tag:blogger.com,1999:blog-18005220.post-13355127699204176892008-04-03T18:30:00.001+01:002008-04-03T18:33:58.216+01:00<p style="text-align: justify;" class="MsoNormalCxSpFirst">– Dá-me um cigarro. Desculpa, esqueci-me de comprar. Obrigado.</p><div style="text-align: justify;"> </div><p style="text-align: justify;" class="MsoNormalCxSpMiddle">Dou duas passas. Três. Quatro. Só mais uma, e apago o cigarro. Olho-te nos olhos e perco a coragem. Como se o teu sorriso fizesse desaparecer todo o mundo lá fora, comigo nele. </p><div style="text-align: justify;"> </div><p style="text-align: justify;" class="MsoNormalCxSpMiddle">– Precisamos de falar, mas não sei bem como dizer isto.</p><div style="text-align: justify;"> </div><p style="text-align: justify;" class="MsoNormalCxSpMiddle">O coração prestes a explodir, a querer explodir. E a cabeça calma. Peço desculpa, mas o Descartes que se foda, não é por pensar que existo mais ou menos. Pelo contrário, é isso que me aniquila em momentos como este. Sinto, logo existo. Quanto muito. E mesmo assim nem sempre.</p><div style="text-align: justify;"> </div><p style="text-align: justify;" class="MsoNormalCxSpMiddle">– Desculpa, não sei por onde começar. Às vezes parece que as palavras se atropelam, sabes? Como se viessem todas à boca de uma vez só. E depois já não sei o que quero realmente dizer. Perco-me. E depois lembro-me de coisas estúpidas pelo meio, se desliguei ou não o fogão, a capa do jornal pendurado no quiosque no fundo da rua. Sim, aquela que tem o café daquele velhinho muito velhinho e muito lento a servir. O senhor Henrique. Por isso é que nunca lá vou de manhã. E depois é esta coisa. Nunca consigo dizer o que tenho para dizer sem me dispersar. Eu sei, estou só a ganhar tempo. Não sei por onde começar, e estou a sentir-me a desaparecer.</p><div style="text-align: justify;"> </div><p style="text-align: justify;" class="MsoNormalCxSpMiddle">Quanto mais falo, pior parece. Cria expectativas, eu sei. Tudo o que possa dizer depois parece que não surte qualquer efeito. Parece desprovido de qualquer significado. Bem sei, depois de todas estas voltas. E depois lá vem o pensamento outra vez, que coisa. E dá-se-me a lucidez da situação. A inclinação do teu corpo na minha direcção, à espera. O cinzeiro a transbordar, o número de cigarros que já tirei do teu maço. E reparo que já não sorris, reparo que as cores ganham vida de novo. Como se tudo resumisse ao aqui e ao agora. Como se não houvesse mais tempo para ganhar, ou para perder. E tivesse mesmo que ir directo ao assunto. Não há nada pior.</p><div style="text-align: justify;"> </div><p style="text-align: justify;" class="MsoNormalCxSpMiddle">– Mas o que eu te queria realmente dizer, ainda que soe a nada, e não sirva de nada. E juro-te que não era isso que queria, mas não soube evitar. E se calhar também não quis. Acho que só me apercebi tarde demais, a negação tem destas coisas. É que esse teu sorriso, esse teu olhar. Gosto de ti. Acho que é isso que queria dizer, só isso que queria dizer. Gosto de ti. </p>Pedro Guerrahttp://www.blogger.com/profile/18295263329668789089noreply@blogger.com