tag:blogger.com,1999:blog-170412222008-04-06T21:05:14.276+01:00Luís Graça > Blogue-Fora-Nada... e Vão DoisLuís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comBlogger68125tag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-1127805283111574702008-04-06T19:18:00.001+01:002008-04-06T21:05:14.307+01:00Blogantologia(s) II - (4): O Parque dos Poetas do Isaltino<a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_Oeiras_Parque_Poetas.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="271" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_Oeiras_Parque_Poetas.jpg" width="180" border="0" /></a> Cartaz do Parque dos Poetas<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br />Originalmente publicado, no Blogue-Fora-Nada, como <em>post</em> de 3 Julho de 2005 > <a href="http://blogueforanada.blogspot.com/2005_07_03_blogueforanada_archive.html">Blogantologia(s) - XXVII: O Parque dos Poetas </a>.<br />Revisto, hoje, para poder ser dedicado à minha Joana, que faz 30 anos. E a quem há 14 anos atrás, eu escrevi a seguinte máxima singela, típica de um poeta de encomenda(s):<br /><br /><em>"a felicidade,</em><br /><em>(...) se não me engano,</em><br /><em>é também isso</em><br /><em>de seres tu a construir</em><br /><em>a tua própria vida</em><br /><em>com e através dos outros </em><br /><em>e às vezes contra os outros".<br /></em><br /><br /><strong>Parque dos Poetas do Isaltino</strong><br /><br />Poeta é quem tem<br />Uma estátua do Simões<br />No Parque dos Poetas<br />Mas também<br />As contas em dia<br />Nos Serviços Municipalizados<br />De Águas e Saneamento<br />De Oeiras.<br /><br />Poeta não é<br />O Bocage, émulo de Camões<br />Que não tinha maneiras,<br />E, pior que tudo,<br />Dizia asneiras:<br />- Porra, atchiiim!<br />- Ai, tia, que ordinário,<br />Esse Ary.<br />Ah!, o Zé Carlos,<br />O Ary dos Santos,<br />O planfletário,<br />O pseudo-revolucionário,<br />O bardo<br />Do botequim!<br /><br />Ser poeta não é<br />Ter os colhões...<br /><em>In su situ</em><br />Como o Mário,<br />O Cesariny,<br />Que não quis, o parvo,<br />Ganhar o euromilhões<br />E entrar para a história<br />Da literatura do imobiliário.<br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1732_1.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1732_1.jpg" border="0" /></a> Entrada para o Panteão Municipal de Oeiras<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br /><br />Em questões de género,<br />Aplique-se, entretanto,<br />O camartelo<br />Camarário,<br />Perdão, o regulamento municipal<br />Em forma de soneto,<br />Que manda atribuir quotas<br />Às senhoras:<br />- São <em>cotas</em>, senhoras, são <em>cotas</em>!<br />Para o caso são três, não mais,<br />Que foi a conta que Deus fez:<br />Natália, Sophia, Florbela.<br /><br />- Mas que raio de país é este,<br />Em que a poesia é coisa de homens! -<br />Grita o almoxarife dos SMAS.<br />As senhoras, meu Deus,<br />Ficam sempre bem<br />Nas quermesses da cidade,<br />Nos jogos florais,<br />Nos bazares da caridade,<br />Nas feiras e mercados,<br />Na vida e na tela,<br />Nas telenovelas,<br />Nos lavadouros públicos,<br />Na vida-de-faz-de-conta,<br />No passeio das virtudes,<br />Na despedida dos soldados,<br />Na partida das caravelas para a Índia,<br />Nos funerais<br />E nas procissões.<br />Nos comícios.<br />Nas comixões.<br /><br />Um século atrás<br />As nossas queridas poetisas<br />Teriam ficado à porta do parque,<br />Com botinha de pé alto<br />E saias de entrefolhos,<br />Com <em>cliché</em> tirado pelo Joshua Benoliel,<br />Capa na <em>Ilustração Portuguesa</em>,<br />E legenda a condizer:<br /><em>"Não ficam bem as senhoras<br />Que se metem a doutoras".</em><br /><br />Salvou a Natália<br />A honra do gineceu,<br />Ao trocar a poesia por comida<br />Que sempre enche a barriga:<br /><em>"Senhores autarcas, sois a cidade,<br />E eu a cereja no cimo do bolo serei,<br />Não há pólis sem o parque<br />Dos sonhos que vos roubei".<br /></em><br />Dantes os poetas, os machos,<br />De bigode farfalhudo<br />Ou de pálidas cores andróginas,<br />Íam para o Olimpo,<br />Laureados,<br />Ou para o Aljube,<br />Agrilhoados,<br />Ou para o Manicómio<br />Do Rilhafolhes,<br />Ferrados e dopados,<br />Ou para o Tarrafal,<br />Exilados,<br />Ou para o Sanatório,<br />Tuberculizados.<br />Para a Ilha da Madeira,<br />Os mais afortunados.<br />Ou para a Morgue,<br />Congelados,<br />Ou até para o Panteão Nacional,<br />Nacionalizados.<br />Conforme as vagas que houvesse<br />E o equilíbrio dos quatro humores<br />Do Senhor Intendente Geral.<br />Só a Sophia pediu para voltar:<br />Para passar os dias que não viveu<br />...Junto do mar.<br /><br />Hoje o poeta,<br />Meus senhores,<br />Não sonha nem dorme<br />Nos bancos de jardim,<br />Ocupados pelos sem abrigo,<br />Os desistentes,<br />Os repetentes,<br />Ou como se diz agora<br />Os infoexcluídos...<br /><br />Hoje o poeta vai directamente<br />Para o Parque,<br />De preferência já morto e cremado.<br />O Parque dos Poetas.<br />Das merendas.<br />Dos velhinhos<br />Que dão milho aos pombinhos.<br />Das criancinhas<br />Da escola, de bibe<br />Aos quadradinhos.<br />Dos desempregados<br />À espera do subsídio de<br />Desemprego<br />Ou do emprego virtual,<br />Do teletrabalho,<br />Da chamada do <em>call centre</em>,<br />E dos frutos da flexibilidade<br />Organizacional.<br />E a fazer contas<br />À puta da vida<br />Que está pela hora da morte.<br /><br />Em vão, protestou<br />O Rosa,<br />O Ramos, o António,<br />Adjectivando a liberdade:<br />Mas que coisa horrorosa<br />Se ela não fosse liberdade... livre!<br /><br />O Parque dos Poetas<br />E dos namorados,<br />Do arco e do balão<br />E das quadras<br />Ao Santo António,<br />Milagreiro,<br />Casamenteiro,<br />Brigão,<br />Brejeiro,<br />Fodilhão.<br /><br />Porque a Poesia<br />Quando nasce não é<br />Para todos,<br />Terá já dito um estrangeirado,<br />O Conde de Oeiras<br />E futuro Marquês de Pombal<br />(Volta, Marquês, que estás perdoado!)<br />Aos eleitos e aos camareiros,<br />Atentos e venerandos,<br />Em <em>soirée</em>,<br />No seu paço,<br />Ali mesmo, junto à Marginal.<br /><br />Homens de letras<br />Ou de cânones,<br />Os poetas lusitanos.<br />Míopes, nos seus fatos<br />Poídos e castanhos,<br />Cinzentões.<br />Só o Jorge Sena<br />Era engenheiro.<br />Naval. No papel.<br />Não consta que<br />Construisse ou reparasse<br />Embarcações.<br />O Torga, clínico.<br />O Régio, místico.<br />O O'Neil, publicitário,<br />E claro<br />O David Mourão-Ferreira,<br />Doutor de letras,<br />Universitário,<br />De capa e batina.<br />E o Pessoa, esse, coitado,<br />Era escriturário comercial.<br />Marçanos,<br />Cabouqueiros,<br />Coveiros,<br />Limpa-chaminés,<br />Cantoneiros de limpeza,<br />Calafates,<br />Estivadores,<br />Mineiros,<br />Calceteiros,<br />Picheleiros,<br />Almocreves,<br />Pescadores,<br />Barbeiros-sangradores,<br />Construtores civis<br />Ou outra gente<br />Dos ofícios mecânicos.<br />Nãoo há nenhum,<br />Que se saiba,<br />Que conste da lista imortal.<br />Dos poetas imortais<br />Do Parque do Isaltino.<br />Minto: há o Álvaro de Campos,<br />Guardador de rebanhos.<br />Mas esse não vi lá,<br />Porque é proibido pisar a relva<br />E pastar. E sonhar.<br />E sobretudo apascentar.<br />Guardador de rebanhos,<br />À porta da capital,<br />Parece mal,<br />Destoa.<br />Não dá,<br />Já não é para turista.<br />Não rima com coisa boa,<br />Não rima com Lisboa.<br />Não casa com a modernice<br />Da Oeiras futurista.<br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1631_Manuel_Alegre1.JPG"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 230px; CURSOR: hand; HEIGHT: 222px" height="211" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1631_Manuel_Alegre1.JPG" width="224" border="0" /></a> O poeta Manuel Alegre.<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br /><br />Nem o Alegre, o Manel,<br />Escapou, em vida,<br />Ao destino cruel<br />De ser transformado<br />Em réplica<br />Do homem de mármore.<br />Podiam ter-lhe posto,<br />Ao menos, numa mão, a pena,<br />E na outra a cana de pesca.<br />Há quem jure que é castigo<br />Para o ex-revolucionário<br />Da <em>Praça da Canção</em>,<br />Hoje homem de Estado,<br />Senador da República,<br />Bonacheirão,<br />Canastrão,<br />Arengando para a arraia-miúda do TagusPark:<br /><em>"Em Nambuangongo, tu não viste nada!"...<br /></em><br />Quem não viu nada,<br />Mas que riria<br />Até às lágrimas,<br />Se fosse vivo,<br />Seria<br />O caixa d'óculos do O'Neil,<br />Agora príncipe<br />Do Reino da Dinamarca.<br />Imagino-o,<br />De <em>Ombro na Ombreira</em>,<br />Polidor de esquinas,<br /><em>Desnalgando as gajas</em>,<br />Mesmo não sendo trolha<br />Da construção<br />Nem nunca tendo ido<br />Para o trabalho,<br />De lancheira na mão.<br />Ou de lancheira na mão<br />Para o trabalho,<br />Trocando a mão direita<br />E a esquerda,<br />A lancheira e a mão,<br />Subindo e descendo a Avenida<br />Da Liberdade<br />À espera talvez de uma outra vida,<br />Mais segura,<br />Ou da dita,<br />Que só era de nome,<br />Reza a história,<br />Por causa da Ditadura,<br />De má catadura,<br />De má memória.<br /><br />Mas que pode a palavra, etérea,<br />De um poeta,<br />Surrealista, anarca,<br />Genial,<br />Mas mais que morto<br />E enterrado,<br />Contra a palavra, de pedra e cal,<br />De um senhor autarca,<br />No seu feudo, no seu horto, no seu olival?<br /><br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1714_Florbela.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="287" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1714_Florbela.jpg" width="235" border="0" /></a> Forbela Espanca (1894-1930)<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br /><br />Alguém roubou<br />Uma pérola do colar<br />Da Florbela,<br />Tão excessiva em vida<br />Como na morte.<br />Alguma ninfomaníaca<br />Da tribo gótica,<br />Algum admirador secreto,<br />Coleccionador,<br />Adolescente,<br />Voyeurista,<br />Turista,<br />Visionário,<br />Cleptómano,<br />Antiquário,<br />Violador,<br />Sexista,<br />Misógeno,<br />Detective,<br />Homem aranha.<br />Ou quiçá<br />Algum promotor<br />(I)mobiliário,<br />O próprio dono da obra,<br />O empreiteiro,<br />O engenheiro,<br />O trolha,<br />O arquitecto paisagista,<br />O ajudante do escultor,<br />O fiscal,<br />O fisco,<br />O contabilista,<br />A mulher da limpeza,<br />O guarda municipal,<br />Eu sei lá!,<br />O homem do lixo<br />Ou até o morto da guerra colonial.<br /><br />Outro tonto, senil,<br />Septuagenário,<br />É o Herberto, o Helder,<br />Que recusa viver<br />Com qualidade de vida<br />No Lupanário<br />Da poesia.<br />Porque ser poeta, sortudo,<br />É ser maior, ser mais alto,<br />Viver no enésimo andar do pensamento<br />Com vista para o Tejo e tudo.<br /><br /><br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1591_2.