /></span><br /><span style="font-family:courier new;">este é o cheiro para a nossa filha, diz a lúcia,</span><br /><span style="font-family:courier new;">mas a filha não vem. nem ela nem ninguém. </span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">o psiché meio manco:<br />o rapaz dos correios de nelas</span><br /><span style="font-family:courier new;">no sépia desbotado da moldura<br />do fotógrafo de cidade<br />- há tantos tantos demasiados anos -<br /></span><span style="font-family:courier new;">o vestido domingueiro e o serviço de copos</span><br /><span style="font-family:courier new;">comprado às prestações ao vendedor de enciclopédias<br /><br /></span><span style="font-family:courier new;">esvoaçam os lençóis da noite em que se deitaram juntos</span><br /><span style="font-family:courier new;"> o bordado no cabeção: amizade<br />um - a - todo intrincado de florinhas<br />e folhas. a primavera do amor<br />na primavera do corpo.<br /></span><span style="font-family:courier new;"> </span><br /><span style="font-family:courier new;">um homem de uma mulher pode ocupar toda a casa</span><br /><span style="font-family:courier new;">sem nunca o saber. em todas as coisas que uma casa</span><br /><span style="font-family:courier new;">pode ter</span><br /><span style="font-family:courier new;">uma mulher pode refazer a cada dia</span><br /><span style="font-family:courier new;">o seu homem</span><br /><span style="font-family:courier new;">e deitá-lo</span><br /><span style="font-family:courier new;">sentá-lo</span><br /><span style="font-family:courier new;">aninhá-lo entre as sertãs e os pratos da loiça de viana</span><br /><span style="font-family:courier new;">entre as linhas de coser e </span><br /><span style="font-family:courier new;">as cortininhas de chita que o tempo</span><br /><span style="font-family:courier new;">embolorece. há um homem</span><br /><span style="font-family:courier new;">a dormir nesta cama</span><br /><span style="font-family:courier new;">muito depois de o homem</span><br /><span style="font-family:courier new;">partir. </span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">senhores, nem a roupa quiseram, dizem as velhas sentadas<br />encolhidas</span><br /><span style="font-family:courier new;">encolhidas. as palavras cheias de rugas<br />os olhos aguados. cataratas do tempo<br />desaguando em espanto. senhores,<br />nem a roupa do corpo quiseram guardar.<br /></span><br /><span style="font-family:courier new;">baixo os olhos. quando a minha morte vier</span><br /><span style="font-family:courier new;">que venha escandalosa</span><br /><span style="font-family:courier new;">repentina</span><br /><span style="font-family:courier new;">e me roube a memória dessa frase </span><br /><span style="font-family:courier new;">toda inclinada </span><br /><span style="font-family:courier new;">para o lado do coração: então o amor</span><br /><span style="font-family:courier new;">é isto?<br /><br />não quero saber nem mais uma palavra.<br />nem mais uma.<br /></span><br /><span style="font-family:courier new;">que é feito do rapaz dos correios em nelas<br />dos beijos de olhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">dos sorrisos de mãos</span><br /><span style="font-family:courier new;">e do amor escorrendo pelas pernas: quando passou</span><br /><span style="font-family:courier new;">os pirinéus</span><br /><span style="font-family:courier new;">o amor era essa palavra<br /></span><span style="font-family:courier new;">roubada nas escadas</span><br /><span style="font-family:courier new;">do prédio<br />o ventre espantado<br /></span><span style="font-family:courier new;">um calor crescente e a água da boca.</span><br /><span style="font-family:courier new;">a mãe dormia e embalava nos braços</span><br /><span style="font-family:courier new;">uma menina. ainda ela</span><br /><span style="font-family:courier new;">ainda ele</span><br /><span style="font-family:courier new;">e um amor todo inclinado para o lado do coração.</span><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;font-family:courier new;" > é sempre daqui que nascemos</span><br /><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;font-family:courier new;" >para o mundo</span><br /><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;font-family:courier new;" >sempre os olhos abertos inúteis</span><br /><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;font-family:courier new;" >quase cegos</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">e é sempre aqui que nos morremos</span><br /><span style="font-family:courier new;">com os sons a deslizarem lentamente da boca</span><br /><span style="font-family:courier new;">uma casa aos pés guardando toda a existência</span><br /><span style="font-family:courier new;">o amor que se fez </span><br /><span style="font-family:courier new;">o amor que nos viajou por dentro do corpo.