tag:blogger.com,1999:blog-138525702008-05-16T15:02:05.151+01:00Rosa, a púrpura guerreiraÉnenoreply@blogger.comBlogger35125tag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-87539104710936367762007-09-05T23:09:00.000+01:002007-09-05T23:11:04.440+01:00<div align="center"><span style="font-family:arial;">À suivre:<br /><br /></span><a href="http://rosapurarosa.blogspot.com/"><span style="font-family:arial;">rosa, pura rosa</span></a></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1147431076653442162006-05-12T11:50:00.000+01:002007-09-05T23:10:48.560+01:00<div align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/rosa.0.jpg"><span style="font-family:lucida grande;font-size:130%;"></span></a><span style="font-family:lucida grande;font-size:130%;"> </span><br /><span style="font-family:lucida grande;font-size:130%;"></span><br /><span style="font-family:lucida grande;font-size:130%;"><span style="font-family:arial;">As pétalas, </span></span><br /><span style="font-family:lucida grande;font-size:130%;"><span style="font-family:arial;">mais ou menos púrpura, </span></span><br /><span style="font-family:lucida grande;font-size:130%;"><span style="font-family:arial;">continuam, esporadicamente, </span></span><br /><span style="font-family:lucida grande;font-size:130%;"><span style="font-family:arial;">na </span></span><br /><a href="http://afundasao.blogspot.com/"><span style="font-family:arial;font-size:130%;">fundasão</span></a><span style="font-family:arial;font-size:130%;">.</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1138641920345474142006-01-30T17:24:00.000Z2006-01-31T10:23:32.110Zda espera<a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/hand-ausschnitt.jpg"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" height="295" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/hand-ausschnitt.0.jpg" width="174" border="0" /></a><br /><p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/640/hand-ausschnitt.jpg"></a></p><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Disse-lhe, à Rosa, que isto não lhe ficava bem, desaparecer assim sem se justificar perante quem a esperava.<br />Sem levantar os olhos da mesa, levantando apenas a mão que segurava o cigarro mais queimado do que fumado, disse-me:<br />“<em>Não me digas nada. Tem paciência. Estou a escrever um livro. O livro. Ou é este ou não será mais nenhum. Não me distraias, deixa-me conhecê-lo primeiro, assim, se o perder, saberei reencontrá-lo. Dizem que escrever um livro é como fazer um filho, mas isso é mentira, um livro dói na criação. Deixa-me estar</em>.”<br />E eu deixei. Dirigi-me para a porta. Antes de sair, contudo, virei-me para trás e vi a Rosa, essa guerreira de mil cores, dissimulada sob o fumo do cigarro que lhe ardia nos dedos, de cabeça baixa. Temi o seu fracasso. Por ela e por mim.</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Saí e fechei a porta. Devagarinho.</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1135610236902343652005-12-26T15:13:00.000Z2006-01-31T10:39:27.503Zda Lola Viola (ou de um presente de natal)<a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/010.jpg"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/010.jpg" border="0" /></a><br /><div align="justify"><span style="font-size:130%;">"Ninguém sabe que és linda e que eu te desejo. Desejo-te como namoro um quadro de Dali, reproduzido num livro colorido, desejo-te como seduzo o Boris Vian quando releio a Espuma dos Dias em tradução duvidável, desejo-te como quando escrevo cartas, que nunca mandarei, para o José Saramago, dizendo-lhe como me apaixonei pelas suas mãos brancas e pequenas e me apaixonei por todas as mulheres que ele inventou e que são sempre eu. És linda e eu desejo-te. Mas não sei amar uma mulher como aprendi a amar os homens. Não conheço o teu corpo. Conheço o meu e imagino que és o meu espelho. Possuis a ternura das coxas macias, redondas e doces, em lençóis perfumados. Acaricias as mamas cheias e quentes nos dias de tesão e de lua cheia. Afagas o rosto, os lábios, os olhos com gestos suaves ao espelho onde nos vês. Tocas a melodia certa, quando te masturbas, como pianista virtuosa. És linda e eu desejo-te. Porque és a outra metade de mim. Como se tu e eu fossemos Sereias. Mulheres, metades, incompletas, plenas, peregrinas do prazer. Não sei amar uma mulher como aprendi a amar os homens. Mas és linda, e eu desejo-te."</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1134984621712728492005-12-19T09:26:00.000Z2005-12-19T09:30:21.740Zda metamorfose<div align="justify"><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/solidao.jpg"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/solidao.jpg" border="0" /></a> <br /><span style="font-size:130%;">Por vezes é como se fosse um estranho misto de mulheres, heterónimos de mim mesma. Quem me conhece? Quem sabe qual de todas sou eu? Que importa sabê-lo, de resto?<br />Quando me dava ao luxo de me dar mais com os outros, era como se tivesse esses outros catalogados. Uns para as noites de boémia, outros para o chá com Garibaldis a meio da tarde, outros para ter com quem rir, outros para ficar enroscada de pijama a falar até ser dia, outros para me acompanharem a concertos, outros a quem telefonar e que, como eu, gostavam de ficar horas esquecidas a falar de nada, outros para me acompanharem ao cinema, outros ao teatro. Nunca ninguém.