tag:blogger.com,1999:blog-126830962008-07-18T15:28:25.987+01:00Bandeira ao VentoJBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comBlogger1754125tag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-77456642838364317002008-05-24T12:31:00.003+01:002008-05-24T12:34:30.994+01:00Da capo al fineAmigos,<br /><br />Este blogue pára aqui. Existem razões, algumas objectivas, outras subjectivas, algumas até irrazoáveis; não importa. Vestirei o roupão que terei de comprar, sentar-me-ei no velho cadeirão de couro que não tenho e fumarei o meu cachimbo invisível, pensando em como a vida é uma coisa engraçada, etc.<br /><br />Sentirei saudades. As caixas de comentários estão fechadas, mas conhecem o meu endereço de e-mail. Sei que voltarei a escrever algures, apenas não sei onde ou quando; até lá, um abraço.<br /><br />BandeiraJBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-67226990215015675852008-05-23T11:11:00.008+01:002008-05-23T22:37:36.915+01:00O Don Giovanni da MadragoaEm finais do século XVIII, o bairro da Madragoa conheceu um grande filósofo.<br /><br />A sua filosofia era: «Levar a mulher de um imbecil ao adultério não é pecado, mas justiça!», e andava por aí conquistando as mulheres de pobres e ricos, conhecidos e desconhecidos, sem fazer distinção, porque «todos os maridos são, por definição, imbecis». Os vizinhos sabiam que ele havia desonrado mais uma dama quando, de madrugada, o ouviam tocar Mozart no seu piano; não demorou muito antes que o dissessem «o Don Giovanni da Madragoa».<br /><br />Um dia, por vaidade, aceitou um discípulo. Era tudo o que a sua mulher esperava para fazer justiça.<br /><br />Don Giovanni da Madragoa entrou no seu quarto, viu Elvira no tálamo com o discípulo e, completamente fora de si, juntou-se a eles.<br /><br />Don Giovanni da Madragoa está no Inferno; o discípulo tornou-se existencialista.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-68311108153683856062008-05-22T11:32:00.023+01:002008-05-28T12:51:25.323+01:00Dia Santo<div class="Section1"><p class="MsoNormal"><span style="font-family:georgia;">Gosto dos feriados porque as outras pessoas não trabalham e eu posso alimentar pequenos diálogos engraçados como:<br /><br /></span><span style="font-family:georgia;"><em>«Prainha?»<br /></em></span><span style="font-family:georgia;"><em>«Julgas que eu tenho a tua vida? Para mim não há feriados, eu trabalho 365 dias por ano.»<br /></em></span><span style="font-family:georgia;"><em>«Bom, ent...»<br /></em></span><span style="font-family:georgia;"><em>«Mas ok, vamos lá.»<br /></em><br /></span><span style="font-family:georgia;">Claro, hoje não resultaria porque o tempo está bom é para escrever postes. Mesmo sem prainha, porém, devemos agradecer ao senhor José Feriado aquele momento glorioso em que, no seu gabinete de trabalho assírio, atirou o estilete ao chão e mandou os empregados para a praia fluvial gozar o sol, inventando assim o dia que ainda hoje traz o seu nome.<br /><br />Leio numa revista que foi descoberto um sistema solar semelhante ao nosso. Planetas como os nossos. Um sol como o nosso. Provavelmente até um deus único como o nosso, o que provaria definitivamente a minha teoria de que o Universo é assim uma espécie de espelho e que apenas por isso nos parece tão grande (um truque que os decoradores conhecem muito bem). Mas adiante, que nos dias feriados toda a especulação metafísica está sujeita a multa.<br /><br />A morte de uma lacuna: atirei-me finalmente a <i><span style="FONT-STYLE: italic">O Castelo</span></i>, de Kafka, mas pu-lo de lado antes de acabar (hahaha percebeu?). Há algo de heróico em ler um livro sabendo que não o vamos terminar jamais. Ainda que Kafka não houvesse optado por morrer entretanto, parece que já tinha decidido deixar o livro em suspensão perpétua, como a harmonia em <i><span style="FONT-STYLE: italic">Tristão e Isolda</span></i> ou as obras do palácio da Ajuda. Sonharei amiúde com os destinos de K. e Frieda nas minhas poucas horas de sónia, quero dizer, de não-insónia.