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">é sempre assim que nos morremos:</span><br /><span style="font-family:courier new;">olhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">abertos</span><br /><span style="font-family:courier new;">quase inúteis: cegos somos já</span><br /><span style="font-family:courier new;">a todo o mundo. quando vier a minha morte</span><br /><span style="font-family:courier new;">quero-me assim</span><br /><span style="font-family:courier new;">muda olhos vazados</span><br /><span style="font-family:courier new;">escondendo entre os ossos esse mistério</span><br /><span style="font-family:courier new;">do lado coração e</span><br /><span style="font-family:courier new;">todos os momentos em que me viajei por dentro. e de ti.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">o silêncio todo do mundo</span><br /><span style="font-family:courier new;">entre as mãos</span><br /><span style="font-family:courier new;">cruzadas no peito</span><br /><span style="font-family:courier new;">um terço de perolazinhas de fingir</span><br /><span style="font-family:courier new;">o latão da nossa senhora de fátima </span><br /><span style="font-family:courier new;">os sapatos na pontinha dos pés</span><br /><span style="font-family:courier new;">e uma roupa por estrear: assim quero também eu</span><br /><span style="font-family:courier new;">receber a minha morte: menina</span><br /><span style="font-family:courier new;">de olhos cegos</span><br /><span style="font-family:courier new;">e a pureza de um coração</span><br /><span style="font-family:courier new;">inclinado no corpo</span><br /><span style="font-family:courier new;">para o lado em que o mundo</span><br /><span style="font-family:courier new;">não venha acordar-me.: então</span><br /><span style="font-family:courier new;">o amor</span><br /><span style="font-family:courier new;">é isto?</span><br /><br /><br /><span style="font-weight: bold; color: rgb(102, 51, 102);font-family:courier new;font-size:78%;" >(talvez muito de ti viva em mim</span><span style="font-size:78%;"><br /></span><span style="font-weight: bold; color: rgb(102, 51, 102);font-family:courier new;font-size:78%;" >assim nesta clausura em que me</span><span style="font-size:78%;"><br /></span><span style="font-weight: bold; color: rgb(102, 51, 102);font-family:courier new;font-size:78%;" >defino quando fecho os olhos e</span><span style="font-size:78%;"><br /></span><span style="font-weight: bold; color: rgb(102, 51, 102);font-family:courier new;" ><span style="font-size:78%;">um cheiro a mofo me inebria<br /><br />chiu...)<br /></span><br /><br /></span><span style="font-family:courier new;">o amor morte</span><br /><span style="font-family:courier new;">branca</span><br /><span style="font-family:courier new;">de perolazinhas fingidas</span><br /><span style="font-family:courier new;">latão de nossa senhora</span><br /><span style="font-family:courier new;">a sossegar duas mãos cruzadas</span><br /><span style="font-family:courier new;">no lado mais inclinado.<br /><br /><br /><br /><br />título do capinador de palavras, chico buarque, o <span style="color: rgb(255, 0, 0);">al berto</span> sempre em flor, as palavras de lilazes e a foto do <a href="http://extensamadrugada.blogspot.com/"><span style="color: rgb(102, 51, 102); font-weight: bold;">jorge</span></a> </span>blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-24993167600030571442007-10-19T06:51:00.000+01:002007-10-19T08:05:46.675+01:00obladi oblada<a href="http://www.flickr.com/photos/blimunda/11157520/" title="Photo Sharing"><img src="http://photos9.flickr.com/11157520_6f8c0d72e9_m.jpg" alt="obsession" height="240" width="200" /></a><br /><br /><br /><br /><br /><span style="font-style: italic;font-size:85%;" >isto não está tudo seguro e nunca se sabe quando nos vão mandar parar, a solidão é o pior, um homem fala com as árvores, o outro ou está a dormir, ou a comer, ou a assobiar, está um gajo sempre sem dizer nada, e eu que gosto tanto de ouvir canto gregoriano no silêncio dos claustros, música celestial claro... </span><br /><br />dizias. e ias debicando um vermelho de maçã enquanto as palavras escorriam<br />silenciosas<br />dos teus olhos. dente<br />a dente te percebia a lonjura.<br />o silêncio de claustros invadidos pela multidão de vozes. o céu todo já não se abre<br />em azuis. e branco.<br /><br />tão branca a eternidade. tão insuportavelmente branca. como uma faca afiada entre<br />as costelas. não. aí no lugar mesmo<br />em que o sexo floresce e tenta resgatar o corpo ao tempo. esse<br />bicho esfaimado. nunca<br />saberei que mais querias dizer. a tua carne dissolveu-se por entre páginas e páginas<br />e os olhos<br />foram com ela. sobrou-me esta memória de harpa<br />este gosto de ti<br />assim por debaixo da língua. e uma maçã oxidada. escura carne de quem já esqueceu dentes. saliva. ou de como a língua<br />explora a doçura.<br /><br />se ainda aqui quisesses regressar poderia até incendiar esta manhã<br />e deitar-me contigo ao sol. uma redonda e rubra maçã no meu ventre. encantaria a noite<br />e poderia até dizer-te<br />anda cá, não te dissolvas no sal dos teus olhos.