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1591_2.jpg" border="0" /></a> Camilo Pessanha (1867-1926)<br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br /><br /><br />Por mim, confesso,<br />Gostaria de ter sido<br />Um simples Conservador<br />Do Registo Predial<br />Como o Pessanha.<br />E de ter escrito,<br />Não a fria <em>Clépsidra</em>,<br />Mas o <em>Caleidoscópio<br />Lusotropical</em><br />Em mangas de alpaca.<br /><br />Gostaria de ser poeta-funcionário,<br />Da autarquia local,<br />Ou do ministério da eternidade,<br />Com cama, mesa e roupa lavada,<br />Uma tença, mesada ou salário,<br />E ajudas de custo para poder sonhar<br />E ter tempo e vagar.<br />Gostaria de ter feito (e dito)<br />Um soneto<br />A letra gótica,<br />À mão,<br />À moda antiga,<br />Com punhos de renda,<br />Em papel azul, selado.<br />E de ter tido tempo<br />Para fumar ópio.<br />Na época das monções,<br />Em Macau.<br />E de imaginar<br />O eclipse total<br />Do Império Colonial,<br />Como um baralho de cartas monumental,<br />A desmoronar-se,<br />Do Minho a Timor.<br />Gostaria ainda de ter sido l<br />Laureado<br />Pelo Prémio do SNI<br />Do António Ferro.<br /><br />Gostaria sobretudo<br />De ter dactilografado,<br />Em Courier, fonte 12,<br />Sem o mais pequeno erro<br />Nem rasura,<br />O <em>Sentimento de um Ocidental</em><br />E de o ter posto no meu currículo<br />Existencial:<br /><br />"Nas nossas ruas, ao anoitecer<br />Há tal soturnidade, há tal melancolia,<br />Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia<br />Despertam-me um desejo absurdo de sofrer".<br /><br />Em Lisboa<br />Nem poesia má nem prosa boa,<br />Mas prefiro aquele verso,<br />Mais rasca,<br />Mais proleta,<br />Mais canalha,<br />Que evoca os construtores da cidade,<br />Tão bravos quanto boçais,<br />Vistosos nos seus fatos-macacos,<br />E que engrossavam as estatísticas<br />Dos acidentes de trabalho<br />Mortais:<br />"Semelham-se a gaiolas, com viveiros,<br />As edificações somente emadeiradas:<br />Como morcegos, ao cair das badaladas,<br />Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros".<br /><br /><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/1600/IMG_1600_1.jpg"><img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="230" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/5480/250/320/IMG_1600_1.jpg" width="254" border="0" /></a> Oliveira do Alqueva <em>in su situ</em><br /><br />© <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2005)<br /><br />Poeta maior da nossa modernidade menor,<br />Cesário, o Verde,<br />Não alcançou o Século<br />Da energia nuclear.<br />Da viagem à lua.<br />Dos amanhãs que o outro galo cantaria.<br />Da <em>Festa do Avante</em>.<br />Do cimento armado.<br />Do motor de explosão.<br />Dos tsunamis revolucionários.<br />Das alegrias dos futebóis.<br />Do triunfo da ecologia<br />E da googlização.<br />Da bomba que brilhou<br />Mais do que mil sóis<br />Em Hiroshima, meu amor.<br />O Século dos chips<br />E do chispe de porco liofilizado.<br />Do Spínola, prussiano,<br />De monóculo e bengalim<br />Nas bolanhas da Guiné.<br />Da farsa da história.<br />Da caixinha que mudou o mundo.<br />E que mundo!,<br />Basta puxar o autoclismo<br />E fazer glu-glu,<br />Par ires parar aos buracos negros<br />Do admirável mundo virtual.<br />O Século, e que século!,<br />O dos vestidos de fru-fru.<br />Da aspirina e da farinha Amparo.<br />Da Lili e do Caneco.<br />Do Taylor e do Ford on the road.<br />Do terror de Tianannmen.<br />Da Nossa Senhora de Fátima de Felgueiras.<br />Do Luís Moita aos microfones da Emissora Nacional:<br /><em>- Rapazes, não cantem o fado!<br /></em>O século dos comícios da Fonte Luminosa<br />Ou do povão do garrafão<br />No Pontal do Portugal sacro-profano.<br />O século do Portugal de Salazar,<br />Prometendo eleições tão livres<br />Quanto a livre Inglaterra.<br />E do O'Neil e do Ruy Belo.<br />E do Millenium BCP.<br />O Portugal do maneta.<br />E o Portugal futuro.<br /><br />Cesário não conheceu a Amália<br />Nem a Mariza desta Lisboa que eu amo.<br />Não conheceu o Sá,<br />Talvez só o Mário,<br />Não o Soares, mas o Carneiro<br />A fazer o pino.<br />Não figura por isso<br />No Parque do Isaltino.Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-48499041282986485962008-02-14T19:35:00.004Z2008-02-14T19:52:27.895ZBlogantologia(s) II - 65: Em dia de São Valentim<a href="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R7SbSQrKH8I/AAAAAAAAIYk/Rtz4seoy1a4/s1600-h/Vila_Praia_Ancora_Fe_2008_LG_DSC02161.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5166925410516737986" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R7SbSQrKH8I/AAAAAAAAIYk/Rtz4seoy1a4/s400/Vila_Praia_Ancora_Fe_2008_LG_DSC02161.JPG" border="0" /></a> Vila Praia de Âncora > 4 de Fevereiro de 2008<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2008). Direitos reservados<br /><br /><br /><br />Um dia vou ter pena de morrer,<br />Só por ti<br />E pelo azul da luz de Lisboa<br />Nas manhãs perfeitas de domingo.<br /><br />Um dia vou ter pena de partir,<br />Não pelo que não vivi,<br />Mas só por que não namorei contigo<br />Nas horas e nas desoras<br />Dos dias em que o azul não era tão azul,<br />Nem os domingos tão domingos,<br />Tão perfeitos,<br />Como tu querias….<br /><br />Ficarás na dúvida<br />Se eu afinal sempre era o teu príncipe<br />Desencantado,<br />E tu a minha chita,<br />Selvagem e pouco borralheira,<br />Em busca do azul perfeito dos domingos<br />À beira Tejo.<br /><br />Fora eu transparente como o céu de Lisboa<br />Lúcido e translúcido,<br />Tão certo e previsível como o Domingo<br />Que é o Dia, perfeito, do Senhor,<br />E talvez tu nunca tivesses escutado<br />Os meus passos na rua estreita do teu bairro,<br />Nem sequer lido a letra do meu fado,<br />Ou estranhado a primeira e única carta<br />Que te escrevi.<br />De Amor.<br /><br />O teu (e)terno namorado<br /><br />Lisboa, Dia de São Valentim, 14 de Fevereiro de 2008Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-87038684754000226892008-02-10T23:42:00.000Z2008-02-14T13:27:54.026ZBlogantologia(s) II - (64): A triagem de Manchester ou o paciente português<a href="http://bp3.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R6HI7JockMI/AAAAAAAAH6Y/UeUUXA3thMw/s1600-h/Portugues_que_desespera_com_paciencia_LG_DSC01080.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5161627566466699458" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R6HI7JockMI/AAAAAAAAH6Y/UeUUXA3thMw/s400/Portugues_que_desespera_com_paciencia_LG_DSC01080.JPG" border="0" /></a> Eurolândia > Portugal dos pequeninos > 2008 > Há sempre um português que (des)espera... no banco do jardim, na bicha do autocarro, no centro de emprego, no banco de urgência, na barra do tribunal, no manicómio, na rua, em casa, na escola, no trabalho, e até no canil...<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2008). Direitos reservados.<br /><br /><br /><br /><br />Na sala de espera<br />do Banco de Urgência<br />há gente que desespera<br />com paciência.<br />Gente com paciência de santo<br />ou então pouco esperta.<br /><br />Há gente que não conhece<br />a porta do cavalo<br />do hospital.<br /><em>Sangrai-o e sangrai-o<br />e se morrer,<br />enterrai-o.</em><br />Mais logo,<br />eu estou de banco.<br />Apareça.<br />Ou então desapareça<br />da lista dos vivos.<br /><br />Há um jovem casal<br />de apaixonados,<br /><em>just married</em>,<br />ela de fita amarela,<br />no pulso,<br />lívida, branca, exangue,<br />no banco do hospital.<br /><br />Há dois negros que dormitam<br />e que devem sofrer de paludismo.<br />Estão ali há horas.<br />Podiam vir dos arrozais do Sado,<br />há décadas atrás,<br />tremendo de sezonismo.<br />Mas... <em>mal por mal,<br />antes cadeia que hospital</em><br /><em>e antes justiça que misericórdia.<br /></em><br />Há um casal de paquistaneses<br />ou de indianos.<br />Muçulmanos.<br />Ele é o paciente,<br />de fita vermelha ou laranja,<br />que o sistema de Manchester<br />é quem mais ordena<br />e não olha à cor da pele.<br /><br />Racista, eu,<br />sra. enfermeira ?<br />Até tenho um amigo preto<br />da Guiné.<br />Trabalha, no <em>gosse gosse</em>,<br />no estaleiro do subempreiteiro,<br />que não é nenhum mal essa tosse,<br />é do catarro,<br />é do tabaco,<br />é do tempo.<br /><br />Há velhos.<br />Muitos.<br />Em saldo.<br />Doentes de solidão, abandono, exaustão.<br />Doentes de Alzheimer, Parkinson, fim de estação.<br /><br />Chegam ambulâncias.<br />De Almoçageme, Alcáçovas, Alcácer, Almargem...<br />Da outra margem.<br />Tristes lugares ao sul.<br />Tentativa de suicídio,<br />diz o bombeiro para o securitas,<br />e a chusma de voyeuristas<br />e de tabagistas<br />que estão lá fora,<br />ao frio da noite.<br />A velha quis matar-se com comprimidos.<br />A maluca tinha alguma necessidade de fazer isso,<br />pergunta, resignada, a nora.<br /><br />Alentejanos, ciganos,<br />mouros, morcões,<br />jovens de brinquinho,<br />colarinhos brancos e azuis,<br />activos e não activos,<br />pescadores, traficantes,<br />toxicodependentes,<br />mães solteiras,<br />domésticas em robe de dormir,<br />famílias monoparentais,<br />doentes pré-terminais...<br />E até um um cão, um canito,<br />magricela,<br />a quem os pacientes dão bolachas.<br /><br />Há um português emergente<br />em cada dez.<br />Vermelho.<br />Doente. Paciente. Dormente.<br />Pouco ou nada eloquente.<br />Diz o sistema de triagem de Manchester.<br />Há um português urgente<br />que vem na ambulância da emergência pré-hospitalar.<br />De um triste lugar ao sul.<br />Há um português laranja,<br />que fica em segundo lugar.<br />O resto não conta,<br />são amarelos,<br />fura-greves,<br />racha-sindicalistas,<br />proletas,<br />marretas,<br />hipocondríacos,<br />queixinhas,<br />maus contribuintes,<br />cidadãos de segunda,<br />gente que não presta,<br />gente de baba e ranho,<br />pouca honesta,<br />que fuma e que bebe e que come,<br />e não ouve o Pádua<br />a dizer que no andar é que está o ganho...<br /><br />Que já não há o azul nem o verde<br />do meu país<br />na paleta das cores do gestor<br />dos doentes<br />e das doenças.<br />Que há fé e até caridade,<br />mas pouca esperança, Senhor.<br /><br />É triste e feia e fria<br />a sala de espera da urgência<br />do hospital,<br />Senhora Ministra.Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-59945641369050655852008-01-20T18:04:00.000Z2008-01-20T19:23:51.240ZBlogantologia(s) II - (63): Dizem-nos que estamos a envelhecer<div align="left"><a href="http://bp0.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R43x6PahMsI/AAAAAAAAHck/IABg-gxIfpU/s1600-h/Lisboa_Jardim_Botanico_Ajuda_DSC07771.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5156043131281552066" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R43x6PahMsI/AAAAAAAAHck/IABg-gxIfpU/s400/Lisboa_Jardim_Botanico_Ajuda_DSC07771.JPG" border="0" /></a> Lisboa > Tapada da Ajuda > Novembro de 2007<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2008). Direitos reservados.