<br />Hoje sou eu, Rosa, Maria, Eva, pouco importa, e os outros pouco espaço ocupam em mim. Tornei-me egoísta, desiludida, amarga, dizem-me alguns. Que sabem eles? Que sabem os outros de cada um de nós?</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120658213179677052005-11-23T14:56:00.000Z2005-11-23T21:36:04.736Zde outras memórias (3)<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/ph1571d.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/ph1571d.jpg" border="0" /></a></p><br /><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Acho que poderia apaixonar-me por ti, se tivéssemos tempo para isso. Que me dizes? Obviamente, estava a brincar. Não, não podes concordar assim comigo.<br />Deixa-me vestir o teu casaco, assim por cima da minha pele nua e marcada pelos teus beijos. Quantas mulheres já vestiram, assim nuas, este teu casaco? Vá, não há problema, posso dizer-te quantos casacos de homem já vesti, assim nua.<br />És bonito. Mas um homem não tem de ser bonito. A tua voz agrada-me e isso já joga mais a teu favor. Também são agradáveis os teus lábios na minha pele.<br />(...) Viste como a noite caiu sem que nos apercebêssemos? Não tens fome?<br />Gostei que ficasses a olhar-me enquanto tomava banho. O teu olhar agrada-me. Envolve-me.<br />Porque olhaste tão fixamente para mim, aliás, para a minha blusa? Achas que te enchem as mãos? E os sentidos? Não, não respondas. Encheram as mãos de alguém que me amou e isso bastou-me.<br />Sermos amados é bom. Faz-nos sorrir e caminhar a direito. Não sei se o amei, mas isso agora nada importa. Estou contigo e gostei que me fizesses amor. E gosto das histórias que me contas. Fala-me das mulheres que amaste. Quero saber se te faço lembrar alguma delas. Se algo em mim te transporta para alguma dor, para algum prazer passados. Fala-me de como as conheceste. Dos passeios que deram de carro e de mãos dadas. Da primeira e da última vez que fizeste amor com cada uma delas. Do que te diziam. De como te amaram. De como as choraste. De como as esqueceste. De como ficavas acordado para as veres dormir na tua cama. De como desviavas lentamente os lençóis para lhes descobrires a nudez completa, porque adormecida. Quando uma pessoa dorme está completamente exposta, indefesa, nua.</span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1131363080566080892005-11-07T11:29:00.000Z2005-11-07T11:31:20.780Z<div align="justify"><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/1083087006Picture009.jpg"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/1083087006Picture009.jpg" border="0" /></a><br /><br /><span style="font-size:130%;">Desculpa a má companhia que te fiz, Sílvia. Sabes, estes dias não me têm sido particularmente gratos. Tenho-me escondido nas minhas memórias, nos comprimidos que me ajudam a dormir mas não me ajudam a fugir aos pesadelos, aos terríveis medos, às más lembranças. Desculpa se te deixei sozinha ficando eu mesma mais sozinha. És minha amiga. Chegas e partes, mas quando estás, és minha, estás presente, disponível. Se te pedir, deixas a tua nova conquista pendurada para ficares a beber comigo, enroladas no mesmo cobertor e trazes-me chocolates.<br />Desculpa ter-te falhado, não ter estado acordada, ter-me escondido nos suores da minha cama, e ter aí recusado a tua presença, o teu calor. Desculpa se o meu sorriso já não brilha, se não me apeteceu sair contigo à noite ou de dia, se me perdi dentro de mim.<br />Quando voltares, estarei mais inteira, espero. Assim como espero que não desistas de mim.<br />Um beijo, amiga-amiga.</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120512969919522552005-10-28T22:30:00.000+01:002005-10-28T14:17:59.483+01:00da memória (3)<a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/22.jpg"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/22.jpg" border="0" /></a><br /><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><em>É o frio. O frio que se mete sob a pele, sob a nossa pele, e se instala, indecoroso e inconveniente. O frio que nos congela os movimentos, que nos transforma os pensamentos, que nos condiciona o desejo.</em></span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><em>Na rua, é como se não houvesse pessoas. Apenas bonecos, alguns mal articulados, e por mais que vagueie não consigo ver um homem que me apeteça imaginar sem roupa ou que me apeteça imaginar na cama, em movimentos absurdamente ritmados, nádegas contraídas, testa suada.</em></span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><em>É o frio. Indecoroso e inconveniente. Por debaixo da pele. Quase nos sentidos.</em></span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><em>A noite está gelada. O meu corpo também. Bebo vodka. Também ela gelada. Daqui por mais uns dois copos já poderei sair, iludindo o frio, passando pela sombra do homem que me espera mas que se esconde de mim. Sairei e encontrarei outros homens. E neles matarei o frio que toma conta de mim.</em></span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><em>Vou foder esta noite tantos homens quantos me quiserem. Até esquecer o frio. Até esquecer.</em><br /></div></span>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120657943868529162005-10-18T14:52:00.000+01:002005-10-18T22:33:49.560+01:00de outras memórias (2)<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/illusion6-1.