<br />nos fertilizaremos em corpos de mar<br />e nos vagaremos dessas lágrimas. não há água mais doce<br />que as de nossas bocas. bebo-te<br />dos olhos. transmuto-te em rio. para que me desças. me desças<br />entre um seio e outro.<br /><br />aqui estou ainda. espero por ti. não temas. é que estas páginas<br />e páginas que me sobraram entre os lábios<br />ciciam ainda estes versos<br />estas águas livres e insubmissas com que te fazes saliva em mim<br />ácida saliva de maçã. vermelha saliva. um gosto<br />mesmo<br />a sangue. sangue.<br /><br /><span style="font-size:85%;"><a style="font-style: italic; color: rgb(102, 102, 102);" href="http://sublinhar.blogspot.com/">dai-me</a> </span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >uma jovem mulher</span><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue.</span><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >com ela encantarei a noite.</span><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.</span><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >seus ombros beijarei, a pedra pequena do sorriso de um momento.</span><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >mulher quase incriada, mas com a gravidade de dois seios,</span><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >com o peso lúbrico e triste da boca.</span><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >seus ombros beijarei. cantar? longamente cantar,</span><span style="font-size:85%;"><br /></span><span style="font-style: italic;font-family:verdana;font-size:85%;" >uma mulher com quem beber e morrer<br /></span><br />dizias<br />depois um de nós pairando assim triste<br />sobre uma cidade cheia de ruídos e pássaros cagando ao sol<br />acabaria por desvendar os seus segredos. incriar um sorriso. desnascer<br />em arbustos ardendo na noite. será fácil<br />abrirmo-nos nessas memórias. futuros. e dizer uma verdade bem maior que este vazio.<br /><br />recriar nesse intervalo quente dos meus seios<br />uma morada de outro silêncio. completamente outro silêncio. a carne tem<br />um poder de feitiço. por vezes.<br />e os dias dilatam-se. são assim como<br />vulvas macias. e lábios portas para a dimensão interior. os significados ocultos<br />da mistura do sangue com sangue. da pele em pele apertada. aconchegada<br />em mim jaz essa memória. os dias em que o silêncio se faz de<br />cânticos a duas bocas e uma segunda pele.<br /><br />o meu sexo não nega o sabor do teu. a minha carne não nega o frio<br />da tua. aquecerei nas mãos esse tormento de pele que é o teu. para te perguntar, sabes<br />ainda reconhecer o meu caminho. regressa.<br /><br />choras uma<br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >mulher nua sob as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,</span><br /><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >mulher de pés no branco,transportadora da morte e da alegria.</span><br /><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >e dizes</span><br /><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >dai-me uma mulher tão nova como a resina e o cheiro da terra.</span><br /><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >com uma flecha em meu flanco, cantarei.</span><br /><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >e enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,</span><br /><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >cantarei seu sorriso ardendo, suas mamas de pura substância,</span><br /><span style="font-style: italic;font-family:verdana;" >a curva quente dos cabelos.</span><br /><br /><span style="font-family:verdana;">beberei sua boca, para depois cantar a morte e a alegria da morte</span></span>. e eu oiço-te<br />assim, por dentro dos olhos. e como quem entende digo-te morreremos sim.<br />embriagados dessa morte alegre. o ventre escarlate todo em vinho de sangue.<br />numa videira de retorcidos<br />amplexos. explodindo mãos em folhas largas. e seios. bagos húmidos em cachos.<br />entre os dentes. entre os dentes.<br /><br />amanhece. aqui. onde estou. sozinha e repleta<br />de imagens onde antes havia apenas o teu silêncio. o teu.<br />remexo mais profundamente o lugar onde a carne guarda a tua memória. e vejo-te<br />ali<br />deitado ao sol<br />na escadaria larga e branca<br />essa mesmo sim<br />cantando esse silêncio novo quando<br />sem muitos gestos dizias,<br /><br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;">talvez consiga explicar melhor</span><br /><span style="font-style: italic;">não é bem a pele</span><br /><span style="font-style: italic;">mas a carne debaixo</span><br /><span style="font-style: italic;">o sangue e os corpúsculos da dor</span><br /><span style="font-style: italic;">não bem a dor mas o vazio</span><br /><span style="font-style: italic;">que fica</span><br /><span style="font-style: italic;">quando a dor parece que passou</span></span>, sabes? dizias como se toda a importância do mundo<br />rolasse sob a tua língua e se refizesse em saliva do teu próprio corpo. sei.