<br /></div><div align="right"></div><div align="right"><br /></div><div align="right"><br /><br /><span style="font-size:180%;"><em>Poema para ser lido por velhos,</em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em>daqueles que já usam óculos com muitas dioptrias,</em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em>ou então essas horríveis lentes de aumentar </em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em>que se compram na Loja do Avô,</em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em>e que só servem para ler os títulos de caixa alta do jornal</em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><em></em></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;"><br /><br /><br />Dizem-nos<br />que estamos a envelhecer.<br />Dizem os demógrafos,<br />que correm, eles próprios, o risco<br />de ver limitado o seu objecto de estudo<br />aos velhos.<br />Dizem as máscaras do Entrudo </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">do nosso descontentamento muito pouco c</span><span style="font-size:180%;">hocalheiro.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Dizem os caretos de Ousilhão.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Dizem os últimos rapazes da Festa dos Rapazes.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Dizem os médicos,<br />que também estão a encanecer.<br />Diz o senhor Ministro da Indústria da Doença<br />que mandou encerrar a maternidade.<br />Por falta de fedelhos.<br />Tenham paciência, meus senhores e minhas senhores.<br />Dizem os hospitéis,<br />a abarrotar de gente na fila para morrer.<br />Dizem os sociólogos,<br />em crise de paradigma<br />existencial.<br />Dizem os jornais<br />que já não vendem mais.<br />Diz o meu geneticista,<br />que anda à procura do gene da eterna juventude.<br />Dizem os futurólogos<br />que lêem nas entrelinhas das camadas de ozono.<br />Diz a minha esteticista,<br />quando o verniz estala,<br />vão-se os anéis,<br />ficam os dedos. </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Diz a vida, malsã.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Diz a palma da mão e a linha (torta) da vida.<br />Diz a pitonisa de Delfos,<br />a escarnecer<br />da cultura judaico-cristã.<br />Diz a comissária política de Bruxelas,<br />que não foi eleita,<br />muito menos pelos eurovelhos.<br />Diz o Eurostat,<br />que representa a sacrossanta ciência<br />do positivismo do século.<br />E até a Santa Madre Igreja<br />agora sem crianças para baptizar<br />nem selvagens para evangelizar.<br />Não sei o que diz Ela,<br />a Santa,<br />a Madre,<br />a Igreja.<br />Não sei o que é que diz Roma<br />nem Pavia,<br />que não se fizeram num dia.<br />Mas dizem as estatísticas,<br />que, dizem-nos, não mentem,<br />que estamos a embranquecer,<br />a encanecer,<br />a envelhecer,<br />a ensandecer.<br />A morrer, meus irmãos.<br />De solidão.<br />Estamos a morrer.<br />De solidão.<br />Estamos a morrer.<br />De solidão. </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Estamos a morrer.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">De solidão.<br />Diz o espelho meu,<br />que o tempo faz o seu trabalho de sapa. </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Que o tempo, no final, te mata.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Como nos filmes de terror.<br />Que a vida te está a foder, meu. </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Diz o sino da tua aldeia,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">quando toca a finados.<br />Dizem as tuas rugas.<br />Dizem as tuas brancas,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">as primeiras, não sei onde.<br />Dizem os teus dias cinzentos.<br />Só o Governo esconde<br />a bomba biológica<br />que paira sobre a cabeça<br />dos que hão-de vir.<br />Dizem-me que o Governo tropeça,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">mas não cai<br />só por mentir, </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">com as medidas da tendências central.<br />a média, a moda e a mediana,<br />mais o desvio padrão<br />e o erro amostral.<br />Eu sei que o Governo está sujeito à erosão<br />dos ventos<br />e das marés,<br />mas também à irrisão mortal </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">das sondagens.<br />O Governo não deve mentir.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">O Governo deve dizer a verdade,<br />com um grau de confiança de noventa e cinco por cento.<br />Mas nem sempre diz toda a verdade,<br />ou só a verdade,<br />por causa da coesão<br />social,<br />por causa do clima<br />económico,<br />por causa da confiança<br />psicológica<br />do investidor estrangeiro,<br />por causa da liberdade,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">primordial,<br />do consumidor.<br />Dizem que estamos a envelhecer.<br />Dizem-te que há muito ultrapassaste a barreira dos quarenta.<br />Que aos 45 já eras velho,<br />para além do limiar da esperança ao nascer<br />quando nasceste.<br />Dizem-te que seremos velhos<br />em 2025.<br />Um em cada cinco.<br />Leia-se: velhos, mais de 65.<br />E que agora já começou a caça<br />aos talentos<br />aos rebentos,<br />na perspectiva da rarefacção dos recursos humanos.<br />Diz o nosso (e)terno guru.<br />Diz o provérbio que <em>na era de 31, poucos moços, velhos nenhum</em>.<br />Mas não é envelhecimento,<br />é senescência,<br />diz o meu neurologista.<br />Degenerescência, </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">dizem os puristas da língua.<br />Diz a neurociência:<br />o mais importante<br />não é perderes 100 mil neurónios<br />por dia,<br />nem a paciência, nem a compostura, nem o controlo<br />dos esfíncteres.<br />Nem a decência.</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Deus te livre do Alzheimer e do Parkinson</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">e das demais doenças crónicas degenerativas.</span><span style="font-size:180%;"><br />O que é grave é perderes<br />as redes neuronais<br />e não sei que mais.<br /></span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">Dizem que estamos a envelhecer, Papi.<br />Porra, </span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">meu velho,</span></div><div align="right"><span style="font-size:180%;">o que a vida fez de ti!</span></div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-52133879839520758772008-01-19T17:58:00.000Z2008-01-20T18:39:27.611ZBlogantologia(s) II - (62): O que é feito de ti, Maria Bárbara ? E das operárias de Castelo de Paiva ?<strong>Clarks ou: as multinacionais têm alma ? </strong> (1)<br /><br />Uma das habituais perguntas da Bárbara, <br />e esta por sinal muito pouca metafísica. <br />Perdi-lhe o rasto, <br />à Maria Bárbara, <br />aliás, Barbarian Girl. <br />Só lhe conhecia o nickname,<br />além de uns escassos dados biográficos <br />que ela deixava transparecer nos seus postes, <br />habitualmente escritos em letra minúscula, <br />em estilo telegráfico: <br />lembro-me, por exemplo, que morava em Lisboa, <br />nas Avenidas Novas, e tinha uma avô galega;<br />andava em biologia da Faculdade de Ciências <br />da Universidade de Lisboa. <br />Já deve ter acabado o curso,<br />já ter feito um mestrado,<br />quiça até o doutoramento,<br />tendo depois ficado a engrossar o número dos desempregados jovens <br />com títulos universitários.<br /> <br />Nunca nos cruzámos por aquelas ou outras bandas. <br />Trocámos apenas alguns e-mails. <br />Nunca lhe vi uma foto.<br />Participou em alguns temas de discussão <br />que eu próprio suscitei <br />ou em que intervi, <br />nos saudosos Fóruns do Publico.pt > Cidadania. <br />Um desses temas de discussão foi sobre a <br />"Clarks: ou as multinacionais têm alma?". <br /><br />Revisitei aquele cantinho do ciberespaço, <br />como eu lhe chamava. <br />Com alguma saudade, diga-se de passagem... <br />Dela e doutros cibercidadãos: <br />a Isabel Coutinho, a tabagista militante,<br />o Migoma, <br />o Jota Lourenço, <br />o Cibernocturno, <br />o Dr. Hipócrates, <br />o Fiatux, <br />a Megane, <br />a Raquel, <br />o Eugénio Rosa, <br />a Eva Luna, <br />o J.B. Mendes, <br />o Queirós, <br />o Eljump, <br />o Deus das Moscas, <br />o Bafo de Nuca e outr@s... <br /><br />Incisiva, contundente, agressiva como sempre. <br />A Bárbara.<br />Creio que eu fiquei com um fraquinho por ela.<br />Era uma mulher generosa<br />de uma generosidade que é(era) própria dos verdes anos <br />mas sobretudo de um já maduro sentido de cidadania... <br /><br />BNão se era feia se era bonita.<br />Confesso que gostaria de saber por onde pára ela, <br />a Barbarian Girl. <br /> E já agora gostaria também de saber do paradeiro<br />.daquelas mulheres (e homens) <br />que a Clarks mandou para a rua. <br />Na voragem mediática dos acontecimentos do dia-a-dia, <br />Castelo de Paiva e a sua gente foram durante anos notícia nos media <br />por causa da tragédia da Ponte de Entre-os-Rios <br />e do julgamento dos seus presumíveis responsáveis... <br />Sei que perder o emprego ou a vida não é a mesma coisa. <br />Em todo o caso, pelo seu impacto, <br />o despedimento colectivo do pessoal da Clarks, <br />em Castelo de Paiva, <br />foi notícia nacional por um dia, por uma semana.<br /><br />castelo de paiva ? <br />sabes onde ficava, Bárbara ? <br />eu não... <br />que uma desgraça nunca vem só, <br />dizia então uma operária da multinacional do calçado <br />que, depois de arouca, decidiu fechar a sua segunda unidade fabril <br />em castelo de paiva. <br />mandaram para o desemprego mais 600 trabalhadores. <br />a acrescentar aos outros 300 e tal de há dois anos. <br />primeiro, foram as minas do pejão que encerraram de vez; <br />depois foi a tragédia de entre-os-rios; <br />e depois foi a clarks que se mudou, <br />de máquinas e bagagens forradas a euros, <br />para outro paraíso capitalista. <br />para outra terreola qualquer, <br />talvez parecida com castelo de paiva. <br />talvez do leste europeu, <br />com tabuleta escrita em caracteres eslavos; <br />não importa onde, <br />desde que haja sempre gente disposta a vender a sua força de trabalho <br />por um punhado de cêntimos. <br />é o circo trágico-cómico das multinacionais <br />que montam e desmontam fábricas, <br />em qualquer parte do mundo. <br />faz-me lembrar os recintos das touradas desmontáveis no verão. <br /><br />não creio, tal como tu, Bárbara, que as multinacionais tenham alma. <br />não creio que os tecnocratas que as governam tenham alma. <br />ou que saibam, no mínimo, compreender a raiva das pobres mulheres operárias <br />que entraram tarde para o mundo do trabalho. <br />e que agora se sentiram usadas, abusadas, deitadas fora, velhas, traídas. <br />imagino que seja esse o sentimento de se ser despedido colectivamente. <br />e no entanto o mundo é assim, dizem-nos. <br />os teóricos.<br />os intelectuais.<br />os gurus.<br />os padres.<br />os sociólogos.<br />os políticos.<br />os jornais.