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/illusion6-1.jpg" border="0" /></a></p><br /><br /><br /><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Às vezes escrevo canções. E cartas. Se tivermos tempo e me quiseres ouvir, posso contar-te uma quase história de amor resultante dessas cartas. Não olhes para mim assim. Há histórias que podem ser de quase amor. Ou, pelo menos, são de amor até um certo momento. Depois passam a ser histórias de desamor. Ou de desencanto.<br />Como menino que foste, suponho que não lias histórias de princesas que viviam felizes para sempre. Suponho que daí não passaste para as histórias de amor sem princesas, mas onde, ainda assim, as mulheres e os homens conseguiam ser felizes. Suponho que nunca te iludiste. Mas acredita que há bonitas histórias de amor. E de desamor.<br />Preferiria ter sonhado com naves espaciais e extraterrestres. Como é viver essas aventuras? Que leveza nos deixam? A da imaginação? A das viagens?<br />Conta-me como eras em menino. Passavas o teu tempo com construções que nunca estavam terminadas? Guerreavas? Tinhas um amigo imaginário? Eu nunca tive. Não precisei. Sempre procurei um certo tipo de solidão. Aliás, de isolamento. Diziam-me que eu tinha a mania que era superior. Mas não era nada disso. Era apenas selectiva.<br />Ainda hoje sou, com os homens a quem dou um pouco de mim. Pouco, sim. Dou-lhes apenas a minha pele. A pele é uma superfície, uma ténue capa, um revestimento, um sofá onde se está confortavelmente, mas onde não passamos de meras visitas.</span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1125926952475783062005-10-10T14:20:00.000+01:002005-10-10T11:29:20.556+01:00da despedida<a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/badviktor.jpg"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/badviktor.jpg" border="0" /></a><br /><div align="justify"><br /><span style="font-size:130%;">Lembras-te, Vítor?, eu tinha chegado a casa, vestia o meu vestido azul, aquele que me pedias que vestisse quando saíamos para jantar e que, ironicamente, eu despia em frente ao espelho por não me achar suficientemente elegante dentro dele. Nesse dia o jeito do meu cabelo, uma qualquer particularidade no olhar, a própria luz do dia, tinham-me reflectido no espelho de um jeito que não parecia o meu.<br />Vi-te sentado à minha espera, o teu sorriso irónico, a tua postura descontraída, o copo vazio no chão, junto aos teus pés.<br />Não corri a beijar-te, a sentar-me ao teu colo. Não te ouvi quando falaste comigo. Sentei-me um pouco afastada de ti. Descalcei as sandálias, arrefeci os pés no chão frio. Continuei a não te ouvir enquanto falavas comigo.<br />Nesse dia foi fácil deixar-te partir porque já tinha sido dolorosamente difícil decidir que te pediria que fosses.<br />Todavia, parecia-me ter, pela primeira vez, a certeza de quanto te amava.<br />Quando te aproximaste, quando te enroscaste a meus pés e as tuas mãos subiram pelas minhas pernas, por baixo do vestido azul de franjas na orla, a minha pele rejeitou-te. Porque te amava demais para que esse toque pudesse ser apenas mais um e porque me doías como unhas arrancadas. E doías-me tanto mais quanto desconhecias essa dor.<br />O meu amor por ti, vencedor das minhas fraquezas dominava-me e deixava que me dominasses, que me roubasses o sono e o sorriso e não afugentaste o meu frio quando to pedi porque confiavas na minha capacidade de sobrevivência.<br />Deixei-te ir com dor porque com dor te amei. Tentei rir-me quando tu próprio te rias do que dizias ser a dramatização da minha vida. Depois deixei de rir e tu fingiste não dar por isso.<br />Obviamente nada disso importa agora, que o último a sair fechou a porta.<br /></div></span>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120657691181353292005-09-30T14:48:00.000+01:002005-09-30T11:28:05.656+01:00de outras memórias (1)<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/Cabelosempe.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/Cabelosempe.jpg" border="0" /></a></p><br /><br /><br /><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Conta-me da cidade onde cresceste enquanto bebemos mais café. Fala-me da rua onde o amor te encontrou pela primeira vez. Da casa onde morou a primeira menina que te acelerou o coração. Fala-me dos caminhos por onde a bicicleta te levava, dos pássaros que perseguias de fisga no bolso das calças. Conta-me a tua primeira foda. Já te disse que as colecciono? Tenho-as todas anotadas num caderno. Todas as que me foram contando, claro, que eu também só tive uma primeira vez. Curiosamente é a única que conheço que não está anotada no caderno. Já me beijaste, posso contar-ta.<br />Pensávamos estar apaixonados, claro. Ele foi gentil. Deitámo-nos vestidos sobre a colcha da sua cama. Eu olhava o tecto do seu quarto onde tinha desenhado a carvão estranhas figuras metade homem, metade animal. Ardia um pau de incenso para mim. Ele não apreciava o cheiro, mas suportava-o. Ficámos deitados, lado a lado, sem nos tocarmos durante horas. Conversámos. Conversávamos imenso. Tínhamos a vida inteira para descobrir e as dúvidas sucediam-se. Os sonhos também. É bom sermos jovens e termos esperança. Acreditarmos no amor. Torna todas as coisas possíveis. Eu sabia de cor vários poemas desse homem que vês retratado aí à tua frente, ao lado da porta. O sexo existia, então, inevitavelmente aliado à poesia ou ao amor. De olhos fechados, citei-lhe os poemas que falavam de amor. Falavam de amor por um outro homem, mas isso não tinha importância. Era um amor como o que julgávamos sentir. Pleno. Intocável. Eterno. Como todos os primeiros amores. Como quase todos quando nascem. Só mais tarde soube que a poesia lhe fazia sono e agradeci-lhe ter-me ouvido. No amor também cabem estes pequenos sacrifícios, pensava eu.