<br /><br />Já o <i><span style="FONT-STYLE: italic">Exit Ghost</span></i>, do Philip Roth, li-o até ao fim. Depois de hérnias, apendicites, artérias entupidas e outras maleitas graves que não quero aqui recordar para não arruinar o meu gaio estado de espírito matinal, o herói, Nathan Zuckerman, sofre agora de incontinência e impotência resultantes de uma prostatectomia, para além de falhas de memória que varrem por completo episódios inteiros da sua existência – ah, a não ser que isso não passe de um truque do manipulador Kliman para conseguir aquilo que pretende. Tudo somado, <i><span style="FONT-STYLE: italic">Exit Ghost </span></i>não é das coisas mais sólidas que se pode ler de Roth (escrevi essa frase apenas porque achei que daria uma certa dignidade crítica ao poste, mas não faço ideia se é verdade ou não).<br /><br /></span><span style="font-family:georgia;">De cada vez que se me põe a (muito recorrente) questão de ter que comprar mais estantes, apetece-me vender a livralhada toda a um alfarrabista ou oferecê-la à biblioteca de uma aldeia remota com sessenta habitantes idosos – os jovens não saberiam apreciar <em>Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos</em>, do Giordano Bruno, ou <em>A Visão de Deus</em>, do Nicolau de Cusa. Conservaria, é claro, os livros de consulta, como as obras completas do Marquês de Sade. Eu nunca quis ter móveis, sofás, frigoríficos, essas coisas que nos prendem a uma casa, a casa a uma rua, a rua a uma cidade; e a dada altura, convenhamos, os livros tornam-se mobília.<br /><br /></span><span style="font-family:georgia;">Mas trava-me sempre a mesma incerteza: se me desfizer da minha biblioteca, como saberei que livros li?</span></p></div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-64956422152116736952008-05-22T11:31:00.002+01:002008-05-22T11:40:49.318+01:00Famílias funcionais<div class="Section1"><p class="MsoNormal"><span style="font-family:georgia;">A propósito de Jung: o seu avô materno era um teólogo e um visionário que apreciava uma boa conversa com os mortos, embora não se saiba ao certo de que falavam. Ele dedicou a sua vida ao estudo do hebraico, convencido que essa era a língua falada no Céu, e quando redigia sermões colocava a filha (futura mãe de Jung) atrás do seu cadeirão. A missão da menina: não permitir que o diabo espreitasse por cima do ombro do pai.</span><span style="font-family:Arial;"><span style="font-family:Arial;"><?xml:namespace prefix = o /><o:p></o:p></span></span></p></div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-10517473631341884642008-05-20T15:28:00.004+01:002008-05-20T15:35:13.200+01:00Consequências<div class="Section1"><p class="MsoNormal" style="MARGIN-BOTTOM: 12pt"><span style="font-family:georgia;">Numa viagem que empreendem juntos aos Estados Unidos, Jung relata ao seu ainda mentor e analista, Sigmund Freud, um sonho recente:<br /><br /></span><i><span style="FONT-STYLE: italic"><span style="font-family:georgia;">«Encontrava-me no segundo e último andar de uma casa que não conhecia, deleitando-me com o mobiliário Rococó e os magníficos quadros que pendiam das paredes. Pensava: “Nada mau, nada mau, que excelente casa é a minha”. Desci ao piso térreo para o apreciar também, mas tudo aqui, incluindo a mobília, tinha um ar medieval e as salas estavam imersas em penumbra<?xml:namespace prefix = st1 /><st1:personname productid="em penumbra. Numa" st="on">. Numa</st1:personname> delas, descobri uma pesada porta que dava acesso a uma escadaria <st1:personname