<br />e não há volta a dar-lhe. <br />os cães ladram e a circo das multinacionais passa. <br />são elas que governam este mundo. <br />são elas que dão e baralham as cartas. <br />são elas que nos vestem e calçam e criam os mitos que nos alimentam. <br />são elas que são donos do destino de milhões e milhões de pessoas. <br />pobres diabos e diabas (de é que há diabos no feminino, Bárbara), <br />contentes hoje por terem pão para a boca. <br />desesperados amanhã porque já não sabem onde vão buscar com que pagar <br />as prestações da casa e do carro.<br />ouvimos o presidente da câmara de castelo paiva dizer <br />que o total de despedidos eram 25% da força de trabalho industrial do concelho, <br />3% da população do concelho. <br />e nós perguntámo-nos onde estavam então os líderes do nosso país, <br />levando um pouco de conforto e de esperança <br />àquela pobre gente,<br />como na altura da tragédia da ponte.<br />eu não sabia, tu não sabias,<br /> onde ficava castelo de paiva, <br />mas o presidente da república, <br />o primeiro ministro, <br />o ministro do trabalho, <br />o patrão do investimento estrangeiro, <br />e todos os restantes senhores<br />deviam saber onde ficava castelo de paiva. <br />dizem-nos que a esperança é a última coisa a morrer. <br />mas a verdade é que também morre. <br />e infelizmente morreu para os trabalhadores da clarks, <br />uma multinacional sem alma. <br /><br />fui espreitar o <em>site</em> dos gajos. <br />dos sapateiros ingleses.<br />nem uma palavra em português. <br />nem uma palavra em qualquer língua para os seus <em>colaboradores</em>. <br />lá dentro (do sítio), dizem-me, <br />“a world of comfort and style awaits you”… <br />valores como a responsabilidade social, <br />o respeito pelos direitos de quem trabalha <br />ou o cumprimento da palavra dada a uma comunidade inteira, <br />parece que são coisas que não constam dos <em>core values </em>desta multinacional. valores ? <br />são para pisar pelas botas altas das manequins no estrado da alta moda... <br />e depois quem sabia onde ficava castelo de paiva, <br />uma minúscula peça do puzzle da europa das multinacionais ? <br />mas vale a pena, Bárbara, barbaramente revoltada e deprimida. <br /><br /><br />_________<br /><br />(1) Publicada originalmente, noutra versão, em prosa, no Blogue-Fora-Nada, em 26 de Outubro de 2003 > <a href="http://blogueforanada.blogspot.com/2003_10_26_archive.html">Portugal sacro-profano - IX: O que é feito da Barbarian Girl ? E das operárias de Castelo de Paiva ?</a>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-80284591363403174962008-01-06T19:28:00.000Z2008-01-06T20:12:42.506ZBlogantologia(s) II - (61): Lembro-me que era Dezembro<a href="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R4Ez0vahLlI/AAAAAAAAHSk/9AFS-sVSqtU/s1600-h/Lisboa_Belem_Dez_2007_LG_DSC01599.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5152456429862465106" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R4Ez0vahLlI/AAAAAAAAHSk/9AFS-sVSqtU/s400/Lisboa_Belem_Dez_2007_LG_DSC01599.JPG" border="0" /></a> Lisboa> Belém > A ponte 25 de Abril e o Cristo Rei, ao crepúsculo > 6 de Janeiro de 2007.<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados.<br /><br /><br />Para o <a href="http://jonnydavinci.blogspot.com/2006_01_01_archive.html">João</a>, quando fez 22 anos, e que estava em Florença, no Erasmus:<br /><br />João:<br /><br />Um poema (revisto) que eu escrevi à tua mãe, em 1995, e que eu gostava que tu conhecesses, nestes dias de Janeiro de 2006, em que fazemos anos (tu, a 21, eu a 29):<br /><br />Revisitando o poeta Eugénio de Andrade (Matéria Solar),<br />em busca da Alice<br />Ou:<br />Cinquenta poemas de amor,<br />De Agosto a Dezembro.<br /><br />Cinquenta poemas de amor<br />Por outros tantos anos<br />Que já viveste<br />Entre a aurora boreal<br />E a noite polar.<br /><br />Como poderia imaginá-los<br />Sem ti,<br />Como poderia escrevê-los<br />Sem sequer te imaginar,<br />Como poderia simplesmente dizê-los<br />Sem estares aqui ?<br /><br />Lembro-me<br />De te ter dito Jacques Prévert:<br />- <em>Les enfants qui s'aiment<br />S'embrassent debout<br />Contre les portes de la nuit...</em><br /><br />Lembro-me que era Dezembro<br />E o que em ti respirava<br />Eram os olhos,<br />De costas viradas para a noite<br />Enquanto a terra ardia,<br />Quase um rio.<br /><br />Éramos filhos da madrugada<br />E dormíamos náufragos e nus<br />Entre os búzios,<br />Do vento e dos moínhos<br />Fazendo atalaias<br />Contra o medo.<br /><br />De Abril ficou o travo<br />Da liberdade,<br />A paixão<br />E a arte de esculpir corpos e almas.<br /><br />E aos filhos que fizemos<br />Chamámos Joana e João.<br />Em Agosto, era fatal,<br />Por ti,<br /><em>yo perdi la lhave,<br />El sobrero y la cabeza,</em><br />Entre o Marão e o Cabo do Mundo.<br />De Setembro guardo o cheiro<br />A mosto, a broa e a caldo<br />E a amizade quente e fraterna<br />Da tua gente.<br />Já não há milho verde, milho rei,<br />Mas em Dezembro,<br />Felizmente é Natal!<br /><br />Luís Graça (1995/2006)Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-67772342525819841412008-01-01T00:01:00.000Z2008-01-03T19:10:21.108Z(Pré-)Textos (3) - A arte de envelhecer com sabedoria e... sentido de humor no salto (que não queremos seja mortal) para o novo (!) ano de 2008A arte de envelhecer com sabedoria e… sentido de humor, nos nossos provérbios ditos populares no salto... para o ano de 2008:<br /><br />"A morte não escolhe idades"<br /><br />"A saúde nos velhos é mui remendada"<br /><br />"Até aos 40 bem eu passo, dos 40 em diante 'ai a minha perna, ai o meu braço' "<br /><br />"A velhice não tem cura"<br /><br />"Cabelos brancos, flores de cemitério"<br /><br />"De quarenta arriba não molhes a barriga"<br /><br />"Em uma hora se paga quanto se erra em toda a vida (Séc. XVI)<br /><br />"Engorda o menino para crescer e o velho para morrer"<br /><br />"Esta vida não chega a netos nem a filhos com barba"<br /><br />"Esta vida são dois dias"<br /><br />"Esta vida são dois dias e o Carnaval são três"<br /><br />"Hoje com saúde, amanhã no ataúde"<br /><br />"Hoje na figura, amanhã na sepultura"<br /><br />"Hora de morrer não tem retardo"<br /><br />"Mais vale andar neste mundo em muletas do que no outro em carretas"<br /><br />"Mal vai à corte em que o boi velho tosse"<br /><br />"Muita saúde, pouca vida, porque Deus ão dá tudo"<br /><br />"Na era de 31, poucos moços, velhos nenhum"<br /><br />"Na hora da morte não vale a pena tomar remédio"<br /><br />"Não há moço doente nem velho são"<br /><br />"O menino engorda para crescer e o velho para morrer"<br /><br />"O tempo dá o remédio onde me falta o conselho"<br /><br />"O tempo tudo cura "<br /><br />"O tempo tudo cura menos velhice e loucura"<br /><br />"Perde-se o velho por não poder e o novo por não saber"<br /><br />"Por um dia de prazer um ano de sofrer"<br /><br />"Porco de um ano, cabrito de um mês, mulher dos dezoito aos vinte e três"<br /><br />"Prisca idade, priscos tempos" (1)<br /><br />"Quem a trinta não tem siso a quarenta não é rico"<br /><br />"Quem de novo não morre de velho não escapa"<br /><br />"Quem faz em novo paga em velho"<br /><br />"Quem se mata morto fica e, se não morre, entesica"<br /><br />"Só uma porta a vida tem, enquanto a morte tem cem"<br /><br />"Teme a velhice porque nunca vem só"<br /><br />"Um dia pior, outro melhor"<br /><br />"Velho não se senta sem 'ui', nem se levanta sem 'ai' "<br /><br />"Velho que de si cura cem anos dura"<br /><br />Recolha: Luís Graça<br /><br />Graça, L. (2000) - <a href="http://www.ensp.unl.pt/lgraca/textos73.html">Representações Sociais da Saúde, da Doença e dos Praticantes da Arte Médica nos Provérbios em Língua Portuguesa. Parte I : 'Muita Saúde, Pouca Vida, porque Deus não Dá Tudo'</a>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-20801724635727543382007-12-01T15:30:00.000Z2007-12-01T16:20:19.473Z(Pré-)Textos (2) - Um Portugal ao espelho, mas pouco narcísico<a href="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R1GGngkAGpI/AAAAAAAAGgI/aumEKCoWKdw/s1600-R/Portugal_CCB_Expo_Magnum_LG1.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5139036663120403090" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R1GGngkAGpI/AAAAAAAAGgI/Pvtk2fXvZyc/s400/Portugal_CCB_Expo_Magnum_LG1.jpg" border="0" /></a> Foto de uma imagem de Koudelka (1976), exposta no CCB. Foto de Luís Graça (2005) > Talvez o melhor retrato do Portugal que nasce e renasce. <br /><br />Exposição no <a href="http://www.ccb.pt/ccb/">CCB (Centro Cultural de Belém, Lisboa)</a> > Espelho Meu: Portugal visto por fotógrafos da Magnum. Data: 1 de Julho a 28d e Agosto de 2005. Comissariado: Alexandra Fonseca Pinho e Andrea Holzherr (Magnum Photos Paris). Produção: Centro Cultural de Belém e Agência <a href="http://www.magnumphotos.com/c/Home_MAG.aspx">Magnum Photos Paris</a><br /><br /><br /><strong>Espelho meu: Portugal visto por fotógrafos da Magnum Photos (1)<br /></strong><br /><br /><strong>1.</strong> Um país tão pequeno e tão periférico (em relação ao centro do mundo, da notícia, do acontecimento, da história, da geopolítica, da economia global) que cabe em mil negativos do arquivo de uma das mais célebres agências de fotojornalismo do mundo: a <a href="http://www.magnumphotos.com/cf/Home_MAG.aspx">Magnum Photos</a>, criada em 1947 por Henri Cartier-Bresson, Robert Capa e colaboradores.<br /><br />Havia registos de 1955, da década de 60, do 25 de Abril de 1974, do PREC (Processo Revolucionário Em Curso)… Depois disso, os fotógrafos foram assobiar para outro lado. Que o mundo é vasto e fotogénico, mesmo quando feio, horrível e sujo. Portugal deixou definitivamente de estar na moda quando a festa acabou. Os ratos abandonaram o navio.<br /><br />Na ressaca da festa, pá, ficaram os bêbados, os loucos, os marginais, os místicos, os poetas, os cães que ladram à lua, as mulheres de preto, os eternos perdedores… Trinta anos depois era preciso <em>bater umas chapas</em> para fazer o <em>upgrade</em> do arquivo. Vieram a Susan Meiselas, , o Miguel Rio Branco, o Joseph Koudelka. Com as suas credenciais da praxe, as suas obsessões de estimação, o seu portfólio, o seu prestígio, os seus mitos, os seus medos, a sua vaidade, o seu génio, o seu código de ética e deontologia profissionais.<br /><br />“Não era de surpreender a desconfiança com que os meus passos eram seguidos enquanto percorria as ruas da Cova da Moura, mas na Cova são propriedade privada. Cada esquina tem uma personalidade distinta” (Susan Meiselas).<br /><br /><strong>2.</strong> A exposição, no CCB, começa na <em>Nos Kasa</em>, a 10ª ilha de Cabo Verde, com seis a sete mil habitantes, incluindo gente oriunda de Angola e de S. Tomé e Príncipe, parte dela imigrantes ilegais. A casa dos náufragos, dos últimos náufragos, do império. Com um fabuloso som de fundo: o coro das mulheres da Cova da Moura. Meiselas teve vontade de lá ir porque ouviu a notícia do <em>arrastão</em> na BBC ou noutra estação global qualquer. De repente, Portugal deu de novo a volta ao mundo. O <em>arrastão</em> de Carcavelos foi notícia (breve), à falta de Tsunami, vulcão, terramoto, atentado terrorista ou castigo divino.