tag:blogger.com,1999:blog-11860470.post-1156715600352234852006-08-27T14:05:00.000-07:002006-08-27T14:53:21.103-07:00Amália<a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/2683/979/1600/1542.jpg"><img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2683/979/320/1542.jpg" border="0" alt="" /></a><br /><br />Nunca me senti satisfeito depois de escrever um conto e até hoje, não sabia bem por que. Agora, lendo um livro do Tonino Benacquista, um francês de origem italiana, acho que começo a descobrir porque sempre me senti tão frustrado com minhas historietas. Não é difícil explicar, mas antes preciso falar do livro...<br /><br />Saga, se chama... a história de quatro cenaristas, em fim patético ou início tardio de carreira, que são convocados para escrever uma novela, Saga, que será transmitida às quatro da manhã. Saga tem um único objetivo: obedecer às leis francesas que impõem um mínimo de produção local a uma grade cheia de seriados americanos. Custo, ou melhor, baixíssimo custo, é o único limite imposto pelo produtor.<br /><br />No livro se misturam as sagas dos quatro cenaristas e da dezena de personagens criados com total liberdade, sem os menores pudores de coerência. Logo, os quatro se dão conta do poder que têm, mexendo com a vida de cada criatura, mais a torto que a direito. Nesse momento, me caiu a ficha.<br /><br />Conscientemente, nunca me senti capaz de jogar com a vida de alguém, ainda que esse alguém não exista que numa folha de rascunho ou no disco duro de um computador. Poder criar, digamos, uma Amália. Preciosa. Cabelos escuros que absorvem toda a luz que há em volta, apenas para fazer contraste com uns olhos-pequenas-estrelas-fugazes que gelam a alma. Posso jogar com Amália, posso fazê-la sofrer ou ser feliz. Posso por em sua boca a mais pura filosofia extraída de umas duas ou três consultas ao google. E as frases podem sair na língua que quiser, em alemão, em francês, em russo... e sua voz pode carregar um leve sotaque italiano, brasileiro, espanhol, digamos espanhol. Posso matá-la e, por que não ressucitá-la ? Com alguma desculpa esfarrapada, justificada apenas na minha total liberdade de autor, ou melhor, sem desculpa alguma, apenas porque a queria ainda aí.<br /><br />Crio, claro, um outro qualquer, por quem Amália se sentirá perdidamente atraída. O chamarei de Alys, que não tenho mais idade de estar aí, publicando bobagens na Internet e ainda por cima ter a pouca vergonha de tentar esconder minhas intromissões auto-biográficas. Alys, pode nem conhecer Amália. Ou pode desprezá-la. Ou pode entrar em uma paixão insana, incondicionalmente correspondida. Mais que isso, os dois podem ir onde quiserem, ou melhor, onde eu quiser. Entrar em um metrô em Montreal e desembarcar em Sidney, trocando carinhos em cada parada, enquanto não observam irem desfilando pelas portas norte-americanos, europeus, africanos e finalmente dois ou três casais de australianos que indicam que o trem chegou ao destino. E ainda aí, posso decidir seguir viagem até Tóquio, ou simplesmente, sem a menor explicação, colocá-los em uma cama flutuante de uma estação espacial qualquer. Ou abduzidos por seres amarelos ou vermelhos que tomam notas enquanto eles fazem amor. Tudo pode durar dois minutos ou dois séculos, segundo e unicamente segundo a minha vontade.<br /><br />Mas tudo acaba um momento após eu acabar de escrever... E vejo Amália aí, estatuada em algum canto do papel, sem sentimentos porque, ao contrário da canção, Amália não era mulher de verdade. E o Alys daqui, sem coragem de abandonar a Amália de lá (quem sabe por sofrer pela Amália daqui, que ainda não tinha entrado na narração), decide apenas deixar essa história boba de lado.A.http://www.blogger.com/profile/06190349991342117195noreply@blogger.com