<br />os mesmos corpúsculos se enrugam no meu corpo. os mesmos.<br /><br />e<br />também eu ando para aqui a escorrer este vazio no sangue. um vazio<br />em que se inscrevem estes corpúsculos verdana size normal. e é porque não nos deixam<br />espaço para aquele outro silêncio habitado de vermelho e maciez. em que as mãos<br />desfloram o ventre<br />húmido e quente da palavra. amor. a(morte). amar-te. quantas<br />foram as vezes em que veias adentro julgaste<br />atirar no corpo a confusão de letras e letras. formaríamos esses novos<br />vocábulos se ao menos<br />os claustros se inundassem de celeste. azul.<br />não. deitados<br />lado a lado<br />o meu rosto no teu rosto assoma por entre os teus olhos<br />e há uma liquidez estranha. lágrimas de ossos e dias. estendo-te<br />as mãos. o consolo possível. basta?<br /><br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-family:verdana;">... quem habita o silêncio dos dias?</span></span> esse intervalo entre a placidez de lagartear ao sol<br />buscando entre as nuvens esparsas uma forma<br />que nos possa conter. volatizar a dor. ou o vazio onde a dor se inscreveu e agora<br />cresce nesse gosto acentuado a dois tempos. num momento<br />existimos nós<br />deitados ao sol na escadaria da casa grande<br />e noutro distinto momento esse vazio de nós. <span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;">não bem o vazio</span><br /><span style="font-style: italic;">mas o momento que antecede o vazio</span><br /><span style="font-style: italic;">quando ainda não percebemos</span><br /><span style="font-style: italic;">que era melhor</span><br /><span style="font-style: italic;">a pele rasgada a carne viva</span><br /><span style="font-style: italic;">o movimento de roda</span><br /><span style="font-style: italic;">dentada engrenando</span><br /><span style="font-style: italic;">no que talvez seja</span><br /><span style="font-style: italic;">a alma ou os gânglios do sistema nervoso</span><br /><span style="font-style: italic;">autónomo</span></span>, dizes-me<br />como se te olhasses assim mesmo, nuvem, viajando através das estradas do céu.<br />dissolvendo-te na origem das coisas. acho mesmo que nem saberias dizer-me<br />porque choras agora. mas<br />o meu colo está aqui. dois seios ainda em intervalos de quente<br />para te receber. encosta a cabeça. descansa esse insuportável cântico de silêncio igual<br />e vazio de carne deslizando já para a brancura do tempo. a tua alma sabes<br />talvez se aninhe. talvez insista ainda nesta palavra redonda.<br /><br />eu sei. talvez já não haja consolo possível em dois seios inventados<br />numa qualquer manhã<br />de um qualquer dia.<br />a brancura do tempo escorre-te entre os dedos. eu sei. como se de água insubmissa<br />se tratasse. e não te consolam já meus seios. não. não há<br />sustentamento que te console.<br /><br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-family:verdana;">quando o fruto empolga um instante a eternidade inteira,</span><br /><span style="font-family:verdana;">eu estou no fruto como sol e desfeita pedra,</span><br /><span style="font-family:verdana;">e tu és o silêncio, a cerrada matriz de sumo e vivo gosto.</span><br /><br /><span style="font-family:verdana;">– e as aves morrem para nós,</span><br /><span style="font-family:verdana;">os luminosos cálices das nuvens florescem, a resina tinge a estrela,</span><br /><span style="font-family:verdana;">o aroma distancia o barro vermelho da manhã.</span><br /><br /><span style="font-family:verdana;">e estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste.</span><br /><span style="font-family:verdana;">se te apreendessem minhas mãos,</span><br /><span style="font-family:verdana;">forma do vento na cevada pura, de ti viriam cheias minhas mãos sem nada.</span></span><br />e<br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;">talvez consiga explicar melhor</span><br /><span style="font-style: italic;">se ficar parado</span><br /><span style="font-style: italic;">aqui,</span></span> pensarás<br /><br />porque habitas longe já. nessa outra casa<br />em que as paredes altas se caiam de bolor<br />e os dias vão escrevendo autónomos<br />um só<br />instante. um só.<br /><br />passou.<br /><br /><br />e eu<br />olhando a distância entre os degraus onde estás tu<br />e os degraus de onde as minhas pernas mais acima te anelam<br />refaço essa casa grande<br />entro-lhe pela porta<br />e chamo-te<br />vem. tenho as mãos cheias de nada. reviverás assim<br />no empolgamento de um fruto<br />entre dentes e língua<br />eternidade e beijos<br />tempo e espaço entre o tempo. este silêncio é a urgente reinvenção do som. sopraremos<br />o vento. pairaremos como aves<br />debicando no sol<br />o vermelho de maçã e<br />deslizando nas nuvens<br />nos deitaremos nessa água fofa.