<br /><br />Há males que vêm por bem, dirão uns. As fotos da Meiselas, penduradas nas janelas, nas varandas e nos estendais da roupa do <em>gueto</em> da Cova da Moura, acabaram por dar-lhe uma outra dimensão mediática e contribuir para a melhoria da sua imagem e da auto-estima dos seus habitantes, filhos de um deus menor. <br /><br />Os jovens perceberam que a fotografia podia ser uma arma. Que uma foto de Meiselas valia mais do que uma <em>presidência aberta</em>. Ou o estafado, inócuo e eleitoralista discurso de um presidente da câmara qualquer. As associações locais comentaram que a notícia (da participação de jovens desta comunidade, local no já famoso <em>arrastão</em> de Carcavelos) foiraum exagero, mas que acabou por ter um efeito positivo na <em>sócio-economia</em> da ilha. <br /><br />De facto, por 5 euros, os estrangeiros passaram a poder entrar, sem <em>passaporte</em>, na Cova da Moura, com direito a visita guiada e guarda-costas. Por mais 7 euros e meio, o turista, o tótó, podia inclusive provar os sabores da gastronomia local, a melhor cachupa da diáspora creoula.<br /><br />O período de tréguas, boa vontade e estado de graça acabou no dia 17 de Julho de 2005], mas a exposição do CCB continua aberta até Agosto. <br /><br />Entretanto, a polícia vem dizer, pelo seu serviço de relações públicas, que afinal <em>o arrastão nunca existiu: </em>fora uma figura de retórica... País de inventonas, de polícias que gostam de fazer notícia e de jornalistas que <em>emprenham</em> facilmente pelo ouvido, de jornalistas que dão demasiado crédito aos polícias... País de minorias que a maioria nega, escamoteia, ignora. Todos iguais, mas uns mais do que outros.<br /><br /><strong>3.</strong> Miguel Rio Branco (n. 1946), de ascendência lusitana, é o único dos fotógrafos que fala com o coração:<br /><br /><em>“Portugal, o berço dos meus antepassados, das primeiras memórias com significado, dos meus primeiros amores, deixa-me sempre profundamente emocionado. Mais uma vez, procuro as raízes que perdi…”.</em><br /><br />E quem pode viver sem raízes ? É preciso o trabalho do arqueólogo, do paleontólogo, do geólogo, para voltar a aprender a ler as sucessivas camadas que compõem a realidade de Portugal, o unto, o sebo, a epiderme dos portugueses: um coração talhado na pedra, a pedra, o chão, a sombra, a penumbra, as castanhas quentes e boas, o silêncio, a cruz, o mistério, o profano e o sagrado,<br /><br /><strong>4.</strong> Também nada tem de fotojornalismo o olhar de Josef Koudelka… Aqui não há mais tropas, tanques, botas a esmagar a <em>primavera de Praga</em>, os cravos checos. Aqui já não há império, nem do mal nem do bem. Apenas uma paisagem calcinada pelos incêndios que lavram desde o 25 de Abril de 1974 e que nunca mais se extinguiram. Portugal está a arder em fogo lento. Portugal já ardeu. Portugal é consumido por uma trágica paixão. Foi a mensagem que eu li nas legendas que podiam ser em checo ou noutra língua qualquer, desde que falada pelos humanos: <br /><br /><em>“Passei seis semanas em Portugal. Viajei de norte a sul, de este a oeste. Segui um caminho que eu próprio tracei. Tentei ver o máximo. Fiquei surpreso. Com o que Portugal mudou desde os anos setenta. Mas eu também mudei”</em> (Josef Koudelka).<br /><br />Todos nós mudámos, camarada. E, connosco, Portugal, a Europa, a tua terra, o mundo … Mas em 1979, cinco anos depois do poder ter sofrido o risco de ter caído na rua, o que atrai o fotógrafo é a Ladeira do Pinheiro, a santa, a <em>Procissão dos milagres</em>, o Portugal no seu pior, o Portugal sacro-profano (Bruno Barbey, n. 1941).<br /><br /><strong>5.</strong> Mas se o Portugal não tem <em>raça</em> nem <em>fotogenia</em>, tem-nas, uma e outra, os ciganos, as minorias. Registe-se as cenas de um casamento cigano, em 1998 (Bruce Golden, n. 1946). Há ainda o olhar, eslavo, russo, de Georgui Pinkhassov (n. 1952), sobre o Barro Alto, o Chiado, Alfama (1998), a Lisboa saloia, mourisca, judaica, cristã, cristã velha e cristã nova, exótica, pitoresca, labiríntica, que sempre seduziu o olhar do outro, o estrangeiro, desde os francos, os cruzados, o Bráulio no Séc. XVI ou o Byron no Séc. XIX.<br /><br /><strong>6.</strong> Afinal, o único núcleo temático desta mostra (decepcionante, nalguns casos; provocadora, irritante, estimulante, noutros) que se pode qualificar de <em>fotojornalismo</em> propriamente dito é o do 25 de Abril de 1974. Portugal desperta a curiosidade (romântica ? <em>voyeurista</em> ? interesseira ?) dos fotógrafos e de alguns revolucionários profissionais, sem esquecer os perdedores do Chile de Allende, da França do Maio de 68, da contestação à guerra do Vietname…<br /><br />Guy de Querrec (n. 1941), Jean Gaumy (n. 1948) e Gilles Peress (n. 1946) são os três fotógrafos da Agência que estão de serviço ao Portugal do PREC de 1974/75.<br /><br />A fotografia que melhor retrata os anos sombrios de 1976, tão sombrios como os de hoje, tão sombrios como o <em>day-after</em> de todas a s euforias, de todas as orgias sociais, de todos os orgasmos colectivos, em todas as épocas e sociedades, ainda é a de Koudalka, a do homem, maneta, que sai do mar, enquanto uma criancinha berra ao colo da mãe que teima em levá-la ao banho.<br /><br />O <em>Portugal futuro</em>, parafraseando o Ruy Belo, em confronto com o do passado, que acabava de ser liquidado… Confronto ? Nem isso, há um Portugal que sai de cena, o maneta, e outro que entra… Medo de entrar na água ? Mais do que medo, direi que é pânico. O pânico de ter lidar com o futuro, as suas oportunidades e ameaças.<br /><br /><strong>7.</strong> Thomas Hoepker conheceu o Portugal dos anos 60. Um certo Portugal, o da minha adolescência. Trás-Os-Montes que eu só conheci mais tarde. Quem viajava nessa época ? Por que estradas ? <em>A salto</em>, para França, por terras de Espanha. Há uma revolução silenciosa em marcha, que nenhum fotojornalista da Magnum captou. Mas também se viajava de comboio, pela calada da noite, até ao barco que nos esperava no cais de Alcãntara ou da Tocha Conde de Óbidos. Destino: o Ultramar, Angola, a jóia da coroa, depois da perda dos brasis, das índias. Mas também a Guiné ou Moçambique.<br /><br />Em 1964, é ainda o que resta do Portugal rural, pobrezinho, mas feliz q.b., - <em>pobrete mas alegrete</em> - tão bem retratado na fotos do casamento popular ou do latifundiário, à mesa, sozinho, como um cão. Ou ainda do <em>fascismo soft, </em>serôdio, tão podre que irá cair da cadeira com o seu velho criador, uns anos depois. Ainda em 1964, os padres (católicos, não há outros) entronizavam as criancinhas nos ritos e ritmos patrioteiros da Mocidade Portuguesa. Que a Pátria (n)os chamava: “Para Angola, rapidamente e em força!”…<br /><br />Cartier-Bresson e Inge Morath tinham fotografado os portugas de 1955, o Portugal ronceiro e engravatado do salazarismo, recauchutado e recuperado pela NATO, três anos antes do furacão chamado General Sem Medo:”Obviamente, demito-o”.<br /><br />Os fotógrafos da Magnum tinham mais que fazer do que documentar o simulacro de eleições livres para a presidência da <em>república das bananas</em>. A estética do realismo social fixa, enquadra, recorta, emoldura, aquilo que era o Portugal <em>very typical</em> do Secretariado Nacional da Propaganda (mais tarde, Informação), ainda e sempre pela batuta do António Ferro. A Nazaré, o Toinho, de pé descalço, a Maria das sete saias… É ainda e sempre esta pobreza envergonhada dos pobres envergonhados que um dia ainda ousaram sonhar ser donos do mundo.<br /><br />Paralelamente à exposição, um vídeo (uma reportagem que passou na RTP há alguns anos) sobre os documentários (quatro dezenas) que foram feitos por estrangeiros sobre o PREC (o período que vai do 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975). Vários dos jornalistas e realizadores são entrevistados: Robert Kramer, Thomas Harlan… Já o tinha visto na altura. Mas gostei de o rever.<br /><br />Registo a a intervenção do cineasta Thomas Harlan, que filmou o processo de ocupação da Torre Bela, e que vem falar em <em>suicídio </em>das forças armadas portuguesas. Nunca se tinha visto isso. Uns meses antes, no Chile, um exército de estrutura prussiana, esmaga Allende e subjuga o seu próprio povo. Esse suicídio, a ter acontecido, aconteceu ou começou a ser preparado, lenta mas inexoravelmente, na Guiné. No meu tempo, 1961/71... <br /><br />Esse suicídio (colectivo, institucional), a ter acontecido, aconteceu ou começou a ser preparado, lá em baixo, na Guiné. Mas a Magnum nunca esteve lá, com os seus fotógrafos, nessa obscura Guiné, província portuguesa, antes colónia, hoje República... da Guiné-Bissau...<a href="http://www.magnumphotos.com/cf/Home_MAG.aspx"></a>. Não estava na Guiné para testemunhar o princípio do alegado suicídio das Forças Armadas Portuguesas. Só Deus pode estar em todo o lado... Mas nessa época também Ele devia andar muito distraído.<br /><br />_________<br /><br />(1) Há uma outra versão, publicada originalmente em 24 de Julho de 2005<br /><a href="http://blogueforanada.blogspot.com/2005/07/socioblogia-xvii-espelho-meu-ou-os.html">Socio(b)logia - XVII: Espelho Meu... ou os portugas vistos pelos fotógrafos da Magnum </a>(Luís Graça)Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-55078501403850486362007-11-23T17:45:00.000Z2007-12-01T15:28:03.527Z(Pré-)Textos (1) - Crónica dos dias líquidos<a href="http://bp3.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R0m6EMLgEnI/AAAAAAAAGYw/OepFUSzq7fA/s1600-h/Peniche_Ze_Antonio_Junho_2006_LG_DSC00752.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5136841431144469106" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_pMkPOXBWOec/R0m6EMLgEnI/AAAAAAAAGYw/OepFUSzq7fA/s400/Peniche_Ze_Antonio_Junho_2006_LG_DSC00752.JPG" border="0" /></a> Peniche > Junho de 2006 > José António Boia Paradela, com o filho Jorge.<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça </a>(2005). Direitos reservados.<br /><br /><br />Prefácio ao livro de Ábio de Lápara, <em>Uma Ilha no Nome: Pequena Crónica dos Dias Líquidos</em>. Lisboa: edição de autor, 2007, 77 pp. (Impressão: Critério - Impressão Gráfica Lda). Ábio de Lápara é o o pseudónimo literário de José António Boia Paradela, natural de Ilhavo, onde nasceu em 1937. Arquietcto, é o sócio-gerente da empresa <a href="http://www.hotfrog.pt/Empresas/Pal-Planeamento-e-Arquitectura-Lda">PAL - Planeamento e Arquitectura Lda</a>.<br /><br /><br />É num cenário pré-apocalíptico, mas perfeitamente verosímil, de destruição da orla costeira devida à progressiva subida das águas do mar, que se desenrola este conto – ou quiçá novela - , sob o título <em>Uma Ilha no Nome</em>… Prefiro simplesmente chamar-lhe <em>narrativa</em>.<br /><br />Pela temática que lhe está subjacente – a morte, o mal escatológico, o pecado, a condenação – faz-me lembrar romances como <em>A Peste</em>, de Alberto Camus, ou o <em>Ensaio da Cegueira</em>, de José Saramago. Tem também ressonâncias da tragédia grega e, no mínimo, poderia dar uma belíssima peça do teatro português.