productid="em pedra. Por" st="on">em pedra. Por</st1:personname> ali me aventurei para atingir uma adega abobadada, que identifiquei, não sem um frémito de excitação, como sendo uma construção do período romano. Por fim, um alçapão deu-me acesso a outra escadaria, esta mais estreita, escavada na pedra e desembocando numa cave esconsa. Sob uma espessa camada de pó, vi com um estremecimento o que me pareceu serem ossadas humanas misturadas com restos de artefactos originários de alguma cultura primitiva; e, entre aquelas, dois crânios quase desintegrados, datando certamente dos primórdios da Humanidade. Foi nesse momento que acordei.»<?xml:namespace prefix = o /><o:p></o:p></span></span></i></p><p class="MsoNormal"><span style="font-family:georgia;"><o:p></o:p></span></p><p class="MsoNormal"><span style="font-family:georgia;">Jung quer ver na casa uma representação da sua própria psique, assim como a confirmação da existência de um inconsciente colectivo povoado por arquétipos; mas não o diz a Freud que, um pouco nervoso, insiste em perguntar-lhe <i><span style="FONT-STYLE: italic">a quem </span></i>pertencem os crânios.<br /><br /></span><span style="font-family:georgia;">É agora claro que os dois homens suspeitam um do outro.<br /><br /></span><span style="font-family:georgia;">Jung aproveita o facto de estar ainda de costas para o seu interlocutor para mentir descaradamente: «Julgo que os crânios pertencem à minha mulher e à minha cunhada». O professor de Viena recosta-se no cadeirão e permite que os músculos relaxem, satisfeito por o desejo de morte do colega e discípulo não ser dirigido contra si.<br /><br /></span><span style="font-family:georgia;">Alguns dias mais tarde, Freud sonhará tranquilamente que retira uma pequena pistola de um bolsinho do colete e dispara à queima-roupa contra as costas de Carl Gustav Jung; nesse preciso instante, a mulher e a cunhada do psiquiatra suíço acordarão em sobressalto com um terrível peso no peito.<br /><br />Estes acontecimentos terão consequências nas psiques de todos nós.<br /></span></p></div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-29344734380000046662008-05-20T14:48:00.001+01:002008-05-20T14:55:20.387+01:00Pessoa no Parque<div class="Section1"><p class="MsoNormal"><span style="font-family:georgia;">O céu estava enevoado como uma eleição no Zimbabwe e eu decidi apanhar o metro. Nunca tinha entrado nessa bela e algo misteriosa estação do Parque. Nos trajectos pedonais há citações de filósofos e poetas; vi-as de Heraclito, Nietzsche, Pessoa. Acredito que a maioria dos passageiros seja indiferente a Heraclito ou Nietzsche (que importa se tudo flui ou se Deus morreu?). Já Pessoa, claro, toda a gente o conhece. Ainda que assim não fosse, a citação que li – «Dói-me a cabeça e o Universo» – resume muito bem o homem.</span></p></div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-2792353760781229332008-05-20T14:43:00.002+01:002008-05-20T14:51:01.027+01:00Mundanidades<div class="Section1"><p class="MsoNormal"><span style="font-family:georgia;">É uma coisa boa que o meu dentista tenha jazz a tocar no seu gabinete: sempre contraria a ansiedade causada pelo programa da manhã no televisor da salinha de espera. Eu não lhe disse isso, é claro. A verdade é uma jóia valiosa que não devemos arriscar usar em ocasiões mundanas.<?xml:namespace prefix = o /><o:p></o:p></span></p></div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-49878044675011524262008-05-16T09:54:00.002+01:002008-05-16T09:58:36.966+01:00Realidade é<div class="Section1"><p class="MsoNormal"><span style="font-family:georgia;">O elenco de <i><span style="FONT-STYLE: italic">Feios, Porcos e Maus</span></i> num drama psicológico de Woody Allen.