<br />essa cama de verdadeiros amantes. o céu abrirá<br />nas páginas deste livro a ideia de mim<br />a ideia de ti<br />e<br /><br />num terceiro dia de pomares em que a vista voa por entre os cheiros<br />e se renomeia. são<br />as polpas rubras dos meus lábios<br />esmagando-se no<br />gosto ácido a maçãs da tua saliva<br />a chamar-te. dar-te-ei todos os frutos maduros<br />do meu corpo.<br /><br /><span style="font-style: italic;font-size:85%;" ><span style="font-family:verdana;">ou preferes definitivamente os eucaliptos por causa do cheiro?</span></span> é que neste pomar<br />onde agora me escrevo<br />recordo que dizias de maçãs de rosas<br />de lírios<br />de pinheiros em mansidão. e casa. alicerce escavado cravado em mim<br />raiz nova em profusão de ramos como mãos<br />o sexo quente entre folhas e folhas<br />e esse cheiro a resina. a casa como ninho de âmbar<br />de todos os pássaros. asas de translúcidas gemas. asas.<br /><br />voarás. regressa.<br /><br /><br />na sombra desta casa ainda a sombra de ti. ecos me trazem e me levam.<br />estremeço. refaço-me e oiço-te.<br /><br /><span style="font-style: italic;font-size:85%;" >tua voz canta o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias<br />com o lento desejo do teu corpo.<br />beijarei em ti a vida enorme,<br />e em cada espasmo eu morrerei contigo</span><br /><br /><br /><br />cantarei também eu<br />se quiseres. o espasmo. a morte. esse desejo lento de voz em teu corpo.<br />essa silenciosa água<br />crescendo livre como rio. e à tua beira<br />desnudarei este fruto.<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><span style="font-size:85%;"><span style="font-style: italic;">desmond morris</span>, <span style="font-weight: bold;">obsession</span>. <span style="font-style: italic;">josé antunes ribeiro</span>, ( para nunca te esquecer ) <span style="font-weight: bold;">o difícil comércio das palavras</span>.<br /> blimunda em metamórfica deambulância por entre o <span style="font-style: italic;">herberto helder</span> <span style="font-weight: bold;">e a segunda pele</span> do <a href="http://anaturezadomal.blogspot.com/2005_04_01_anaturezadomal_archive.html#111441970392831612">luis</span> </a>blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-58406125980561238802007-09-18T19:59:00.000+01:002007-10-19T07:11:03.451+01:00hip hop'tenusa( prólogo<br /><br />Um lugar. Onde nenhum. Um tempo para tentar ver. Tentar dizer. Quão pequeno. Quão vasto. Se não ilimitado com que limites. Donde o obscuro. Agora não. Agora que se sabe mais. Agora que não se sabe mais. Sabe-se somente que saída não há. Sem se saber porque se sabe somente que saída não há. Somente entrada. E daí um outro. Um outro lugar onde nenhum. Donde outrora dali regresso nenhum. Não. Lugar nenhum a não ser só um. Nenhum lugar a não ser só um onde lugar nenhum. Donde nunca outrora uma entrada. Dalgum modo uma entrada. Sem um só além. Dali donde não há ali. Por lá onde por lá não há. Ali sem de lá nem dali nem sequer por onde.)<br /><br /><br /><br /><div style="text-align: left; font-style: italic; font-weight: bold;font-family:courier new;"> <h3 style="font-weight: normal;" class="title"><font><span style="font-size:85%;"><span style="color: rgb(102, 51, 102);">Um dia, um homem que perguntava coisas, perguntou-me do medo.</span></font></h3 style></div style></span><span style="font-weight: normal;"> <span style="font-family:courier new;">estávamos sentados numa</span></span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >sala à beira de um rio. era jantar e era quase noite. noite mesmo</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >não apenas aquela luz morredoura de fim de dia.</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >lá fora</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >descobrimos que olhando dentro</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >na transparência do lugar esse mesmo lugar</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >era nenhures. assim mesmo encontrado como quem</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >segue um mapa e se esquece. quando assim é vamos</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >sempre</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >dar a algures </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >um sítio quase inventado roubado. tu</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >dizias do vinho da comida da noite do medo. não</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >do medo não dizias. do mal</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >de viver. do mal viver. não fales de mim. não fales</span><span style="font-family:courier new;"> para mim. eu sou o impossível limite</span><br /><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >de mim mesmo. e em mim mesmo me esgoto. </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >do medo pensava eu não fales de mim ao medo</span> <span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >pensava eu</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >enquanto a pergunta se desenhava muito direitinha entre</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >a salada de quejo fetta e o meio redondo das rodelas</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >de ananás. juro que era ácido. o medo.