<br />Puxa mais o teu casaco. Começo a arrefecer e quero sentir-lhe o cheiro. Acende também um cigarro para mim, ajuda-me a recordar.<br />A chuva continua, reparas? Também chovia nessa tarde. Mas estava calor. Era a chuva tardia da primavera, não era uma tarde como a de hoje.<br />Ele falava-me das viagens que tinha feito com os pais, em pequeno e eu lembrava-me das suas ausências. Conheciamo-nos desde sempre, como podíamos amar-nos?<br />Fizemos amor quando devíamos percorrer os campos de mão dada, arreliando-nos ainda.<br />Apaixonei-me por ele, ou assim acreditei, quando, já despertos para a adolescência demos um dos nossos passeios pelo campo por detrás das nossas casas. Disse-lhe que tinha medo de gafanhotos. Ele, na sua sabedoria de mim, respondeu-me que apenas temia o arame farpado. Caí. Caí completamente e desesperadamente a seus pés. E na sua cama, pouco tempo depois. É tão fácil enganar uma mulher, não é? Basta estar-se atento àquilo que diz. As dicas surgem sem elas se darem conta e eles, inteligentes, agarram-lhes com unhas e dentes. Gosto de pensar que quando me seduzem não o fazem apenas porque é fácil, mas porque tenho alguma coisa de interessante. Tu achas que sou interessante? Minimamente? Apaixonar-te-ias por mim? Porém, deixa-me ser honesta, dou-te as dicas que te quero dar. Nem uma a mais, nem uma a menos. E depois desse primeiro amor, apenas me deixo seduzir quando quero. É sempre assim, não te parece? As pessoas apaixonam-se por quem querem, por quem lhes dá mais jeito. Sim, eu sei que há excepções, mas existem para confirmar a regra, ou não? Ou devo acreditar que o mundo está tão bem arrumado que os amores ou as paixões são correspondidos, na maior parte das vezes. E que me dizes de quem tão depressa esquece um amor fracassado?</span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120822483613741552005-09-26T12:34:00.000+01:002005-09-26T12:39:23.706+01:00na cama com o poeta<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/image01.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/image01.jpg" border="0" /></a></p><div align="justify"><br /><br /><em><span style="font-size:130%;">Quando ela ainda acreditava que o amor era como nos livros; quando ainda se sentia feliz por ter guardado a sua preciosa virgindade para o primeiro amor e não para o primeiro que lha quis roubar; quando ela ficava deitada com esse homem que foi um estranho mas primeiro amor; quando as tardes passavam quentes na rua e eles ficavam suados na sua cama, abraçados, por momentos em paz;<br /><br />ela gostava de tirar da estante um dos livros de poesia do Eugénio de Andrade. De lhe ler certas passagens, aquelas que ela ia sublinhando, descobrindo sempre mais uma imagem perfeita, sempre a frase certa, sempre o amor que queria que lhe dissessem (...) um dia.<br /><br />Com o passar do tempo, acabou por lhe ler todos os poemas. Aos retalhos. Esperando dele uma resposta à sensibilidade. Procurando nele o complemento para si mesma.<br /><br />Durante uns tempos amou o homem que escrevia aquelas palavras. Repetia-lhe o nome, baixinho: Eugénio. Deixando a volúpia encher-lhe a boca quando chegava à letra G. Mais tarde o poeta fez-lhe companhia. Foi sempre fazendo alguma companhia. Por causa do fracasso com as primeiras leituras de cama, como se o sexo se compadecesse dessas coisas, ela insistiu na tentativa durante alguns amantes. Quando ainda acreditava que o sexo não existia por si só. Quando ainda acreditava que o amor era como nos livros.<br /><br />(...) Morreu-lhe o poeta. E o amor está nos livros.</span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120643436701850342005-09-19T10:50:00.000+01:002005-09-19T10:21:43.826+01:00do simples bibliotecário<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/zille02.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/zille02.jpg" border="0" /></a></p><br /><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">A minha vida é simples, vulgar, nada fiz que mereça registo. Não tenho filhos nem jardins por mim plantados, e livros apenas os tenho emprestados pelo bibliotecário que me apalparia o rabo, se pudesse. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Tens a certeza que não queres ficar comigo?, poderia perguntar-lhe. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Pudesses tu ser a musa que inspiraria a minha vida e estaria agora a massajar-te os pés, responder-me-ia. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Aqui anoitece depressa, sem que eu tenha tempo de viver o dia, sem que eu tenha tempo de perceber o que poderia ter feito e não fiz. Aqui o sol aquece sem brilho nem cor e falta-me a tua presença, poderia dizer-lhe. Tenho a noite, mas passo-a sem ti, acrescentaria. E continuaria ainda, habituei-me à tua presença nos meus dias, às tuas mãos nas minhas, à tua voz no meu silêncio, ao teu calor no desalento dos finais de dia, quando arrefece. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Repito: fazes-me falta. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">E isto poderia ser amor. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Que está presente, dir-me-ia. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Mas ausente, responder-lhe-ia. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">E nenhum de nós estaria a mentir. Nenhum de nós mentiria e nenhum de nós diria a verdade. Porque ele estaria a pensar nas curvas do meu rabo, e eu nos [homens] que perdi e tive na minha vida. </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Onde está essa verdade completa, inteira, aquela que ninguém sabe, nem quem tem os olhos secos e as mãos grandes? </span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">A vida, esta que nos é possível, é a mais inglória de todas as tarefas. </span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120513171433227412005-09-14T22:36:00.000+01:002005-09-14T10:28:24.253+01:00da memória (2)<a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/211.JPG"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/211.JPG" border="0" /></a><br /><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Não se pode dizer exactamente que sinta a falta do Vítor. Mas gostava de me levantar a meio do dia, depois de beber o café forte que me levava à cama para me ajudar a recompôr de uma noite mal dormida e bem fodida. Depois, descalça e nua, com a caneca a aquecer-me as mãos, acercava-me da porta da casa-de-banho e ficava vê-lo barbear-se. Gosto de ver um homem barbear-se. Gosto de o ver em tronco nu, em frente ao espelho. Inclinado para a frente. Os rins hirtos. As nádegas contraídas. Gosto de lhe descer as unhas, suavemente, pela linha da coluna. Arrepiá-lo. Desconcertá-lo. Provocar-lhe um corte. Ligeiro. Gostava quando largava a lâmina e, ainda com espuma em parte da cara, me fodia por trás, magoando-me contra os frios azulejos da parede. Ou então, ficava simplesmente a olhá-lo. Os gestos precisos. O arranhar da lâmina a precisar de ser trocada. O seu ar ligeiramente aborrecido quando percebia que me tinha depilado com ela. Podia ficar a vê-lo. Apenas.<br /></span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1119391909928142302005-09-11T23:11:00.000+01:002005-09-11T19:46:07.120+01:00hoje não<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/233/6520/640/timida.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-TOP: #aaaaaa 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-BOTTOM: #aaaaaa 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/233/6520/320/timida.jpg" border="0" /></a></p><br /><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">percorri todas as moradas de uma avenida infinita</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">bati os dois lados do rio, interroguei os cafés</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">espiei passageiros com a tua imagem na mão</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">sentei-me numa esplanada, com um cigarro na boca</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">desistir não, nunca</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;"></span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">folheei-te em cada livro teu</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">despi personagens de encontro às paredes</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">tacteei-lhes o corpo em busca de sinais, coincidências</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">só gemidos, lamentos, desculpas</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">ninguém te viu</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">ninguém sabe de ti</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;"></span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">hoje não é um dia bom</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">não te encontrei</span></em></div><div align="justify"> </div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;"></span></em></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">(E se me tivesses encontrado? Poderias ter-me amado?)</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120643182756703592005-09-07T10:46:00.000+01:002005-09-07T10:24:23.646+01:00da cansada vénus<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/image011.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/image011.jpg" border="0" /></a></p><br /><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Estou cansada, acaba tu de me matar, tu que nunca me viste, que olhaste através de mim, que fixaste o teu olhar na imagem distorcida que criaste e que acreditas que sou eu. Acaba tu de me matar, tu que nunca acreditaste no meu cansaço, que nunca percebeste na minha insegurança e nos meus silêncios o meu grito, o meu apelo desesperado. Não me ouviste pedir ajuda, acaba agora de me matar, tu que me deixaste chegar ao abismo. Fá-lo de uma vez, fá-lo com um movimento seco, brusco e surdo, sem razões, sem argumentos, não me digas que me odeias, não me digas que me amas. Não me digas nada, tu que nunca me ouviste. Não venhas agora, porque estou desesperada, dizer-me