<?xml:namespace prefix = o /><o:p></o:p></span></p></div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-66895896825994259752008-05-16T00:06:00.005+01:002008-05-16T00:25:28.516+01:00O MandarimLi algures: a angústia de ter que actualizar os blogues está a fazer disparar o número de ataques cardíacos nos EUA.<br />Já imaginou? Eu com uns pós de ansiedade porque estou há dois ou três dias sem postar, e pum – um sujeito que não conheço de lado nenhum cai duro na 5ª Avenida.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-49052400391957068172008-05-15T23:42:00.003+01:002008-05-15T23:45:14.904+01:00Bandeira de papel<a href="http://bp1.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SCy8sJHPjKI/AAAAAAAABhQ/tKMQbTmtf-8/s1600-h/cf080408.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5200739136252644514" src="http://bp1.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SCy8sJHPjKI/AAAAAAAABhQ/tKMQbTmtf-8/s1600/cf080408.jpg" border="0" /></a><br /><div><em><span style="font-size:85%;">Cravo &amp; Ferradura, DN, 8.4.2008</span></em></div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-67752303754656708332008-05-12T17:51:00.009+01:002008-05-13T13:01:42.654+01:00As Vidas dos Filósofos: Diógenes de SinopeObservando, certo dia, um menino que bebia água das mãos em concha, o filósofo cínico Diógenes envergonhou-se de possuir uma tigela quando comprovadamente ela não era necessária; desfez-se do objecto e passou a beber água apenas quando havia crianças por perto. Conta-se que Diógenes percorria as ruas da cidade de Atenas em pleno dia com uma lanterna acesa na mão e, quando questionado sobre a razão por que o fazia, afirmava: «Procuro um homem honesto, ou três que saibam jogar à Sueca». Alexandre o Grande, que garantia querer ser Diógenes se não pudesse ser Alexandre, deslocou-se um dia ao barril que o filósofo habitava e perguntou-lhe o que podia fazer por ele. Diógenes respondeu que seria supimpa se parasse de lhe tapar o sol com as peneiras, após o que o grande conquistador lhe ofereceu um corte de barba grátis. Conta-se ainda que, quando em viagem para Egina, Diógenes foi capturado por piratas e vendido como escravo. Interrogado sobre as suas aptidões laborais, respondeu que apenas conhecia o ofício de mandar e sugeriu que o vendessem a alguém que estivesse precisado de um senhor. Foi libertado por inadaptação, uma decisão que não deixaria de fazer jurisprudência. Da morte de Diógenes chegaram-nos quatro relatos, qual deles o mais verosímil: a) sofreu uma congestão por comer polvo cru; b) não resistiu à infecção de uma ferida provocada pela mordida de um cão; c) susteve a respiração; e d) nenhum dos anteriores.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-76836508511305573532008-05-12T15:24:00.009+01:002008-05-12T17:37:00.688+01:00Da FelicidadeEstive quase dois dias sem sentidos, recuperando do livrinho de Sartre. A alternativa era o suicídio, mas, como argumentou Cioran quando lhe perguntaram por que razão insistia em viver se isso o fazia tão miserável, «não existem garantias de que depois de morto as coisas melhorem». Se não melhorassem, já pensou? Continuaria a sentir-se miserável, mas com muito pior aspecto. Além disso, e ao contrário do que a maioria parece acreditar, a pessoa feliz não é aquela que permanece num estado de patética euforia, mas a que sabe apreciar uma boa tristeza.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-49326206062046954622008-05-12T15:21:00.001+01:002008-05-12T15:23:48.229+01:00Great Expectations«Pai, preciso de alguma coisa para guardar as minhas poesias.»<br />«Ok. Tipo o quê? Uma capa?<br />«Não, uma capa, não. Um baú. Como o do Pessoa.»JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-5083054103108035812008-05-10T20:07:00.003+01:002008-05-10T20:22:40.114+01:00Decerto, Hegel colocou a questão do ser das consciências<a href="http://bp3.