</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >eu que não sabia escrever-te dizia</span><span style="font-family:courier new;"> </span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >com toda importância que uma refeição com perguntas importantes</span> <span style="font-weight: normal;font-family:courier new;" >impunha:</span><span style="font-family:courier new;"> </span><br /><span style=";font-family:courier new;font-size:100%;" ><span style="font-weight: normal;">apanhada numa teia. na urgência toda da nudez. a nudez. na urgência da nudez. sou.</span><br /><span style="font-style: italic; font-weight: normal;">um animal da urgência.(porra, estar aqui às seis da manhã e desfiar este rosário. em cada uma das palavras cada uma das minhas contas. arranco-as ao que de mais cru há no meu existir para me lavar deste mal. deste mal. le mal de vivre. o mal de morrer a cada hora. de morrer-me. desfio o rosário como quem recita a oração do deve-haver. deve haver qualquer coisa que me escapa entre dedos. por exemplo: </span></span><a style="font-weight: normal; color: rgb(102, 51, 102); font-family: courier new;" href="http://bombyx-mori.blogspot.com/2005/07/nota-editorial.html">quando eu era Mariana tinha medo das borboletas. </a><br /><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;font-size:100%;" ><span style="font-style: italic;">lia. e eu que não sou mariana e muito menos maria ana não tenho medo de borboletas. há até aquela forma de existir em borboleta que é muito mulher. uma ephemera. daquelas cujas asas se crescem alindam só para voar entre o nascer e o morrer. do dia. no sexo de um homem. entre as pernas fechadas abertas de um homem. foda-se se há.)<br />por vezes roemos assim uma espécie de vazio no estomâgo e meu querido<br />não há salada de ananás e fetta<br />não há vinho maduro nem pão<br />pão que possam bastar. roídas tripas. roídos ossos<br />roídas carnes. enclausurados por dentro<br />de palavras por dizer. amor que se desfaz em lençóis<br />mortalhas<br />e essa é a verdadeira<br />última ceia. comemos do pão<br />bebemos do vinho<br />e sobra-nos o medo. a existência num trago de amargor<br />um homem<br />uma mulher<br />e quanto basta para silenciar a palavra: ...<br /><br />sirvo-me deste casulo para reconstruir um corpo. nomeá-lo. invocar para ele o esqueleto de uma emoção. de uma vontade. de um ser. assim mesmo efémero. tão efémero quanto dizer: nome: marta. o que é uma coisa<br />verdadeiramente estúpida porque se sou<br />marta<br />existo. muito mais que efémera. tu sabes. é que costumo recolher-te<br />e afogar-te aqui entre os seios e dizer-te<br />mansamente<br />toma lá. duas asas para te aquecerem. não, vão durar, vão<br />durar mais que um amor<br />fodido roubado ao teu tempo (medo que o tempo<br />seja o verdadeiro mal<br />e encaneça nas frontes<br />gritando: <span style="font-size:180%;">p</span>assou! <span style="font-size:180%;">j</span>á passou!)</span></span><br /><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;font-size:100%;" ><span style="font-style: italic;"><br /><br /><span style="font-size:180%;">é</span>. o que é que sou quando sou gaja? sou uma butterfly. essa fugidia forma de ser. esborrato-me ao toque. vês? as minhas asas são de pó, de pó. um só toque e o meu corpo escorre-te entre os dedos. por isso, cancela, sim cancela a minha subscrição. eu não quero a ressurreição em cada dia. prefiro morrer mesmo. no fim. do dia. e entrar nessa estranha casa toda feita de fio de baba e criar outra. porque porra hei-de alongar olhos e esperar, esperar. merda, ter estas asas todas esburacadas em forma de olhos e esperar. esperar para ver. essa é a subscrição da viagem para um corpo em lugar nenhures. cancela.<br /><br />que palavrinha adorável nenhures. ou algures. soam-me hoje a palavras estrangeiras. podia ser assim: nen'h ures. ou al'gures. que lindo.<br />( al'gures será esse deserto<br />que se levanta entre os teus braços-<br />aí o meu corpo<br />morrerá:<br />e de nen'h ures um coro de mulheres<br />lavando a minha mortalha<br />me embalará. caminharei.<br />os pés nus nas areias quentes da memória.<br />para te entregar a minha alma. )<br /><br />o lugar<br />mais antigo é esse onde morremos.<br /><br /><br /></span></span><span style=";font-family:courier new;font-size:100%;" ><span style="font-style: italic;"><span style="font-weight: normal;">porque eu nunca estive <span style="font-size:180%;">c</span>á. penso até que quando nasci quem me pariu foi assim uma enorme roda dentada. começou por dentar-me os pés. depois foi subindo. o ventre todo estraçalhado em metades de mim. arrancou-me o coração do lugar dele e deixou-me assim</span><br /><span style="font-weight: normal;">uma espécie de músculo insone e roxo</span><br /><span style="font-weight: normal;">que mais não faz que bombar sangue. pudesse ligá-lo a um compressor e ir bombar umas paredes. escrevinhar em todo o lado. roubar olhos. mãos. e graffitar em todo o lado. por exemplo<br />nesse lugar aí entre o teu peito e o teu ventre. essa parede onde o meu corpo poderia ter escorrido. deslizar um éme.