<br /><br />A originalidade (e o talento) do autor (ou não fosse ele arquitecto, de formação e profissão) consistiu em ultrapassar a questão do género ou ter criado um género novo, ao incorporar na sua narrativa o coro dos que se expressam através da palavra muda dos pichadores e grafiteiros das nossas cidades...<br /><br />Eles funcionam, de algum modo, como o coro da tragédia grega, invectivando os deuses, causticando o poder, contestando a (des)ordem estabelecida… No palimpsesto, mil vezes escrito e reescrito, o narrador vais buscar pérolas e pérolas de sabedoria, que vão pontuando e secundando o discurso dos penitentes, reunidos na Assembleia Final do Tempo:<br />- A saudade, mano… a nossa última riqueza! Porque a lembrança é a fonte de onde parte toda a riqueza….<br />- <em>We are born to loose everything, everytime and nothing at all</em>.<br />- Não faças sempre a mesma pergunta. Apenas luta por uma resposta diferente.<br />- Mudei a passagem para ir para a outra margem, esperando que o futuro não seja uma miragem…<br /><br />O que o nosso querido Zé António escreveu, ao quilómetro 70 da sua árdua, mas generosa e bem sucedida caminhada da vida, foi nem mais nem menos do que um belíssima e comovente regresso ao passado, à sua infância, à sua ilha, à sua origem ilhavense… É também a redescoberta da sua/nossa insularidade e da situação-limite que é a própria vida, cercada de sinais de fragilidade, de solidão, de morte e de finitude por todos os lados…<br /><br />Além do narrador, há um <em>alter ego</em> – Irineu – ou mais do que um – seguramente, o Ábio – e uma plêiade de personagens que ainda têm ou tiveram carne e osso:<br /><br />O Avô Materno de Ábio, mais conhecido como <em>O Valente</em>, sepultado na Praia da Tijuca; o Pai de Ábio, marinheiro com 12 anos; a Avó materna, a mãe Rosa… Sem dúvida, o núcleo da sua intimidade, do seu doce lar… Como o pai, sempre ausente e sempre presente, gostava de dizer: “O mundo todo não vale o meu lar”…<br /><br />Mas há também outros homens e outras mulheres ilhavenses, recriados pelo autor, que fazem parte desta galeria de memórias: O Mestre Zé, marinheiro; o Manuel da América; o Sacerdote Manuel, cego; o Sant’Ana, merceeiro e chefe dos escuteiros; o Ismael, o poeta, amigo dos gatos, funileiro, contador de estórias; o João Bocanegra, mais conhecido entre o povo como o Trampolineiro, homem de muitas falas e poucos saberes; a Rosa Cravo, a oficiante do Templo de Vénus; a Joana Paciência, vendedeira de peixe, matriarca, mãe de muitos filhos espalhado pelo mundo….<br /><br />Criado no matriarcado, cercado de mulheres e das suas recordações, Ábio faz, o entanto, da figura do pai a mais bela evocação da narrativa:<br />- Estávamos todos em casa, isto é, ele não estava no mar, que é como quem diz, sabe-se lá onde…<br /><br />Narrativa, é o termo mais exacto: é uma tocante narrativa que se lê de um ápice e por onde perpassa a memória de um povo, de um colectivo: povo das matas costeiras, gentes da areia, povo das águas, homens do bote, pescadores e marinheiros da Terra Novo… Mas também a memória dos lugares da infância: o Vale Central, a Gândara, o Vale das Padeiras, a Laguna, o Mar, sempre o Mar, atraindo e repelindo as gentes tal como Pátio dos Ressoeiros atraía e repelia os adolescentes…<br /><br />Não se pense que é uma narrativa passadista ou pessimista… No final, Irineu (re)descobre o anátema da ilha… no nome, mas também (re)descobre que faz parte de um vasto arquipélago , e que um ilhéu, mesmo quando deixa a ilha, nunca destrói as pontes, o cordão umbilical que o liga ao passado e ao futuro…<br /><br />Zé António, ao quilómetro 70, já não precisavas de provar nada, nem muito menos de fazer jus à ironia queirosiana do Zé Fernandes em relação ao seu príncipe, o Jacinto de A Cidade e as Serras (“Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem”…). Os teus amigos já conheciam e apreciavam o teu talento criativo, mas agora tramaste-os, deixando-os com água no bico, à espera da próxima surpresa…<br /><br />Fica, desde já, marcada na agenda uma próxima paragem ao quilómetro 71. E até lá os meus duplos parabéns, ao jovem escritor e ao veterano corredor de fundo! Escusado será dizer, para mim e para todos nós, quanto é grande o privilégio de te ter como amigo!<br /><br />Luís GraçaLuís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-14193932193749907152007-11-12T16:59:00.000Z2007-11-25T15:33:38.725ZBlogantologia(s) II - (60) Obsessivamente o mar...<a href="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Rzw-KMLgCYI/AAAAAAAAGFk/WopsL4Bzy3c/s1600-h/Lisboa_Rua+de+São+Bento_Grafiti_12Nov07_LGDSC07604.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5133046020084599170" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Rzw-KMLgCYI/AAAAAAAAGFk/WopsL4Bzy3c/s400/Lisboa_Rua+de+S%C3%A3o+Bento_Grafiti_12Nov07_LGDSC07604.JPG" border="0" /></a> Lisboa > Rua de São Bento > Grafito > 12 de Novembro de 2007 > "Vida de Cão"...<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados<br /><br /><br /><br />Obsessivamente o mar<br />da tua infância.<br />E as criaturas que o povoavam:<br /><br />A Sereia<br />e a sua melopeia,<br />o seu canto de cigana,<br />fatal,<br />a sua rede,<br />onde afogava os seus pobres amantes,<br />depois de os arpoar com o seu tridente,<br />como se fossem lagostas suadas<br />nas mãos da chefe de cozinha;<br /><br />A Baleia Azul, com a sua enorme bocarra,<br />que te transportava no ventre,<br />qual submarino,<br />até os mais recônditos e inóspitos lugares<br />do centro da terra em fogo;<br /><br />O monstro, o terrível Adamastor,<br />que aterrorizava os teus pobres patrícios e parentes,<br />os Maçaricos de antanho,<br />marinheiros e pescadores,<br />agrilhoados ao cavername das caravelas;<br /><br />A feiticeira Atlântida,<br />a cidade de som e luz,<br />que sempre fascinou os pobres povos ribeirinhos;<br /><br />O Pirata de Perna de Pau e Cara de Mau,<br />que desembarcava na costa,<br />incendiava, estripava, matava, violava…<br /><em>Ou comes A sopa<br />ou Eu chamo o Pirata de Perna de Pau…</em>;<br /><br />A Passarola Voadora<br />que te catapultava para o Novo Mundo,<br />para os paraísos tropicais,<br />os canibais,<br />os praias de palmeirais e de corais,<br />os macacos e os leões;<br /><br />O Búzio Gigante,<br />que podia ser o teu ursinho de peluche,<br />mimado,<br />e que era também o teu carrocel marinho,<br />alucinante<br />e alucinado;<br /><br />E por fim o Moínho do Tio Xico Marteleira<br />que te fazia mover as ondas<br />e regulava as marés…<br />e os teus sonhos de criança<br />e os teus pesadelos<br />nas noites de invernia.<br /><br />Ah!, como o mundo era perfeito<br />Na tua infância.Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-17647097950526185662007-11-05T00:30:00.000Z2007-11-05T00:55:28.678ZBlogantologia(s) II - (59): Hoje é dia mundial de qualquer coisa...<a href="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Ry5oispTb9I/AAAAAAAAFxg/7Ayqywdp5hU/s1600-h/Lisboa_Belem_Proibicao.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5129151970930814930" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Ry5oispTb9I/AAAAAAAAFxg/7Ayqywdp5hU/s400/Lisboa_Belem_Proibicao.JPG" border="0" /></a> Lisboa > Belém > Sinal de proibição...<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados.<br /><br /><br />Hoje é dia mundial de qualquer coisa,<br />mesmo que o mundo não tenha grande coisa<br />para comemorar…<br /><br />Hoje, por acaso,<br />é Dia Mundial dos Museus,<br />dia 18 de Maio.<br />De todos os museus,<br />sem excepção,<br />incluindo os museus dos horrores,<br />das figuras de cera,<br />dos holocaustos,<br />das espécies extintas,<br />dos instrumentos de tortura,<br />da guerra,<br />da paz,<br />dos escravos e dos senhores,<br />do cinema e dos seus imortais<br />das alterações climáticas,<br />da electricidade,<br />da escravatura,<br />da psiquiatria,<br />dos insectos sociais,<br />do campo e da cidade,<br />das doenças sexualmente transmissíveis,<br />dos males de amor,<br />das guerras coloniais,<br />dos leopardos e das hienas,<br />de Sade & Masoch,<br />de Deus & do Diabo.<br />E até dos museus dos museus<br />e dos seus directores,<br />dos seus vícios públicos e privados,<br />dos seus mecenas,<br />e das fundações<br />do bem e do mal<br />que aparecem em títulos de caixa alta<br />no jornal…<br /><br />Adoro museus,<br />adoro o espectáculo do mundo musealizado,<br />das cabeças pensantes mumificadas,<br />e sobretudo nunca perco uma borla<br />no Dia Mundial dos Museus.<br /><br />Quantos dias mundiais de qualquer coisa há no ano ?<br />Não sei, talvez 365 dias,<br />ou 366 nos anos bissextos.<br />Ou até mais,<br />porque há dias que já dobram<br />ou se desdobram<br />em efemérides…<br />Sei que hoje é Dia Mundial dos Museus,<br />de todos os museus.<br />Incluindo o Museu da Vergonha,<br />da Coragem e do Medo,<br />do Etnocídio,<br />da Intifada,<br />do Gulag,<br />do Vale dos Caídos,<br />dos degolados,<br />dos Fuzilados contra a Grande Muralha<br />da China,<br />da Florence Nigthingale,<br /><em>the lady with the lamp</em>,<br />do Fado e da Guitarra,<br />e dos Furacões Tropicais<br />que devastam a má consciência ecológica<br />da Casa Branca.<br /><br />Mas hoje também é,<br />por ironia ou coincidência,<br />e para insulto à nossa inteligência<br />o Dia das Raças Indígenas da América,<br />mumificadas,<br />escalpelizadas.<br />pregadas na parede por alfinetes.<br /><br />Li isso algures<br />num sítio que tem ressonâncias bíblicas,<br />escatológicas<br />e messiânicas,<br /><a href="http://www.aultimaarcadenoe.com/">A última arca de Noé</a>.<br />Podia ser o último comboio.<br />O último avião.<br />O último barco.<br />O último aviso à circum-navegação.<br />A última <em>chance</em>.<br /><br />Fico a saber que há meses do ano<br />mais ecológicos do que outros…<br />Por exemplo, o princípio do ano<br />não é muito amigável para o ambiente,<br />pelo menos no Brasil<br />(cujo Estado, dizem, não manda na Amazónia<br />nem nas favelas,<br />nem nos bandos armados<br />que ditam a lei e a ordem…).<br />E depois há que distinguir entre<br />dias locais,<br />regionais,<br />nacionais,<br />internacionais<br />e mundiais…<br />E será que já há Dias Globais de Qualquer Coisa ?<br />Não sei, confesso a minha global ignorância…<br /><br />Em Fevereiro, dois, é o Dia Mundial das Zonas Úmidas<br />(com ou sem H,<br />o que para a Floresta é irrelevante)<br /><br />Em Março, já os dias são mais compridos e generosos:<br />temos o Dia Nacional do Turismo (2),<br />o Dia Internacional da Mulher (8),<br />o Dia Internacional das Florestas (21),<br />o Dia Mundial da Água (22)…<br />Mas também o Dia do Meteorologista<br />ou Manda-chuva,<br />como dizemos no Velho Continente (23).<br />Enfim, temos até um Dia do Cacau (26),<br />não do dinheiro, mas do verdadeiro cacau<br />que fez alguns milionários e milhões de pobres.<br />O Dia do Cacau, no Brasil,<br />celebra-se na véspera<br />do Dia Mundial da Juventude (27).<br /><br />Em Abril, tomem por favor boa nota do sete,<br />na vossa agenda-planning de executivos,<br />porque é Dia Mundial da Saúde.