que, finalmente, te apercebeste deste cansaço onde já não cabe dor nem esperança nem angústia nem voz nem nada. Cala-te tu, de uma vez. Cala-te cala-te cala-te que me dóis tanto quanto te amo e por isso te vais embora e me deixas à mercê dos ventos, na beira deste precipício. Guarda as tuas mãos nos bolsos, se não serviram para me puxar para ti, para me segurar em cada tropeção, em cada desequilíbrio. Deixa-me ficar aqui. Deixa-me beber até já não sentir este vento que me empurra. Vira costas. Entra no teu carro, põe a música alta, muito alta, e esquece-te de mim, porque a haver culpas, são minhas. Ainda não tinhas percebido? Canta sobre essa música que toca alta. Cuidado, não te distraias, as estradas estão perigosas. Se puderes esquecer o mal que te fiz, tanto melhor. Se não, procura desculpar-me. Estou cansada. Apenas penosamente cansada. Não devia beber tanto, eu sei. Pareces a Vénus de Milo com dois braços. E se a Vénus de Milo é perfeita com um só braço, o que pensas que és tu, com dois, deitado nu na minha cama? Talvez fosse boa ideia ir dormir. Acordada sou um perigo para mim mesma. (...) Já disse que estou cansada? Expliquei que é do meu próprio silêncio?</span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1121546818533116002005-09-05T21:46:00.000+01:002005-09-05T10:15:03.700+01:00da solidão<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/233/6520/640/fetus011.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-TOP: #aaaaaa 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-BOTTOM: #aaaaaa 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/233/6520/320/fetus011.jpg" border="0" /></a></p><div align="justify"><br /><br /><span style="font-size:130%;">Às vezes, quando bebia demais, enroscava-me perdida em não sei que medos. Soltava as acusações mais fantasiosas, alimentava a má memória, deixava-me escorregar para o chão, de garrafa na mão e soltava palavras que entre lágrimas e soluços nenhum sentido faziam.<br />Era quando eu sabia que o Vítor se preocupava comigo. Apagava-me o charro, levantava-me do chão, limpava-me as lágrimas. Abraçava-me. Levava-me para a cama, despia-me, soltava-me o cabelo.<br />Depois deixava-me adormecer num abraço, no seu peito nu, no seu cheiro, na sua pele sempre bronzeada de pirata dos mares revoltos.<br />Quando acordava algumas horas depois, a cabeça a pulsar como cona em final de orgasmo, ali estava ele, sereno, desperto, à minha espera, na cadeira do quarto, cinzeiro no joelho, mais um cigarro a queimar entre os dedos.<br />Levantava-se e estendia-se a meu lado. Sentia um beijo nos meus cabelos e ouvia apenas “Já passou. Já está aí o sol.”<br />Depois eu passava noites e noites sem beber. Em paz.<br />Agora não. Agora não.</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1125304030325489962005-08-29T09:10:00.000+01:002005-08-29T17:34:23.633+01:00das estrias<div align="justify"><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/lone.jpg"><img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center;" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/lone.jpg" border="0" /></a><br /><span style="font-size:130%;"><em>O que é isso de ter estrias no cérebro?</em>, perguntaste tu.</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><em>Sabes como é quando ganhas peso e depois o perdes e se repete o processo sucessivas vezes?</em>, perguntei eu em jeito de resposta.</span></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Não devias preocupar-te com isso. Não as tens em lugar algum, digo-te eu, que conheço cada poro do teu corpo.</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Mas não conheces o meu cérebro. Deixa-me explicar-te: estas estrias são o que fica quando te sentes feliz, depois miserável, depois confias de novo e sorris, e à noite quando adormeces já o mundo desabou de novo sobre ti, e assim sucessivamente.</span></em></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Tu ficaste calado. Que responder?</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">As estrias podem emprestar-nos alguma personalidade, como as cãs ou as rugas, mas também nos desfeiam; impedem o sorriso; impossibilitam os orgasmos de nos libertarem. Sabes que é uma via de dois sentidos possíveis, não sabes? Que podemos libertá-los ou que podem ser eles a libertar-nos. Com as estrias passa a ser via de sentido único.</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Acendeste um cigarro. Um apenas, para ti. Como poderias perceber o enleio de estrias que é o meu cérebro? Eu vi-me no espelho dos meus próprios olhos enquanto tentava vir-me ao som de Smetana.</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Vá-se lá perceber.</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1119391806871367962005-08-22T23:10:00.000+01:002005-08-22T13:26:36.520+01:00da fénix<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/233/6520/640/WillianRopp.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-TOP: #aaaaaa 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-BOTTOM: #aaaaaa 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/233/6520/320/WillianRopp.jpg" border="0" /></a></p><br /><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Dizem que dói parir um filho. Pois sim, acredito que não se trate só de abrir as pernas e dilatar a cona para que passe qualquer coisa de bem grande, isso já eu experimentei e não dói, com algum engenho.