<br />lentamente deslizar um éme. e depois com a língua buscar-te um ah! redondo, redondo, redondo,<br />em curvas nas curvas dos teus mamilos-<br />lenta<br />lentamente morder um érre na fronteira entre o teu desejo e<br />o teu sexo<br />e vir-me em águas<br />águas quentes<br />com as tuas águas<br />águas brancas e logo um<br />tê : ah! o meu nome bombado do nascer<br />ao morrer<br />do dia. ephemera. ephemera eternidade entre os teus braços.<br /><br />mas o lugar mais efémero é onde nascemos. um <span style="font-size:180%;">m</span>al<br />que carregamos connosco<br />como duas asas.<br /><br /> viajei muito de dia<br />correndo atrás de uma noite passada<br />aí<br />à beira do rio<br />onde tu disseste<br />entre malas e palavras<br />que as asas são mãos de largar de fugir, de tocar e fugir. assim mesmo.<br /></span></span></span><span style="font-weight: normal;font-family:courier new;font-size:85%;"></span> <br /><br /><span style="font-family:courier new;">é. ter medo. acordar numa cama desconhecida num lugar nenhures</span><br /><span style="font-family:courier new;">entre as mãos de afagar e uns olhos</span><br /><span style="font-family:courier new;">grandes luminosos que dizem uma alma errante. e depois</span><br /><span style="font-family:courier new;">sabemos dos segredos</span><br /><span style="font-family:courier new;">insondáveis que nos escondem da morte. esses mesmo. e como</span><br /><span style="font-family:courier new;">carregar as asas. como.</span><br /><br /><span style="font-family:courier new;">anda, dizes, fiz-te café. regressa aqui</span><br /><span style="font-family:courier new;">a esta casa à beira de mim</span><br /><span style="font-family:courier new;">e senta-te. hoje não há qualquer som que interrompa</span><br /><span style="font-family:courier new;">a tua pemanência. o silêncio tem é esta importância</span><br /><span style="font-family:courier new;">de pequenos goles escuros</span><br /><span style="font-family:courier new;">corpo de poeira e asas de aconchegar.</span><br /><span style="font-family:courier new;">é um céu. um abismo do céu à terra. há entre um homem</span><br /><span style="font-family:courier new;">e uma mulher</span><br /><span style="font-family:courier new;">qualquer coisa de redondo céu. uma espécie de casulo.</span><br /><span style="font-family:courier new;">e é preciso dizer que nem todas as borboletas</span><br /><span style="font-family:courier new;">são poeira e nem todas as casas são à beira de um lugar nenhures.</span><br /></span></span></span><span style="font-weight: normal; font-family:courier new;font-size:85%;"> <br /><br />não. não interessa. é que se esta não<br />é a casa do medo então<br />aqui<br />poro a poro<br />com a humidez toda feita carne<br />se erguem as paredes pernas<br />os tectos como seios e de chãos mãos. a convulsão de uma<br />casa algures<br />exactamente no lugar onde<br />os teus dedos a desenham polpa a polpa<br />numa impressão de digital importância<br />e a virtualidade de<br />ruas. caminhas por esse lugar como quem chupa o mel<br />de uma mulher: sôfrego<br />urgente. a urgência de chegar: e entras pelo meu corpo assim<br />como se sorvesses o tempo<br />ou o roubasses a esse casulo onde a metamorfose mais lenta<br />acontece: no meu ventre mel o teu sémen é leite e sei que não<br />vou morrer se me ensanguentar dele: uma espécie de imortalidade</span></span></span><span style="font-size:100%;"><span style="font-style: italic;"><span style="font-family:courier new;"><br />está toda contida aí<br />na ponta mais perpendicular do teu corpo. gota a gota.<br />e não<br />sei mesmo se não escondes mais algum<br />segredo. dizes:<br /></span></span></span><span style="font-weight: normal; color: rgb(204, 51, 204);font-size:78%;" ><em>meu Deus, que vocação<br />para o desassossego.</em></span><br /><span style="font-size:100%;"><span style="font-style: italic;"><span style="font-family:courier new;;">e eu penso que falas deste frenesim de asas<br />deste cio translúcido que nos fecunda<br />nos prolonga de horas. vá, deixa que<br />me emprenhe dessa multicolor vontade<br />dessa poeira líquida que o corpo<br />resgata ao céu<br />um teu tempo que aperto entre as coxas: o teu<br />é um corpo molhado<br />e se me encharcares eu juro que a verdadeira<br />metamorfose<br />começa agora:<br /></span></span></span><span style="font-weight: normal;font-size:85%;" ><em><span style="color: rgb(204, 51, 204);">eu conheço-te e senti a tua falta?