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SCX1Wiwq4rI/AAAAAAAABhI/Fdb5HCPDvys/s1600-h/JB_Letreetleneant.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5198831112505975474" src="http://bp3.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SCX1Wiwq4rI/AAAAAAAABhI/Fdb5HCPDvys/s1600/JB_Letreetleneant.jpg" border="0" /></a>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-9535144433849211652008-05-08T11:47:00.011+01:002008-05-08T19:36:33.636+01:00O Cão no AlpendreSeverino chegou a casa após um dia de trabalho particularmente cansativo e encontrou o cão à espera, no alpendre, com um par de pantufas na boca. Achou isso estranho, até porque não tinha cão. Entrou na pequena vivenda e indagou em voz alta de quem seria o bicho engraçado que o aguardara à entrada. A mulher perguntou-lhe a partir da cozinha como podia não se lembrar que era deles. Ele estranhou a pergunta, até porque não se recordava de ser casado. Subiu ao quarto, tirou a roupa, pousou-a em cima da cama e entrou na casa de banho. Estranhou o duche, até porque não se lembrava de ter cortinas com estampados de meandros gregos. Acabara de abrir a torneira quando ouviu as vozes agitadas de um homem que entrava no quarto e da mulher que o seguia. O homem abriu a porta da casa de banho, soltou um «AHÁ! EU SABIA!» e desferiu seis tiros contra a sombra para lá da cortina. Ouviu-se um tombo. Severino olhou o sangue misturando-se com a água e ponderou os recentes acontecimentos. Concluiu que só podia ter entrado inadvertidamente na casa dos vizinhos – e riu-se da distracção. Mas deitado a seu lado, ganindo e lambendo-lhe a mão, estava o cão que o esperara no alpendre com um par de pantufas na boca.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-34755839761575744672008-05-07T21:42:00.024+01:002008-05-07T23:41:59.733+01:00Ofélia MetafísicaTodos os dias, de manhã muito cedo e ao anoitecer, Ofélia sentava-se à janela para ouvir os pássaros que por aquelas horas sempre cantavam na rua; e sentia que a existência não era vã, que o universo não era um local frio e desolador, que a vida valia a pena ser vivida.<br /><br />Mas o dia chegou em que, por falta de verba, os pássaros foram despedidos. Sem hora para entrar nem sair, eles começaram a vagabundear pelo bairro, sujando as roupas nos estendais e pipilando noite e dia sem parar.<br /><br />Ofélia não soube mais o que pensar da existência, do universo e da vida.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-21243622437508134152008-05-07T00:01:00.002+01:002008-05-07T00:01:49.389+01:00Bandeira de papel<a href="http://bp1.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SCDi2eZC5fI/AAAAAAAABgA/w_EY9US6bdU/s1600-h/bc_07.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5197403395484476914" src="http://bp1.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SCDi2eZC5fI/AAAAAAAABgA/w_EY9US6bdU/s1600/bc_07.jpg" border="0" /></a><br /><div></div><span style="font-size:85%;"><em>Bandeira de Canto, JN, 2007</em></span>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-9001474683552801682008-05-06T14:38:00.006+01:002008-05-06T14:50:14.968+01:00EpifaniaHoje, ao fazer a barba, tive uma epifania: a minha barriga quase não se nota em jejum. Então decidi que a partir de amanhã não comeria mais. A minha filha, com quem almocei, reconheceu os aspectos positivos da ideia (mostrei-lhe a barriguinha antes e depois de almoçar), mas achou que eu ia ficar demasiado fraco para usufruir dos benefícios. Pensámos um pouco e determinámos que eu passaria a sair com mulheres apenas da parte da manhã.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-67818949851712764912008-05-05T22:31:00.008+01:002008-05-06T00:11:27.539+01:00Oh, okOh, ok, a verdade é que estive a ler Cioran. Tenho as obras completas, que vou consumindo aos pedacinhos porque ele deixa-me sempre à beira do suicídio.