<br />Mas dói, com toda a certeza, nascermos de nós mesmos, depois de termos morrido, de alguma forma.<br />Eu sou esta rosa que uma vez murchou. Renasci. Renasci de mim mesma depois de me ter virado do avesso, de ter arrancado a minha pele, de ter arrumado velhas gavetas e armários, de ter pendurado espanta-espíritos no alpendre, saindo de olhos abertos pela minha própria cona, púrpura de tantos embates, que em verdade se diga, sempre me pus a jeito.<br />O mérito não é outro senão este de me armar em fénix que pensa que pode sair a voar pela janela, "<em>que era eu sem a vida, que era a vida sem mim?</em>".<br />É um mérito muito meu este que me permite sorrisos inteiros, orgasmos profundos, abraços verdadeiros.<br />Saio à rua e poucos notam a diferença. A mulher é a mesma, as mesmas botas de saltos altos, o mesmo cabelo negro, o mesmo ritmo no andar. Mas olho-me ao espelho e já são muitos os dias em que gosto de me ver. Vejo-me nua e já não é só rosa-carne o que vejo, é também pele. E dentro da pele sinto-me, já não estou zangada.</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Voltei à casa.</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120729491931148912005-07-25T10:44:00.000+01:002005-07-25T11:45:25.396+01:00do cocktail com o meu nome<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/brinde.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/brinde.jpg" border="0" /></a></p><p></p><p><em><span style="font-size:130%;">(ou do cocktail para noites de verão, porque vão ser muitas e vou estar distante)</span></em></p><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><strong>Ingredientes<br /></strong>1 quilo de morangos agressivamente vermelhos</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">6 pêssegos médios, maduros, macios e carnudos </span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">½ chávena de açúcar ou mel</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">1 garrafa de vinho branco suave ou seco, daquele que nos acompanha nas noites quentes</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">3 garrafas de champagne rosé, bem gelado e nervoso</span></div><div align="justify"> </div><div align="justify"><span style="font-size:130%;"></span></div><div align="justify"></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;"></span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><strong>Modo de preparação<br /></strong>Despir lenta e cuidadosamente os pêssegos. Separar pequenas e bem desenhadas fatias, como se fossem as pernas de uma virgem amada. Deitá-las numa cama de cristal e regá-las com o vinho branco. Deixá-las acalmar no frio durante 2 horas. Arrepiá-las depois com o champagne gelado. Decorar com os morangos inteiros.</span></div><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Beber até saciar os sentidos.</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120642872023579362005-07-22T10:41:00.000+01:002005-07-22T09:32:03.476+01:00dos beijos na boca<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/georg5a.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/georg5a.jpg" border="0" /></a></p><br /><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">E eram tristes os beijos na boca. Davam-se com alma, com saliva, com vontade, com tudo o que neles coubesse. Davam-se esses beijos e neles cabia toda a esperança, toda a crença num futuro fantástico, feliz. Davam-se esses beijos na boca e, quando acabavam, ficava no cheiro das salivas misturadas um travo de tristeza, de profunda tristeza. Depois, por vezes, vezes demais, fazia-se amor. Que nunca era o amor que se procurava. Procuravam-se os sexos, as línguas, os braços, a plenitude. Procurava-se fugir à solidão. Eram tristes os beijos na boca, então. Porque acreditávamos neles e, no fim, no rasto das salivas, só nos ficava a tristeza. Nesses beijos de então não se mediam forças, apenas vontades. Não tinham promessas, nada lhes era exigido, nada era esperado, tudo estava implícito. Eram perfeitos beijos na boca. Perfeitos na sua incomensurável tristeza. Na sua incontornável sentença de beijos efémeros, precários, falíveis. </span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120513542084367462005-07-19T22:39:00.000+01:002005-07-20T09:35:27.286+01:00da memória (1)<br><br /><div align="justify"><a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/18.jpg"><img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/18.jpg" border="0" /></a><br /><em><span style="font-size:130%;">Hoje acordei com o sol a entrar-me pelo quarto, rompendo as fendas dos estores, rasgando as finas cortinas, perfurando-me as pálpebras. Poderá ser um dia bonito. Ou não. E é esta justa divisão de possibilidades que me retrai.</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Espreguiço-me ao longo da minha cama quente de mim. Dormi pouco, como sempre. Não sonhei, há já tanto tempo que não sonho que já nem me lembro da leveza das manhãs após essas viagens.</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Lembro-me das manhãs em que acordava ao lado do Vítor, dos seus olhos ensonados, o seu corpo a cheirar a nós, à nossa cama, ao sexo dos dois. Enroscava-me nos seus braços, nas suas pernas e contava-lhe os meus sonhos.