</span> <span style="color: rgb(204, 51, 204);">não sabemos. mas escrevemos, ainda</span> <span style="color: rgb(204, 51, 204);">assim. regressamos a essa solidão</span> <span style="color: rgb(204, 51, 204);">com que esperamos merecer, imagine-se,</span> <span style="color: rgb(204, 51, 204);">a companhia de outra solidão. escrevemos,</span> <span style="color: rgb(204, 51, 204);">regressamos. não há outro caminho.</span> <span style="color: rgb(204, 51, 204);">não há outro caminho</span><br /><br /></em></span><span style="font-family:courier new;;"><span style="font-size:100%;"><font>cancela a minha subscrição para a ressurreição, digo também eu. com as asas no avesso da tua boca. e baby, foda-se se este não é o mal maior de todos: morrer à boca das palavras com asas de quem voa devagarinho dentro de qualquer coisa muito importante. antes mesmo de dizer.<br /><br />é que<br />sempre me feri com a fala dos outros. por vezes ela assemelha-se muito a um estridente grasnar. não oiço.<br />prefiro o restolho. o restolhar. e depois encasulo-me. encasulo-me.<br /><br />dizem coisas. muitas coisas. por exemplo<br />esta é a vida. a puta da vida. é a vida, coragem, coragem. melhores dias virão. tudo tem o seu lado positivo. pois.<br />a vida é a morte que a tem. digo eu.<br />mas eu estou doente. não estou de<br />perfeita sanidade.<br />o lugar comum dizem, como quem explica que o comum é o lugar de nós. não. a minha perfeita insanidade é circular. e abre-se de um casulo da memória do meu corpo com toda a urgência de acontecer. cancela a minha subscrição para a ressurreição se não te importas.<br /><br /><br /><br /><br />não tenho medo<br />: prefiro duas asas. entre o dia. e o fim.</font><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /></span><span style="color: rgb(204, 51, 204);">rui pires cabral</span><br /><br />prólogo de samuel beckettblimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-61657195364869179792007-08-02T08:55:00.000+01:002007-08-02T09:25:49.383+01:00adaggio<br /><br /><br />um dia recorda-se: primeiro<br />uma mão<br />outra mão e os corpos soprados<br />no espaço entre elas: os dedos<br />alongados fios <br />pensamentos de infinitas cambiantes<br />as cores<br />os cheiros<br />a memória feita pele com pele<br /><br />: o bafo quente <br />a criação<br />e<br />eis que a pretidão se divide<br />- dois<br />infinito e <br />mais: dois<br /><br /><br /><br /><br />allegro<br /><br /><br />dizes<br />: amo-te na lonjura do tempo<br />no lugar do tempo<br />deste<br />tempo<br /><br /><br />digo<br />: amo-te na esquina do tempo<br />no lugar do tempo<br />neste <br />tempo<br /><br /><br />possivelmente<br />agora<br /><br /><br /><br /><br />piano<br /><br /><br />sobrasse<br />querido<br />uma única palavra<br />: podia até ser <br />um nome<br />um só nome<br />água escorrendo gota-a-gota<br />pele com pele<br />por entre as mãos<br /><br />um pinga-pinga <br />em que o tempo se esquecesse<br />e tudo fosse bom<br />muito bom<br />e haveríamos de nos anunciar um corpo<br />outro corpo<br />a memória de beijos e abraços<br />e canções de embalar tristezas<br /><br /><br /><br /><br />pianissimo<br /><br /><br />na casa. no lugar in-<br />comum dos corpos.<br /><br />na cama<br />no roer do tempo<br />por sob os lençóis<br />pálpebras do balanço à vez<br />suave<br />à vez brusco<br />da vida. os dias que o tempo engole e regurgita<br />em suor e cuspo<br />líquidos equivocados correndo suaves<br />noutros olhos<br />noutra boca<br />noutras veias<br /><br />na casa. no lugar-in<br />-comum: nos beirais <br />de andorinhas e olhos,<br />ninhos<br />a mãos e desejos<br />entretecidos. dias de casa<br />: lugar in <br />comumblimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-2194482454467347106.post-32856789949243970892007-04-05T13:16:00.000+01:002007-04-05T14:19:43.330+01:00em cal viva<a href="http://bp1.blogger.com/_KTpADYOb8i4/RhTox09k_JI/AAAAAAAAAAM/3soNkx1l2mE/s1600-h/2005111200_chagall-bride.jpg"><img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://bp1.blogger.com/_KTpADYOb8i4/RhTox09k_JI/AAAAAAAAAAM/3soNkx1l2mE/s320/2005111200_chagall-bride.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5049917024917322898" /></a><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />1. lentamente<br /> como o labor do tempo<br /> na massa do corpo<br /><br />2. cada mão<br /> cada gesto<br /><br />3. receptáculos <br /> de um outro nome<br /> <br />4. ou de um qualquer bicho<br /> que escava a toca<br /> lentamente<br /> e lentamente se encosta à morna<br /> carne do tempo<br /> <br />5. um momento.<br /><br /> o bastante <br /> para os anjos se quedarem mudos<br /> e brancos<br /><br />6. e a eternidade se inaugurar<br /> viva<br /> na branca memória<br /> da parede<br /><br /><br />( a casa ressuma no ascendente rasto de poeira luminosa:<br />insuspeitas do pecado da memória<br />as formas informes de uma história<br />na reconstrução <br />dos corpos. as sombras. e uma só palavra cumpriria <br />meticulosamente<br />o local aprazível que o tempo<br />faz dos gestos )blimundahttp://www.blogger.com/profile/14115397597599148566noreply@blogger.com