<br />É certo que nunca cheguei a vias de facto, mas isso é porque os bombeiros não autorizam. Dizem que não tenho condições de segurança.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-88256219419348332422008-05-05T19:42:00.001+01:002008-05-05T19:42:30.338+01:00PerguntaEu queria muito escrever um poste com graça ainda hoje, mas está difícil. Posso escrever dois sem graça?JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-53517290765825157012008-05-04T22:54:00.003+01:002008-05-04T22:56:46.772+01:00Bandeira de papel<a href="http://bp2.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SB4w3OZC5dI/AAAAAAAABfw/LHrcIdNPF-E/s1600-h/cf_07_set_nov.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5196644745346213330" src="http://bp2.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SB4w3OZC5dI/AAAAAAAABfw/LHrcIdNPF-E/s1600/cf_07_set_nov.jpg" border="0" /></a><br /><div><span style="font-size:85%;"><em>Cravo &amp; Ferradura, DN, Setembro-Novembro 2007</em></span></div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-22199374843772783572008-05-04T14:37:00.040+01:002008-05-04T22:16:04.436+01:00Retrato do Artista enquanto Jovem Indolente<a href="http://bp0.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SB2_N-ZC5cI/AAAAAAAABfo/BXOu9WY7HVQ/s1600-h/JB_cec.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5196519791862670786" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SB2_N-ZC5cI/AAAAAAAABfo/BXOu9WY7HVQ/s400/JB_cec.jpg" border="0" /></a> <div>O dia de ontem começou ao som de trombetas marciais e rufar de tambores. Eu espiei a rua através da janela, decidido a defender bravamente o castelo ou perder o sono tentando, mas soube que apenas me restava a capitulação quando percebi que os bombeiros tinham capturado as crianças do povoado.<br /><br />Passei o corpinho por água fria (ahahah mentira, era quente, mas achei que escrever isso me daria um ar destemido) e dirigi-me ao baú do e-mail atrasado. Ainda respondi a umas estudantes universitárias que querem fazer o meu «perfil» – podem talvez começar por dizer que eu respondo aos e-mails num ritmo, eeeh, pausado – e a mais duas ou três missivas electrónicas que tratavam de questões imperiosamente inadiáveis desde o ano passado. Foi então que senti uma vontade irreprimível de descobrir o caminho marítimo para o Quebeque, passando pelo café e pela banca dos jornais, e determinei continuar o trabalho epistolar mais tarde nesse dia. Não aconteceu. Talvez hoje, mas estou com tanto que fazer, tanto que fazer.<br /><br />Uma amiga que sabe como eu sou relapso com a correspondência enviou-me um e-mail contendo apenas um ponto de interrogação. Bolas, como ela é esperta.<br /><br />Os canadianos em geral, e em particular os do Quebeque, não sabem falar francês.<br /><br />O uísque canadiano (argh) grafa-se <em>«whiskey»</em>, como aliás o americano e o irlandês. Até agora, só o uísque escocês gozava do privilégio de ser escrito sem o <em>e</em>, assim:<em> «whisky»</em>. Digo até agora, porque um uísque japonês foi há dias considerado o melhor do mundo, e <em>eles</em> já admitiram que o copiaram descaradamente dos escoceses no início do século passado.<br /></div><div><br />A principal diferença entre os uísques escocês e irlandês: o escocês fuma durante o processo de destilação.</div><div><br />Acho que foi o iluminado do Pascal quem primeiro disse que o coração tem razões que a razão desconhece, o que não deixa de ser extraordinário vindo de alguém com nome de linguagem de programação.<br /></div><div><br />Agora perdi-me.<br /><br />Ah! Sim.