</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Não sei do que sinto mais falta, se dos sonhos e das manhãs seguintes, se do Vítor. Ou se as duas não são a mesma coisa.</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Tenho viajado por ruas, esquinas, camas, corpos, mas a sua ausência apenas se agrava, como se todos os meus dias tivessem por sentido acentuar a falta que me faz.</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">Começou a fazer-me falta quando ainda estava a meu lado, no momento em que decidi que ainda não tinha fodido todos os homens que queria foder, e porque não o conseguiria fazer tendo-o a ele na minha vida. Não por uma questão de princípios, que não tenho muitos, mas porque a sua presença me absorvia.</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">(...) O mal foi ele não tirar os olhos de mim, enquanto eu dançava, e nesse olhar eu ver o desejo dos outros homens, mais do que o seu desejo, Vítor, por mim, Rosa Púrpura, para sempre sua mulher, sua amante, sua puta.</span></em></div><div align="justify"><em><span style="font-size:130%;">À tua infelicidade, Vítor, por teres acedido ao meu pedido de que te fosses embora, eu erguerei todos os meus copos.</span></em></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1121599628820772442005-07-17T12:25:00.000+01:002005-07-17T12:32:26.810+01:00do poeta<a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/1600/woman09.jpg"><img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6672/1234/320/woman09.jpg" border="0" alt="" /></a><br /><div align="justify"><span style="font-size:130%;"><br />Às vezes dizem-me coisas bonitas ("<em>é um pássaro, é uma rosa, é mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, canto na ave, água no mar</em>."), mas eu sei que não é a mim que as dizem. Disse-as o poeta, primeiro, esse mesmo, o poeta que me define. Disseram-nas depois outros homens. Homens que de mim nada sabem além daquilo que quero que saibam. E é tão pouco.<br />Dizia-me uma amiga que a foda é a coisa mais íntima que de nós damos. Fosse eu crente e pediria a deus que a iluminasse no caminho da sabedoria, que tão perdida tem andado. A foda é o subterfúgio, por excelência.<br />Dizia-me outra amiga que são os beijos na boca. Por isso as putas não beijam? Nada de mais errado.<br />São as palavras que calamos aquilo que de mais íntimo temos. Tão íntimo que, por vezes, por pudor ou lá pelo que seja, nem a nós mesmos as contamos.<br />Ficamos presos na coisa orgânica para nos fluidos nos envolvermos. Aí ficamos, quentes em noites de inverno, não desse, do outro inverno.<br />E é o prazer, que sublimamos para lá de tudo o que sabemos, a nossa prova de vida.</span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1119392179736111582005-07-14T23:16:00.000+01:002005-07-13T22:34:11.680+01:00de pólvora<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/233/6520/640/bw20.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-TOP: #aaaaaa 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #aaaaaa 1px solid; BORDER-BOTTOM: #aaaaaa 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/233/6520/320/bw20.jpg" border="0" /></a></p><br /><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Que já não me conhecia, disse-me da última vez que nos encontrámos. Que via em mim todas as mulheres, Lulu, Lolita, Hilda, Nin, Norma, Marguerite, Bibian Norai que seja, bem se perdeu em nomes, melhor ainda se esqueceu de outros, mas que já não via a Rosa, a sua púrpura paixão.<br />Ri-me, obviamente. Mais um shot sem me engasgar, o bâton carmim a contrastar com a minha palidez de pele morena, a conquista recente a marcar o território com a mão quente e suada no meu ombro e o Vítor que não me via.<br />E eu que o via como quem vê o inimigo. E eu sorrindo-lhe enquanto todo o corpo me doía. E eu aceitando não sei de que mão outro copo, despejando mais um shot, mais um tiro de pólvora despejado na garganta funda de tanto ardor, as gotas entornadas no peito, salpicos de uma despedida que começou cedo demais, antes de eu ter aprendido a ser esta rosa com mais espinhos do que aroma.<br />Eu a rodopiar nos braços da nova conquista, zonza, <em>perdida em não sei que sonhos</em>, <em>mad about you, are you the fishy wine that will give me an headache in the morning?</em> Eu, não sei em que braços. Os braços não sei de quem na nuca do Vítor, <em>Vítor, mio marito, mi hombre, o que é um homem?</em></span></div>Énenoreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-13852570.post-1120484198063595742005-07-12T14:36:00.000+01:002005-07-12T10:33:13.166+01:00da ilusão<p align="center"><a href="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/640/bouquet%20especial.jpg"><img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/img/184/4564/320/bouquet%20especial.jpg" border="0" /></a></p><br /><div align="justify"><span style="font-size:130%;">Esta busca desenfreada de uma certa cumplicidade, de confiança, destas coisas a que se convencionou chamar amor e que se procuram nas camas mais indistintas, impessoais e improváveis, mais não é do que a desesperada vontade de termos quem testemunhe a nossa própria vida.<br />Se foder muito e com muitos estarei a iludir-me, certamente, mas quase consigo acreditar nesta mentira que é eu ter estado viva enquanto me vim.</span></div>Énenoreply@blogger.com