<br />E um semana depois<br />o Dia da Conservação do Solo (15),<br />bem como do pobre Índio (19)<br />e do paupérrimo ou depauperado Planeta Terra (22),<br />finalizando a maratona das comemorações<br />no Dia da Educação (28),<br />tão pouco ou nada ambiental…<br /><br />Não sei explicar se o Índio<br />é o que está em vias de extinção<br />ou o Índio, escalpelizado, morto e enterrado,<br />depois da chegada ao Novo Mundo<br />do idiota que acreditava ter chegado à Índia<br />e que hoje tem nome de praças<br />e estatuária pomposa<br />por tudo o que são cidades hispânicas.<br /><br />Fica bem um dia do Dia do Sol<br />em Maio, três,<br />que no hemisfério norte era o Maio Florido,<br />mas é uma ternura terem pensado<br />no Dia do Engenheiro Cartógrafo (6)<br />e guardado o 10 para o Dia do Guia Turístico,<br />o simpático, sorridente e super-herói<br />guia turístico.<br />Eu sou fã dos guias turísticos<br />que nos tratam como crianças crescidas,<br />idiotas,<br />em férias,<br />nos seus exóticos países,<br />em alegres e despreocupadas excursões,<br />às vezes escoltadas por gorilas da cidade….<br /><br />Segue-se a treze do Dia do Zootecnista,<br />que eu não sei exactamente o que faz,<br />mas que presumo ter a ver com zootecnia,<br />com engenharia da reprodução animal,<br />com manipulação,<br />com engorda…<br />E a 29 o Dia do Estatístico<br /><em>ex-aequo</em> com o Geógrafo<br />e, por fim , a 30, o Dia do Geólogo.<br />O 18, já vimos, é o Dia Mundial dos Museus<br />e lá na Terra de Vera Cruz<br />o Dia das Raças Indígenas da América...<br />E eu a pensar que o conceito de raça era racista<br />e não existia mais,<br />abolido por ser politicamente incorrecto…<br />Afinal, há um dia das raças,<br />caucasianas,<br />semitas,<br />asiáticas,<br />americanas,<br />africanas…<br />Por fim, a 31, a fechar o Maio,<br />o Dia Mundial do Combate ao Fumo,<br />passivo, assertivo, activo, proactivo…<br /><br />O Junho é, por excelência,<br />o mês mais ecológico do calendário.<br />Senão vejamos:<br />De 3 a 8 é a Semana Mundial do Meio Ambiente;<br />a 5, o Dia da Ecologia/ Dia Mundial do Meio Ambiente,<br />a 8, o Dia Mundial do Oceano (não sei qual deles),<br />a 17, o Dia Mundial para o combate da Desertização<br />e da Seca<br />sem esquecer (por muito que nos custe)<br />o Dia Nacional do Combate às Drogas (26)…<br /><br /><br />Em Julho as corporações ainda não foram de férias,<br />depois de celebrarem<br />a 11 o Dia Mundial da População<br />e a 17 a Protecção das Florestas…<br />A 12 é o Dia do Engenheiro Florestal<br />e, a 13, Dia do Engenheiro Sanitarista.<br />Enfim, não convém esquecer<br />o dia do pobre do agricultor,<br />a 28.<br /><br />No mês de Agosto,<br />está-se a banhos,<br />no Hemisfério Norte<br />mas, pelo menos no Brasil,<br />ninguém se esqueça<br />do Advogado, a 11,<br />enquanto o 14 é dedicado ao Combate à Poluição<br />e o 17 à defesa, presumo, do Património Histórico<br />Não fica mal, a 21, falar da Habitação<br />e da sua crise,<br />e dos flavelados,<br />e dos flagelados,<br />ou das vítimas da economia do quarto mundo,<br />que é a do crime,<br />seguida a 27 pelo Dia da Limpeza Urbana<br />a 28 o Dia da Avicultura<br />e, por fim, a 29 o Dia Nacional do Combate ao Fumo.<br /><br />O Septembro (ou Setembro, sem pê)<br />é um mês bem preenchido,<br />em matéria ambiental.<br />Escrevam isso na agenda:<br />Dia do Biólogo (3),<br />Dia da Amazónia (5),<br />Dia Mundial da Alfabetização (8),<br />Dia Internacional da Preservação da Camada de Ozônio (16)<br />(ou Ozono, para o lusófono de Lisboa)<br />e a, 21, Dia da Árvore.<br />(espero que com força, não com forca).<br />Por fim, temos de 21 a 27<br />a Semana Nacional da Fauna<br />com destaque para o Dia de Defesa da Fauna (22),<br />que vai decorrer paralelamente<br />ao Dia do Técnico Agropecuário.<br /><br />Em Outubro não sei como vamos arranjar tempo<br />para celebrar<br />o Dia da Natureza que é simultaneamente<br />o Dia Mundial dos Animais (a 4),<br />dando início à Semana de Proteçção aos Animais (4-10)<br />sendo o 5 dedicado ao Dia das Aves,<br />incluindo as Aves do Paraíso,<br />vaidosas,<br />multicolores,<br />canoras…<br />A 12, temos o Dia do Agrónomo<br />mas também o Dia do Mar ,<br />seguido, a 14, Dia Internacional<br />para a Redução dos Desastres Naturais…<br />É uma agenda pesada<br />que inclui a 16<br />o Dia Mundial da Alimentação<br />a par do Dia da Ciência e da Tecnologia,<br />o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza (a 17)<br />e, já agora, Dia das Nações Unidas – ONU ( a 24).<br /><br />Chegamos a Novembro,<br />e damos conta de que o ano passou<br />depressa e mal<br />e que ainda falta comemorar<br />o Dia Nacional da Ciência e da Cultura (5),<br />o Dia Mundial do Urbanismo (8)<br />o Dia do Urbanismo (9)<br />o Dia do Rio (23)<br />e, por fim, a 30, Dia da Reforma Agrária/ Dia do estatuto da Terra,<br />ou da terra a quem a trabalha…<br /><br />Em plena euforia do consumismo natalício,<br />temos em Dezembro<br />o Dia Nacional do Pau Brasil, a 7,<br />o Dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos,<br />assinada em 1948,<br />e diariamente atropelada,<br />acoplado ao Dia Internacional dos Povos Indígenas, a 10,<br />mais o Dia do Arquitecto/ Dia do Engenheiro, a 11,<br />que um e outro estão condenados a entenderem-se…<br /><br />Passadas e repassadas as festas natalícias,<br />resta-me o Dia Mundial da Biodiversidade,<br />a 29.<br />Em 31 de Dezembro comenta o idiota do poeta:<br />- E eu a pensar<br />que havia um dia mundial da poesia<br />e que a poesia<br />também se festejava<br />ou comemorava<br />ou até se comia<br />ou muito simplesmente se dizia…<br /><br /><br />Lisboa, 18 cde Maio de 2007Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-15369876981907752482007-10-10T18:12:00.000+01:002007-10-11T14:12:47.765+01:00Blogantologia(s) II - (58): Tratamento VIC (Very Important Client)<a href="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/RusVHCtdnEI/AAAAAAAAErg/m2RFdzcxU6U/s1600-h/LG_Set2007_DSC05627_v3.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5110201412912782402" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/RusVHCtdnEI/AAAAAAAAErg/m2RFdzcxU6U/s200/LG_Set2007_DSC05627_v3.JPG" border="0" /></a> Eu, blogador, me confesso:<br />sei agora até que ponto sou um tecnicodependente.<br />Em boa verdade,<br />sou um pobre tecnicodependente.<br />Estive dois dias sem computador<br />e, imaginem!,<br />fiquei doente,<br />foi como se eu tivesse partido as pernas,<br />o mundo tivesse desabado,<br />a vida perdido o seu sentido.<br /><br />Eis a estória,<br />em síntese:<br />A placa gráfica do meu PC,<br />de topo de gama<br />(talvez a peça mais cara do meu brinquedo!),<br />bifou,<br />e o resto da máquina recusou-se a trabalhar.<br />O material é assim.<br />Neste mundo é o material que tem razão.<br />Aliás, o material tem sempre razão,<br />dizem os engenheiros.<br />Mas, eu, tecnicodependente,<br />é que não estive nada pelos ajustes.<br />Tive um ataque de nervos,<br />digno de um verdadeiro primata,<br />de um macho babuíno,<br />de um egocêntrico e miserável mandril.<br /><br />Triste episódio este,<br />ridícula situação a minha,<br />reacção pueril...<br />Um homem já não é mais mais o que era,<br />sobretudo depois de regressar vivo,<br />mas não incólume,<br />não impunemente,<br />da guerra (colonial).<br />É duro, mas tenho de confessá-lo.<br /><br />À parte este registo intimista,<br />deixem-me dizer-vos<br />que felizmente valeu-me,<br />nesta triste ocasião,<br />a pronta assistência do meu fornecedor<br />e sobretudo a amizade do João.<br />O meu PC estava dentro da garantia<br />e eu tive um tratamento VIC<br />(leia-se: <em>very important client</em>).<br /><em> </em>Por sorte, havia duas placas gráficas<br />do mesmo modelo e marca em armazém.<br />Mas por azar nenhuma delas funcionava.<br />Dizem-me que é um erro de produção num lote inteiro,<br />um erro de série.<br />Eu digo que é falha grave<br />uma falha que escapou ao controlo de qualidade<br />por parte do fabricante...<br />Enfim, à terceira tentativa lá se optou<br />por um novo modelo de placa gráfica,<br />de outra marca,<br />mas igualmente <em>made in China</em>.<br /><br />Podiam ter-me dito:<br />o seu PC vai para arranjar<br />e, quando estiver pronto,<br />a gente telefona-lhe.<br />Mas não, deram-me um tratamento VIC,<br />trataram-me como cliente muito importante,<br />ou simplesmente como cliente,<br />ou tão apenas como pessoa...<br /><br />Tenho pena de não poder publicitar aqui os seus nomes,<br />o da empresa<br />e a dos seus colaboradores<br />que me atenderam e resolveram o meu problema.<br />Em boa verdade,<br />era naquele momento<br />o meu pequeno problema existencial.<br />Mas a minha vontade<br />era mesmo elegê-los <em>os portugas da semana</em>.<br /><br />Devo dizer-vos que é gente do melhor.<br />E bem precisava este país de multiplicar o seu número<br />por cem.<br />Juntando mais 10 AutoEuropas<br />tínhamos muitos dos nossos problemas colectivos resolvidos.<br />Para já, tudo somado,<br />eram mais uns 150 mil postos de trabalho<br />com um significativo peso no nosso PIBezito,<br />graças ao seu considerável VAB<br />(leia-se: <em>valor acrescentado bruto</em>).<br /><br />Já que estou aqui hoje,<br />e para mais em maré de confidências,<br />direi que o que é bom no tratamento VIC,<br />é tu sentires mais do que cliente,<br />é sentires-te gente,<br />pessoa, de carne e osso.<br />Eu gostei de sentir-me gente esta manhã,<br />mesmo tendo perdido uma manhã da minha vida<br />à espera que resolvessem<br />o meu pequeno grande problema,<br />que o nosso problema é sempre<br />o maior problema do mundo.<br /><br />Sentir-se gente é uma coisa<br />que começa a faltar neste país.<br />Uma pessoa sentir-se gente,<br />alivia as dores,<br />do corpo e da alma<br />faz bem à nossa auto-estima,<br />diz o meu psicólogo<br />que passou a substituir o meu confessor<br />do tempo em que eu era menino e moço<br />e tinha fé,<br />esperança<br />e caridade.<br /><br />Quanto ao problema técnico<br />que causou a minha infelicidade durante dois dias,<br />ele é apenas um dos muitos efeitos perversos<br />da globalização.<br />Graças à mão de obra quase escrava da China,<br />a globalização operou este espantoso milagre<br />do embaratecimento do material electrónico,<br />incluindo os PC<br />e os respectivos periféricos.<br />Lembro-me do primeiro PC que comprei<br />há mais de um dúzia de anos...<br />Era um oito seis e troca o passo!<br />Custou-me os olhos da cara.<br />Hoje nem para peça de museu o queriam em lado nenhum.<br />Já foi para o lixo,<br />nem sequer para o ecoponto<br />(<em>Shame on you!)</em><br />depois de anos passados no limbo do sótão<br />das velharias.<br /><br />Deixem dizer-vos que me separei dele,<br />sem uma ponta de emoção:<br />estava velho, obsoleto, ultrapassado.<br />Foi para o sótão, foi para o lixo, e pronto!.