</div><div><br />Com todas as vaquinhas, ovelhas, flores, formigas, cobras repelentes e natureza em geral à sua espera lá fora para o atacar, o meu filho mais novo estava há quase dois dias deitado no chão a ver TV. O livro de citações edificantes não produziu qualquer efeito, nem mesmo quando o atingiu na cabeça; restava-me partir para a violência. Inspirando-se num episódio do Dr. House (que para azar dele eu também vi), ele diz agora que não se pode pôr de pé porque tem «um rim pendurado» por causa das cócegas que lhe fiz.<br /><br />Escudado nas diferenças ontológicas entre televisor e monitor de PC, pôs-se a jogar SIMS. Tinha pedido um bolo numa esplanada virtual, mas uma mulher que ele diz não saber quem seja levou-lhe a guloseima e sentou-se noutra mesa a comê-la. Ante a indignação do rapaz, tive que lhe explicar que é isso que elas fazem – roubam-nos bolos nas esplanadas. É certo que raras vezes os roubam <em>inteiros</em>. Ele apanhou uma das tesas.<br /><br />Contra o meu conselho, o rapazito está neste momento a tentar roubar o bolo de volta. Vai ser um massacre, mas pode ser que ele tire algum ensinamento disso.</div>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-27904544449034172922008-05-03T01:24:00.018+01:002008-05-03T19:33:17.201+01:00Segismundo e Bradamundo<a href="http://bp0.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SBxSPOZC5bI/AAAAAAAABfg/5WN2P3bkvpM/s1600-h/jb_segismundo.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5196118491593369010" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp0.blogger.com/_oNvVhfKndp8/SBxSPOZC5bI/AAAAAAAABfg/5WN2P3bkvpM/s400/jb_segismundo.jpg" border="0" /></a><span lang="PT"><span style="font-family:georgia;">Séculos antes de Gladstone e Disraeli sonharem com prazer que enfiavam as cabeças duras um do outro em taças de ponche, o cavaleiro liberal Segismundo e o cavaleiro conservador Bradamundo, seus mentores, pelejaram pela coroa de um pequeno reino muito próspero.<br /><br />Segismundo parecia haver ganho terreno quando lançou a ideia, aliás mais tarde retomada por Gladstone, de que o liberalismo supõe confiança nas pessoas temperada com prudência, ao passo que o conservadorismo se alimenta de desconfiança nas pessoas temperada com medo.<br /><br />Em tal ouvindo, Bradamundo atemorizou-se e cortou a cabeça ao adversário, o qual se calou.<br /><br />Os juízes da lide não precisaram de muito tempo para declarar o golpe ilegal, e os habitantes do reino, que acima de tudo eram justos, antes quiseram coroar a cabeça sem vida do pretendente caído que oferecer o trono a um destemperado.<br /><br /></span></span><span lang="PT"><span style="font-family:georgia;">Na era vitoriana, o pequeno reino prosperava ainda; e os seus habitantes, dizia-se, continuavam justos. Quando algum forasteiro lhes perguntava se estavam satisfeitos com o seu rei, diziam: <i><span style="FONT-STYLE: italic">Segismundo, o Liberal? Não reina nem bem, nem mal. </span></i></span></span>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-24317364758119995402008-05-02T09:14:00.004+01:002008-05-02T11:21:34.905+01:00No simulacro de Juízo FinalNo simulacro de Juízo Final todo o mundo ria e galhofava, e os condenados aos infernos soltavam ais insinceros e faziam um grande esforço para parecerem chateados.JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.comtag:blogger.com,1999:blog-12683096.post-38741007654642073622008-05-01T12:15:00.007+01:002008-05-02T01:24:46.667+01:00RodriguesHoje estou sem tempo, mas não faz mal porque eu também não saberia o que dizer <a href="http://rodriguesnanet.blogspot.com/">deste blogue</a>.<br /><br />-----<br /><em><span style="font-size:85%;">Se eu usasse etiquetas: Bebés, Buxtehude, gatos, maternidade, Nikon, sem palavras</span></em>JBhttp://www.blogger.com/profile/15599982002929218366noreply@blogger.com