<br />Foi tratado afinal como se tratam hoje<br />os velhos neste país.<br />Já o mesmo não aconteceu<br />à minha velha máquina de escrever:<br />esqueci o nome da marca e do modelo,<br />mas ainda hoje a recordo<br />com a ternura dos meus 17 verdes anos...<br />E que saudades do martelar seco das suas pequenas teclas!<br /><br />De qualquer modo,<br />protesto contra todas as formas de tecnicodependência,<br />seja a do carro,<br />do telemóvel,<br />da máquina fotográfica,<br />da escova de dentes,<br />do micro-ondas,<br />do multibanco<br />ou do PC.<br />Um dia o mundo desaba mesmo<br />e a gente não sabe sequer escrever a giz<br />no quadro de ardósia da nossa velha escolinha,<br />plantar umas pencas,<br />enterrar um morto,<br />cuidar de um vivo,<br />fugir a sete pés dos nossos predadores,<br />da peste, da fome e da guerra,<br />fazer um filho e pô-lo a medrar<br />nesta vida e neste mundo.<br /><br />É um cenário aterrador<br />mas perfeitamente verosímil.<br />A regressão<br />(económica,<br />social,<br />tecnológica,<br />política,<br />cultural,<br />moral,<br />humana...)<br />tem-se passado em muitos países à nossa volta,<br />nas nossas barbas,<br />da antiga Jugoslávia ao Iraque.<br />Perdi o contacto com as minhas amigas jugoslavas,<br />croatas e sérvias,<br />todas elas médicas.<br />Uma amizade que fiz em Valência<br />em 1991.<br />Estava eu para partir para Zagrebe,<br />para frequentar um curso de verão,<br />o primeiro curso europeu<br />sobre promoção da saúde,<br />quando eclodiu a guerra civil nos Balcãs.<br />Acabei por ficar o tórrido mês de Agosto<br />em Valência,<br />traduzindo de espanhol para inglês as más notícias<br />que nos chegavam da Jugoslávia.<br />Ironicamente,<br />em Valência ainda se faziam sentir,<br />na memória dos mais velhos,<br />as marcas cruéis e recalcadas<br />da guerra civil espanhola<br />de 1936/39.<br /><br />Passados estes anos todos,<br />perdi-lhes o rasto,<br />às minhas amigas jugoslavas,<br />uma delas sérvia casada com um bósnio...<br />E sobretudo tenho pudor em perguntar por aí<br />se elas ainda estão vivas,<br />se estão bem,<br />se não foram violadas,<br />fuziladas,<br />enterradas numa vala comum...<br />E se as encontrassse não saberia como perguntar-lhes,<br />olhos nos olhos,<br />se elas tinham conseguido voltar à vida<br />depois do pesadelo<br />que foi o desmembramento do seu país<br />e, em muitos casos, das suas vidas,<br />das suas famíliasd,<br />das suas rotinas,<br />das suas memórias,<br />da sua identidade...<br /><br />Rezo, ao menos,<br />para que elas tenham voltado a sorrir<br />e a ter esperança.<br />Mesmo sem computador, e-mail, webpage ou blogue.<br />Mesmo já sem saber rezar<br />como quando era menino e moço.<br />Pensar nas desgraças piores que as nossas<br />sempre alivia um pouco.<br />É safado dizê-lo ou pensá-lo,<br />mas alivia.<br /><br /><br />Originalmente publlicado em: Luía Graça & Camaradas da Guiné > Blogue-fora-nada > 8 de Janeiro de 2004 > <a href="http://blogueforanada.blogspot.com/2004_01_04_archive.html">Socio(b)logia - IV: A tecnicodependência </a><br /><br />Revisto em 10 de Outubro de 2007:<br />a pensar no sr. Carlos Pinto,<br />chefe de oficina da <a href="http://www.santogal.pt/">Santogal</a>,<br />a RTM, de Alfragide,<br />que me tratou como um VIC,<br />que me tratou como gente,<br />quando, desalentado, lá deixei o meu carro,<br />empanado...<br />Como é importante, para todos,<br />as empresas e os seus clientes,<br />a economia e o país,<br />terem pessoas como o João<br />(hoje posso acrescentar, da <a href="http://www.databox.pt/">Databox</a>)<br />ou o Carlos Pinto, da Santogal,<br />que nos sabem transmitir confiança,<br />diagnosticando o nosso problema<br />e mostrando que afinal<br />ele é importante<br />e que tem solução,<br />mas que, apesar de tudo,<br />nem tu nem o teu problema<br />são os mais importantes do mundo.Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-35089391270185558312007-10-10T08:37:00.001+01:002007-10-10T19:21:55.330+01:00Blogantologia(s) II - (57): Cais de partida(s)<a href="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Rw0YJYtyfXI/AAAAAAAAFRQ/lm1FbQ57iwo/s1600-h/Lisboa_Rocha_9Mar07_LG_DSC05337.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5119774900922514802" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/Rw0YJYtyfXI/AAAAAAAAFRQ/lm1FbQ57iwo/s200/Lisboa_Rocha_9Mar07_LG_DSC05337.jpg" border="0" /></a> <div><strong>Cais de partida(s)</strong><br /><br />Sempre detestei os cais<br />de partida,<br />as estações ferrovárias,<br />os terminais de autocarro,<br />onde há gente vulgar<br />com lágrima fácil ao canto do olho<br />e pombos debicando restos de comida.<br /><br />São sombrios e tristes os ares<br />das gares<br />como é sombrio e triste qualquer lugar<br />onde se parte<br />e reparte<br />e há sempre alguém que fica<br />com a melhor parte.<br /><br />Campo Grande,<br />Rossio,<br />Santa Apolónia,<br />Sete Rios<br />Cais de Alcântara…<br />Quem parte está a mais<br />e não conta na cidade<br />e só quem parte<br />leva saudade.<br /><br />Eu sei que tudo isto é à nossa escala,<br />liliputiana,<br />e que noutros sítios<br />há uma verdadeira tragédia humana<br />a correr, sem testemunhas.<br />Que Lisboa não é, ainda,<br />uma megacidade da quarta economia do crime,<br />nem pertence a um narco-Estado.<br /><br />Mas o drama da angolana,<br />com a sua pequena mala,<br />que quer ir para Freixo de Espada à Cinta<br />à procura do velho pai<br />que não conhece,<br />não pode deixar-me indiferente.<br />Nem o caso do nordestino brasileiro<br />que em Sete Rios julga ter entrada no paraíso.<br />Nem tão pouco do romeno<br />que reboca o meu carro<br />e que me contou a história, fantástica,<br />da avó e dos seus filhos,<br />fugidos dos nazis<br />e alimentando-se, meses e meses a fio,<br />nos Cárpatos,<br />do leite da única vaca que escapou à orgia da cruz suástica…<br /><br />Resta-me a grande nostalgia dos comboios<br />que nunca tive,<br />nem em brinquedos,<br />e que nunca sabotei,<br />porque nunca fiz parte da resistência,<br />e onde que nunca viajei<br />pela simples razão<br />de nem sequer passarem à minha porta.<br /><br />Menino e moço me levaram da casa de meus pais<br />para longes terras, Bernardim,<br />e talvez por isso<br />me seja hoje mais fácil chegar do que partir.</div>Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-28738876949980672932007-10-06T23:54:00.000+01:002007-10-10T08:42:07.591+01:00Blogantologia(s) II - (56): Irish people<a href="http://bp3.blogger.com/_pMkPOXBWOec/RwkkEotyeoI/AAAAAAAAFLY/_6kE7HTetCk/s1600-h/Paimogo_5Out2007_LG_DSC06099.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5118662113550826114" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_pMkPOXBWOec/RwkkEotyeoI/AAAAAAAAFLY/_6kE7HTetCk/s400/Paimogo_5Out2007_LG_DSC06099.JPG" border="0" /></a> Lourinhã > O forte de Paimogo, recém-restaurado, visto de longe, da Praia da Areia Branca. Uma silenciosa vigia contra, no passado, os corsários, os invasores e os contrabandistas e, nos dias de hoje, contra os especuladores imobiliários, o cimento armado, o alcatrão, os campos de golfe...<br /><br />Fotos: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados.<br /><br />Irish people<br /><br />Para os <em>dubliners </em>Richard Wynne e Robert Anderson<br /><br />Davam grandes passeios<br />pela praia<br />os irlandeses<br />ruivos<br />de cabelos brancos<br />e reformas douradas.<br /><br />Descobrindo o sul<br />o sal<br />o sol<br />o solstício do verão<br />num país onde o sul<br />o sal<br />o sol<br />o solstício do verão<br />se vendem a preço de saldo.<br /><br />A OTA aqui tão perto<br />diz o <em>outdoor</em> publicitário<br />e logo mais abaixo o deserto<br />e ao fundo o azul do Montejunto<br />e em frente o Novo Mundo<br />e a norte o manto protector<br />de Nossa Senhora de Fátima<br />garante o promotor<br />imobiliário.<br /><br />Ah!, Dublin e os meus gentis amigos <em>dubliners</em><br />fechando as portas ao vento<br />em Dezembro<br />no <em>pub</em> do James Joyce.<br /><br />Davam grandes passeios<br />no outono da vida<br />os irlandeses,<br />bem casados,<br />ruivos,<br />maravilhados,<br />realizados,<br />de cabelos brancos,<br />ao vento.Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-17041222.post-28553470666028256602007-10-04T21:59:00.000+01:002007-10-07T19:41:05.466+01:00Blogantologia(s) II - (55): À espera... de esperar<a href="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/RwVWXYtyeeI/AAAAAAAAFKI/esHjQPBl_UU/s1600-h/Praia_Areia_Branca_Burros_Anos_Trinta_LG_DSC05416.JPG"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117591511347919330" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://bp2.blogger.com/_pMkPOXBWOec/RwVWXYtyeeI/AAAAAAAAFKI/esHjQPBl_UU/s400/Praia_Areia_Branca_Burros_Anos_Trinta_LG_DSC05416.JPG" border="0" /></a> Lourinhã > Casal Charrua >> Anos 20 do Séc. XX > Os camponeses e os seus burros na festa do São João, 24 de Junho, no cruzamento para a Praia da Areia Branca, na estrada Lourinhã-Peniche... (A partir de uma velha fotografia afixada no Café do Manuel Marques, Banheiro... Com a devida vénia, ao dono da fotografia e ao fotógrafo desconhecidos).<br /><br />Foto: © <a href="mailto:lgraca@clix.pt">Luís Graça</a> (2007). Direitos reservados.<br /><br /><br /><strong>À espera… de esperar<br /></strong><br /><br />Que a mulher te seja fiel<br />E o carro fiável<br />E que nunca te falte nada,<br />São os votos eu que te desejo<br />A ti que andas na autoestrada<br />Da vida e da morte.<br />A ti que persegues o norte<br />A estrela polar<br />O mar<br />E que tens pressa de caminhar.<br />Boa viagem para todos os viajantes,<br />Qualquer que seja o seu modo de locomoção:<br />Almocreve<br />Condutor<br />Caminheiro<br />Pássaro errante<br />Turista<br />Meretriz<br />Pastor<br />Coveiro<br />Bombeiro<br />Guru<br />Asclepíade<br />Peregrino de Fátima<br />Terapeuta<br />Recolector-caçador<br />Vagabundo<br />Camionista<br />Demiurgo<br />Vendedor de sonhos<br />Beduíno<br />Barqueiro de Caronte<br />Nómada<br />Ninfa<br />Big brother<br />Conquistador<br />Soldado<br />EX-guerriheiro<br />Grafiteiro<br />Salvador de almas<br />Poeta<br />Globetrotter…<br /><br />Passam milhares de carros<br />Na autoestrada<br />A alta velocidade<br />Ao quilómetro 10 ponto 6<br />Da A-8<br />E eu à espera do clique do motor<br />Da assistência das Estradas do Atlântico<br />Do rebocador da ACP<br />Da irracional fé na ciência e tecnologia<br />Dos teutónicos<br />Da infectível confiança na democracia<br />Do autocarro do amor<br />Da boleia da sorte<br />Da solidariedade dos meus contemporâneos<br />Da alvorada do milénio<br />Da aurora boreal<br />Do furacão que me arranque as palas dos olhos<br />E o limpa-parabrisas da cegueira.<br /><br />À espera de esperar!<br />Desesperadamente…Luís Graçahttp://www.blogger.com/profile/02855689880579087551noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog